Pratique, Yoga na Vida

Cadê a união?

Me entristece o coração ver a forte desunião que se instalou entre as comunidades de Yoga de nosso querido país. São discursos e mais discursos, cada um buscando ser mais eloqüente que o outro

Escrito por Ana Paula Malagueta Gondim · 3 mins de leitura >

‘ Toda ciência que não se ocupa da Libertação é inútil’ Rajamartanda, IV: 22

‘Fora Isso, nada merece ser conhecido.’ Svetasvatara Upanishad, I:12

Me entristece o coração ver a forte desunião que se instalou entre as comunidades de Yoga de nosso querido pais. São discursos e mais discursos, cada um buscando ser mais eloqüente que o outro, ser mais convincente que o outro, e no fim, cada um com suas devidas razões, às vezes bem fundamentadas outras vezes sem base nenhuma para argumentação, não conseguem entrar em um consenso.Porém, o que me entristece mais não são esses discursos, afinal, todos nós temos a plena liberdade de expressão e como yogis, temos e devemos praticar a elucidação de todos os fatos e conhecimentos aprendidos.

Mas o ponto principal é o motivo de tudo isso e para quê? Para simplesmente provar qual é a melhor escola, qual a mais errada, quem é enganação e quem não é, quem tem a razão e quem não tem, e por aí vai a lista se extendendo sem fim.

São utilizadas das mais baixas ofensas para retirar o crédito de algum mestre, professor, escola ou método, tudo isso para mostrar que aquele que está com a vez da palavra tem a razão. Será que tem mesmo? E se tiver isso nos levará para aonde?

Lógico que é importante sabermos onde estamos nos metendo, com quem estamos praticando, se é algo verdadeiro ou fora dos princípios, mas afora disso…

Novamente, meus olhos se enchem de lágrimas vendo o quanto de nosso precioso tempo na terra está sendo disperdiçado em debates que não vão elevar ninguém ao estado de samadhi, e muito menos, próximo a libertação.

No fundo, não importa quem tem razão, qual ‘ método de Yoga’ é o certo, o melhor, o mais sensacional; o que importa é que exista esse Yoga disponível para a humanidade nos dias de hoje, e que seja essa, a ferramente escolhida por muitos para se buscar o profundo conhecimento do Ser, sua própria identidade. Chame como quiser, atman, purusha, o importante é querer conhecer o Ser, e sair do sofrimento designado ao ser-humando desde o dia de seu nascimento pela ignorância da falta de conhecimento de Si. Tudo aqui gira em torno do conhecimento, da busca, da verdade, da união com o divino, ou seja, o Ser, imútavel.

Por isso o mais importante é que ao invés de perder tempo disputando quem vai ganhar o prêmio de melhor e mais verdadeiro Yoga do momento, que você sente pratique e descubrar por si só, através de suas vivências e experiências, nada mais puro e verdadeiro.

Como pode algo que faz parte dos seis darshanas da filosofia hindu e um meio que possibilita a busca do ser humano ao autoconhecimento, se tornar algo tão separativista, que separa as supostas escolas de Yoga, nomes, professores e mestres? Como algo com uma proposta tão nobre pode criar tantas desavenças? Algo que no próprio nome carrega o significado de unir, como pode separar e desagregar? Sendo que se você buscar estudar as escrituras e ouvir os mestres (e se isso não for possível), ler as autobriografias disponíveis de tantos mestres iluminados, verá que essa distinção e separação de ” Yogas” nunca existiu.

O que sim existia era um caminho a ser trilhado em comum, em direção a um único lugar, moksha. Sendo que as flores a serem utilizadas para a remoção das pedras no meio do caminho, podiam variar de cor, de forma e até mesmo de paisagem, dependendo do momento vivido pelo praticante e de seu estágio evolutivo no Yoga; uma hora essa flor poderia ser uma gardênia, ao Hatha Yoga, e um outro momento desabrochar em uma margarida e você se dedicar a devoção, ao Bhakti Yoga, em outro, numa tulipa, praticar seva, e outras formas de Karma Yoga, num outro estágio, sentir a necessidade de somar a tudo isso, o dhyana, a meditação, a contemplação, e assim continuar sem maiores problemas seu sadhana, seu caminho, com o mesmo Yoga no coração, Yoga esse que é um só.

