Segundo dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (WHO), estima-se que aproximadamente 50 milhões de pessoas sofram no mundo de epilepsia, uma doença que consiste uma série recorrente de convulsões provocadas por descargas elétricas no cérebro. Destas pessoas, pelo menos 75% têm ataques freqüentes, sendo que a imensa maioria não recebe qualquer tratamento. Porém, mesmo aqueles que controlam as convulsões com medicamentos anti-epilépticos sofrem quando seus organismos desenvolvem resistência aos efeitos dessas drogas.

O Yoga pode ser de muita valia na prevenção e no auxílio ao tratamento desta moléstia. A prática das posturas é eficiente, não apenas no sentido de prevenção, mas no de atenuar os sintomas uma vez que a doença já estiver instalada. Através de uma prática breve, de āsanas simples e suaves, de 15 a 30 minutos diários, associados à prática de relaxamento, prāṇāyāma (respiratórios) e meditação, podem ser verificados excelentes resultados.

A epilepsia é uma das doenças que tem registros mais antigos na literatura humana. Antigos tratados indianos de medicina ayurvêdica, como a Cāraka Saṁhitā, descrevem quatro tipos diferentes de convulsões. Desde tempos imemoriais, o Yoga e o Ayurveda têm trabalhado juntos. Enquanto que o Āyurveda busca o restabelecimento da saúde física, o Yoga concentra-se mais no equilíbrio vital, emocional e mental.

Na linguagem do Āyurveda, a epilepsia é chamada apasmāra, que em sânscrito significa perda da consciência. Desde o ponto de vista deste sistema de saúde, as convulsões são resultado de diferentes tipos de desequilíbrios nos sistemas orgânicos. O Yoga tem, dentre outros objetivos, o restabelecimento desse equilíbrio no nível sutil, para que ele possa manifestar-se no nível orgânico.

Em 1996, o Jornal Indiano de Pesquisa Médica (Indian Journal of Medical Research) publicou os resultados de um estudo dos efeitos da prática de Sahaja Yoga sobre epilépticos. Muito embora o estudo não tenha sido suficientemente abrangente como para ser considerado conclusivo, seus resultados foram tão surpreendentes que chamaram a atenção de pesquisadores médicos do mundo inteiro. Dos membros do estudo, um grupo de praticantes experienciou uma diminuição de 86% na freqüência das convulsões.

Outros estudos mostraram que nove de cada dez casos de epilépticos tratados com Yoga tiveram uma redução de pelo menos 50% na freqüência das convulsões, e que houve mais de 50% de redução na duração dos ataques depois de seis meses de prática diária.

A prática aqui sugerida possui quatro partes:

1) āsana (posturas físicas),

2) prāṇāyāma (exercícios respiratórios),

3) yoganidrā (relaxamento), e

4) meditação.

 

Algumas recomendações antes de começar.

  • Encontre um lugar tranqüilo e escolha um momento em que você não seja interrompido.
  • Pratique longe das refeições, com o estômago e os intestinos vazios.
  • Respire pelas narinas, tranqüila e pausadamente.
  • Seja suave e cuidadoso, evite sentir dor ao praticar.
  • Repita a prática pelo menos quatro vezes por semana. 

 

1) Āsanas

A prática das posturas é de imensa ajuda no restabelecimento do equilíbrio e do metabolísmo orgânico: há uma visível melhora do tônus muscular, da circulação sangüínea, da respiração e da concentração. Todos esses fatores ajudam a diminuir as chances de ataques convulsivos. Esta série é muito simples e pode ser feita por qualquer pessoa, independentemente de idade ou estado físico. No entanto, dependendo da condição individual do praticante, ela pode ser apenas o ponto de partida para práticas bem mais exigentes e longas, que podem multiplicar seus efeitos benéficos.

Āsana 1. Sentado ou em pé, faça uma rotação do pescoço. Incline a cabeça para frente e sustente-a nessa posição por três segundos. Eleve o ombro direito enquanto inclina a cabeça nessa direção. Quando o ombro chegar perto da orelha e a orelha do ombro, páre por mais três segundos. Relaxe e abaixe o ombro, e continue o movimento de rotação da cabeça, até olhar para cima e para trás. Páre por três segundos nessa posição. Depois, páre igualmente sobre o ombro esquerdo e continue, completando o movimento circular. Repita tudo no sentido contrário. Faça isso três vezes em cada direção.

Āsana 2. Esta é uma série de três movimentos da cabeça.
Parte I. Diga "não", movimentando a cabeça alternadamente para a direita e para a esquerda, cinco vezes em cada direção.
Parte II. Diga "mais ou menos", inclinando a cabeça lateralmente, para a direita e para a esquerda, cinco vezes em cada direção.
Parte III. Diga "sim", elevando a cabeça ao inspirar, e inclinando-a ao espirar, cinco vezes em cada direção.
Estes três movimentos relaxam tensões na região dos ombros e o pescoço.

