Conheça, Vedānta

Como funciona o Vedanta?

Nenhuma experiência especial dará a revelação de atma, pois atma é e atma está em todas as experiências. Por isso, é inútil buscar alguma experiência mística, transcendental ou misteriosa, que iria acontecer em algum lugar especial

Escrito por Swami Dayananda Saraswati · 3 mins de leitura >

Da raiz vid, que significa ‘conhecimento’, derivam muitas palavras: Veda, Vedanta, vidvan, etc. Os Vedas não podem objetificar atma, o Ser, pelo fato deles serem compostos de palavras. O que acontece é o oposto: as palavras vaidikas é que são objetificadas por atma.

Nenhum meio de conhecimento pode objetificar atma. Nenhuma experiência especial dará a revelação de atma, pois atma é e atma está em todas as experiências. Por isso, é inútil buscar alguma experiência mística, transcendental ou misteriosa, que iria acontecer em algum lugar especial.

A luz revela o livro. As palavras do livro são reveladas para os olhos. Os olhos as revelam para a mente. Que luz você precisa para ver a luz? Precisa mesmo de alguma luz? Você não usa uma lanterna para iluminar o sol. O sol brilha com luz própria, é auto-efulgente. Você não precisa de luz para ver a luz. A luz revela a si mesma. Atma é a luz da consciência.

Atma, auto-revelado, pode ser confundido com qualquer outra coisa se tentarmos objetificá-lo. Portanto, sem o meio de conhecimento adequado, você comete erros e mais erros. É aí que a ajuda do Veda é providencial para corrigir esse erro gnoseológico. E as palavras, somente elas, irão assim revelando o conhecimento de atma. O Veda é um pramana, um meio de conhecimento para atma.

Este é um exemplo clássico que o sábio Sanatkumara usa no Mahabhárata: ele evoca a imagem da lua, no primeiro dia após a lua nova. Nesse dia, a lua forma um arco muito ténue no céu, quase imperceptível. Se você quiser mostrar essa lua para alguém, é preciso usar um determinado método.

Esse método é apontar para o céu onde a lua está, usando alguma referência indireta, já que seu dedo não consegue ser tão preciso. Assim, você usa como referência por exemplo, um galho de uma árvore que esteja apontando para a lua, e você pede para essa pessoa olhar para a árvore. Depois, você pede para olhar para aquele galho específico. E, finalmente, olhar para o céu no prolongamento desse galho, para ver a lua.

A lua é atma, a árvore e o galho são as palavras vaidikas, que apontam para a lua. As palavras vaidikas são lakshanam, indicadores que apontam para atma. Os ramos da árvore são úteis para apontar para a lua. As palavras dos Vedas são importantes para apontar para atma. Elas são o pramana, são o meio de conhecimento adequado para se conhecer o atma.

Você conhece satyam como algo que existe no tempo. ‘Você viu é? ”É o que?’ ‘Você reconheceu o conhecimento?’ ‘Que conhecimento? O conhecimento do que?’ É, é satyam. ‘Você vê ilimitado?’ ‘Que ilimitado?’ Atma não pode ser reduzido em palavras. Palavras podem apontar para ele, mas nunca conseguirão descrevé-lo, assim como o ramo da árvore pode apontar para a lua, sem ser ela. Sendo as palavras indicadores, elas não têm significado se não apontarem para algo. Isso deve ficar muito claro para nós.

Tudo o que pode ser conhecido pelos meios de conhecimento convencionais é anitya, não eterno. A causa da criação inteira é Brahman. Você é Brahman, tudo o que você vê não está separado de atma. Enquanto que quem vê é atma, aquilo que é visto não é atma, embora atma esteja naquilo que está sendo visto. O ramo da árvore é útil para apontar para a lua, mas seria estupidez confundí-lo com ela. É assim que se ensina o Vedanta. Nenhuma outra forma de conhecimento usa tal método.

Sobre a importância do mestre.

Sanatkumara continua dizendo que, se você quiser reconhecer o brahmana de verdade, precisa prestar atenção em certos sinais. Aquele que é capaz de ensinar corretamente a visão dos Vedas, como a pessoa que aponta para a lua usando a ajuda do ramo da árvore, é o verdadeiro brahmana. Apontar para a lua usando o ramo somente funciona se você já sabe onde ela está. Sem saber apriori onde a lua está, os galhos da árvore são inúteis para apontar para ela. Essa é a limitação de usar apenas as escrituras, sem a ajuda de um mestre versado nelas para compreendé-las.

Todos os Vedas compartilham uma visão e são capazes de revelar o conhecimento quando corretamente usados. A pessoa de visão clara sabe como usar as escrituras para apontar para o conhecimento sobre atma. Esse é o brahmana de fato. Assim como o ramo da árvore, o Veda é o meio de conhecimento, mas ele não revela nada por si mesmo. É precisa a ajuda de um professor competente para nos guiar nesse processo.

* Satsang concedido por Pujya Swamiji no Ashram de Rishikesh, em 21 de março de 2007. Transcrito e traduzido por Pedro Kupfer. Quaisquer erros ou omissões, involuntários, devem ser creditados na conta kármica do transcritor/tradutor. Namastê!

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Swami Dayananda Saraswati em Conheça, Vedānta
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