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Declarações de uma yogini paulista: como sobreviver ao trânsito

Somos a décima quarta cidade mais globalizada do planeta com 20 milhões de habitantes, o que nos torna a sexta maior aglomeração de pessoas no mundo. Conhecida como terra da garoa, tem como lema na sua bandeira a frase Não sou conduzido, conduzo

Escrito por Juliana Araújo · 6 mins de leitura >

Somos a décima quarta cidade mais globalizada do planeta com 20 milhões de habitantes, o que nos torna a sexta maior aglomeração de pessoas no mundo. Conhecida como terra da garoa, tem como lema na sua bandeira a frase ‘Não sou conduzido, conduzo.’

Agora, imagine esse monte de gente tentando conduzir cada um o seu próprio veículo até o trabalho ou escola diariamente.

É exatamente o que você presencia nos jornais, uma bagunça, um Deus nos acuda e um cenário dos mais aterrorizantes e desgastantes.

Às vezes, muitos de nós nos perguntamos: ‘o que estou fazendo aqui?’ ou ‘o que levaria uma pessoa a passar a vida num escritório com algumas poucas horas de descanso para almoçar em locais lotados e barulhentos?’ Ou ainda, ‘porque alguém passaria tanto tempo num carro todos os dias da sua vida adulta?’

Cada um com suas questões existenciais e razões, caminhamos (vagarosamente) por largas avenidas, na cidade da qual colhemos boas lições de vida.

Viver num lugar com tanta gente faz com que você seja o rei da paciência, ou se não for, que sofra muito com a falta da mesma, pois você espera por tudo. Aguarda uma vaga no estacionamento e também por uma mesa num restaurante, espera o metrô ou ônibus mais vazio e espera também, um dia, mudar-se dali, pois o sonho da grande maioria é comprar uma casa no interior ou na praia para, no futuro, obter o merecido descanso.

Esperamos, também, pela felicidade. Aquela que está lá (não aqui), depois de anos de trabalho duro. Paulistanos, a maioria vive para trabalhar/produzir/gastar e somos constantemente estimulados por propagandas que nos levam a consumir tanto que acabamos nos consumindo.

Vivemos, todos, no mundo dos desejos fáceis e acessíveis com taxas mínimas de 10 por cento ao mês. Estamos sempre correndo atrás de nossos desejos e trabalhamos somente para realizá-los. Desejamos um carro, juntamos uma grana, compramos e não conseguimos ser felizes dentro dele. (E isso serve para tudo)

Uma das razões do nosso sofrimento é o trânsito. O ritmo das idéias de como melhorar este problema não acompanha o fluxo de carros sendo colocados diariamente nas ruas.

São Paulo vive em constante obra procurando crescer para onde não há mais espaço com a intenção de atender aos desejos dos habitantes e suportar a quantidade absurda de automóveis; reformas que pioram ainda mais a qualidade da vida da galera porque a bagunça e o barulho tomam conta.

O que pode ser feito? O ritmo estressante vai parar ou sou eu que devo mudar minhas atitudes e maneira de ver o mundo? É possível ser feliz em meio a tanta gente e tanta bagunça? Queremos respostas que nos satisfaçam.

Busco as minhas no Yoga. Não na prática de exercícios e das técnicas, ficando de cabeça para baixo, ou fazendo Om quando rola uma passeata na paulista (apesar de isso ajudar bem), mas, em todas as possíveis vertentes desse sistema. Veja como podemos trazer ensinamentos milenares para nossa vida.

Um exemplo bem legal vem lá de uma conversinha que Nachiketas tem com a morte na Katha Upanisad, um texto bem velhinho cheio de sabedoria, daquelas que servem para qualquer cidadão de qualquer nação ou religião. A Katha Upanisad data de 1000 AC e pertence ao Yajur Veda, um dos quatro livros de sabedoria da cultura hindu. O menino vai ao inferno e quer esclarecer algumas dúvidas e Yamah, a morte, dá uma lição de sabedoria.

Ela responde: “qual é a verdadeira morada da felicidade?” e dá ao garoto um mapa do tesouro. Tesouro? Sim. Porque você vai chegar num lugar que é pura riqueza, onde trânsito ou chefe nenhum acaba com seu dia. Algumas pessoas ao ouvir falar de um lugar assim, já se imaginam morando num condomínio de luxo chamado ‘Residencial Morada da Plenitude. ‘

Yamah diz que o Ser, aquilo pelo qual tudo existe e que é a coisinha que buscamos, é o senhor de uma carruagem realizando uma jornada. O nosso corpo é a própria carruagem. O discernimento é o cocheiro e a mente as rédeas. Os sentidos são os cavalos e as estradas que eles percorrem os labirintos do desejo. E que quando a gente se confunde, tipo achando que é o corpo, a mente ou os sentidos vem o sofrimento.

Trocamos nossos carros, compramos sem parar, fazemos tratamentos estéticos, para preencher o vazio de não sabermos quem somos, porque estamos identificados com a carruagem, os cavalos, as rédeas, etc. Nós olhamos a periferia achando que é o centro. Vivemos, então, para acariciar nossos cavalos.

Claro que como o texto é bem antigo, a morte não fala assim que buscamos a felicidade no botox, num carro novo ou num relacionamento, mas estou trazendo aqui para minha realidade.

Demais, não é? E o que tem a ver isso com viver em Sampa ou com nossa vida? Oras bolas, tudo! Vivo num lugar onde todos querem algo diferente do que é. Se chover é comum dizerem ‘Xi, vai alagar a cidade toda, bem que essa chuva podia parar’. Se fizer sol é ‘ninguém merece trabalhar com um tempo assim, a cidade fica abafada, tenho alergia ao ar condicionado’ e assim por diante. Sempre queremos o que não é. E isso em relação aos fenômenos da natureza, imagine com o resto!

