Ética, Pratique

Crescendo além dos condicionamentos

A primeira vez que entrei pela porta de uma escola de yoga, não fazia a menor idéia do que se tratava. Nada sabia dela, nada sabia da índia, nada sabia de mim

Escrito por Ana Paula Malagueta Gondim · 4 mins de leitura >

A primeira vez que entrei pela porta de uma escola de Yoga, não fazia a menor idéia do que se tratava. Nada sabia dela, nada sabia da Índia, nada sabia de mim. Mas sabia, que tinha que estar lá, que tinha que entrar em minha vida. O Yoga estava a minha espera.

Os primeiros anos de contato com essa filosofia foram muito difíceis e só hoje percebo que traumatizantes. Acho que trouxe comigo dessa época, uns vasanas e uns samskaras (condicionamentos), sai de lá com uma bagagem de mão e uma mala extra. Mas tudo bem!

Como eu nunca havia lido nada sobre o tema, não fazia idéia do que encontraria e depois de encontrado, não sabia se aquilo era mesmo o Yoga. Em todo caso, lá fiquei, e minha jornada começou.

Ao mesmo tempo que me sentava na sala de EVA azul para praticar, eu com meu quadril mais travado do que o comum nas mulheres, com meus dois joelhos ‘zicados’ tanto pelo presente genético me dado pelo divino, quanto uma marca trazida por um mal atendimento de uma professora de educação física, sentia muito dificuldade em praticar os ásanas. Mas lá estava eu, determinada apesar de tudo. Sabia que tinha que estar lá.

E professor atrás de professor, todos eram excepcionais ‘ásanistas’, faziam coisas que deixavam qualquer um de boca aberta e lá estava eu tentando acompanhar. E em todos os encontros dos praticantes, vinham vários ‘ásanistas’ de todo o Brasil e de outros países, demonstrar sua coreografia de ásanas e nos espantar com suas performances maravilhosas. E eu lá, pensando comigo, “eu nunca vou conseguir fazer isso”. Mas continuei. Capengando, mas firme.

Depois de um tempo, resolvi largar tudo. Meu emprego, os sonhos dos meus pais para mim e os meus planos, e virei professora de Yoga. Continuava convivendo nesse Universo Paralelo, onde o mais importante era o desempenho nos ásanas, reafirmados na coreografia e o quanto “liberto” você era. Vários, vinham cacarejar nas minhas orelhas, e impor a suposta “libertação”, vários tentavam me fazer tomar a pílula azul milagrosa.

Dizendo, reafirmando e impondo, que o certo era ser uma pessoa desreprimida, “liberta” e aberta a forma deles de se relacionar e encarar o mundo. E foi aí então, que me vi no processo inverso do que o Yoga propõe. Ao invés de estar me libertando, buscando a dissolução e entendimento dos meus samskaras e vasanas, estava lá, sendo exposta e juntando mais alguns desses a minha já extensa coleção. E quando vi, me fechei na minha concha, totalmente presa a esta bola de neve, que havia se tornado minha vida, totalmente cheia de vasanas e acorrentada ao meu samsara. Moksha? Nem sonhando.

Boa parte desses anos passei chorando e tendo dúvidas de tudo. Tinha um sorriso no rosto, mas uma tristeza em meu coração. Vivia num mundo que estimulava a vaidade e o ego, não só dos supostos professores, mas também daquele que era o mestre do rebanho. O Yoga era afinal um culto ao corpo? Só sei que eu, adolescente na época, carente e confusa, me vi no meio desse turbilhão sem ninguém para me dar a mão.

Nessa mesma época, pensei até em deixar de ser professora. Achava que não tinha nascido para isso, que esse não era meu dharma, que havia cometido um engano sério, quando larguei minha vida já encaminhada. E chorava e chorava. E todos ao meu redor me tinham como a errada, a chata e a repressora. Pois não me encaixava realmente ao modo como eles seguiam a vida, o Yoga e tudo mais. Não era aquele Yoga ou aquela vida que eu queria. Eu com as minhas limitações nunca ia fazer aqueles ásanas, e pensava, os alunos não gostam de professores que não conseguem nem sentar com os joelhos tocando o chão. O que estou fazendo aqui?

Até que um dia, a libertação me veio da forma mais dolorida possível. Pois como uma amiga me disse na época, se você não toma uma atitude e muda, a vida se encarrega de fazer isso para você, mas da forma mais dolorosa possível. E foi assim, exatamente que aconteceu.

O meu professor me dispensou, meu namorado me deu um pé na bunda e então me vi no meio da rua, sem roupa e cheia de malas para carregar. Sem ninguém ao meu lado. Cheio de samskaras e vasanas atrás de mim e na frente, claro, nenhuma luz no fim da estrada. Nem se quer uma estrela torta para me iluminar.

