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A iluminação do corpo: as origens do hatha yoga

Foram os adeptos do Tantrismo que apresentaram pela primeira vez essa visão dinâmica do universo, e foram eles também que inauguraram uma nova atitude em relação ao corpo humano e à existência corpórea em geral.

Escrito por Georg Feuerstein · 5 mins de leitura >

O corpo-mente do ser humano não é o que parece ser: um limitado tubo digestivo ambulante. Basta-nos relaxar ou meditar para descobrir que esse popular estereótipo materialista não é verdadeiro, pois é nessas condições que começamos a perceber a dimensão energética do corpo e o ‘espaço profundo’ da consciência.

Quando se dissolvem os limites rígidos que traçamos ao nosso redor, começamos a nos sentir mais vivos e ingressamos num mundo em que as experiências são mais intensas. O relaxamento e a meditação substituem a imagem que normalmente temos do corpo por uma percepção do fato de que nós somos um processo fluídico intimamente ligado a um todo maior e vibrante. Nessa experiência, os limites do ego perdem a sua rigidez.

A física quântica nos diz que todas as coisas são interligadas e que a idéia de que ‘eu’ sou uma entidade isolada não passa de uma ilusão. Diz-nos, além disso, que o chamado mundo objetivo é uma ‘alucinação’, uma projeção do imaginário ponto de subjetividade que temos dentro de nós.

Temos sido muito lentos em assimilar as profundas implicações práticas da visão de mundo físico-quântica, sem dúvida porque ela nos obriga a operar mudanças extensas e profundas no modo pelo qual concebemos a nós mesmos e ao nosso universo. A perspectiva da física quântica, porém, não é tão nova quanto gostaríamos de acreditar. Está por trás de toda a tradição tântrica e especialmente das escolas de Hatha Yoga, que nasceram do Tantrismo.

É a imagem da ‘dança de Shiva’ que melhor exprime essa idéia: Shiva, na qualidade de Nata-Rája ou ‘Senhor da Dança’, cria perpetuamente, com o seu dançar, os ritmos do universo ? os ciclos de criação (sarga) e destruição (pralaya). É o mestre tecelão do espaço e do tempo.

Essa imagem do Hinduísmo clássico fascinou diversos físicos quânticos. O primeiro a chamar-nos a atenção foi Fritjof Capra, no seu conhecidíssimo livro O Tao da Física:

‘As idéias de ritmo e de dança vem-nos naturalmente à memória quando procuramos imaginar o fluxo de energia que percorre os padrões que constituem o mundo das partículas. A física moderna mostrou-nos que o movimento e o ritmo são propriedades essenciais da matéria ? que toda matéria, quer aqui na terra, quer no espaço sideral, está envolvida numa contínua dança cósmica. Os místicos orientais têm uma visão dinâmica do universo, semelhante à da física moderna; conseqüentemente, não é de surpreender que também eles tenham usado a imagem da dança para comunicar a intuição que tinham da natureza (1).’

Foram os adeptos do Tantrismo que apresentaram pela primeira vez essa visão dinâmica do universo, e foram eles também que inauguraram uma nova atitude em relação ao corpo humano e à existência corpórea em geral. Na era pré-tântrica, o corpo era costumeiramente encarado, à moda gnóstica, como a fonte da corrupção e o inimigo do espírito. Foi essa atitude que levou o autor anônimo da Maitráyaníya Upanishad a compor a seguinte litania:

‘Ó Venerável, neste corpo malcheiroso e insubstancial, [que não passa de] um aglomerado de ossos, pele, tendões, músculos, medula, carne, sêmen, sangue, muco, reuma, fezes, urina, vento, bile e fleuma ? de que vale o gozo dos desejos? Nesse corpo afligido pelo desejo, pela ira, pela cobiça, pela ilusão, pelo medo, pelo desânimo, pela inveja, pela separação em relação às coisas queridas e a proximidade das não-queridas, pela fome, pela sede, pela velhice, pela morte, pela doença, pela tristeza e outras coisas semelhantes a essas ? de que vale o gozo dos desejos?’ (1.3)

Talvez o tom pessimista dessa passagem nos pareça estranho e exagerado, mas ele expressa muito bem o ponto de vista materialista da nossa própria cultura. Enquanto considerarmos o corpo um simples sistema digestivo ambulante, não teremos motivo para ver a busca do prazer como um consolo, pois todo prazer que o corpo pode nos dar é inevitavelmente limitado quanto à intensidade e quanto à duração e, em geral, só é obtido a duras penas. Além disso, a busca do prazer não nos pode salvar da morte. A revolução tântrica afastou-se da concepção do corpo como ‘uma bolha de pele'(2). ‘No tantrismo,’ observou Mircea Eliade, historiador das religiões, ‘o corpo humano adquire uma importância que nunca havia tido antes na história espiritual da Índia.'(3) Essa nova atitude se expressa sinteticamente no Kularnava Tantra , importante texto tântrico hindu:

‘Sem o corpo, como realizar o [mais elevado] objetivo humano?
Portanto, depois de adquirir uma morada corpórea,
o ser deve realizar ações meritórias (punya).’ (1.18)