Āsana 3. Oscilação pélvica. Deitando de costas, apoie os pés no chão e eleve os joelhos, mantendo-os juntos. Deixe as mãos voltadas para baixo. Contraia e eleve o assoalho pélvico, recolha com firmeza o baixo ventre e o abdômen e, inspirando, pressione com firmeza a região lombar no chão. Retenha a respiração por alguns segundos. Ao expirar, relaxe. Repita este movimento, contraindo a musculatura abdominal e os glúteos ao inspirar e descontraindo ao expirar. Este exercício elimina tensões na região lombar ao mesmo tempo em que tonifica a musculatura da parte baixa do tronco.

Āsana 4. Expansão do tórax. Esta é uma variação do uttanāsana. Em pé, mantendo os pés afastados na distância dos quadris, entrelace os dedos atrás das costas inspirando. Expire lentamente e incline o tronco para a frente, elevando os braços por cima dos ombros e aproximando as escápulas entre si. Se for preciso, mantenha as pernas um pouco flexionadas. Esta postura relaxa e tonifica as articulações dos ombros, a musculatura superior das costas e a coluna vertebral. Da mesma forma, estimula a circulação sangüínea no tronco, o que permite que o sangue arterial tonifique e alimente a parte superior do corpo.

 

2) Prāṇāyāma

Um ataque epiléptico reflete-se de maneira drástica na respiração. Acontecem retenções forçadas, como se a pessoa estivesse com muito medo. Isso provoca mudanças no metabolismo, no fluxo sangüíneo e no nível de oxigênio no cérebro. A prática do exercício de respiração diafragmática descrita abaixo ajuda a normalizar a respiração durante uma crise, bem como reduz a possibilidade de surgir uma nova.

Prāṇāyāma I: respiração abdominal

Inicie sentando numa posição firme e agradável, com as costas bem eretas. A respiração abdominal acontece na parte baixa dos pulmões. Permite um maior fluxo de ar e exige o mínimo de esforço fisiológico. Equivale a aproximadamente 60 % do volume total de ar que pode ser assimilado em uma inalação. Fazemos esta respiração diafragmática durante o sono, em estados de descanso, relaxamento ou meditação. Psicologicamente, corresponde a estados de harmonia, paz, realização pessoal, expansão do ser.

Sentando numa posição confortável, coloque as palmas das mãos no abdômen para perceber o movimento do diafragma. Respirando pelas narinas, esvazie completamente os pulmões, contraindo o ventre. Deixe-o agora entrar devagar, soltando e expandindo naturalmente a musculatura do baixo ventre e depois a parede abdominal, conforme for enchendo a parte baixa dos pulmões. Não retenha.

Ao expirar, recolha os músculos abdominais. Continue respirando assim, relaxando o abdômen ao inspirar e contraindo-o levemente ao exalar, durante sete minutos. Esta é a forma ideal de fazê-lo no dia a dia, sendo aquela que surge espontaneamente ao dormir.

Prāṇāyāma II: respiração alternada (nāḍīśodhana)

Inicie sentando numa posição firme e agradável, com as costas bem eretas. Fechando a narina direita com o polegar direito, inspire lentamente pela narina esquerda e retenha o ar com os pulmões cheios por alguns segundos, sem forçar. Depois, feche a narina esquerda com o anular, exale pela direita e inspire em seguida por ela. Troque de narina, exalando pela esquerda e inspire depois por ela. Exale pela direita e inspire por ela. Exale pela esquerda e inspire novamente pela esquerda. Faça isto dez vezes por cada narina. Este respiratório chama-se nāḍīśodhana prāṇāyāma. Ele purifica os canais do corpo energético, regula o metabolismo, e estabiliza as emoções e a mente.

 

3) Relaxamento (yoganidrā)

Após a prática dos respiratórios, deite numa postura bem confortável, para relaxar. Existem diversas maneiras de auto-induzir o relax: pode fazer-se irradiando mentalmente o relaxamento como se fosse uma onda ou um conjunto de fachos de luz que partem do plexo solar para as extremidades. Outra forma seria descontrair primeiramente os membros, indo desde a periferia do corpo em direção ao centro do abdômen.

Numa terceira alternativa o relaxamento se induz desde os pés à cabeça. Imagine que seus pés não pesam. Relaxe totalmente as plantas, os dedos e artelhos. Sinta uma agradável onda expansiva de descontração ascendendo pelas suas pernas até a bacia e o ventre. Relaxe por completo os órgãos, músculos superficiais e profundos do ventre, abdômen e tórax.

As costelas movimentam-se suave e uniformemente com a respiração. Elimine sinais de tensão nos ombros, braços, antebraços, mãos e dedos. Sinta a língua relaxada, colada no palato. Movimente os olhos dentro das órbitas, sem abri-los. Tome consciência de que seu corpo esteja totalmente solto e descontraído. Deixe a respiração bem leve, naturalmente abdominal. Descanse.

