Conheça, Vedānta

Avidya e Maya

Daqui podemos constatar que esta avidya não é simples ignorância. Avidya é capaz de produzir, de criar. Assim, dizemos que avidya tem dois poderes, avarana sakti e vikshepa sakti. Um poder que encobre e outro que projecta. É um poder e por isso não podemos reduzir ao significado comum da palavra ignorância.

Escrito por Miguel Homem · 10 mins de leitura >
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O ensinamento, upadesha, reconhece a existência de uma ignorância chamada avidya, a ignorância existencial. Olhemos então para esta ignorância.

Avidya, assim como a ignorância é sempre de qualquer coisa, e é jñeya, objecto de conhecimento. Sendo jñeyam diz-se que está presente, enquanto está presente. O que se quer dizer com isto?

Primeiro tem de ser claro que o atma é evidente por si mesmo. Se nós víssemos ou tocássemos o atma, a sua existência seria estabelecida por um pramanam, um meio de conhecimento, mas ele, em si, é evidente como eu mesmo. Eu vejo qualquer coisa, conheço qualquer coisa e o que conheço torna-se evidente para mim, seja pela visão, audição ou qualquer outro sentido.

Este eu que vê ou ouve é estabelecido por que sentido? Por que meio de conhecimento? Ele é evidente por si mesmo. A existência de mim mesmo não é estabelecida nem pela percepção directa nem pela inferência e tampouco depende da consulta ao vizinho. Assim, o atma é evidente por si mesmo.

E a ignorância que digo ter?

Quando digo “eu sou ignorante”, a ignorância torna-se algo que é conhecido de mim. Não só se torna conhecida de mim, como ao mesmo tempo projectamos esta ignorância no atma, eu. Existe assim o que chamamos adhyasa.

Por este motivo, todo o foco é no atma, brahman. Porque avidya está presente é que o vichara começa. E este questionamento é para quem? para aquele que tem ignorância. Apenas por causa de avidya este atma é tomado como karta, bhokta, samsari e tudo o mais.

Nós não buscamos o conhecimento de avidya. O que buscamos é conhecimento da realidade, do vastu, de que somos ignorantes. Não investigamos esta ignorância, o que investigamos é a realidade da qual somos ignorantes. Eu tomo-me como sendo karta e bhokta, e o Veda toma-me como sendo satyam jñanam anantam brahma.

Temos duas versões. Aquilo que o Veda diz é desejável e portanto eu quero saber o que o Veda afirma ou pelo menos, se o que diz é verdade. Assim, começa o questionamento, a investigação, vichara. Este vichara assente na ignorância e portanto vem a pergunta porque existe avidya, onde está avidya ou formulando de forma mais objectiva para quem existe a ignorância?

Para quem existe a ignorância?
Para aquele que faz a pergunta!

Parece uma resposta para despachar quem pergunta, mas é uma resposta adequada. Vejamos porquê. Quem faz a pergunta? Para essa pessoa a ignorância existe. E isto porque nós não estamos a tentar estabelecer a existência da ignorância, nós estamos a tentar removê-la.

Assim, quem quer que faça a pergunta, para ele existe a ignorância. Primeiro temos de descobrir quem é esse que é ignorante. Por isso se diz que não investigamos a ignorância, mas o que investigamos é o vastu, a realidade. Porquê?

Avidya não é uma substância

A ignorância não é uma coisa, um vastu, mas algo que enquanto está lá, temos de aceitar que está lá. Da mesma forma que tudo o mais, anatma, é mithya, avidya também é mithya. Se é uma substância podemos analisá-la. Mas esta avidya não é uma coisa.

Avidya é sempre de alguma coisa. Existem várias coisas neste mundo como homem, mulher, árvore, cão, bolo de chocolate, chinês, jeggins. Podemos dizer que existe outra coisa chamada ignorância? Não! A ignorância é sempre de alguma coisa.

Ignorância de quê? Ignorância de chinês, ignorância de chihuahua, ignorância de atma, que é a ignorância existencial. É ignorância existencial, porque dá origem a tudo.

