Cakras e Kośas, Conheça

Bhūtaśuddhi, a purificação dos elementos

Bhūtaśuddhi, a purificação dos elementos, é um interessante procedimento do Yoga tântrico. Bhūta significa "elemento" e śuddhi quer dizer "purificação".

Escrito por Pedro Kupfer · 7 mins de leitura >
Purificação

A purificação dos elementos

Bhūtaśuddhi, a purificação dos elementos, é um dos procedimentos do Yoga tântrico. Bhūta significa ‘elemento’, embora também possa ser traduzido como ser, existência, produzir ou formar. Śuddhi é purificação ou limpeza.

O bhūtaśuddhi possui uma dupla finalidade: não somente purifica o corpo físico denso, mas também acelera o despertar da kuṇḍalinī. Os cinco elementos que constituem o corpo denso são éter, ar, fogo, água e terra.

Os elementos não devem interpretar-se em sentido literal: designam os estados etéreo, gasoso, ígneo, aquoso e sólido da matéria, estando ligados do mesmo modo aos cinco primeiros cakras.

Não está demais relembrar aqui que o homem é uma unidade psicofísica, e que, agindo sobre a fisiologia, estaremos agindo também sobre o psiquismo.

O bhūtaśuddhi é um conjunto de técnicas que potencializam o efeito produzido pelos outros exercícios. O propósito do bhūtaśuddhi é duplo: por um lado, limpam-se as nāḍīs, as artérias do corpo energético pelas quais circula a força vital.

Por outro, intensifica-se o fluxo do prāṇa por elas. Para tanto, dois pré-requisitos são necessários: intensificar os cuidados com o corpo (alimentação, hábitos saudáveis) e limpá-lo das toxinas segregadas pelo organismo em resposta às emoções negativas.

O bhūtaśuddhi fortalece e purifica as nāḍīs, outorgando ao praticante o nāḍīśuddhi, a limpeza do corpo sutil, aumentando a saúde geral, ativando o fogo interno e facilitando o controle da respiração. Inclui técnicas de ṣaṭkarmaāsana, yoganidrāprāṇāyāma, mantra, samyama, tapas e mauna.

sādhana diário é fundamental para desenvolver disciplina e força de vontade. Os ṣaṭkarmas, as técnicas de limpeza interna, estão indissoluvelmente ligados ao bhūtaśuddhi, sendo a sua prática condição sine qua non para atingir o antaḥkaraṇaśuddhi, a purificação psíquica  que vem junto com a dos elementos, que é uma condição necessária para mokṣa, a libertação.

A prática de āsana também pode incluir-se no bhūtaśuddhi: por um lado, facilita o despertar da kuṇḍalinī, tendo um efeito bem forte sobre o corpo energético, massageando e estimulando cakras e nāḍīs.

Por outro, atua sobre as glândulas endócrinas, o sistema circulatório e os órgãos internos, ao mesmo tempo em que fortalecem a musculatura e flexibilizam a coluna. Não esqueça por favor que, para o Yoga, não existe separação entre os corpos físico, sutil e causal.

A reprogramação mental e emocional do yoganidrā pode ser considerada um processo de limpeza psíquica: nele transcendemos as distrações e mantemos o foco e a calma.

A posição utilizada é o śavāsana, deitado no chão, da qual cada variação possui efeitos diferentes. Na posição decúbito dorsal, o indivíduo aceita e enfrenta seus desafios, deitar decúbito frontal sugere proteção, enquanto que a posição fetal, de lado, implica retorno à situação primordial do nascimento.

Em relação ao prāṇāyāma, existem três respiratórios que podem usar-se com finalidades específicas de purificação. Eles são: bhastrikā, antarkūṁbhaka  prāṇāyāma  e nāḍīśodhana. Afora eles, e na categoria dos ṣaṭkarmas, cabe ainda mencionar o kapālabhāti, a purificação das vias respiratórias.

Samyama, a técnica tríplice de concentração (dhāraṇā), meditação (dhyāna) e absorção (samādhi) é a parte mais sutil do processo da purificação. Porém, convém lembrar que esse processo inicia, mas não acaba. Considere esse antaḥkaraṇaśuddhi da mesma maneira que você olha para a higiene do seu corpo.

Tapas quer dizer  ascese, disciplina, auto-superação ou esforço sobre si próprio. Consiste em transcender pela força de vontade as limitações humanas naturais, fazendo jejum, mauna (jejum verbal) ou enfrentando certas provações que o próprio praticante se impõe, mas que não são necessariamente fisiológicas.

