No sūtra I:17, Patañjali nos dá a primeira descrição dos diferentes graus do samādhi, dizendo que existem dois tipos dessa experiência meditativa. Designa a primeira dessas formas pelo nome saṁprajñāta, que significa “reflexiva”. Ou seja, este é o estado de meditação profunda que vai acompanhado de uma compreensão clara sobre o objeto sobre o qual se medita.

Essa absorção tem quatro modalidades: vitarka, vicāra, ānanda e asmitā. A segunda forma de samādhi é chamada asaṁprajñāta, que significa “sem reflexão”. Ela será abordada no sūtra 18.  Para entrarmos no presente sūtra, nada melhor que começar definindo o samādhi. Mircéa Eliade, esclarece a esse respeito:

“Emprega-se o termo em um sentido gnoseológico; samādhi é o estado contemplativo no qual o pensamento capta imediatamente a forma do objeto, sem o auxílio das categorias e da imaginação (kalpanā); estado onde o objeto se revela em si mesmo (svārūpa), no que possui de essencial”. Patañjali et le Yoga, p. 80.

 

 

वितर्कविचारानन्दास्मितारूपानुगमात् सम्प्रज्ञातः १७

vitarka-vicārānandāsmitā-rūpānu-gamāt samprajñātaḥ 17

 

saṁprajñāta é aquele [samādhi] que se alcança pelo raciocínio,
o discernimento, a alegria ou a percepção de si como Ser.

 

Patañjali nos ensina neste sūtra que o samādhi não compreende apenas uma forma de meditação; ele seria mais uma área de sabedoria que abrange várias modalidades de reflexão. Embora exista certa ambiguidade na maneira em que Patañjali maneja os conceitos de Yoga e samādhi, devemos reconhecer o fato de que a identificação com certos vṛttis abrange várias das formas de samādhi, já que o autor dá a ele o nome de saṁprajñāta samādhi, ou samādhi “reflexivo”. A palavra reflexão nos remete a algum tipo de vida ou movimento psíquico. 

Igualmente, percebemos a mesma ambiguidade na forma em que o autor lida com o conceito de nirodha. Lembremos que nirodha é ao mesmo tempo o processo de desidentificação com a vida psico-mental e, também, a culminação desse processo, o objetivo final do Yoga, que é a liberdade. 

Então, devemos aceitar que estas quatro formas de absorção meditativa aqui propostas não incluem necessariamente a ausência de identificação com os vṛttis, nem a cessação dos mesmos. Se não fosse assim, estes quatro exercícios não poderiam ser considerados samādhis. Isto reforça, na nossa modesta opinião, o ponto de vista de que o samādhi não é necessariamente uma ausência total de vṛttis, como afirmam numerosos autores e/ou tradutores desta obra.

Muito embora essa afirmação de que o samādhi não seja ausência de vṛttis, mas a ausência de identificação com eles, possa parecer pequena, a sua dimensão real não deve ser desconsiderada, uma vez que dela depende a forma em que vemos o Yoga, e a forma em que nos relacionamos com ele. 

Se formos considerar a primeira possibilidade (samādhi é ausência de vṛttis) como a única verdadeira, devemos ser sinceros e reconhecer que nem o Yoga nem o samādhi seriam para nós. Já estudamos as dificuldades decorrentes dessa visão nos comentários do segundo e do quarto sūtras.

 

Formas de Samādhi

I) Saṁprajñāta = “com reflexão” sobre vṛttis sáttvicos
II) Asaṁprajñāta = “sem reflexão”, sem quaisquer conteúdos

Saṁprajñāta samādhi ou a arte de evocar vṛttis harmoniosos

Conforme o processo de autoconhecimento acontece, a identificação com os pensamentos vai diminuindo (nirodha). No entanto, ela continua, mesmo que atenuada. Como primeiro passo, o autor recomenda que pratiquemos a meditação sobre quatro formas específicas de vṛttis. Esses tipos especiais de atividade psíquica têm como virtude o fato de serem sáttvicas. Ou seja, estão conectadas com estados de harmonia, tranqūilidade e paz. Resumindo, podemos afirmar que o saṁprajñāta samādhi é um tipo de meditação que se faz refletindo sobre quatro tipos de vṛttis harmoniosos. 