Assim, é a ignorância do sujeito e portanto não podemos investigar esta ignorância porque não é uma substância, porque é a ignorância do atma. Só podemos investigar e questionar sobre o vastu que é o atma. A ignorância por si só não é objecto de vichara.

Avidya é avichara siddha

A ignorância é estabelecida pelo avichara, ou seja por falta de vichara do atma. Esta é causa de avidya, é o motivo porque ela perdura. Avidya existe apenas porque não existe vichara – avichara siddha.

Uma coisa que é avichara siddha, que apenas existe por falta de questionamento e análise, não se torna disponível para vichara, análise ou questionamento. Se só está presente por falta deste questionamento sobre quem sou eu, o atma vichara, o que temos de fazer é prosseguir com o atma vichara. A solução não é querer analisar avidya.

E porquê? Porque de facto, avidya não está lá. Na verdade, está lá, mas apenas enquanto está, enquanto não fazemos o atma vichara. A sua presença só está lá devido a esse facto.

Avidya é anirvachaniyam

Costuma dizer-se que avidya é anirvachaniya, porque não é explicável. Diz-se que avidya, maya, é inexplicável. Na verdade, como diz o Swami Dayananda o inexplicável é altamente explicado!
É um inexplicável muito bem explicado da seguinte forma: sat asat bhyam anirvachaniyam. Não podemos dizer que a ignorância é, existe, não podemos dizer que a ignorância não é, não existe.

Tomemos o exemplo da corda e da serpente. Eu e o meu amigo Simão fomos “into the wild”. Nessa incursão na Natureza, eu vejo uma cobra e o Simão diz-me que é apenas uma corda. Eu vejo a corda, salto para o colo do Simão, panico e o mais. Ele diz-me “Miguel, menos, menos, sossega, tudo o que está ali é uma corda.” Agora eu pergunto-lhe: “se existe corda, porque é que eu vejo a cobra!?”

O Simão no seu jeito tranquilo responde-me, “de facto, se olharmos bem, a pergunta deveria ser minha e não tua. Eu devia fazer a pergunta. Como é que tu vês a cobra?” Eu faço a pergunta, mas como o Simão é um tipo simpático e com empatia responde-me “tu vês a cobra por causa de avidya, a ignorância.”

E se eu perguntar esta avidya é real ou não? Não é. Então, pergunto como pode produzir a cobra?
O Simão vai responder-me “produz a cobra, porque tu a vês. É tudo o que sei, que produz a cobra e tudo o mais … faz-te saltar para o meu colo, ter medo, suar e tremer. Produz o samsara, tudo.”

Daqui podemos constatar que esta avidya não é simples ignorância. Avidya é capaz de produzir, de criar. Assim, dizemos que avidya tem dois poderes, avarana sakti e vikshepa sakti. Um poder que encobre e outro que projecta. É um poder e por isso não podemos reduzir ao significado comum da palavra ignorância.

Avidya é poder, e por isso é preferível usar o original do que a tradução. É uma ignorância analisada e portanto vemos que tem um poder. Avidya não só encobre como também projecta. Assim, voltando ao nosso exemplo, a avidya encobre a corda e projecta a cobra.

Agora aquele que vê a cobra pergunta, esta avidya existe ou não existe? Não é abhava, não é ausente. Tem uma existência porque encobre e projecta. Tem uma existência positiva porque produz. Se fosse apenas ausência de conhecimento não produziria nada. Porque é capaz de produzir, temos de consentir que tem alguma existência.

Então porque não dizemos que existe? Não podemos dizê-lo, porque não tem uma existência independente, não tem uma substância própria, não subsiste por si mesma; depende de outra coisa, tem de depender de alguma coisa.

Assim, esta avidya não é nem existente de forma independente, para poder ser, teria de ser satyam e não é. Também não a podemos tomar como asat porque, para dizermos que não é existente, teria de ser o mesmo que os cornos de um coelho e os cornos de coelho não existem.

Satchet na badheta, asatchet na pratyeta.
O que é real não pode ser negado, o que não é real não aparece de facto.

Se é real, não pode ser negado. Se não é real, não pode aparecer, como os cornos do coelho. Aquilo que não é nem sat, nem asat chamamos de mithya.