Mas o que me alegra o coração e me permite continuar sem me abalar com essas brigas, desavenças (que leio na internet) falta de união e entendimento é sentar para meditar e sentir que não há separação em nenhuma dessas formas de expressão do Yoga: não há Iyengar Yoga, Ashtanga Vinyasa Yoga, Power Yoga, Svásthya, Hatha Yoga, Kundaliní Yoga, etc… há sim um Yoga único, se expressando de diversas formas em diversos momentos do meu caminho, só isso. Todos são ótimos para alguém em determinado momento. Há uma união plena entre eu e a natureza ao meu redor, e um único trilhar, uma única meta.

Sinceramente espero que todos possam sentir isso, independente da forma que a pessoa escolheu para expressar o seu Yoga, a sua forma de praticar e sentir essa linda forma de viver melhor em plena comunhão, pois tudo é pleno, dentro e fora. Que seja compreendido que não há separação entre todas essas ‘ modalidades de Yoga’ e sim diversas formas que podem muito bem somar e contribuir para um desenvolvimento melhor do indíviduo num caráter holístico, sem irmos para um caminho distante daquele proposto e tantas vezes repetido nas escrituras, por Krishna, por Patañjali, por Krishnamacharya, Sivananda e tantos outros.

E sim, um mesmo caminho, um mesmo trilhar lado a lado, independente da crença, do nome, do status, apenas o mesmo buscar, a mesma intenção de evolução e transformação espiritual de mãos dadas, de coração aberto, com amor e paz no coração; sem palavras de agressão, sem armas na mão e muito menos segurando como um balão o ego inflado pelas práticas que desviaram de seu intuito original.

Om shantih!

Ana Paula é yogini e professora em São Paulo.

14 respostas para “Cadê a união?”

  1. Aninha, achei seu artigo muito bonito e demonstra uma intenção muito nobre. Porém, discordo quando se refere à desunião como uma situação desencadeada agora com esse debate.

    Ao que me consta esta desunião ocorre há tempos e sempre que pessoas desqualificadas e algumas vezes, mal intencionadas se apropriam de conhecimentos e os desvirtuam dos propósitos para os quais foram criados, por conveniência ou ignorância.
    O intuito ao se colocar esse tipo de questionamento é justamente o de manter a integridade dessa cultura para que sua essência não se perca nessas formas deturpadas. Infelizmente a história da sociedade não é tão romântica como nos contos de fadas, e as mudanças muitas vezes se fazem em meio a choros e ranger de dentes. A desunião já estava ocorrendo “debaixo do tapete” para alguns que não tinham olhos para ver. A diferença é que agora ela veio à superfície, melhor assim não? Mesmo que desconfortável aos nossos olhos, pode ser que amanhã os nossos netos possam usufruir de uma união verdadeira dentro do Yoga, ao menos sem riscos de serem violentados dentro da própria sala.
    Todos queremos paz! Mas uma paz verdadeira, estabelecida na verdade.
    Um abraço grande!
    Cris

  2. Ana Paula e amigos,

    Eu diria: deixe que cada um siga o seu caminho e descubra a sua verdade. Se um dia nos encontrarmos então não importou o caminho … se não nos encontrarmos é talvez porque ainda não chegamos.

    Namastê!

  3. O YOGA É UMA VERDADE REVELADA, POR ISSO SE FALAM MUITO SOBRE A MESMA COMO UM CONHECIMENTO, DANDO DIVERSAS INTERPRETAÇÕES QUE SE DIVERGEM, MAIS O YOGA TEM QUE SAIR DO CONHECIMENTO, E IR PARA O AUTO-CONHECIMENTO, OU SEJA PRATICAR, EXPERIMENTAR PARA SENTIR E SER, OU SEJA PASSAR A SER UMA VERDADE EXPERIMENTADA, QUANTO A ESSA NÃO EXISTE DIVERGENCIAS, POIS TRANSCENDE AS PALAVRAS, PENSAMENTOS E IDEIAS, POIS SE TORNA UNA COM AS ENERGIAS CRIADORAS DO UNIVERSO.

