Pratique, Yoga na Vida

Acorde!

Por que será que, apesar de todos os grandes sábios e seus ensinamentos, não acontecem mudanças em nossas vidas? Ao que parece, a maior parte do tempo estamos acordados exteriormente, mas internamente estamos dormindo profundamente

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Por que será que, apesar de todos os grandes sábios e seus ensinamentos, não acontecem mudanças em nossas vidas? Permanecemos presos na mesma roda-viva. Pode ser porquê ainda não tenhamos um requisito fundamental, o despertar interior. Ao que parece, a maior parte do tempo estamos acordados exteriormente, mas internamente estamos dormindo profundamente. Compramos os grandes tomos das escrituras e usamos como travesseiro, na esperança que sua mensagem vá, de alguma forma, pular das páginas para dentro de nossas cabeças, o que não acontece, e quando escutamos os grandes mestres, estamos mentalmente adormecidos e, com freqüência, até fisicamente adormecidos.
Primeiramente, qual é a condição ou qualificação para ser um buscador verdadeiro, um discípulo verdadeiro ou para levar o estudo das escrituras a sério? Esta definição aparece de forma muito bela na formosa escritura chamada Yoga Vasistha. O requisito fundamental é que deve haver uma compreensão e percepção clara que ‘eu estou preso em uma armadilha e gostaria de sair dela’. Se esta compreensão não existir, então as escrituras e palestras não terão qualquer efeito sobre nós. Se pensamos ‘eu estou preso em uma armadilha mas acho que posso encontrar a saída’, então também não há o despertar. ‘Eu estou preso em uma armadilha’ significa que estou aprisionado em todos os sentidos, sem redenção, sem a possibilidade de fuga.
Veja, por exemplo, o problema da solidão e do tédio. O que fazemos no sentido de superá-los? Fazemos algo que apenas reafirma o isolamento. Consideramos a nós mesmos um amigo (com quem não conseguimos nos relacionar) e iniciamos um relacionamento. Assim, acompanhado, há tédio, há solidão, e ouvimos música, o que não nos livra deles. Apenas os mascaramos. Desta forma, entramos em uma armadilha mais profunda e perigosa. Se isto não está claro, não existe o despertar interior.
É possível perceber que não importa o que façamos estamos em uma armadilha? Qualquer coisa que a mente crie é uma armadilha. Quando há o despertar interior, se não formos totalmente estúpidos e nem totalmente iluminados, podemos obter beneficio das escrituras e palestras. Estas são as qualificações. Pessoas totalmente estúpidas, assim como os iluminados, não possuem problemas. Você e eu, no meio termo, somos aqueles perturbados pelos problemas.
A estupidez total assume várias formas, mas uma de suas características é a habilidade de funcionar com se fosse inteligência. As pessoas jogam fora a chance de perguntar pelas questões corretas, mas podem responder a todas as questões erradas. São filósofos, que podem criar um senso de inteligência sem ser inteligente. Quais são as perguntas corretas? Este é o fator mais importante. ‘Eu estou preso em uma armadilha em todo e qualquer lugar que procure. De manhã até a noite, me esforço para ser feliz e encontro apenas infelicidade.’ O simples fato de continuarmos a procurar pela felicidade, mostra que somos infelizes. Encare! Tudo o que fazemos para aumentar a felicidade, apenas a destrói.
E mesmo assim, as pessoas inteligentes desejam paz na mente e lutam por ela, mas esta luta divide a mente em várias partes. Então, as pessoas inteligentes agarram um destes pedaços pequenos e pensam que estão em paz. Isto é brincadeira. É isso inteligência? Por que será que, mesmo entendendo essa seqüência de eventos desafortunados, continuamos agindo da mesma maneira?
Se está claro que desta forma não é possível alcançar a felicidade e paz na mente, desista. É possível desistir? Não. Algo dentro de nós ainda incomoda. ‘Estou preso em uma armadilha, deve ser possível escapar, quero sair daqui.’ Se existir esta combinação de aspirações e se não se é completamente estúpido e nem iluminado, ai é possível entender as escrituras. E quando não for possível entender as escrituras, é possível pedir ajuda a um professor.
Na Katha Upanishad há uma linda declaração: uttishthata jagrata: acorde! Ninguém pode fazer isto por você. Pode-se ser o discípulo de Deus Todo-Poderoso em Pessoa, mas mesmo Ele não será capaz de acordar em seu benefício. Se você sente fome, você mesmo deve comer. O guru não vai comer por você. O guru pode orientar, mas o problema é seu. E se você sente que é seu, acorda e desperta para o problema.

A menos que paremos de culpar os outros e a nos mesmos pela situação em que nos encontramos, não estaremos acordados. Quando caminhamos em um túnel, vemos luz à frente e atrás. Mesmo assim, quando estamos na escuridão, pensamos que vemos uma luz no passado ou no futuro, o que é um passatempo absurdo.

Então, o maior requisito para o estudante de Yoga é perceber que ninguém é responsável pela situação em que ele está. Ninguém pode produzir um despertar espiritual em você. Alguém pode ajudar, qualquer um pode ajudar, mas é você quem tem que fazer. Este despertar espiritual é produzido pela própria vida, mas mesmo assim, alguma graça e vigilância interior são necessários.

Acordar é fácil, mas permanecer acordado não. Quem quer acordar bem cedo para meditar, ajusta o despertador, que toca, e então se levanta. Mas permanecer acordado não é fácil. A mente adora dormir. Por que? Porquê a mente é nascida na ignorância e assim gosta de dormir, gosta de um cobertor psicológico bem espesso.

Assim, acorde! Este problema é seu, sua responsabilidade, não dos professores. Daí, seja sempre vigilante. Cada vez que uso a palavra ‘vigilante’, lembro do famoso ensinamento de Buda. Num texto, em um dos últimos sermões, Buda diz aos discípulos: ‘Viva neste mundo como se vivesse em uma sala com uma cobra viva na porta.’ Pode imaginar? Se você estiver em uma sala pequena com apenas uma porta, sem janelas, sem outro lugar para escapar, e encontra uma cobra parada na porta, no meio da noite, o que faria? Conseguiria dormir? Poderia até mesmo cochilar? Quão vigilante você estaria! Esta deve ser a vigilância do buscador.

É possível desenvolvermos esta vigilância se entendermos que estamos presos e que qualquer coisa que façamos para sair da armadilha apenas nos aprisiona mais. Como a mente nasce na ignorância e vive na ignorância, ela só consegue gerar inquietação e perturbar nossa paz. Pode gerar, de tempos em tempos, uma sensação de felicidade, que é um simples estado de confusão. Se alguma vez houve felicidade verdadeira por quinze segundos, por que desistir dela? Porquê não era felicidade de jeito algum!. Se tudo que fizermos termina em fracasso, deveríamos parar de tentar. A mente nos leva de uma infelicidade para outra e nos faz sentir, algumas vezes, que estamos nos divertindo. Este é o jogo da mente. Quando esse entendimento nasce, o que acontece é a vigilância.

Se estamos despertos e alertas, podemos não descobrir a verdade sobre a vida? Usamos o que para descobrir esta verdade? Pensamento e mente não podem descobrir a verdade porquê são nascidos na ignorância. O que mais temos? Aqui o buscador chega a um fim. Podemos sentar e pensar, mas já entendemos que pensar não resolve. Estamos acordados, estamos vigilantes, mas não sabemos o que mais podemos fazer. Para onde vamos então? Encontrar uma pessoa esclarecida ou iluminada e pedir esclarecimento! Despertar é nossa tarefa, ou nosso privilégio. Esclarecimento é possível com a ajuda de um mestre. De outra forma, o risco é que podemos pensar que somos esclarecidos, porquê nossa mente sugere, o que é mais uma armadilha. Então o mandamento da Upanishads é: uttishthata, jagrata: ‘acordado, fique alerta!’ Encontre as pessoas esclarecidas e obtenha esclarecimento.

Excerto do livro Multiple Reflections de Swami Venkatesananda, disponível em www.swamij.com/wake-up.htm , sob o título original ‘Wake up!’.

Traduzido pelo yogi Rogério Maniezi, de Florianópolis: [email protected].

Uma resposta para “Acorde!”

  1. Uttishthata, jagrata… afinal… Mas não podemos esquecer que este estado de mente alerta que tanto, empenhados buscamos, creio eu, carece de um esforço para o reconhecimento e abandono destes “cobertores espessos” que nos aprisionam ao sono… Namastê…

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