Mas senão fosse esses acontecidos não estaria onde estou hoje. Seguindo meu dharma, praticando com as minhas limitações em paz e contente com isso. E lecionando, e tendo certeza que isso é o que mais amo. Livre, completamente livre!

E acima de tudo, sabendo que minha dúvidas tinham fundamento. Afinal, eu não estava errada. Eu estava no lugar errado. Eu estava buscando a aceitação dos outros, quando na verdade, eu tinha que achar a minha aceitação. E isso sim é o que se tem de mais preciso, se aceitar. Hoje, abracei e deixei que o Yoga me abraçasse por completo, de verdade, a minha verdade! O Yoga que busca um caminho sem vaidade, sem ego, sem egoidade. Nas palavras de Pátñjali, ‘ os chittas criados pela mente [nirmana] surgem do que é desvinculado [amatra] da egoidade [asmita].’ Yoga Sutra, IV: 4

Asmita este, que era alimentado naquele contexto em que me encontrava. Yoga e Vaidade, não combinam. Um yoga que alimenta esse que é um obstáculo não pode conduzir a moksha. Porque ao invés de me conduzir a libertação, me conduziu a um isolamento dos outros e da vida, a um afastamento do meu Ser e aumentou a quantidade de condicionamentos, hábitos não saudáveis e traumas.

E isso eu não permito nunca mais! O meu caminho, a busca pela minha espiritualidade ao encontro do meu Ser é pura, é livre, é cheia de paz e contentamento. Porque sou quem sou. E estou feliz com isso. Estou feliz pois sei que cada dia o yoga me ajuda a subir um degrau de cada vez, no meu tempo, no meu ritmo e em paz. Porque agora o resultado não depende mais de mim. Deposito-o em Ishvara. Om Shanti!

Ana Paula é yogini e professora em São Paulo. Seu email é [email protected]om

6 respostas para “Crescendo além dos condicionamentos”

  1. Grata a todos pelos comentários que recebi diretamente em meu e-mail, muitos compartilhando também suas experiências de crescimento além dos condicionamentos nos quais vivemos e nos deixamos viver. Só os comentários de cada um já me deixou feliz de ter escrito este texto.

    Namaste!

    Om Shanti. 🙂

  2. Querida Aninha, todos nós, que passamos por essa extenuante prova, somos hoje mais fortes. Agradeço cada instante que também estive lá, não posso dizer que tudo que aprendi foi terrível, mas aqueles testes de vida foram úteis para que eu hoje possa ajudar muita gente. Fico feliz que se encontrou! Como amiga e como professora, ainda vamos fazer muito pelo Yoga e pelas pessoas que necessitam dessa nossa experiência. Lokah samasta sukino bhavantu. Que todos em todos os planos sejam plenos.

  3. Olá, Ana!

    Parabéns pela transparência e sinceridade do seu artigo. Confesso que muitas vezes também me senti como você diante da profusão de egos hiperinflados nos ambientes mais improváveis para isso, justamente as escolas de Yoga. Sorte que a prática disciplinada e aplicada nos mostra o rumo certo a seguir, não é?

    Beijos.

  4. Om Shanti Om, linda amiga, que bom que seu caminho hoje é um caminho de luz, de harmonia e de muito contentamento, degrau a degrau sem pressa, crescemos. Shivoham! Om Namah Shivaya!

  5. Querida Ana, Fiquei emocionada com seu relato, principalmente porque sou testemunha da sua evolução ilimitada que é a sua prática, porque faço suas aulas e é tão nítida a sua vocação, o caminho do dhrama realizado, santosha… Nossa luzinha sempre nos mostra onde estamos acertando ou errando, mas é preciso uma sintonia fina para conectá-la e manté-la acesa. Paz e Luz do Yoga sempre! Shanti Om, Anananda. Larissa.

  6. Namastê ji Ana! Ehhhh …. o negócio é mais acima mesmo, mas enfim, nosso ego é vítima da ignorânica mesmo. Dá-lhe auto responsabilidade, compaixão e ahimsa! A frase mais forte que me veio enquanto lia seu texto foi: “A prática é um olho o estudo é outro. A prática é um olho o estudo é outro. A prática é um olho o estudo é o outro”. As técnicas de transcendência podem levar a inesquecíveis satoris e hiperorgasmos, quero ver se manter lá sem o estudo do Ser, quero ver dar conta do vício da transcendência sem o estudo do ser depois. Difícil! Bem forte seu compartilhar! Harih Om… Murillo.

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