Muitas tradições ascéticas da Índia consideram o corpo como um mero acúmulo de vísceras cuja natureza é corrompida e cujo destino final é morrer e apodrecer. Talvez o exemplo mais claro disso é o que aparece no Agni Purana (LI:15):

O asceta (yati) concebe seu corpo, na melhor das hipóteses, como uma bolha de pele, rodeado de músculos, de tendões e de carne, cheio de urina, fezes e impurezas malcheirosas, habitáculo da doença e do sofrimento, vítima certa da velhice, da tristeza e da morte, mais transitório que uma gota de orvalho numa folha de erva.

Naquela época, estava em uso uma fórmula para cumprimentar os demais que hoje nos parece muito cômica. Quando duas pessoas se encontravam, ao invés de perguntar simplesmente "como vai?", perguntavam-se: "como anda hoje esse saco de pele cheio de impurezas fedorentas?"
 
Não obstante, há uma visão diferente que surgiu do tantrismo: a de que o corpo é um templo do divino, pois ele permite uma série de investigações, reflexões e experiências que o tornam um instrumento invalorável para a realização espiritual e a iluminação. É por esse motivo que se afirma no Vishvasara Tantra:

Não há nascimento como o humano. Devas e anjos o desejam. Para a alma, o copo humano é o mais difícil de se conseguir. Por isso, diz-se que o nascimento humano se alcança com grande dificuldade. (...) Afirma-se nos shastras que, dos 8:400.000 nascimentos da alma, o humano é o mais frutífero. A alma não pode adquirir o conhecimento da verdade em nenhum outro nascimento. O nascimento humano é a pedra fundamental do caminho da libertação. Por isso, é raro e cheio de mérito quem chega a ele.


Portanto, o Hatha Yoga considera a vida humana extremadamente preciosa. Tanto no Hatha como no Tantra, mesmo o corpo humano mais degradado é considerado um templo da divindade (devalaya). O sábio yogi Tirumular, de Tamil Nadu, incluiu estes dois versos em seu belíssimo poema devocional Tirumandiram (versos 724 e 725):

Quando o corpo perece, a força vital esvai-se
e a luz da verdade não pode alcançar-se.
Eu aprendi a arte de preservar meu corpo e,
deste modo, também a força vital que habita nele.

Antes, desprezava meu corpo.
Porém, mais tarde descobri que a divindade morava
em seu interior e comprovei que o corpo é o templo do Senhor.
Portanto, comecei a preservá-lo com o maior cuidado.


O Eu (Shiva), ao associar-se kármicamente com um corpo limitado e com o universo finito, experiencia a si próprio como uma série de psiquismos (Purushas), cada um dos quais acredita ser uma ilha separada da criação. Essa ilusão gera por sua vez as condições para as experiências prazerosas ou dolorosas que, por sua vez, reforçam a ilusão inicial de falsa separação. Somente quando a psique individual consegue transcender seus karmas e suas experiências limitadas, é que ela consegue lembrar sua verdadeira natureza.

A transição da ignorância à sabedoria libertadora, do círculo do prazer e a dor à luminosa felicidade, é um dos processos mais simples e misteriosos da existência. É por isso que textos de Yoga como a Shiva Samhita e outros, recomendam visualizar o corpo como se fosse o próprio universo. Estes exemplos das escrituras nos ajudam a compreender melhor esse processo:

Não existe nada neste universo que não esteja contido no corpo humano. Tudo o que está aqui, está em toda parte; o que não está aqui, não está em nenhuma parte. Vishvasara Tantra.

Aqui mesmo (neste corpo) estão o rio Ganga, Prayaga e Varanasi, o sol e a lua (isto é, o masculino e o feminino) e os lugares sagrados... Não existe outro lugar de peregrinação nem morada de felicidade semelhante ao meu corpo. Em verdade, o yantra que é o próprio corpo é o melhor de todos os yantras. Gandharva Tantra.


O trabalho preliminar do Hatha Yoga pode considerar-se um longo caminho de preparação através das ações purificatórias, físicas e psíquicas, que limpam o espelho da alma para que esta possa refletir sua verdadeira face. Esse caminho inclui a prática da ética, a disciplina do corpo através dos ásanas, a purificação dos elementos através do shatkarmani, a purificação da energia vital através dos respiratórios e a purificação do psiquismo através da meditação.

    COMENTÁRIOS

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  1. Murillo

    Reli esse texto hoje...

    Bom pilar para prática de ásanas no Yoga  

        : )

    Om Jay! Namaste!


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  2. Murillo

    A metafora do espelho ja e bem conhecida mas no contexto que voce colocou me tocou e somou mais inspiracao. Esta sendo bom ler esses textos, pre-organizados daqui da India num intensivo de alinhamento em asanas que estou fazendo. Imagino o trabalho que isso nao te deu.Sempre grato Pedro e esse Yoga.pro que dissolve duvidas, clareia pessoas e os ambientes, alem de nos inspirar!
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