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Aprendendo com o Yoga a arte de saber existir

Quando lemos o Yoga Sútra de Pátãnjali, nos deparamos, no primeiro capítulo (Samádhi Pada), com a seguinte assertiva: "Atha Yoganusasanam". Traduzindo, "Agora, o ensinamento do Yoga". Desse breve enunciado, podemos concluir que outra etapa antecedeu o ensinamento do Yoga.

Escrito por Paula Goes · 3 mins de leitura >

Quando lemos o Yoga Sútra de Pátãnjali, nos deparamos, no primeiro capítulo (Samádhi Pada), com a seguinte assertiva: “Atha Yoganusasanam“. Traduzindo, “Agora, o ensinamento do Yoga“.

Desse breve enunciado, podemos concluir que outra etapa antecedeu o ensinamento do Yoga. Acredito que o Yoga surja para nós a partir do momento em que o ser humano, através da busca pelo auto-conhecimento, percebe que para “ser” é preciso “saber existir”. Mas, como saber existir?

Existimos em vários níveis: pensamentos, sentidos, corpo físico, enfim, convivemos com outros seres e captamos energia de várias fontes diferentes. Como, por exemplo, a do ambiente em que vivemos e freqüentamos, das pessoas que nos rodeiam, dos alimentos, da natureza e, conseqüentemente, devolvemos essa energia de alguma forma através de nossas ações, pensamentos, palavras, olhar e tudo o que envolve a nossa movimentação pelo universo em busca de algo que não está muito bem definido. Agora, começa o Yoga.

Daí surge a necessidade de que, antes de caminhar rumo à meta do Yoga, que é o estado de iluminação exaltado pelo samádhi, façamos um bom estágio na fase preliminar rumo ao auto-conhecimento, exercitando a ética do Yoga. Em outras palavras, assimilando as valiosas informações advindas dos yamas e nyamas. Yama significa controle ou domínio. É o pontapé inicial, trazendo cinco proscrições éticas: ahimsá – a não violência; satya – falar a verdade; asteya – não se apropriar de coisas alheias, não roubar; brahmacharya – não desvirtuar a sexualidade; e aparigraha – não apegar-se. Esses refreamentos pretendem aniquilar a subjetividade que surge do egocentrismo e prepará-lo para o estágio seguinte.

Os niyamas são prescrições psicofísicas: shauchan – a purificação do corpo; santosha – o contentamento; tapas – a austeridade ou esforço sobre si próprio; swádhyáya – o estudo das escrituras do Yoga e de si próprio; Íshvara pranidhána – que seria a entrega das ações ao Absoluto, a uma força suprema. Aqui, percebemos a necessidade de desenvolver ferramentas que facilitem a busca de algo que, de fato, desconhecemos: a nossa natureza. Pura, livre e descondicionada. Sujamos a nossa existência com uma busca equivocada. Ser “esperto” está longe daquilo que você realmente é e do que realmente quer ser. Mas não sabemos disso. Nossa ignorância metafísica nos afasta da sutileza e do conhecimento verdadeiro: a busca pela nossa essência – o auto-conhecimento.

Quando nos deparamos com os yamas e nyamas, percebemos como é difícil nos “desprogramar”. Bloqueamos ou retardamos a nossa evolução com armadilhas que a sociedade nos ensinou a montar para nós mesmos: a mentira, a agressividade contra aqueles que nos ameaçam, o uso equivocado ou parcial dos sentidos (ver somente aquilo que se quer ver), o apego a pessoas, coisas e relacionamentos, o que se reflete num boicote de se passar para a etapa seguinte. E assim caminha a humanidade, sempre dando um jeito de parecer mais “esperta” do que realmente é. O yogi tenta desatar os nós, mas também precisa perceber que, muitas vezes quem dá o nó é ele próprio. Por isso chega o momento da prática e do estudo. Buscar a visão periférica. Abrir os canais e sutilizar o corpo. Ver e querer ver a verdade. Mover-se. Ligar-se. E que durante esse processo esteja presente o bom humor e a pureza. E a fé de que, se nós estivermos fazendo o melhor para nós mesmos e sem fazer mal a ninguém, o que tiver de ser será… Aí a nossa existência começa a ter um brilho tão forte, que acaba se refletindo no olhar. Um olhar de quem não se importa com essas miudezas que a sociedade criou para nos encaixotar.

A nossa consciência oscila do racional ao emocional constantemente. Ambas atreladas ao ego: o veneno que aniquila e cega o homem. E quando a nossa expressão mais sutil e verdadeira se manifesta, que é a nossa intuição, um sussurro da nossa natureza, conseguimos perceber num gesto e num olhar de alguém coisas tão grandiosas que ficamos extasiados. E sorrimos como crianças.

Começamos, então, a entender o significado de existência, de saber existir. O sábio que nos habita começa a nos guiar. Permitindo que as coisas fluam, seguindo seu caminho sem se prostrar da sua consciência como vítima, e sim como mero expectador. As coisas acontecem, mudam e nós apenas acompanhamos essas transformações sem carregar a culpa de se ir adiante. Nós não somos os nossos pensamentos. Nossa mente é capaz de criar histórias, situações e obstáculos que nos cercam e nos aprisionam. Precisamos arrancar essa casca e mergulhar fundo, bem fundo no Ser. Resgatar a essência e privilegiar a nossa intuição, pois é essa que dá vida àquela. Assim, humildemente, nos aproximamos do verdadeiro significado do “saber existir”. E, finalmente, percebemos que para sermos felizes, basta apenas SER.


Esse texto foi escrito por Paula Goes em julho de 2002, durante o Curso Livre de Formação em Yoga em Florianópolis.

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