É uma das práticas mais arcaicas do Yoga, documentada no Ṛgveda (X:136), o texto mais antigo do hinduísmo, onde, mais de 6000 anos atrás, um hino nos dá a primeira descrição de ascetas yogis. Esses ascetas, chamados keśins, ou ‘de cabelos longos’ estão associados a Rudra Śiva:

O keśin possui a chama,
o keśin possui a seiva vital,
o keśin possui os mundos,
e todo o céu que pode ver-se.

O keśin é a luz. (…)

Elevados pelo tapas,
cavalgamos o vento.
Apenas nossos corpos são
visíveis para vocês, ó mortais!

Viaja pelos ares o asceta,
refletindo sobre tudo…

O ‘vôo’ aqui descrito é um dos poderes (siddhis) que despertam através da prática de tapas, que é uma das armas mais importantes no processo de aniquilação do saṁskāra, os condicionamentos e crenças.

Existem na Índia ascetas (sadhus) que se submetem a práticas extremas de tapas, como o ūrdhvabāhu (que consiste em manter o braço direito elevado durante doze anos); o pañcāgni (‘cinco fogos’: consiste em meditar durante oito anos entre quatro fogueiras, sendo o quinto fogo o Sol, que mantém no local uma sensação térmica próxima dos 50o C); ekapāda (ficar parado sobre uma perna só durante doze anos); e outras, não menos impressionantes.

Claro que não é a nossa intenção fazer esse tipo de procedimento. Fica registrado aqui a título de breve esboço de um dos aspectos do rico folclore do Yoga, mas existem outras formas de fazer tapas, muito mais sutis porém não menos eficientes.

Porém, assim como há poderes a descobrir-se no tapas, também há o perigo do exagero: “A liberação não se consegue apenas untando-se o corpo com cinzas, alimentando-se com casca de árvores e água, expondo-se ao frio e ao calor e fazendo coisas do estilo. Os burros e outros animais vivem completamente nus: acaso são yogis por isso? Não; por tanto, obtenha o verdadeiro conhecimento e evite o falatório desnecessário”, diz o Kularṇāvatantra, I.

“Uma linguagem que não fira, verídica, amigável e benéfica, o estudo regular das escrituras, tal é o tapas da palavra. A serenidade e clareza de espírito, a doçura, o silêncio, o autodomínio, a total purificação do caráter, tal é o tapas consciente.” Bhagavadgītā, XVII:15-16.

As práticas de tapas mais freqüentes e recomendáveis incluem jejum, mauna e treinamento do autocontrole em situações nas quais você considere que pode ou deve superar-se.

Mauna é o jejum verbal ou abstinência da palavra, que consiste em cultivar o silêncio em suas mais variadas formas. Não é apenas abster-se de falar, mas também de comunicar-se por gestos, fechando-se às influências do mundo exterior, experiência aliás bem interessante para se fazer durante 24 ou 48 horas.

Cada técnica trabalha sobre uma área definida do corpo, não apenas purificando-o por fora, mas também (e principalmente) por dentro, promovendo a limpeza total do organismo, indispensável para o progresso na prática.

A purificação dos elementos permitirá que os fluxos pránicos circulem livremente: “Quando o sistema das nāḍīs é purificado, o yogi torna-se capaz de conservar o prāṇa. Entretanto, o prāṇāyāma deve realizar-se com sattvikabuddhi (mente clara), a fim de expulsar os sedimentos da suṣumṇāṇāḍi”. Haṭhayoga Pradīpikā, II:5-6.

elementos

Aspectos práticos do bhūtaśuddhi

Fazer bhūtaśuddhi não é obsessionar-se com a perfeição fisiológica ou higiene dos elementos físicos, mas esforçar-nos para que a perfeição flua através dos nossos atos, mantendo sempre uma atitude positiva e aberta, evitando fechar-nos em fórmulas rígidas.

O importante é possuir mais disposição interior para viver e trabalhar, ser mais conscientes e superar-nos, mas sem que isso se transforme numa compulsão. A cada dia oportunidades nos são oferecidas para aprender a superar-nos: não as deixemos passar.

Propomo-lhe aqui três pequenas práticas de bhūtaśuddhi dos elementos, que podem ser feitas em todo ou em parte, ao acordar, ao deitar e ao longo do seu dia. Você não empregará ao todo mais de 20 minutos para fazê-las, mas sentirá imediatamente seus efeitos sobre o seu dia-a-dia: mais disposição, mais energia, mais saúde, melhora na qualidade do sono e no estado de ânimo.