Aonde está localizada avidya mithya? Em sat. Qualquer mithya está localizada em sat.
Em última instância, tudo o que existe é atma brahman, este atma é evidente por si mesmo e avidya é jñeya, e portanto como tudo o mais está localizada no atma como adhisthana. Aquilo que está entre sat e asat é anirvachaniya

Assim, reconhecendo que atma é evidente por si mesmo, avidya está presente enquanto perdurar. Esta avidya não é simples ausência de conhecimento; tem uma existência porque cria, mas uma existência dependente de atma e portanto é mithya. Mithya sendo o que é, é anirvachaniyam.

Portanto, o atma é explicável e tem de ser revelado. Avidya não pode de ser explicada e apenas apenas a sua natureza tem de ser entendida, mas apenas no sentido em que temos de lidar com essa natureza intermédia, que não é sat, nem asat. Esta natureza intermédia é a natureza do mundo, de maya.

Maya é anirvachaniya

Olhando para o mundo e a manifestação, pergunta-se muitas vezes como o não dual Brahman, ekam advitiyam brahman se tornou plural. A resposta assenta sempre naquela incrível palavrinha que Shankara acrescenta nos seus comentários, iva, “como se”. Como se Brahman se tornasse muitos.

Brahman é apontado pelo Shastra como sendo nityam e portanto imutável, Brahman é destituído de instrumentos de acção ou pensamento, akarta, amanah. Assim, um Brahman imutável não pode ser a causa material que se transforma no mundo percebido (parinami upadana karanam), da mesma forma que não pode ser a causa inteligente. Daqui a questão, como surge a manifestação?

A manifestação e a sua natureza são apontadas como maya. Ora, olhando para maya não podemos dizer que maya é uma parte de Brahman, porque Brahman é avyaya, sem partes; não podemos dizer que é separada de Brahman, pois nada é separado de Brahman, não há nada além de Brahman porque ele é advaita, por isso dizemos que maya é anirvachaniya e o que é produzido por maya, o mundo, é mithya.

Brahman empresta a existência a maya, mas Brahman mais maya é ainda Brahman.
Qualquer adição, upadhi, é apenas aparente, é mithya. “Como se” houvesse uma adição, maya responde pela aparente pluralidade do mundo, mas Brahman nunca se torna plural, porque a pluralidade é mithya.

Maya, o aspecto que se transforma e sofre uma alteração, é a causa material que sofre uma modificação, parinami upadana karana. E o que é maya? Brahman. Brahman é maya, mas maya não é Brahman. Maya é mithya, dependente de Brahman, e sendo mithya tudo o que nasce de maya e se transforma neste mundo, também não é separado de Brahman. Assim, tudo o que existe é Brahman. Qualquer aparente adição, upadhi, é mithya, portanto Brahman.

A pluralidade vista no mundo é apenas uma supra imposição, adhyasa, na não dualidade que é sat. Como esse adhyasa acontece? Acontece por conta de avidya, que é anadi. É anadi não apenas no sentido de que não tem começo, mas também no sentido de que para maya não existe causa.

Dentro da visão védica a manifestação não é vista de forma linear com um início e um fim, mas de forma circular e cíclica. Num círculo não existe princípio nem fim. O mundo é o resultado do anadi karana prapancha, do corpo causal sem início. Porque se manifesta este ciclo? Porque existe alguma causa. Essa causa é o karma e o karma manifesta-se.

À conversa com o Swamiji

Sobre o assunto ficam pedaços de uma conversa que tive com o Swami Dayananda a este propósito e que ao estilo do Swamiji são verdadeiramente reveladores:

“Não existe criação. Criação é só uma palavra que temos de usar porque existe uma certa ordem. Por isso a palavra shristi é usada. Como a semente que cresce, não cresce ao acaso, existe uma ordem. Uma determinada semente produz apenas uma planta da sua espécie e não outra planta. É apenas do ponto de vista de jagat que usamos a palavra shristi, do ponto de vista do pote. Do ponto de vista do barro não existe criação.”

