Conheça, Tantra

Confissões de um tántrico

Após haver convivido por alguns anos com as mais diversas espécies de pessoas no mundo do Yoga, a gente fica com a nítida sensação de estar num zoológico

Escrito por Pedro Kupfer · 4 mins de leitura >

Após haver convivido por alguns anos com as mais diversas espécies de pessoas no mundo do Yoga, a gente fica com a nítida sensação de estar num zoológico. Dentro desse zoológico, ocupa lugar de destaque uma sub-espécie bem curiosa: os “tántricos”.

Com freqüência achamos no nosso meio três tipos de pessoa que aparecem vinculadas ao que se conhece como tantrismo:

1) professores que, na tradição hindu, são chamados jñanabandhus, ou ‘amigos do conhecimento’. Estes são intelectuais diletantes, que possuem muita informação mas nenhuma vivência em relação ao Tantra;

2) praticantes que mergulham nas experiências sem ter muita noção de onde estão se metendo e com que tipo de realidade estão lidando; e

3) mequetrefes de todo pêlo e espécie, desde aqueles que prometem a iluminação e a solução de todos os problemas sexuais em workshops de fim-de-semana até ministrantes de cursos de “nudismo tântrico consciente” e outras versões não menos caricatas do Tantra.

Sempre tive uma desconfiança enorme em relação ao contexto em que às práticas sexuais do Tantra poderiam ser aprendidas, pois tudo o que achei nesses ambientes foi safadeza, marketing, mentira e promiscuidade.

Não estou dizendo que não existam praticantes sinceros e honestos de Tantra, mas estou somente registrando aqui que, pessoalmente, nunca achei ninguém que me convencesse, ou que achasse digno representante da elevada estatura desse corpo de conhecimento que é o Tantra e que ao mesmo tempo, colocasse em prática seus ensinamentos.

Embora as práticas que o Tantra postula em relação à sexualidade como caminho para a transcendência e o desabrochar de espiritualidade sempre tenham exercido um forte fascínio sobre mim, me deparava com a dificuldade em encontrar alguém que estivesse realmente qualificado para transmitir estes conhecimentos.

Por esse motivo, associado aos outros que descreverei mais abaixo, descartei totalmente as práticas sexuais tântricas, embora não tenha acontecido o mesmo com as meditações, os mantras ou o estudo dessa filosofia, que continuou a me interessar bastante.

Como admirador da cultura do Tantra, sempre li com imenso respeito os textos que falavam sobre a transcendência dos opostos através do casamento sagrado (hieros-gamos), a saída da condição humana, a realização da condição divina nesta vida, a quebra dos tabus e o uso da sexualidade como meios para alcançar o estado de transcendência.

Porém, quando comparava as descrições dessas práticas com minha própria experiência dentro do meu ex-casamento, a sensação era da mais completa frustração e, no fundo, ficava me perguntando se o estado de deificação do ser humano descrito nos Tantras não seria apenas uma hipérbole, um daqueles tremendos exageros dos quais os textos tradicionais da Índia estão cheios.

Enquanto que nos Tantras fala-se do(a) parceiro(a) como personificação do deus ou da deusa, eu não podia deixar de sentir as pequenas dificuldades do cotidiano dentro daquele casamento como obstáculos intransponíveis, que inviabilizavam qualquer tentativa de tornar essa relação divinal, transcendental, ou sequer medianamente feliz.

O tempo passou, aquele casamento acabou e a luz chegou, através do amor de alguém muito especial que surgiu como um presente celestial na minha vida: Ângela Sundarī, com quem casei em 2006 na Índia.

Através do lento e profundo processo que iniciamos com minha amada esposa no sentido de nos conhecer aos poucos, fomos descobrindo dentro de nós mesmos uma confiança, uma entrega e um respeito mútuos que formaram a base sobre a qual construímos nossa vivência.

Descobrimos que nosso guru seria a entrega incondicional, a entrega sem questionamentos, julgamentos ou condições. Tampouco entrariam no jogo coisas como informação intelectual, preconceitos, condicionamentos ou comparações. Nem sequer passou pelas nossas mentes a idéia de que estariamos fazendo algo parecido com o viparīta maithuṇā, a prática sexual do Tantra. Apenas começamos a fluir e nos observar.