Estes são os seguintes:
1) vitarka, é o samādhi que tem lugar através de um processo lógico;
2) vicāra, é o samādhi que acontece pelo discernimento entre o real e o não real;
3) ānanda, é o samādhi da alegria de sentir-se bem na própria pele; e
4) asmitā, é o samādhi da permanência consigo mesmo. 

O comentarista Vyāsa, no Yogabhāṣya, postula a seguinte explicação para a compreensão dos componentes de cada uma dessas formas de samādhi:

1) vitarka = vitarka + vicāra + ānanda + asmitā
2) vicāra = vicāra + ānanda + asmitā
3) ānanda =  ānanda + asmitā
4) asmitā = asmitā

Nesse esquema, as formas mais densas de samādhi contêm potencialmente as mais sutis. Os modos mais densos irão sendo descartados a medida que o praticante for capaz de se manter nos samādhis mais sutis.

Existem três tipos de vṛttis: tamásicos, rajásicos e sáttvicos. Em cada um deles preponderam, respectivamente, a inércia, a agitação ou a harmonia. 

Nas formas de prática contemplativa propostas for Patañjali neste sūtra, é abolida a identificação com as modalidades aflitivas da vida psíquica (kliṣṭavṛtti) que estão associadas com pensamentos tamásicos ou rajásicos. Pensamentos/sentimentos tamásicos são aqueles cuja essência é a inércia, a imobilidade ou a escuridão, que dão lugar a estados de apego, tristeza, melancolia, medo ou depressão. Pensamentos/sentimentos rajásicos são aqueles cuja natureza está associada com estados de raiva, ciúmes, ódio, agitação ou instabilidade.

Essa abolição da identificação com pensamentos tamásicos ou rajásicos, no entanto, é temporal, e dura enquanto o yogi estiver meditando sobre estes temas. Afora os quatro exercícios  contemplativos aqui propostos, existem vários outros, que serão abordados pelo autor nos próximos sūtras.

 

Saṁprajñāta, Reflexão sobre os Quatro Vṛttis Sáttvicos

1) vitarka samādhi = clareza de pensamento
2) vicāra samādhi = distinção entre o real e o não real
3) ānanda samādhi = reflexão sobre a alegria de viver
4) asmitā samādhi = compreensão do Ser

1) Vitarka samādhi, clareza de autoanálise 

O termo vitarka já foi traduzido como “curiosidade filosófica“, “raciocínio“, “suposição“, “cogitação“, ou “análise de princípios densos“. Aqui, preferimos traduzí-lo como “análise”, ou “auto-análise”, já que ele nos auxilia a compreendermos como somos e como funcionamos, a partir da contemplação de certos objetos de meditação.

Vitarka é um ato de análise profunda e deliberada. O objetivo dessa análise é a distinção entre causas e efeitos em relação a certos objetos. A este respeito, diz Vyāsa, o grande comentarista do Yogasūtra: Por exemplo, podemos perceber que o processo de conhecimento acontece sem distinções entre a palavra vaca, o objeto vaca, e a ideia vaca. Há algumas características específicas que podem ser atribuídas à palavra, outras ao objeto para o qual ela aponta, e outras à ideia ou o conhecimento [sobre esse objeto]”.

Vācaspati Misra estende essa explicação dizendo que “embora na realidade, a palavra, o objeto e o significado sejam coisas diferentes, no processo de conhecimento não há diferenciação entre eles”. Em termos práticos, vitarka samādhi é uma reflexão contemplativa sobre objetos  com conotação “densa” (sthūla), na qual usamos suportes de meditação tais como uma flor, uma cor, um animal, um corpo celeste, ou a forma de uma deidade. 

O resultado deste tipo de meditação é que o praticante aprende a fazer construções mentais de conteúdo sáttvico, nas quais elabora um substato interior de confiança, harmonia e paz, sobre o qual a prática poderá progressar adequadamente. Este é o início do processo do autoconhecimento, que irá continuar nas próximas contemplações, progressivamente mais e mais sutis.

Este tipo de meditação é chamado sthūladhyāna na Gheraṇḍa Saṁhitā, um tratado sobre Haṭha Yoga do século XVII. Sthūladhyāna significa “meditação [sobre um objeto] denso”. Sendo este tipo de análise uma função mental, ela é limitada em termos gnoseológicos. Nos sūtras 42 e 43, Patañjali irá aprofundar este conceito, explicando que há dois tipos de vitarka samādhi: savitarka e nirvitarka, ou com e sem deliberação.