  4. Power Yoga , Ashtanga Vinyasa Yoga, Iyengar yoga, Ashtanga yoga , Sivananda Yoga, Dakshina Tantra Yoga, Vidya Yoga, Yogaterapia,Yoga integrativa, kripalu Yoga, kundalini Yoga, Yoga nataraja, Sahaja Yoga, Bikram?s Yoga, Hatha Dinâmica, dinanic Yoga, Hatha Vinyasa Yoga, Pre & Post-Natal Yoga, Yin-Yang Yoga, Surya Yoga, Prana Shakti Yoga, Satyananda Yoga, vinyasa Yoga, Yoga hormonal, Alinhamento e Meditação Yoga, Viniyoga,Yoga para gestantes, Yoga terapia hormonal, sattva yoga , Vinyasa Flow , Yoga Dance, Disco Yoga, Yogilates, Sonic Yoga Flow, Medieval Yoga, Yogic Arts, Acqua Yoga e não poderia faltar o famoso Yoga Bunda pra deixar sua bunda bem durinha.
    bem depois de 3 minutos de pesquisa no google isso que encontramos e você ainda pergunta cadê a União?
    Infelizmente o Yoga está na moda , moda gera dinheiro, dinheiro gera marketing e ai vai. mas a moda passa assim como a banana passa.
    Haribol!

  5. Namaste!
    Andei conversando com uns professores amigos e resolvi complementar meu texto:

    É claro que todas as pessoas tem direito a falar, agir e ser como bem entender, praticantes ou não de yoga. Mas é nosso dever como alunos e principalmente professores agir de acordo e tendo em mente os yamas e niymas, indiscutivelmente, afinal, como Patanjali postulou, faz parte dos 8 caminhos do yoga.
    Então, nessa pandemônio que se estabeleceu de desunião, difamações e afins e inadimissível que um professor de yoga se posicione contra outro companheiro de caminhada deixando e se esquecendo da existência do SATYA e do AHIMSA. E aí veio uma questão a tona: O que fere mais, a espada ou a pluma?
    O Ahimsa não é esquecido ou violado apenas com as armas que se utiliza para ferir alguém ou toda uma comunidade de yoga ou quer que seja, mas começa a ferir a partir do momento que você já pensou nisso, e mentalmente colocou a agressão em prática.
    Então, aqui fica a idéia inicial do texto, o propósito que me fez escrevê-lo, que era que iluminemos um pouco mais nossos corações ( que estão sujeitos a provações todos os dias, a falhar e a errar) e tentar colocar um pouco mais de santosha, de ananda, de entendimento e compreensão e agir sempre pensando, falando e sendo shanti, a todo momento sempre que possível. Mesmo que em nossa volta tenha pessoas diferentes, formas diferentes de expressão, etc… tentar argumentar, debater sem que seja necessário esquecer-se do satya e do ahimsa, nunca se esquecer!
    Afinal, todos estamos no processo do autoconhecimento, e buscamos uma evolução, buscamos ser melhor. Eu também estou aprendendo, estou tentando a todo momento!

    Então vejo nisso tudo uma ótima oportunidade para colocar o YOGA em prática.

    Pois só assim estaremos sendo honestos com os mestres e professores que nos sucederam…

    Om shantih!

  6. Olá Márcio,

    Obrigado pelo comentário! E no meu texto não tive interesse de citar nenhum nome, nenhuma modalidade, pois não queria incentivar mais ainda o que já tem de monte por aí. Você vai encontrar bastante namarupa pelas comunidades de yoga no orkut, e tenho certeza que o nome aos bois que você queria, encontrará por lá.

    Muita felicidade, paz e yoga para você.

    Namaste!

  7. Tenho dois comentários a fazer: primeiro, acho que a principal virtude do Yoga, o que mais me agrade nesse caminho fantástico é justamente o seu caráter pessoal, privativo, não comunitário e não institucional.