Rotina ao acordar

Esta pequena rotina pode ser feita ao acordar. Não nos levará mais de 10 minutos, podendo incluir algumas das seguintes sugestões:

  • Espreguiçar-se e alongar-se bastante antes de sair da cama. Repare que os gatos, mestres na arte do alongamento, jamais saem andando imediatamente depois de acordar. Sem pressa, dão uma bela esticada de braços, pernas e espinha.
  • Fazer uma pequena meditação matinal, mesmo que seja de alguns poucos minutos. Em caso de falta de tempo, é melhor meditar pouco do que deixar passar esse momento em branco.
  • Tomar uma ducha fria ou banho alternado. O banho alternado consiste em tomar uma ducha na qual intercala-se um minuto de água fria, um minuto de água bem quente, um de fria, um de quente, alternando assim seis ou sete vezes, começando e terminando com água fria.
  • Executar alguns ciclos de kapālabhāti, a purificação respiratória do sopro lento.
  • Fazer uḍḍīyanabandha antes e depois de ir ao toalete.
  • Em caso de constipação intestinal, beber dois ou três copos de água e fazer algumas torções para ativar o trânsito intestinal.
  • Semanalmente, fazer neti ou dhauti, a lavagem das narinas ou a do aparelho digestivo, de acordo com as necessidades do próprio corpo.

Rotina para facilitar a jornada de trabalho

  • Manter o bom astral, o bom humor e uma atitude positiva nas relações com todas as pessoas do nosso convívio: o trabalho precisa ser prazeroso e realizador. Nesse sentido, cultivar o sorriso também ajuda.
  • Ser prestativo, evitando postergar qualquer tarefa.
  • Cultivar a atenção de forma a transformar tudo o que fizermos em exercício de concentração, realizando as tarefas muito conscientemente e da melhor maneira possível.
  • Manter constantemente a consciência no fluxo do ar, utilizando a respiração completa com ritmo ou outros respiratórios discretos.
  • Evitar a dispersão e gastos inúteis de energia planejando bem as tarefas antes de executá-las, evitando saturar-nos com uma atividade só.
  • Quando for preciso aguardar em qualquer situação, fazer mentalização.
  • Almoçar da forma mais sadia e frugal possível, evitando comer demasiado para não ficar com sono à tarde.
  • Permanecer atentos aos sinais que o corpo nos envia, utilizando seus recursos da forma mais sábia.
  • Quando tivermos que sair, fazer prāṇāyāma ao andar.
  • Prestar atenção à coluna vertebral, mantendo-a sempre ereta, tanto ao permanecer em pé quanto sentado.
  • Não deixar passar a hora de ir ao toalete.

Rotina para antes de dormir

Esta rotina de 10 minutos pode incluir as seguintes técnicas:

  • A quantidade ideal de sono é entre sete e nove horas. Evite dormir demais, ou demasiado pouco.
  • Dormir em cama inclinada, elevando levemente (de 10 a 15 cm) os pés posteriores da cama de forma que a cabeça fique abaixo do nível das pernas, para favorecer a circulação sangüínea na parte superior do tronco. A cama inclinada está contra-indicada para pessoas com hipertensão ou problemas cardíacos.
  • Tomar um banho bem quente, para relaxar e descarregar-se do dia.
  • Fazer nāḍīśodhāna, respiração alternada em paścimottānāsana, flexão sentado, e depois lolāsana (o movimento de balanço sobre as costas, massageando, relaxando e vitalizando a coluna), e concluir com uma invertida sobre os ombros ou a cabeça.
  • Não esquecer da meditação final, mesmo que seja curta.
  • Fazer yoganidrā com mentalização, encerrando-o antes de adormecer.
  • Dormir em uddhāraśavāsana, de bruços, para descansar melhor.
  • Deitar antes da meia-noite. Evitar dormir com mãos e/ou pés frios.

॥ हरिः ॐ ॥

+ práticas aqui
Nesta breve aula (em inglês), a Dr. Nalini Sahay
explica os princípios básicos do bhūtaśuddhi,
a purificação dos elementos

4 respostas para “Bhūtaśuddhi, a purificação dos elementos”

  1. Maravilhoso, claro e motivador, todo conteudo deste texto , gratidão pela partilha do ensino! que o saber seje luminoso e realizador a todos que se dispõe deste ensino!
    Namaste!

  2. Gratidão pelo site inteiro, é perfeito, como somos todos em Deus.
    O Yoga está dentro de nós, faz parte da nossa Natureza e é o presente de Deus para Seus filhos Amados.
    Como disse Paramahansa Yogananda, Deus possui um desejo. Deus deseja ardentemente que voltemos para Seus braços, pois sem nosso Amor ele não pode ser feliz.
    Que jogo bonito de se jogar, quanta Alegria e Gratidão! Que possamos todos usufruir da Bênção que é nossa desde o início de tudo!
    OM TAT SAT

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *