Desde tempos imemoriais, a meta do Yoga tem sido a iluminação. Tem várias formas de se dizer iluminação em sânscrito: mokṣa, que significa liberdade, nirvāṇa, que quer dizer sem desejos do ego, ou kaivalya, que significa isolamento, em relação às fontes do sofrimento, emoções destrutivas e sentimentos indesejáveis. Existem ainda outras palavras que são usadas para apontar para o mesmo estado.

Seja qual for o termo escolhido para designar o objetivo do Yoga, a iluminação presupõe autoconhecimento. Não há iluminação possível sem a compreensão de quem somos. Noutras palavras, você ilumina sua ignorância, e ela desaparece, da mesma forma que a luz dissipa a escuridão. Assim, junto com a ignorância, vão-se as fontes de aflição, angústia ou sofrimento.

 

“Mas eu não quero me iluminar!”

Mês passado estava em Portugal conversando com um grupo de professores e praticantes sobre o objetivo do Yoga e como manter-se no estado de Yoga na vida cotidiana. Lá pelas tantas, uma professora disse que ela não buscava nem queria a iluminação, que isso não estava em seus planos. Tudo o que ela queria era sentir-se bem, e praticava com esse objetivo.

Ora, com todo respeito, fiquei desconcertado com a colocação da moça. Um yogi ou uma yogini declarar que não tem interesse em se conhecer profundamente para realizar a meta do Yoga é algo inusual, para dizer o mínimo. O que fazer diante dessa dramática situação, meu caro Arthur Veríssimo? Como explicar para ela que aquele “sentir-se bem” que ela buscava, era a tal da iluminacão? Nada melhor que recorrer aos clássicos gregos. Epicuro, um filósofo grego posterior a Aristóteles e Platão, escreveu em sua Carta sobre a Felicidade:

“Que ninguém hesite em se dedicar à Filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho, poque ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito. Aquele que afirma que a hora de dedicar-se à filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou, é como se dissesse que ainda não chegou ou que já passou a hora de ser feliz”.

A bem da verdade, todos os seres humanos estamos buscando a iluminação, embora nem sempre o façamos de maneira consciente. Todos buscamos a felicidade. Todos buscamos a plenitude. Todos queremos viver em paz. Todos queremos nos manter afastados do sofrimento. Todos queremos nos manter perto das fontes de satisfação ou prazer. Portanto, não há pessoa que não esteja buscando a felicidade. Não há humano que não esteja buscando a liberdade. O paradoxo é que essa liberdade não deveria buscar-se, mas compreender-se, pois nós já somos essa liberdade que procuramos.

 

A iluminação é para benefício de todos

O mais precioso dos ensinamentos do Yoga, e um dos mais ignorados, é que a vida de prática e estudo, bem como mokṣa, o estado de liberdade, não são coisas que você deva fazer centrado em seu próprio interesse, mas pensando em libertar todos os seres da roda do samsara, da vida condicionada e de sofrimento. Essa é a motivação mais justa e nobre para praticarmos e conhecer a nós mesmos. No budismo, uma pessoa com tal motivação é chamada bodhisattva. Trabalhar pelo benefício, pela felicidade e pela liberdade de todos os seres, inclui até mesmo seu vizinho chato e o político corrupto que participa do escândalo da hora.

Dirigir uma atitude compassiva para todos, indiscriminadamente, é a atitude do verdadeiro iluminado. Se você quiser avaliar um mestre, olhe para seus atos: se a pessoa falar sobre os mais elevados graus da meditação mas não fizer nada para aliviar a penúria dos que sofrem, ainda falta a esse “mestre” um longo percurso pela frente: o caminho da compaixão. Esse sentimento de compaixão, que inclui ações concretas para aliviar o sofrimento dos demais, chama-se karuna, em sânscrito. Esse sentimento, aliado a atitudes práticas mais do que a belos discursos, é sinal inequívoco de progresso na senda do auto-conhecimento que o Yoga nos propõe.

 

É preciso estar preparado

A preparação para pôr em prática essa atitude chama-se adhikāra. Adhikāra significa competência, preparação. Como  praticante sério e dedicado, você precisa estar pronto para a iluminação, o que inclui muita disposição para ajudar os demais. Por exemplo, se você percebe que uma pessoa está se afogando, mas não sabe nadar, não poderá ajudá-la. Por mais compaixão que você sinta pela pessoa, pouco poderá fazer para tirá-la dessa situação.

A palavra satṛṣi é usada em sânscrito para designar àqueles que estiverem prontos e tiverem a competência para ajudar os demais nesse processo de crescimento interior. Satṛṣi é o sábio verdadeiro. Sat é verdade. ṣi significa sábio. Porém, literalmente, ṛṣi quer dizer “reto”, e designa àquele que vai direto ao assunto, que não dá voltas, que tem clara sua meta. Um verdadeiro ṛṣi irá buscar a iluminação, única e exclusivamente em benefício dos demais. Portanto, se eu quiser ensinar as pessoas a yogar, preciso primeiramente estar preparado para isso, permitindo que o Yoga faça parte da minha vida cotidiana. Preciso me ajudar, antes de ajudar os demais.

Digamos que eu queira ser um ótimo salvavidas. Preciso aprender a nadar antes de querer salvar banhistas em perigo. Se, no meio do caminho esqueço do objetivo com o qual aprendi a nadar, posso mesmo assim me tornar um excelente nadador,  mas estarei deixando de lado a meta original. Lembre similarmente que, se você gosta de ver o Yoga como um caminho para a iluminação, deve ter sempre presente que esse caminho não pode ser percorrido pensando apenas em si mesmo, ou sem fazer um contínuo esforço para aliviar o sofrimento dos demais. Namaste!

    COMENTÁRIOS

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  1. Heitor Amaral

    Quanto mais eu leio o blog mais me conscientizo da importância de resignificar todo dia a profissão de professor de yoga. A iluminação, a liberdade e a compaixão devem se tornar o foco principal, os benefícios físicos, o financeiro e o "sucesso" profissional são consequências desse entendimento.


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