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A Bhagavad Gita e a guerra

A Gítá é acusada, às vezes, de sancionar a guerra, e de ensinar o oposto dos ensinamentos de Cristo, Buddha, e outros grandes mestres espirituais. Na verdade, a Gítá não sanciona a guerra nem a condena. Não considerando ação alguma como sendo de valor absoluto, nem para o bem, nem para o mal, não pode absolutamente fazê-lo.

Antes da batalha de Kurukshetra começar, Árjuna pede a Krishna para levar sua carruagem até o espaço aberto entre os dois exércitos, para que possa ver os homens com quem vai lutar. Quando Krishna chega lá, Árjuna reconhece muitos de seus parentes e velhos amigos entre as fileiras do inimigo. Fica horrorizado pela revelação de que está para matar aqueles a quem ama mais do que a si mesmo. Em seu desespero, exclama: “Não lutarei!”.

A resposta de Krishna a Árjuna ocupa o resto do livro. Ela trata não apenas do problema pessoal imediato de Árjuna, mas de toda natureza da ação, do significado da vida e dos objetivos pelos quais o homem deve lutar aqui na terra. No fim de sua conversa, Árjuna muda de idéia. Ele está pronto para lutar. E a batalha começa.

Para compreender a Gítá, devemos considerar o que ela é e o que não é. Devemos considerar seu cenário. Quando Jesus falou as palavras que foram registradas como o Sermão da Montanha, ele estava se dirigindo a um grupo de devotados seguidores numa atmosfera campestre cheia de paz, longe de toda luta e confusão. Então Ele lhes ensinou o mais elevado e rigoroso ideal, o da Não-violência.

A Gítá é muito diferente. Krishna e Árjuna estão num campo de batalha. Árjuna não é um monge dedicado, mas um chefe de família e um guerreiro, por nascimento e profissão. Ele corresponde ao cavaleiro medieval do Cristianismo. Seu problema é considerado em relação às circunstâncias do momento.

Ao ensinar Árjuna, Krishna emprega dois tipos de valores, o relativo e o absoluto. Ele começa, de modo geral, por avaliar o sentimento de repulsão de Árjuna. Árjuna se retrai do ato de matar. Krishna lembra-lhe que, num sentido absoluto, não existe tal ato. O Átman, a Divindade que habita o interior, é a única realidade. Este corpo é simplesmente uma aparência: sua existência e destruição igualmente são ilusórias. Para Árjuna, um membro da casta guerreira, a luta dessa batalha é sem dúvida “justa”. Sua causa é justa. Defendê-la é seu dever.

Na Gítá, descobrimos que o sistema de castas está presente como uma ordem natural. Os homens estão divididos em quatro grupos, de acordo com suas capacidades e características. Cada grupo tem seus deveres peculiares, éticos e responsabilidades; e esses devem ser aceitos. É o modo de crescimento espiritual. Um homem deve prosseguir de onde se encontra. Não pode pular para o Absoluto; deve evolver em direção a Ele. Não pode arbitrariamente assumir os deveres que pertencem a um outro grupo. “É preferível morrer fazendo o teu próprio dever”, ensina Krishna. “O dever de um outro te causará grande perigo espiritual”. Socialmente, o sistema de castas é gradual; mas, espiritualmente, não há tais distinções. Cada um pode chegar à mais alta santidade seguindo o caminho prescrito por seu próprio dever de casta. E na Europa, bem como na Ásia, houve homens que evolveram em gigantes espirituais enquanto desempenhavam seus deveres como mercadores, camponeses, médicos, papas, lavadores de pratos ou reis.

Na esfera puramente física da ação, Árjuna não é mais, de fato, um agente livre. O ato da guerra pesa sobre ele: envolve suas ações prévias. A um dado momento no tempo, somos o que somos e temos que aceitar as conseqüências de sermos nós mesmos. Somente através dessa aceitação podemos começar a evolver mais além. Não podemos evitar a batalha.

