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Depressão e desapego

Estava assistindo ao jornal esta semana e vi uma reportagem mostrando a taxa de aumento da depressão entre as pessoas, agora não só mulheres, mas homens também, pelo mundo todo

Escrito por Ana Paula Malagueta Gondim · 6 mins de leitura >

Estava assistindo ao jornal esta semana e vi uma reportagem mostrando a taxa de aumento da depressão entre as pessoas, agora não só mulheres, mas homens também, pelo mundo todo. Isso me levou a pensar do porquê disso estar acontecendo.

Isso, rapidamente, me fez lembrar de um sutra de Patanjali: O supremo desapego é aquele em que cessam os desejos que nascem dos gunas pela presença do Purusha, o Ser. Y.S., 1:16

Vairagya, o desapego.

Se olharmos à nossa volta, vamos perceber o quanto de estímulo recebemos pela mídia e pela sociedade. Empurram-nos valores massificados, dogmas e necessidades. A beleza ideal, o corpo ideal, o emprego ideal que lhe traz status, o celular mais moderno, etc. E, quando percebemos, nosso inconsciente está impregnado de necessidades que não são nossas. Isso gera stress, pela ansiedade de alcança-los e se adequar ao padrão imposto pela sociedade a massa; e quando isso não acontece, surge a frustração, que gera diversas patologias, a mais em alta no momento, é a depressão, principalmente nas grandes metrópoles.

Isso me lembra algo que Swami Dayananda disse no seu livro O Valor dos Valores: Como pode ser alcançada uma natureza de desapego? O desapego é obtido pela clareza em ver os objetos como eles são: vendo, sem uma distorção subjetiva, como os objetos se relacionam comigo, com minha felicidade e meu bem-estar.’

Que tipo de relacionamento queremos ter com as pessoas e com a natureza e seus frutos? Diversas coisas pairam em minha mente provindas desta única pergunta. Será que passamos grande parte de nossa vida apegados as pessoas da nossa família, do nosso círculo de amizade, do nosso trabalho e dos objetos que compramos com o nosso rico dinheiro e não temos tempo para olhar nos olhos delas ou tocar os objetos e sentir o real valor por detrás deles?

Passamos a maior parte do nosso tempo depositando nossas frustrações e desejos nos outros, querendo que eles sejam da forma que queremos, que eles preencham o vazio ou façam a nossa vontade, e o pior de tudo, que eles correspondam as nossas expectativas. Aliás, a palavra expectativa já vem carregada de muitos conceitos que não fazem muito bem para o ser-humano, o enche de angústia, de ansiedade, o faz querer correr contra o tempo, e , ao mesmo tempo, o faz exigir demais da pessoa-objeto de sua expectativa.

Introjetamos valores falsos as pessoas com as quais convivemos e esse valor irreal, que não corresponde a ela, gera apego. Apego ao valor que você deposita nela. Aí esquece-se que por detrás deste valor há uma pessoa real, com sentimentos, com vontades próprias, desejos, uma ser completo; que não está ali apenas para realizar e concretizar nossas vontades e agir como uma muleta que carregamos e tratamos da forma que bem entendemos. E isso serve também para os outros seres a nosso redor e os objetos que acumulamos, necessários ou supérfluos.

Esquecemos de adquir o que é apenas necessário para nossa sobrevivência e conforto e nos apegamos as coisas mais desnecessárias que se vendem aos montes nas propagandas, nas vitrines das lojas, que tornam os itens supérfluos, em itens indispensáveis. A publicidade é muito boa, para manipular nossos desejos e introjetar valores massificados aos nossos valores. E quando vemos, estamos presos num ciclo onde preenchemos os vazios com objetos-pessoas, objetos-acessórios, objetos-comidas, objetos-objetos, num ciclo sem fim. Pois ao realizar o que desejamos logo na sequência surge um outro desejo, e a ansiedade continua… Apego, apego e mais apego. Esquecemos o valor real das coisas. Esquecemos que as pessoas não são coisas!

O apego gerado pelo medo

Isso me faz lembrar do meu ex-namorado. Hoje me lembrando desse relacionamento, penso tadinho dele! Ainda bem que um dia ele teve a brilhante idéia de pular fora e dar um fim ao nosso namoro, eu devia sufocá-lo.