Teria muitas coisas para dizer sobre a descoberta das sensações, o prazer, e a formidável cura que isso produziu nas minhas feridas antigas, mas vou poupar os detalhes. No presente, todo e qualquer contato entre nós é uma meditação contínua. Tenho meditado regularmente há alguns anos já, com algumas vivências consistentes, e posso dizer que a qualidade dessas nossas meditações conjuntas está entre as mais profundas que já fiz.

Pelo mesmo motivo que poupei mais acima os detalhes sobre a técnica e a relação sexual em si, desisto de tentar descrever as vivências meditativas. De qualquer maneira, é muito difícil descrever com palavras tais estados.

O que posso afirmar, agora, é que estou me curando. Saí do casamento anterior com algumas feridas, mas agora percebo como estou conseguindo, aos poucos e com a ajuda de Sundarī, sarar total e definitivamente.

A lição mais importante que minha amada e eu aprendemos neste processo é que o amor incondicional vem em primeiro lugar e deve ser o guia. O resto é apenas uma conseqüência. Pelo menos, essa foi nossa experiência. Sem a entrega que só o amor incondicional é capaz de dar, a relação estará sempre sendo poluída por influências exteriores e, conseqüentemente, os parceiros impossibilitados de sair do plano meramente sexual, um masturbando-se no outro.

vox populi entre os estudiosos do Tantra que é preciso praticar o desapego (vairāgya) durante o ritual pañcamakāra, em cujo contexto acontecem as práticas sexuais. Isso, concretamente, significa que não deve haver nenhum tipo de envolvimento emocional entre os parceiros durante a prática. A idéia é produzir um estado de choque no praticante de modo que, através da ruptura dos tabus, ele se coloque para além das dualidades e que entre, dessa maneira, no estado de consciência unificada.

Considerando válidas as afirmações acima, não posso dizer então que nossa vivência seja considerada viparīta maithuṇā (a prática sexual tântrica), e muito menos Tantra com maiúscula. Não obstante, se formos considerar que o Tantra é uma ferramenta que utiliza as forças corporais, energéticas e mentais para nos curar dos padrões impostos pelas nossas próprias limitações inatas (avidyā) e pela sociedade, para podermos desenvolver nosso potencial psico-espiritual, então, o que Sundarī e eu estamos vivendo é Tantra mesmo.

Então, estou escrevendo este depoimento para dizer aos amigos praticantes que é possível completar o processo da cura através do amor e suas expressões físicas. Se você quiser chamar isso de Tantra, tudo bem. Se preferir chamar por outro nome, tudo bem também. Namastê!

8 respostas para “Confissões de um tántrico”

  1. Namaskar!

    Na minha recente experiência com as práticas tântricas posso dizer que já vi algumas que realmente estão longe de sê-lo. Contudo, o tantra é liberdade e expansão, algo raro de ser ver no ser humano atual.
    Utilizo no meu espaço a massagem tântrica básica, somente com os movimentos sutis, para auxiliar o ser na sua caminhada, num processo de realmente doar amor, sentimento nem sempre recebido desde a infância. Após o período de aceitação de si mesmo e da possibilidade de amar sem medos, a pessoa passa às práticas mais individuais de tantra Yoga, respiração, enfim.

    De fato, o amor é a base fundamental, tanto na terapia como na relação a dois. Sem ele, expansão não é possível!

    Namaskar!

  2. Pedro,
    concordo com teu ponto de vista. Seja este ponto de vista tántrico ou não, na minha experiência pessoal, o grande poder para a fusão homem mulher é um amor intenso e profundo, e quanto mais puro e sublime, mais eficaz.
    Desde uns 30 anos, tive algumas parceiras com as quais fui capaz de viver estados de fusão e transcendencia dentro da relação sexual ou apenas dentro de situações de namoro e contato corporal.
    Ou mesmo, em vivências solitárias de meditação pude sentir estados de encontro e fusão com a mulher amada, num mundo puramente espiritual, que me trouxeram a evidência pessoal que aquilo ao qual o tantra aponta nasceu de vivências humanas espontâneas.
    Se os rituais levam ou não ao estado, não posso dizer. Creio que tudo depende do nivel de aspiração e pureza do praticante.
    E, fora de qualquer ritual, o amor profundo entre homem e mulher, aliado a uma intensa aspiração espiritual, vivida ao longo de anos, pode, em momentos fora do nosso controle, abrir portas de fusão e transcendencia que nos deixam cheios de gratidão pela vida, pelo amor e pela mulher amada.
    Muitas vezes tive a oportunidade de meditar junto, olhos nos olhos, com a mulher amada e tive vivências espirituais muito intensas e felizes.

  3. Pedro,

    Sua confissão é de suma importância, pois a mídia explora o ensinamento do Tantra, vendendo um superorgasmo, e chama isso de sadhana! Eu fiquei muito feliz com esse seu artigo, porque fica claro que você experimentou seriamente, que se entregou à prática tântrica do maithuna e, como eu e muitos outros, observou a dificuldade em se entender e descobrir o que exatamente é o tantra-maithuna! Pratiquei a união sexual “tântrica” por oito anos, e tive experiências maravilhosas e outras nem tanto, inclusive um período de insanidade, que me fez observar o que significava realmente o “perigo” de kundalini. Hoje invisto arduamente na meditação, praticando de 6 a 8 horas de meditação sentada por dia. Recentemente, me envolvi em um relacionamento que me trouxe um novo horizonte sobre o sexo tântrico, e a capacidade de unir as técnicas meditativas com o sexo é uma habilidade real, possível e empírica, mas que nada tem haver com os artigos, livros e matérias que saem a respeito do Tantra!

    Penso que infelizmente não se pode confiar em nada que sai no mercado sobre o assunto, já que o mercado visa lucro, e as mentes ocidentais estão longe de entender a paixão (ardor espiritual) e desprendimento que exigem essa prática milenar!

    A meditação talvez seja o único caminho para a percepção do que se propõe o Tantra, e gostaria de deixar uma dica simples para dar o ponta pé inicial: a varredura corporal, ou seja, movimentar a atenção focada por todo o corpo, estudando as sensações físicas de cada centímetro, de cada parte, estudando a relação que essas sensações têm com o pensamento e as reações da mente diante de cada sensação, até que possamos estar cientes de como somos viciados em sensações agradáveis e como fugimos das desagradáveis. Sem compreender esse processo, a prática de maithuna ficaria completamente comprometida, já que não faria outra coisa senão reforçar o condicionamento básico de avidez e aversão e de ignorância sobre o corpo e a mente! Claro que isso é a minha opnião, pois isso estudei em meditação, e, com os anos de sexo tântrico, afirmo que é um caminho válido, mas cheio de perigos e enganos! É como dançar sobre o fio de uma navalha! E, no entanto, enquanto morre-se um pouco a cada dia, pode a vida se manifestar com beleza e sabedoria!

    Felicidades, Pedro, parabéns!

    Que todos os seres sejam felizes!

  4. Apesar de linda dissertação sobre amor e união, devo dizer que Maithuna só é utilizada no Vama Krama tântrico. No Dakshina Tantra, as experiências de êxtase são apenas uma vivência, que podem algumas vezes nos ajudar a ter a consciência de quem somos e perceber que a felicidade não é algo a ser buscado fora, mas dentro de nós, pelo equilíbrio dos chakras, vivendo então a plenitude do ser, vivendo na dualidade mas consciente da unidade. Lindo de se falar, difícil de se conseguir. Tanto que o símbolo do Dakshina Tantra é Ardhanareswara, que é metade Shiva e metade Shakti, ou seja, o ser integral, enquanto que no Vama Tantra o homem é manifestação de Shiva e a mulher a representação de Shakti, e somente na forma mais íntima de união(maithuna) se poderia atingir a superação das diferenças individuais. Existem, sim, mestres de Tantra do mais alto nível, aqui no Rio de Janeiro.

  5. Parabéns pela sinceridade e abertura do coração com esse texto, que só faz a gente ficar mais feliz em seguir o caminho reto.

    Namaste,

    Katia.

  6. “Já não tenho dedos pra contar
    De quantos barrancos despenquei
    E quantas pedras me atiraram, ou quantas atirei
    Tanta farpa, tanta mentira
    Tanta falta do que dizer
    Nem sempre é so easy se viver
    Mas o teu amor me cura
    De uma loucura qualquer
    É encostar no teu peito
    E se isso for algum defeito, por mim, tudo bem”

    Parabéns ao casal!

    Namaste.

  7. Muito inspirador esse texto! E parabéns a vocês por essa coragem de se entregarem um ao outro, sem julgamentos e com total confiança. Acho que é o que todos buscamos, mas poucos encontram algo verdadeiro e profundo, como você disse, Pedro, incondicional e sincero.
    Desejo que vocês sejam muito felizes e que fortaleçam a relação a cada dia!

    Um abraço pra você e pra Ângela!

    Namaste!

    Daniela.

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