Rindo-se disse-me “dois pontos de vista e temos de entender estes dois pontos de vista. Não nos podemos agarrar a um ponto de vista quando existe outro ponto de vista. Se nos agarramos apenas a um ponto de vista estas questões aparecem. E se temos em atenção o outro ponto de vista então estas questões podem ser entendidas muito facilmente, e nem sequer aparecem.

Porque não existe criação, e portanto não podemos perguntar sobre a criação. É anirvachya. Tudo é assim! E do ponto de vista de Brahman ou do barro não existe criação. Do ponto de vista de jagat existe criação e então podemos falar sobre Brahman que criou tudo isto. Existe uma ordem e portanto temos de admitir sarvajñatvam.

Assim, não existe uma pergunta definitiva e absoluta e uma resposta definitiva e absoluta. A pergunta não pode ser verdadeira. A pergunta pode ser verdadeira apenas quando não existe outro ponto de vista. Podemos falar da criação apenas quando existe criação. Quando existe algo como não criação, então não podemos fazer uma pergunta absoluta para uma resposta categórica. Por isso é tudo anirvachya.
As perguntas sobre shristi são todas válidas se a existência de shristi é absoluta. Se a existência não é nem descartada, nem é absolutamente real, a posição torna-se clara.”

Usando a liberdade poética da Professora Gloria Arieira, maya é uma magia. Todos vemos, mas removida a cortina (da ignorância) a sua realidade desaparece. É a magia das magias, porque a aparência nunca deixa de ser vista e ainda assim a sua realidade é definitivamente negada.
De forma tão simples um e outro me mostraram o que é advaita vedanta!

Uma histórinha

Por fim deixo-vos uma histórinha para exemplificar o adhyaropa apavada nyaya, o método usado para investigar a realidade do mundo:

Um homem, no leito da morte, tinha 3 filhos e 17 elefantes. Ele disse ao primeiro filho que ficaria com metade dos elefantes. Ao segundo disse que ficaria com um terço dos elefantes e ao terceiro disse que ficaria com um nono. Despediu-se dos filhos e morreu.

Os filhos desentenderam-se porque não conseguiram saber e chegar a acordo quanto à divisão. 17 elefantes não podem ser divididos em metade, por três ou por nove!

Um sábio soube do problema, ouvi-os, e disse que o resolveria. Assim, um dia, chegou sentado noutro elefante. Sem sair do elefante disse-lhes que o elefante onde estava sentado era um presente para os três filhos. Assim, teriam 18 elefantes e poderiam dividir entre eles. O primeiro ficou com 9 (18/2), o segundo com 6 (18/3) e o terceiro com 2 (18/9).

Assim, os 17 elefantes foram divididos. Os 9 do primeiro, os 6 do segundo e os 2 do terceiro somam 17. O sábio fez a divisão em cima do décimo oitavo elefante que sobrou. Chegou em cima do décimo oitavo e foi embora em cima do décimo oitavo.

Assim, é o método: maya é introduzida para explicar jagat, o mundo. Uma vez que é explicado o mundo como maya, a sua realidade é negada, porque é mithya, e apenas Brahman permanece.

Agradecimentos

Este texto pouco tem de meu que não seja a organização de ideias e digitação. A ideia começou com uma pergunta do António Matos. Sobre o tema comecei por trocar ideias com o Simão Monteiro. Depois na Índia várias vezes sentei para conversar com a Camila Melo Ferreira, antes e depois de falar com o Swamiji e a Professora Gloria. Nestas conversas e debates entrou muitas vezes o Jonas Massetti e a “abelha do Panchadashi” :).

E claro, para com a Professora Gloria Arieira e o Swami Dayananda, a minha dívida teve um início no passado, mas nunca terá um fim. Agradeço ainda os comentários finais ao texto feitos pela Professora.
As limitações na expressão são minhas, qualquer riqueza que se reconheça nas palavras deixadas é deles.

2 respostas para “Avidya e Maya”

  1. Obrigado, este assunto era Maya para mim até o momento de sua explicação. Requer estudo.
    Obrigado por compartilhar sua experiência, aditya, pela seu poder de projeção, produção e criação.
    SAT NAM WAHE GURU!

  2. Excelente Miguel, profundo. Se eu entendesse sanscrito talvez ficaria mais facil de entender heehe. Abraços

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