 

4) Meditação

O estresse é comprovadamente uma das causas das convulsões epilépticas. A meditação, reduzindo os níveis de estresse, atua então sobre as convulsões. Meditar aumenta o fluxo sangüíneo no cérebro e aumenta os níveis dos neurotransmissores, como a serotonina, que mantém o equilíbrio do sistema nervoso.

Recomendamos que o praticante escolha uma dentre as muitas técnicas disponíveis neste mesmo website e medite por, pelo menos, 15 minutos. A escolhe da técnica para meditar deve estar em função do gosto do praticante. Como ensina o sábio Patañjali, "é preciso meditar sobre um objeto que seja agradável".

Namaste!

 

Leia também

  • O nascimento da Devi: por uma gestação plena

    A preparação para uma gestação saudável e feliz deve começar bem antes do período de concepção. Mas como a maioria não planeja nada e muitas vezes é surpreendida por um teste positivo, a incursão à prática de Yoga pré-natal será mais do que o suficiente e ricamente benéfico tanto para mãe quanto para o bebê. 


    Ana Paula Malagueta Gondim
  • Depressão e desapego

    Estava assistindo ao jornal esta semana e vi uma reportagem mostrando a taxa de aumento da depressão entre as pessoas, agora não só mulheres, mas homens também, pelo mundo todo


    Ana Paula Malagueta Gondim
    COMENTÁRIOS

    Comentar artigo

  1. Enio Weiss

    Um tratamento auxiliar e que não tem contraindicações é a Auto-hemoterapia, pesquisem na internet para cura de Epilepsia tem diversos testemunhos e seus resultados após aplicar a AHT(autohemoterapia)
    Responder


  2. Fabia Itacaramby

    Olá,

    tenho epilepsia desde os 17 anos, mas na adolescencia minhas crises eram mto raras, sempre fiz meditação, pois meu pai sempre me estimulou a fazer como rotina, sinto q isso sempre fez com q as crises diminuissem, há alguns anos faço yoga, e sinto q ela me ajuda imensamente, me equilibra e me faz sentir incluida, igual, perfeita e capaz, e só isso já é mto bom. Aconselho à todos os portadores ou não de alguma doença cronica.

    Gratidão pelo texto.


    Responder


  3. João Paulo Westphal

    Muito interessante essa materia gostei muito. Sou de rio do sul sc;  gostaria que vc me add no msn joaopaulomoje@hotmail.com, tive dúvidas; agradecido.


    Responder


  4. Matheus R. Carvalho

    Boas instruções!

    Tomo remédio controlado desde os 12 anos. Tenho 26 anos, conheci o yoga ano passado. Adorei! Fiz algumas sessões, contudo a prática dessas ásanas é simples. Hoje acendi o incenso de eucalipto e pratiquei yoga. Alongamento, pranayama, meditação e relaxamento. Artigo muito bom!!

    Parabéns, Pedro Kupfer.


    Responder


  5. Andréa

    Meu filho apresentou a 1ª crise epilética aos 13 anos de idade e desde então os médicos tentam a escolha de um medicamento eficaz para o controle das crises. Atualmente meu filho está com 17 anos e já fez várias tentativas medicamentosas e ainda apresenta as crises. Seria bom ele praticar meditação e/ou Yoga como ajuda terapêutica?
    Responder


  6. Giovana Strapazzon

    Bom dia, eu prático yoga ha 6 meses, estou amando, e eu tinha crises convulsivas, eu digo assim, porque no que depender de mim, farei tudo o q for possível para não ter mais. Mas estranho porque a primira crise veio qdo eu tinha 16 anos, hj estou com 26, tomo remedio fenobarbital (gardenal), mas agora estou tomando intercalados. Fiz vários exames e nunca houve um motivo específico, apenas o médico falava q eu tinha que tomar, eu acredito muito que isto seja espiritual. Gostaria que se vcs tiverem mais informaçoes sobre esse assunto eu ficarei grata. NAMASTÊ!
    Responder


  7. Rodrigo Lopes

    Como neurocirurgião, devo acrescentar ao seu artigo que as pessoas portadoras de epilepsia devem sempre ser acompanhadas por um profissional especialista qualificado e seguir a sua orientação, principalmente quanto ao uso das medicações indicadas para o controle das crises. É importante estabelecer a causa das convulsões, pois disso depende todo o tratamento. Uma crise convulsiva sempre tem o potencial de causar algum dano cerebral, e deve ser evitada. Ayurveda é excelente como um método preventivo e de equilíbrio da saúde, mas em situações de crise os métodos da medicina convencional devem ser utilizados (opinião do dr. Robert Svoboda, quando ministrou em 2005 um curso sobre Ayurveda no Centro de Yoga Montanha Encantada, do qual participei).
    Responder