    Se tenho um mestre realizado e o sigo com afinco, buscando sinceramente a perfeição, pouco importa se há ou não uma “comunidade yogi” ou se o prof. Fulano está implicando com o Prof. Beltrano – ou mesmo se Sicrano se declara o maior mestre nos três mundos (que Rudra lhe seja piedoso).

    Todo caminho de salvação que se institucionaliza e vira um organismo social acaba por se corromper. Graças aos céus, no Yoga não há títulos ou ordenações que importantem – importa apenas a realizaçã suprema, moksha.

    A outra coisa é a falta de nomes aos bois, a pretensa observância de ahimsa servindo de anteparo à pusilanimidade. Quem está ofendendo? Quem não age de acordo? Quem foi que falou que ao yogin é vedada a indignação e a crítica direta e baseada nos fatos?

  8. Ana Paula,

    Concordo com suas colocações sobre esta desunião forte que se instalou entre as diferentes comunidades de Yoga. Sou uma novata, mas muito apaixonada por isso tudo e me entristece ver tamanha troca de ofensas em torno de algo que não deveria ser nada além do que UNIÃO. Mas temos que ser bem cautelosos com estas colocações, pois há muitos que levantam a bandeira da paz, porém atiram a pedra por trás, caluniando de forma desonesta àqueles que há anos estudam, defendem e propagam esta filosofia tão linda!

    Acho que acima de tudo deve-se ter respeito com os que há anos se dedicam ao Yoga, pois são estas pessoas que fizeram com que nós mais novos tivéssemos a oportunidade de conhecer e aprender esta filosofia, tão difundida no Brasil e no mundo.

    Temos que fazer com que o Yoga resista aos modismos da vida moderna e continue forte em nosso país e no mundo, porém isso apenas acontecerá se nos tornarmos uma UNIÃO. Não dizem por aí que a beleza está nas diferenças? Então, porque não ser desta forma?
    Obrigada pelo espaço,

    Tatiana.

  9. Ana,

    não acho que você deva se entristecer com isso, cada um tem seu modo particular de enxergar as coisas e a revolta é um processo natural daqueles que se sentiram “enganados”. Acho que a expressão em comunidades, em sites, e-mails ou o que quer que seja é um modo das pessoas falarem e as pessoas sempre falaram o que querem, independente de serem yogins ou não.

    Aliás, acho incrível esse tipo de postura em relação aos praticantes de Yoga, eles estão livres para errar, concordo com o que você fala e completo meu raciocínio: um yogin pode errar, só não deve insistir no erro.

    Entretanto, isso é um exercício constante, o samadhi, quanto apego ao samadhi minha gente, o samadhi é uma consequência. Então me diga, esperar por algo, ansiar para que algo assim aconteça não seria viver fora do presente? Não vamos julgar, vamos ser felizes agora, praticando ou não praticando Yoga, melhorar como ser humano é objetivo de vida de todos e isso deve ser sempre lembrado!

    Já dei aula de Yoga, já estive nos dois lados, de quem reclamou e depois de quem se deu conta que a sua atitude não era a mais positiva. Isso fez de mim uma pessoa melhor, foi um esclarecimento assim como tantos outros que eu, fora dos conceitos de perfeição, me permito ter. Vamos ser humildes ao invés de nos entristecer com as atitudes dos outros.

    A filosofia do Yoga é uma só e quem continua brigando está perdendo a melhor parte, assim como quem está preocupado com os “rumos” da história, deixa tudo correr no seu fluxo natural e não tente controlar o curso do rio, ele corre sozinho, não precisa de ajuda.

    Um abraço a todos, que eu vou seguir tocando minha vidinha.

  10. Falar de Yoga é fácil, o dificil mesmo é praticar / viver Yoga. A partir do momento em que deixarmos de julgar e passarmos a praticar, vivenciaremos a União, o Yoga. Tudo ficará claro e não nos importaremos mais com o caminho e sim com o objetivo, que é o mesmo, independente do caminho.

    Ana, não fique com o coração triste, se alegre, pois você pode enxergar o que muitos ainda não podem. Cada um tem o seu momento.
    Que possamos sempre compreender e aceitar, mas nunca deixar de viver e praticar o Yoga.

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