 

2) Vicāra samādhi, discernimento entre o que é Real e o que não é 

A palavra vicāra deriva da união entre os vocábulos vi e cāra, que tem a conotação de “movimento progressivo”. O prefixo vi denota movimento constante, cāra significa “progressão”. Neste contexto, o vicāra aponta para o afastamento gradual dos objetos densos de meditação, e uma aproximação dos sutis.

Na medida em que, nos exercícios da categoria anterior, o praticante desenvolve desapego em relação aos objetos sobre os quais medita, ele consegue abrir-se a uma dimensão mais sutil e profunda. O vicāra samādhi não possui a associação entre palavra, objeto e significado do samādhi anterior. Ele é mais uma reflexão abstrata. Explica-nos Vyāsa:

“Quando buddhi, a inteligência, cuja natureza é a luminosidade, é liberada dos efeitos de tamas e rajas, e mantém um firme fluxo, livre da contaminação de impurezas; quando a lucidez (...) permanece presente, há clareza no yogi. Essa clareza é uma luz progressivamente mais clara e brilhante, que revela o objeto [de meditação] como ele realmente é”.

Através do processo gradual de sutilização de citta, a psiquê, o praticante desenvolve agilidade, acuidade e profundidade mental. Esse processo de sattvificação da mente-personalidade, de tornar cada vez mais hamoniosos e puros os pensamentos, chama-se cittaśuddhi ou antarkāraṇaśuddhi, “purificação do órgão interno”. O objetivo do vicāra samādhi está em dar à mente um alimento uniforme e consistente, a fim de discipliná-la e prepará-la para a compreensão da diferença entre o que é Real, e o que depende do Real.

É isso o que capacita a psiquê para viver uma vida de Yoga, uma vida plena. Patañjali estende a explanação deste conceito no sūtra 44, ensinando que existem dois graus desse tipo de samādhi: savicāra e nirvicāra, com e sem vicāra. Iremos analisar com mais profundidade esse samādhi ao abordar o sūtra 44.

 

3) Ānanda samādhi, samādhi sobre a alegria

Ānanda significa “alegria”, “intensa felicidade”. Na medida em que o praticante amadurece no caminho do Yoga, cresce dentro dele esse sentimento de ānanda. A felicidade referente a este samādhi não deve ser confundida com a plenitude da qual se fala nas Upaniṣads e outras obras de Vedānta. Nessas obras, ānanda é uma palavra que aponta para Brahman, o Ser Ilimitado. 

No contexto deste sūtra que estamos estudando, ānanda é a satisfação que nasce dos vṛttis sáttvicos, e está mais próxima dos conceitos de alegria, bem-estar ou prazer (sukhaṁ) do que do Ilimitado. Este ānanda mencionado por Patañjali é uma experiência conquistada ao praticar, mas da qual se sai inevitavelmente quando surge uma distração ou a mente se torna inevitavelmente ativa posteriormente. É, portanto, um estado temporário. O yogi precisa evitar o erro de acreditar que este ānanda samādhi seja o objetivo supremo do Yoga.

Certamente, o amigo leitor já teve essa experiência durante e imediatamente após praticar, e já deve igualmente ter percebido o quão fácil é deslizar-se desse estado de satisfação para estados de tristeza, raiva ou sofrimento, conforme mergulha distraídamente no vyavahāra, a vida de responsabilidades.

A estabilidade no Yoga é o resultado de um processo gradual, no qual a pessoa torna-se ética, emocional, mental e cognitivamente apta para compreender quem ela é realmente. Essa verdade, chamada ṛta, será abordada por Patañjali no sūtra 48, um dos mais importantes em termos da compreensão do objetivo final do Yoga. 

O yogi torna-se um ṛtambhara, ou seja, alguém que “leva a verdade em si mesmo”. Para sermos ṛtambharas, para vivermos continuamente o Yoga precisamos, a priori, completar esse processo de crescimento. 

Para completarmos o processo, precisamos compreender que, a busca incessante do prazer ou da alegria através das diferentes experiências não é o que irá nos trazer paz, conhecimento ou auto-aceitação. Isso acontece porque prazer e alegria fazem parte das dualidades, sendo seus respectivos opostos a dor e a tristeza. Inevitavelmente, cedo ou tarde, após o estado de prazer vem a ausência dele. Em ausência do prazer, sofremos porque gostariamos que ele estivesse presente. O mesmo vale para o par de opostos alegria-tristeza. 

