Mudrā, Pratique

As mudras nas escrituras clássicas do Hatha Yoga

Este texto inicia um estudo comparativo de algumas mudrās nos textos clássicos do Hatha Yoga, Hatha Yoga Pradipika, Gheranda Samhita e Shiva Samhita, com o objectivo de dar a conhecer parte daqueles textos

Escrito por Miguel Homem · 3 mins de leitura >

Este texto inicia um estudo comparativo de algumas mudrās nos textos clássicos do Hatha Yoga, Hatha Yoga Pradipika, Gheranda Samhita e Shiva Samhita, com o objectivo de dar a conhecer parte daqueles textos, bem como familiarizar o praticante com a linguagem dos shastras.

As mudrās do Hatha Yoga são um tema nem sempre bem compreendido. Alguns julgam-nos apenas gestos das mãos, os chamados hasta mudras. No entanto, existem outros, técnicas específicas que são feitas com o corpo. Não são ásanas, não são hasta mudras, não são pranayamas, não são exercícios de concentração ou de visualização, mas uma combinação de todas essas técnicas ou de parte delas.

Certo é que são técnicas avançadas que apenas devem ser executadas uma vez dominados, com algum conforto, ásanas, pranayamas, drishtis e bandhas. A indicação dos mudras nos textos a que faremos referência aparecem sempre depois das instruções sobre ásana e, com excepção da Gheranda Samhita, também depois do pranayama.

Segundo Satyananda ‘mudras são um combinação de movimentos físicos subtis que alteram a disposição, atitude e percepção, e que aprofundam a atenção e concentração’[1]. Mas, mais importante do que isso, são técnicas apontadas pelos Shastras como importantes para o despertar da Kundalini. Ouçamos a voz da Hatha Yoga Pradipika:

‘Assim, deve-se praticar com empenho os diversos mudras a fim de despertar a poderosa deusa kundaliní que dorme fechando a porta de acesso ao Absoluto (sushumná nadi).

As dez mudrās são mahamudrā, mahabandha, mahavedha, khechari, uddiyana bandha[2], mula bandha, jalándhara bandha, viparita karani, vajroli mudrā e shakti chalana. Eles destroem a velhice.’ (III, 5-7).

A Gheranda Samhita é mais exaustiva na enumeração dos mudras: ‘Existem vinte e cinco mudras, cuja prática dá sucesso aos yogis. Eles são: Mahamudrā, nabhomudra, uddiyana, jalándhara, mulabandha, mahabandha, mahavedha, khechari, viparitakarani, yoni, vajroli, shaktichalana, tadagi, manduki, shambhavi, pañchadhárana, ashvini, pashini, kaki, matangi, e bhujangini.‘ (III, 1-3).

E finalmente a Shiva Samhita, que enumera as mesmos dez mudras da Hatha Yoga Pradipika:

‘Agora vou dizer-te o melhor meio de se conseguir sucesso no Yoga. Os praticantes devem mantê-lo secreto. É o Yoga mais inacessível. Quando a deusa adormecida kundaliní é acordada pela graça do Guru, então todos os lótus e granthis (nós) são logo atravessados sucessivas vezes. Assim, para que a deusa que dorme na boca de brahmarandhra (a entrada de sushumná nadi), seja acordada, as mudrās devem ser praticados com grande cuidado.

De muitas mudrās, os dez seguintes são os melhores: mahamudrā, mahabandha, mahaveddha, khechari, jalándhara, mulabandha, viparitakarana, uddiyana, vajroli e shaktichalana.‘ (IV, 12-15).

As mudrās são praticados, geralmente, depois dos ásanas: depois dos ásanas e dos bandhas, a prática do Hatha Yoga continua com as distintas variações de kumbhakas, as mudrās e a concentração no som interior (nada). Hatha Yoga Pradipika (I, 56).

Toda a sorte de vantagens e benefícios é atribuída à prática das mudrās por estes shastras. Vale a pena referir esta indicação da Hatha Yoga Pradipika:

Shiva ensinou estes dez gestos que proporcionam os oitos poderes paranormais (siddhis); os yogis perfeitos (siddhas) esforçam-se na sua prática, mas os mudras são difíceis de serem dominados, mesmo pelos deuses.’

Estes poderes são os descritos no capítulo III, do Yoga-Sutra e são:

1. Animan, o poder de ficar pequeno como um átomo;

2. Mahiman, o poder de ficar imensamente grande;

3. Laghiman, o poder de ficar muito leve;

4. Prapti, o poder de alcançar todas as coisas, como conseguir tocar a lua com um dedo;

5. Prakamya, o poder de realizar instantaneamente todos os desejos;

6. Vashitva, o poder de controlar os objectos animados e inanimados;

7. Ishitritva, o poder de domínio sobre a matéria e os objectos que derivam dela.

8. Yatrakamavasayitva, o poder de determinar as coisas segundo o seu desejo.

A estes acrescenta-se a perfeição corporal (kaya siddhi) que Patañjali definiu no sutra III:47:

‘A perfeição do corpo físico manifesta-se como beleza, graça, força, dureza e o brilho do diamante.’

A linguagem dos shastras nem sempre é directa. Por vezes é cheia de folclore, rica em metáforas, imagens e símbolos. Enfim, é o testemunho escrito dos Mestres antigos, porque a sua viva voz, o ensinamento directo, só está acessível através do param-para (de boca a ouvido).

A citações da Hatha Yoga Pradipika são extraídas da tradução de Pedro Kupfer, Instituto Dharma-Yogashala, 2002, Florianópilis, Brasil, enquanto as da Gheranda Samhita e Shiva Samhita são a tradução para o português feita pelo autor a partir de The Forceful Yoga, Being the Translation of Hahayoga-Pradipika, Gheranda-Samhita and Shiva-Samhita, tradução para o Inglês de Pancham Sinh e Rai Bahadur Srisa Chandra Vasu, 1Âa Edição, Motilal Banarsidas Publishers, 2004, Delhi, Índia.

[1] Asana Pranayama Mudra Bandha, 3Âa Edição, Yoga Publications Trust, 2002, Índia, pag. 423.

[2] Já Theos Bernard ensinava que a distinção entre bandha e mudra é meramente teórica e não deve causar nenhuma confusão, porque ambos são uma e mesma coisa. Veja-se Hatha Yoga, The Report of a Personal Experience, 4Âa Impressão, Essence of Health Publishing, 2001, Africa do Sul, pag 60, nota nÂo 3.

Miguel ensina Yoga no Porto, em Portugal. Seu email é [email protected]

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4 respostas para “As mudras nas escrituras clássicas do Hatha Yoga”

  1. Dr. Miguel Homem, muito obrigada por nos ajudar a evoluir. Seus textos são elucidativos e muito agradável a sua leitura. Vou visitar mais vezes esta página, tenha a certeza! Quando dará um curso? Uma palestra?

  2. Vocês podem me dizer o que siginifica uddiyana bandha? E se vocês pretendem dar um curso de Ayurveda à distância?

    Moro no interior de Minas Gerais e sempre entro no site de vocês.

    Desde já, Namaste!.

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