Árjuna é obrigado a agir, mas ainda está livre para fazer sua escolha entre dois diferentes modos de executar a ação. De modo geral, a Humanidade quase sempre age com apego, quer dizer, com medo e desejo. Desejo por um certo resultado e o medo de que esse resultado não seja obtido. Ação vinculada amarra-nos ao mundo das aparências, ao fazer continuado de mais ação.

Porém, há um outro modo de executar a ação, que é desempenhá-la sem medo e sem desejo. Os cristãos chamam-na de “sagrada indiferença”, e os hindus de “não-apego”. Ambos os nomes são ligeiramente distorcidos. Sugerem frieza e falta de entusiasmo. Essa é a razão pela qual as pessoas confundem “não-apego” com fatalismo, quando, na verdade, são opostos. O fatalista simplesmente não se importa. Ele aceitará o que vier. Por quê fazer qualquer esforço? No entanto, aquele que pratica a ação sem apego, é o mais consciente dos homens. Liberto do medo e do desejo, ele oferece o que faz como um sacramento de devoção a seu dever. Todo trabalho torna-se igual e vitalmente importante. É apenas a respeito do resultado do trabalho – sucesso ou fracasso, louvor ou censura – que ele permanece indiferente. Se a ação for feita nesse espírito, ensina Krishna, levar-nos-á ao conhecimento do que está por trás da ação, por trás de toda a vida: a Realidade última. E com o crescimento desse conhecimento, a necessidade de mais ação gradualmente nos abandonará. Realizaremos nossa verdadeira natureza que é Deus.

Quer dizer, portanto, que cada ação, sob certas circunstâncias e para certas pessoas, pode ser um trampolim para o crescimento espiritual, caso seja feita no espírito de não-apego. Todo bem e mal é relativo sob o ponto de vista individual do crescimento. Para cada indivíduo, certos atos são absolutamente errados. De fato, pode haver atos que sejam absolutamente errados para todo indivíduo vivo na terra, hoje. Mas, no sentido mais elevado, não pode haver nem bem nem mal. Como Krishna está falando como o próprio Deus, ele pode tomar essa altitude, e aconselhar Árjuna a lutar. Não se trata aqui de fazer o mal para que o bem possa vir. A Gítá não aprova esse oportunismo. Árjuna deve fazer o melhor para o ótimo. Mais tarde, sua luta em Kurukshetra parecer-lhe-á nociva e será nociva, então. Fazendo o mal que você sabe ser mal, nunca fará o bem. Levará apenas a um mal maior, a mais apego e mais ignorância.

A Gítá é acusada, às vezes, de sancionar a guerra, e de ensinar o oposto dos ensinamentos de Cristo, Buddha, e outros grandes mestres espirituais. Na verdade, a Gítá não sanciona a guerra nem a condena. Não considerando ação alguma como sendo de valor absoluto, nem para o bem, nem para o mal, não pode absolutamente fazê-lo. Sua mensagem deveria alertar-nos para não ousar julgar os outros. Como podemos nós prescrever o dever de nosso vizinho, quando nos é tão difícil saber o nosso próprio? O pacifista deve respeitar Árjuna. Árjuna deve respeitar o pacifista. Ambos estão indo em direção ao mesmo objetivo, se forem realmente sinceros. Há uma solidariedade inerente entre eles que pode ser expressa, se cada um seguir, sem mútua concessão, o caminho no qual se encontra. Pois podemos ajudar os outros a fazer o seu dever, fazendo o que nós mesmos acreditamos ser o correto. É o único ato supremamente social.


Extraído do Apêndice do livro Bhagavad Gítá – A Canção do Senhor, de Swami Prabhavananda e Christopher Isherwood (traduzido por Thalysia Kleinert), Editora Shakti, São Paulo, e digitado por Cristiano Bezerra.

Uma resposta para “A Bhagavad Gita e a guerra”

  1. Isso me lembra aquela máxima contida na Bíblia: “Combater o bom combate”. Bem como a expulsão dos fariseus do templo, aqueles que comercializavam no templo. Nesse episódio houve certa violência em prol de uma boa causa. Alí, dentre os fariseus, estavam muitos irmãos de pobreza…

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