Nós namoramos por quase dois anos, e além do tempo que passávamos juntos como namorados ainda trabalhávamos juntos. Tudo ocorreu muito bem por um longo tempo. Mas a partir de um certo momento comecei a jogar todas as minhas frustrações e o buraco da minha alma naquele ser humano que tanto amava. Vendo-o como ‘aquilo’ que me servia de apoio. Me tornando dependente da presença dele. Era como se ele trouxesse luz àquela parte sombria de mim.

Isso fez com que eu começasse a ficar com medo de perdê-lo, a todo tempo achava que ele iria me deixar. E essa insegurança fez que me apagasse ao medo de perdê-lo.

Percebi a gravidade da situação quando no dia que ele terminou comigo, no meio do choro, no meio da raiva e de todo o turbilhão de emoções mescladas em mim, a sensação de que tinham arrancado um pedaço do meu corpo. Eu só conseguia pensar em maneiras de magoá-lo, de feri-lo verbalmente, de fazê-lo sentir a dor que eu sentia. Algo dentro de mim gritou: Pára tudo! Quem é você? Você não é assim!

A minha ficha caiu. Aquele ser que me era tão querido, que era meu amigo, meu companheiro, meu namorado, tinha se tornado algo pelo qual me agarrei com todas as forças num apego incontrolável, e no momento que ele não estava mais ali, o mundo para mim não fazia mais sentido.

E, quando algo assim acontece, mostra o quanto apegado você era a ele. Ele perdeu todo o ‘real valor’ para mim. Tadinho dele!! Não tinha culpa nenhuma de tudo isso. Mas ainda bem que existe o Tempo, para nos fazer perceber que devemos nos desapegar das coisas. Deixá-las ter apenas o valor que tem que ter.

Quando iniciamos um relacionamento a pessoa não vem como algo que falta em você, mas sim como alguém que você partilha momentos, o amor e a vida. Cada um com sua vida, seus desejos, sonhos e valores. Duas pessoas, dois seres, partilhando um relacionamento. Aqui sim há o desapego. Tudo dentro do seu real valor.

Lidamos com seres humanos, lidamos com os animais, com a natureza e com os objetos e todos eles devem se manter dentro de seu grupo de reais valores. Isso implica que eu deva os tratar com mais amor, mais compreensão, respeito, tolerância e com paz. Eles não vem para me preencher e sim para complementar, ou melhor, para agregar algo que já está completo. Eu já estou completa. Não é algo de fora, um namarupa que irá preencher algo que deve ser preenchido aqui dentro. Sempre de dentro para dentro.

O apego ao desapego

O desapego deve ser cultivado em todos os casos, mas não como uma repressão, mas sim como um abrir dos olhos que vê as coisas como elas são. Tanto as coisas consideradas ruins, quanto as boas. Pois não adianta nada cultivar o desapego não só com o dinheiro, com os itens materias, mas também com as coisas que são fontes de felicidade e alegria a você, assim no momento em que elas não estiverem mais ali, tudo estará bem, você continuará bem e feliz.

Cuidado para não ficar apegado ao desapego. Este exercício não deve ser uma forma de repressão, de sofrimento. Tudo isso deve acontecer da forma mais simples, deixando fluir como segue o rio o seu curso, sem esforço. Para que consigamos alcançar um estado que te liberta emocionalmente e materialmente das pessoas e objetos de sua convivência, buscando harmonia com a realidade e o desprendimento, para que estejamos vivendo inteiros, sem ansiedade, sem depressão, sem pânico, pois o resto é lucro!

Encontro com o desapego

Fui ao Rio de Janeiro agora no começo do mês, fazer seva no evento da AMMA. Já admirava seu trabalho, seus ensinamentos, e estava lá de coração aberto para receber seu darshan.

O momento tão esperado chegou depois de um dia inteiro de trabalho, lá pelas tantas da noite, e quando Ammaji me envolveu em seu abraço materno pude sentir que dei um mergulho no mar do puro Ser, um mar de amor, um mar onde o passado, presente e futuro não existiam. Nenhum valor, nenhum sentimento, nenhum pensamento e nem a respiração. Tudo simplesmente parou. Mas porque estou falando disso aqui? Porque depois que nos separamos deste abraço de amor, nunca mais fui a mesma. Hoje, ainda sentindo os efeitos do abraço, tudo se colocou no seu devido lugar. As pessoas e os outros seres agora são aqueles que compartilham da mesma vida que eu, cada um com suas qualidades e defeitos, com elas eu sou feliz, sem elas eu também sou feliz. E os objetos que geram conforto para mim são apenas obejtos, com eles tudo fica mais simples, mas fácil, sem eles tudo continua da mesma forma.

