Prāṇāyāma, Pratique

Aprofundando-se na prática: integrando corpo, respiração e mente

Para fazer de sua prática diária de Yoga uma prática cada vez mais consciente e conectada à realidade do corpomente, é necessário trilhar o caminho que liga o corpo ao prana e à concentração

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Por mais lindamente que você consiga fazer um ásana, por mais flexível que o seu corpo seja, se você não conquista a integração entre corpo, respiração e mente, não da para dizer que você esteja fazendo Yoga.
O Coração do Yoga ? T.K.V Desikachar.

Para fazer de sua prática diária de Yoga uma prática cada vez mais consciente e conectada à realidade do corpomente, é necessário trilhar o caminho que liga o corpo ao prana e à concentração (asana, pranayama e dharana).

sana é comumente traduzido como ‘postura’, mas, no entanto, esta palavra deriva do termo sânscrito ‘ficar’, ‘ser’ ou ‘sentar’. Sendo assim, ela seria melhor traduzida como ‘assento’. Em todo e qualquer ásana, desde os mais simples e até aos que temos maior dificuldade em efetuar, o praticante deve buscar não uma postura bonita fisicamente, mas empreender uma atitude interna de observação pessoal na qual o objetivo maior e encontrar conforto e estabilidade tanto físico quanto mental e emocional.

Por sua vez, encontramos o termo pranayama relacionado a técnicas de controle respiratório. Na verdade prana designa o alento vital que abastece nosso corpo e seria levado ao mesmo através da respiração. Assim, pranayama são técnicas respiratórias para o controle e melhor absorção e distribuição do prana em nosso organismo. Técnicas como o ujjayi devem ser feitas de forma suave, sem esforço exagerado em sua execução, para ficarmos mais conscientes do fluxo de nossa respiração e também permanecermos concentrados durante a prática.

A capacidade de concentrar nossa atenção em apenas um ponto de observação e conhecida como dharana. Deve-se sustentar a concentração ou foco de atenção em uma única direção, adquirindo assim as condições certas e intensificando a prática de Yoga. Durante a prática de ásana a mente busca estar no momento presente, deixando de lado distrações e julgamentos que interferem negativamente. Deve-se buscar a atenção ininterrupta nas ações físicas para se permanecer de forma fluida em uma postura, mantendo a atenção na qualidade da respiração e desta forma conseguir desenvolver uma mente atenta e serena.

अहिम्स

Ahimsa: a não-violência em pensamento, palavra e ação

Patanjali enumera os yamas, ou seja, as prescrições éticas que um yogui deve seguir, a partir da não-violência. Adquirir não apenas atitudes e ações, mas certamente pensamentos e sentimentos não violentos fundamentam a base da personalidade de um aspirante ao Yoga. Mas o que realmente consiste este conceito e, indo alem, como seria a pratica mais adequada ao mesmo?

O renomado erudito romeno Mircea Eliade fundamenta este pensamento num pequeno trecho no segundo capitulo de seu livro Yoga, Imortalidade e Liberdade: ‘Os refreamentos (yama) e as disciplinas (niyama) tem suas raízes no ahimsa e tendem a completar o ahimsa‘. Este seria o ponto iniciatico do qual se desdobram todos os outros parâmetros descritos no Yoga Sutra. Desta forma, apenas com a mente e o coração livres de estímulos agressivos pode-se vivenciar os yama e niyama seguintes. Isso parece ser claro, pois como teremos a consideração exigida por satya, a veracidade, sem o conceito de ahimsa devidamente enraizado? Ou mesmo, seria possível vivenciar a ausência de cobiça, asteya, com impulsos agressivos?

Em seus comentários, Sri Swami Satchidananda explica que ahimsa significa ‘não causar dor’. Diferentemente de não matar, pois ‘causar dor pode ser ainda pior que matar’. No trigésimo quinto sutra, Patanjali diz: Ahimsa pratisthayam tat samnidhau vaira tyagah ? “Na presença de alguém com princípios assentados em não violência, cessam todas as hostilidades”. Satchidananda conclui: “Quando o voto de ahimsa e assumido por alguém, cessa a animosidade em sua presença, pois esta pessoa emite vibrações harmoniosas. (…) Quando essa atitude for continuamente praticada em pensamento, palavra e ação por algum tempo, estas vibrações serão constantemente emanadas”.

Fazendo uma análise às avessas do descrito acima, quando estamos em um longo e demorado engarrafamento, percebemos que todos os motoristas permanecem calmos até o primeiro buzinar e contagiar os outros com sua impaciência. Logo se forma uma sinfonia barulhenta. Fica claro que a raiva foi contagiosa e assim, da mesma maneira, a ausência dela também é.

Trazendo luz ao estudo deste primeiro yama, T.K.V Desikachar relata no livro O Coração do Yoga que ‘ahimsa e mais do que ausência de himsa (ausência de violência). Significa gentileza, amizade e consideração cuidadosa por outras pessoas e coisas’. Mais adiante comenta: ‘… significa agir com gentileza para conosco. Podemos, como vegetarianos, nos achar em situações em que há apenas carne para comer. É melhor morrer de fome do que comer o que há? (…) ficar preso aos nossos princípios mostraria falta de consideração e ate arrogância’.

Vale ressaltar que um dos grandes nomes da espiritualidade do século XX, ficou conhecido praticamente por se dedicar sincera e profundamente à prática da não-violência, da não agressividade, de não causar dor. Mahatma Gandhi, a grande alma que em sua luta pacifica fundamentou a independência da mãe Índia através do conceito da não cooperação aos seus opressores, iniciou uma severa greve de fome quando soube que seus conterrâneos e seguidores estavam reagindo de forma violenta às ações do exercito inglês.

Ciro é professor de Yoga em Floripa. O email dele é [email protected] e seu blog, www.keepom.blogspot.com.

amor

Amor Radical ou Emoções Baratas?

Ciro Castro em Pratique, Yoga na Vida
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Uma resposta para “Aprofundando-se na prática: integrando corpo, respiração e mente”

  1. Nem sempre é fácil praticar os ensinamentos da não-violência atualmente. Em várias situações do cotidiano somos expostos a sentimentos de raiva, arrogância, desejo de vingança, entre outros sentimentos deletérios. É com disciplina e persistência, com muito “treino” e inspiração em textos como este que devemos procurar nos afastar dos maus sentimentos e das influências negativas que insistem em contagiar nosso dia a dia.
    Namastê!

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