‘Dentre os 840.000 tipos de seres corpóreos,
o conhecimento da Realidade não pode ser adquirido
senão pelo [corpo] humano.’ (1.14)

Os mestres tântricos aspiravam, isto sim, à criação de um corpo transubstanciado, que chamavam de ‘adamantino’ (vajra) ou divino (daiva) ? um corpo feito não de carne, mas da substância imortal, de Luz. Em vez de ver o corpo como um tubo alimentar fadado à doença e à morte, eles o viam como a morada de Deus e como o caminho alquímico em que se haveria de realizar a perfeição espiritual. Para eles, a iluminação era um acontecimento do corpo inteiro. Nas palavras da Yoga Shikhá Upanishad:

‘Aquele cujo corpo (pinda) é incriado e imortal,
está liberto já nesta vida (jívan-mukta).
O gado, os galos, os vermes e outros
que tais deparam-se com a morte.

Como podem eles chegar à libertação
desfazendo-se do corpo, ó Padmaja?
A força vital (do yogin) não se expande para fora,
[mas concentra-se no canal axial].
Como então pode [ele] desfazer-se do corpo?

A libertação que ele alcança pelo
desfazer-se do corpo ? que valor tem ela?
Assim como o sal-gema [dissolve-se] na água,
assim também o Absoluto (Brahman)
expande-se para o corpo [do yogin iluminado].

Quando ele chega à [condição de]
não-alteridade (ananyatá), diz-se que se libertou.
[Mas os outros continuam a] distinguir
entre diferentes corpos e órgãos.

O Absoluto incorporou-se (dehatva),
como a água faz bolhas.’ (1.161-165a)

A incorporação dos mestres iluminados não tem por único objeto o organismo físico com o qual eles parecem estar especificamente associados. O corpo deles na verdade é o Corpo de todas as coisas e, portanto, eles podem tomar a forma que quiserem ? façanha atribuída a muitos adeptos antigos e modernos. Esse corpo transubstanciado também é chamado de ativáhika-deha ou ‘corpo supercondutivo’. Esse veículo luminoso e onipresente é dotado dos grandes poderes psíquicos (sidhis) de que falam todos os textos do Tantra e do Yoga. No Yoga-Bíja, encontramos os seguintes versículos:

‘O fogo do Yoga aos poucos cozinha
o corpo composto dos sete elementos constituintes
[como os ossos, a medula óssea, o sangue, etc.].

Nem mesmo as divindades podem adquirir
esse corpo yogi prodigiosamente poderoso.
[O yogin] liberta-se dos vínculos corpóreos,
adquire diversos poderes (shakti) e é supremo.

O corpo [do yogin] é semelhante ao éter,
até mais puro do que o éter. Seu corpo é mais sutil
do que os [objetos] mais sutis, mais grosseiro
do que qualquer [objeto] grosseiro, mais insensível
[à dor, etc.] do que os [mais] insensíveis (jada).

O [corpo do] senhor dos yogins obedece à sua vontade.
É auto-suficiente, autônomo e imortal.
Ele se diverte com brincadeiras, onde quer
que esteja nos três mundos [i.e., na Terra,
na região intermediária e nos mundos celestiais].

O yogin é dotado de poderes incríveis.
Aquele que dominou os sentidos pode,
pela sua própria vontade, assumir várias formas
e fazê-las desaparecer novamente.’ (50b-54)

Isso quer dizer que o adepto não é simplesmente um ser iluminado, mas sim um teurgo, um mago, parceiro do Deus Criador. São poucos os textos do Yoga ou do Tantra que não fazem referência a esse aspecto misterioso do modo de vida yogi, e os textos do Hatha Yoga não são exceção a essa regra.


(1) F. Capra, The Tao of Physics (Nova York: Bantam Books, 1977), pp. 228-229 (Editado no Brasil sob o nome O Tao da Física, pela Editora Cultrix, São Paulo, 1980).

(2) Essa imagem consta do Agni Purana (51.15 et seq.). Eis o trecho completo: ‘O asceta (yati) concebe o seu corpo na melhor das hipóteses como uma bolha de pele, rodeado de músculos, de tendões e de carne, cheio de urina, fezes e impurezas malcheirosas, habitáculo da doença e do sofrimento, vítima certa da velhice, da tristeza e da morte, mais transitório que uma gota de orvalho numa folha de erva, nada mais e nada menos que o produto dos cinco elementos.’

(3) M. Eliade, Yoga: Immortality and Freedom (Princeton, N.J.: Princeton University Press, 1973, p. 227.

Extraído do livro A Tradição do Yoga (traduzido por Marcelo Brandão Cipolla), Editora Pensamento, São Paulo, e digitado por Cristiano Bezerra.

Copyright (c) 2001 Georg Feuerstein, Yoga Research and Education Center.

Visite o site de Georg Feuerstein em www.yrec.org

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Uma resposta para “A iluminação do corpo: as origens do hatha yoga”

  1. Obrigado por economizar meu tempo e de tantos aventureiros dos caminhos do Yoga disponibilizando esse texto com citacoes inspiradoras para intensificar o mergulho na pratica de asanas. Namaste graaaaatooo enxarcado pelas aguas do Ganges_/\_

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