Vou ser grata até o último dia de minha vida por esse compartilhar de minha mestra, por ter me abraçado e mostrado o amor, a paz:

“O amor real é vivido quando não existem condições. Ao existir condição, existirá força. Mas aonde existe amor, nada pode ser forçado. Condições existem apenas onde há divisão. Força é usada onde há dualidade, a idéia de ‘eu’ e ‘você’. Você usa a força por perceber o outro como sendo diferente de você. Mas força não pode ser aplicada quando só existe Um. A própria idéia de força desaparece neste estado. Então, você somente é. A Força Universal corre através de você, você se torna uma passagem aberta. Você deixa a Consciência Suprema tomar conta de você. Você remove os apegos criados por você mesmo, deixando que a corrente do Amor todo-penetrante passe pelo seu curso natural.” Amma.

Om Amriteshwaryai Namaha!

Om shanti!

6 respostas para “Depressão e desapego”

  1. Parece que tive um bom karma para ler este artigo. Estava acontecendo o mesmo comigo em meu relacionamento. Acabei tentando preencher o vazio em minha alma depositando todos meus sonhos em outra pessoa. Quando minha namorada não correspondeu às minhas expectativas, pensei que todo o mundo estava contra mim, que eu era uma ‘pessoa boa demais’ e não merecia aquilo.

    Espero que a prática e estudo de yoga me façam amadurecer e ver que, na verdade, não há nenhum vazio na alma.

  2. Querida Ana,
    Obrigada por compartilhar suas experiencias no Yoga. Sou praticante há 28 anos e estou dando aulas há 5 anos.Tenho tido muitas dúvidas também quanto o que representa o Yoga para as pessoas pois tudo a esse respeito tem mudado muito o foco principal. Procuro sempre passar o mais simples possível para que as pessoas entendam que a prática tem a ver com a união do interno com o externo. Shanti Om. Dagmar

  3. Ana, estava conferindo o que há de novo por aqui e passei por seu texto. Esta reportagem que você menciona também chamou a minha atenção recentemente, e sempre fico pensando no fato de que muitas pessoas estão cada vez mais doentes, a despeito da tão propalada evolução da medicina e da ciência.
    Bem, parece haver ainda um grande caminho a percorrer entre o saber tanto e de tantas coisas e o realizar o saber autêntico dentro de si… Mas o caminho que leva ao seu verdadeiro ser é o único a ser trilhado.
    Beijo grande, Ana.
    Om!

  4. Ana Ananda!

    Que bom este compartilhar!

    Me lembrei de tudo, daquela viagem, e também da Praia do Pepê, nossa conversa sobre relacionamentos, como as pessoas vêm e vão…. Aquele homem passando na praia….transitório….passado…

    E do abraço da Amma! e dos pequenos segundos que valem a eternidade, da suspensão de momentos que ficam pra sempre guardados, como um ensinamento absorvido. Nossa vida é feita destes momentos . Com desapego ao ordinário, ficamos de olhos, mente e coração mais abertos para vivenciar os extraordinários momentos que nos elevam!

    Jay Ma

    Shanti Shanti Shanti

    No amor da Amma

    OM

  5. Hari Om, maninha amada…
    Vivi tudo ao seu lado e sei o que vc passou e o quanto vc cresceu e aprendeu a verdadeira palavra… AUTO-SUPERAÇÃO…

    Assim com você, eu também estive e estou na trilha do desapego… com ajuda de meditação profunda, kriyas profundos e muito amor no coração…
    Na realidade não perdemos nunca… ganhamos conhecimento e tiramos mais e mais os véus de maya…. eliminamos uns samskaras aqui, uns vasanas alí… e evoluimos sempre…
    TE AMO ANANDA…
    JAYA SHIVA!!! JAYA AMMA… JAYA SHAKTI… PIYAR SEMPRE!

  6. Olá, Ana! Lendo seu artigo me lembrei de uma frase que ouvi algum tempo atrás, infelizmente não lembro a autoria para atribuir o devido crédito, mas dizia mais ou menos assim: Devemos usar as coisas e amar as pessoas, mas estamos usando as pessoas e amando as coisas.

    Um grande beijo. Namastê!

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