Pratique, Yoga na Vida

Dentro e fora da névoa da ilusão

Maya significa alguma coisa como ilusão ou fantasia, ou, filosoficamente falando, o 'como se', de Vaihinger. Maya é uma espécie de sonho, uma espécie de transe

Escrito por Fritz Perls · 3 mins de leitura >

Uma pessoa absolutamente sadia está inteiramente em contato consigo mesma e com a realidade. A pessoa louca, o psicótico, está mais ou menos completamente fora de contato com ambos, mas, principalmente, ou consigo ou com o mundo. Nós estamos entre o psicótico e o ser sadio, e isso baseia-se no fato de termos dois níveis de existência. Um é a realidade, o real, o nível realista, no qual estamos em contato com qualquer coisa que aconteça agora, em contato com nossos sentimentos, em contato com nossos sentidos. A realidade é a tomada de consciência da experiência que se processa, o tocar, o mover, o fazer real. Como não temos uma boa palavra para o outro nível, escolho a palavra indiana Maya. Maya significa alguma coisa como ilusão ou fantasia, ou, filosoficamente falando, o ‘como se’, de Vaihinger. Maya é uma espécie de sonho, uma espécie de transe.

Freqüentemente, essa fantasia, esse Maya, é chamado mente, mas, se observarem melhor, verão que aquilo que chamamos “mente” é fantasia. É o palco de ensaio.

Vivemos em dois níveis: o nível que é o nosso fazer, que é observável, verificável; e o palco privado, o palco do pensamento, o palco do ensaio, no qual nos preparamos para os futuros papéis que queremos representar. O pensamento é um palco privado onde você tenta. Você conversa com alguém desconhecido, conversa consigo mesmo, prepara-se para um acontecimento importante, conversa com a pessoa amada antes de um encontro ou desencontro, qualquer coisa que você espera acontecer. Por exemplo, se eu perguntar “Quem quer subir aqui para trabalhar?”, vocês provavelmente começariam rapidamente a ensaiar – “O que eu farei lá?”, e assim por diante. É claro que, provavelmente, ficariam com medo frente à audiência, porque deixariam a realidade segura do agora para dar um salto para o futuro.

A psiquiatria faz muito alarde em torno do sintoma ansiedade, e nós vivemos na era da ansiedade, mas a ansiedade nada mais é do que a tensão entre o agora e o depois. Poucas pessoas conseguem suportar esta tensão; assim elas preenchem o vazio ensaiando, planejando, “tendo certeza”, tendo certeza de que não têm futuro. Elas tentam se ater à monotonia, e, é claro, isso impedirá qualquer possibilidade de crescimento e espontaneidade.

É claro que o passado também traz ansiedade, não é? Não. O passado ainda está presente com situações inacabadas, ressentimentos ou coisas assim. Se você sente ansiedade pelo que fez, não é ansiedade pelo que você fez, mas ansiedade pela punição que virá no futuro.

A tomada de consciência engloba, por assim dizer, três camadas, ou três zonas: a tomada de consciência de si mesmo, a tomada de consciência do mundo, e a tomada de consciência do que está na zona intermediária da fantasia, que impede a pessoa de entrar em contato consigo mesma ou com o mundo. Essa é a grande descoberta de Freud, de que existe alguma coisa entre você e o mundo. Existem tantos processos ocorrendo na fantasia de uma pessoa. É o que ele chama de complexo, ou preconceito.

Se vocês tiverem preconceitos, então seu relacionamento com o mundo estará muito abalado e destruído. Se você quiser se aproximar de alguém, e tiver um preconceito, você nunca chegará a esta pessoa. Você estará sempre em contato apenas com o preconceito, com a idéia fixa. Assim, a idéia de Freud de que a zona intermediária, esta terra-de-ninguém entre você e o mundo, deveria ser eliminada, esvaziada, sofrer uma lavagem cerebral ou qualquer outro nome que vocês queiram dar, é perfeitamente correta. O único problema é que Freud analisou apenas esta zona intermediária. Ele não considerou a autoconsciência ou a consciência do mundo; ele não considerou o que podemos fazer para estarmos em contato novamente.

Essa perda de contato com o nosso self autêntico, e a perda de contato com o mundo, são devidas a essa zona intermediária, a grande área de Maya que temos conosco, ou seja, existe uma grande área de fantasia que absorve tanto do nosso excitamento, tanta energia, tanta força vital, que sobra muito pouco de energia para estarmos em contato com a realidade.

Existe uma única maneira de favorecer esse estado saudável de espontaneidade, de salvar a genuinidade do ser humano, ou, para falar em termos religiosos banais, existe uma única maneira de recuperarmos nossa alma. O paradoxo é que, a fim de obtermos essa espontaneidade, precisamos, como no Zen, de uma disciplina rígida. A técnica é estabelecer um “continuum” de tomada de consciência.

Esse continuum de tomada de consciência parece ser muito simples; apenas tomar consciência do que se passa segundo após segundo. A não ser que estejamos dormindo, estamos sempre conscientes de alguma coisa. Entretanto, assim que essa tomada de consciência se torna desagradável, ela é interrompida pela maioria das pessoas. Então, estas, repentinamente, começam a intelectualizar, usar palavreado do tipo blablablá, voar em direção ao passado, voar para as expectativas, boas intenções ou usar esquizofrenicamente as associações livres, saltando como um louva-a-deus, de experiência em experiência, e nenhuma dessas experiências chega a ser realmente experienciada.

Se uma pessoa confundir Maya e realidade, se assumir fantasias como sendo realidade, então essa pessoa será neurótica, ou mesmo psicótica.

Agora, se trabalharmos e esvaziarmos essa zona intermediária da fantasia, esse Maya, ocorrerá a experiência do satori, do despertar. De repente o mundo está aí. Você acorda de um transe como acorda de um sonho. Você está todo aí novamente. E o objetivo da terapia, o objetivo do crescimento, é perder cada vez mais sua “mente” e aproximar-se mais dos seus sentidos. Entrar cada vez mais em contato com o mundo, ao invés de estar apenas em contato com fantasias, preconceitos, apreensões, etc.


Frederick Salomon Perls (1893 – 1970) foi o criador da Gestalt-Terapia.

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Uma resposta para “Dentro e fora da névoa da ilusão”

  1. Texto inteligente e imprescindível a todos os sinceros buscadores de uma vida mais profunda.

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