E o trânsito, então? Loucura! O desejo é chegar, claro! Dentro do carro dá tempo de ficar se lamentando e reclamando de todas as injustiças do mundo, ou seja, todas as injustiças comigo.

Penso até que se Nachiketas estivesse ali na vinte e três de maio às 17 horas ia achar que inferno é um spa.

Percebo que há um euzinho que é totalmente dominado pelos cavalos dos gostos e aversões. Que se revolta, grita e esperneia com a situação. Quero estar em algum lugar, não onde estou! Eu quero sentir-me bem! Quero chegar á ________ (e aqui você pode preencher o espaço em branco com o que você preferir) e então, me deleitar de prazer e felicidade. Desejo estar na minha casa, na minha cama ou comendo minha sopinha e estar no carro me frustra. Quando olho para essa situação, algo me diz que não há engarrafamento que dure para sempre. Será o cocheiro?

Seria muito mais sábio exercitar a acomodação (kshanti), liberando-se das expectativas e vivendo o momento. Aproveitar a música, usufruir o confortável banco do carro.

Não há como evitar o inevitável, são milhares de quilômetros de congestionamento. Se eu me perguntar qual a razão para tal sofrimento, vou notar o ridículo da situação. Lembro-me de mais uma coisa que serve para este momento Ashotya- um probleminha tão pequeno que nem merece muita atenção. E essa sabedoria vem lá de um ensinamento de Krishna, o cara que sabia muito de tudo.

Procurar soluções para se viver melhor é nosso direito e nossa liberdade. Sou a favor de mais bikes pela cidade. Mas quando me noto desejando o mundo perfeito, discursando que devemos abandonar os carros, o cocheiro me dá aquela puxadinha nas rédeas e os cavalos freiam. A única perfeição que existe esta além das coisas que vem e vão, outro ensinamento da Dona Morte.

Numa parte do Katha Upanisad ela oferece para o menino, mulheres, carrões, conta bancária bem gorda, apartamento de frente para o mar, casa de campo com piscina, isenção de impostos, vidão de astro de futebol, em troca, claro, do conhecimento sobre ele mesmo que era o que ele tinha ido buscar. Ela não fala bem assim, mas deu para pegar, não é?

A luta cotidiana é para um dia ser feliz e, para alguns, famoso também, como a pessoa que aparece sorridente na capa da revista numa ilha, num castelo ou no carrão naquele mundo de perfeição!

Imagina, então, Yamah te oferecendo tudo isso assim, de mão beijada, é difícil de recusar.

A danada está testando o garoto acariciando os cavalos dele, oferecendo uma estrada bem legal para que eles possam trotar felizes. As rédeas começam a se afrouxar com tanta gentileza. O cocheiro tem que ser forte e atento. Momento decisivo.

Se você tem um pouco de maturidade, já deve ter notado que vivemos para conquistar a casa de praia/ campo/_________(preencha com o que quiser) e assim que chegamos lá e estamos olhando o mar, já começamos a pensar qual será próxima conquista.

Logo em seguida queremos outra coisa que está mais lá na frente. Sampa tem um shopping a cada bairro, uma loja super hiper demais em cada pedacinho da cidade, comidinhas e bebidinhas sem fim, bares da moda e muito mais de tudo para seduzir os cavalos. É a tal da estrada dos desejos. Não há um espaço que não venda a urgência de ser feliz.

Não estou aqui falando que o desejo é o mal do mundo e nem para levantar a bandeira do ‘vamos acabar com esse demônio’, porque ele também te move a agir, à promover grandes mudanças e fazer diferença nesse mundo de coisas mutáveis.

E não há possibilidade de que ele deixe de existir. Só que podemos ser um pouco mais inteligentes e perceber que não tem jeito mesmo das coisas serem como queremos. Que o discernimento tem que conduzir com as rédeas firmes para que a carruagem não saia se quebrando toda por ai, sofrendo, ralando e sentindo-se um bagaço. Rédeas frouxas quem manda são os cavalos. E eles te conduzem para onde bem entender.

A dica para quem sofre com o trânsito é não seja conduzido, conduza sua própria carruagem com sabedoria. Se você fizer isso, pode até pensar em deixar o carro em casa, de vez em quando, e curtir o visual da cidade em cima de uma bicicleta ou andando. Garanto que vale a pena!

Juliana é praticante e professora numa pequena e pacata cidade brasileira chamada São Paulo. Seu email é [email protected].

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4 respostas para “Declarações de uma yogini paulista: como sobreviver ao trânsito”

  1. Oi Juju! Adorei seus textos, vc escreve muito bem, simples e divertido!! Estou deixando o carro em casa e vindo de ônibus trabalhar, curtindo o visual da ilha e aproveitando para ler. Beijos e tudo de bOM!

  2. Ju, olha aí você nesse comentário-lição super, super oportuno. Tenho enorme dificuldade e esforços hercúleos para não surtar quando estou presa num congestionamento, algo do tipo gritar, babar, urrar ou sair feito uma kamikaze aloprada pela vãos das ruas. Então, tento manter “outras conexões”, às vezes com sucesso e outras nem tanto. Mas continuo tentando. Não desisto.
    Grande beijo.
    Heral.

  3. Adorei seu texto Juju!!!!
    Em termos de caos urbano Salvador está parecendo Sampa, ou seja, precisamos também cultivar o estado de Yoga dentro do rush do dia-a-dia.
    HariH Om!!! Beijooomm!!!

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