O apego a este tipo de sentimento deve ser evitado através do cultivo do discernimento, já que esse apego pelo prazer ou a alegria retroalimenta a visão equivocada que temos sobre nós mesmos e sobre como deveríamos viver, e que produz, por sua vez, mais e mais sofrimento. Essa vida de sofrimento e instabilidade é chamada saṁsāra.

Resumindo, podemos dizer que, para podermos transcender a tristeza, o medo, a insegurança, a raiva ou o sofrimento, devemos seguir os quatro passos sugeridos abaixo.

1) Em primeiro lugar, precisamos conhecer os opostos dos sentimentos indesejáveis. Nos casos acima citados, a alegria, a confiança, o amor e a paz, que são as contrapartes sáttvicas das emoções tamásicas e rajásicas.

2) Em segundo lugar, reconhecermos que esses são estados limitados e temporários, embora seja muito mais desejável a alegria à tristeza, a confiança ao medo, o amor ao ódio ou a paz à agitação (como cantou sabiamente Vinícius de Moraes, “é melhor ser alegre que ser triste”. A tristeza é tamásica e nos imobiliza; a alegria é sáttvica e tem a virtude de nos dar satisfação. O mesmo vale para as outras emoções).

3) Em terceiro lugar, precisamos nos tornar cientes de que essas experiências de  satisfação fazem parte das dualidades, do pêndulo emocional, e que não têm o poder de nos dar felicidade real e duradoura.

4) Em quarto lugar, precisamos nos livrar do apego que essas experiências possam nos produzir, por interessantes ou desejáveis que pareçam, para podermos continuar o nosso processo de crescimento.

Às vezes, percebemos que o praticante, entusiasmado com o Yoga, abre mão de um sistema de valores e crenças equivocadas sobre si mesmo e o mundo, mas apenas para abraçar um outro sistema sem havé-lo compreendido plenamente. Assim apenas troca-se um modelo por outro e nada muda na pessoa, que continua sofrendo como antes. O ānanda samādhi, bem como todas as etapas anteriores do Yoga, precisa ser conquistado, e depois transcendido.

4) Asmitā samādhi, discernimento entre ego e Ser

Asmitā significa “estado de eu sou”. Asmitārūpa é a consciência de Si mesmo, “refletida” através do buddhi, que estabelece o reconhecimento da diferença entre o Ser e o ego. Nele, havendo-se transcendido as etapas anteriores, o praticante contempla e repousa no seu próprio senso de Ser. Além deste tipo de samādhi, não há mais nenhuma outra forma de contemplação que se use do recurso de objetos ou suportes (ālambanas).

Numa bela descrição deste samādhi, Vyāsa afirma que “a psiquê que alcançou a unificação chamada asmitā, torna-se serena como o imenso e calmo oceano”. O objeto desta quarta contemplação é o “reflexo” do Ser em buddhi: Puruṣa, cuja natureza é sáttvica, é comparado à superfície calma das águas do oceano, que não são perturbadas pelas oscilações do vento (o pensamento errático). Em sua explicação sobre este sūtra, Vyāsa cita o mestre Pañcaśikha: “havendo reconhecido o Ser, [o yogi reconhece a si mesmo apenas] como eu sou”.

A guisa de esclarecimento sobre esta imperturbabilidade de citta nesse samādhi, vale citarmos aqui o sūtra 41: 

“Quando os vṛttis se enfraquecem, a psiquê torna-se como um cristal, que parece assumir a cor do lugar onde se apóia, [unificando] o conhecedor, o conhecível e o instrumento da cognição. Isto chama-se proficiência ou absorção completa (samāpatti)”. 

 

Nessa contemplação, o praticante reconcilia e atualiza em si mesmo todos os resultados dos samādhis anteriores, purificando a imagem que possui de si mesmo e descartando a identificação com todas as formas de apego ou aflição.

 

    COMENTÁRIOS

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  1. Daniela Cristina Teixeira Freitas

    Olá professor Pedro! Não estou conseguindo baixar o arquivo pdf referente a este artigo. Está dando erro na página. Se você puder atualizar ficarei agradecida demais. Um abraço, namaste!
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