Pratique, Yoga na Vida

Descobertas sobre Yoga e Karma Yoga

Aprender a aceitar a minha natureza, a natureza da minha mente, pensamento e ego foi o ensinamento que retirei daquelas palestras

Escrito por Miguel Homem · 3 mins de leitura >

No passado mês de maio, durante o curso de formação em Yoga com Pedro Kupfer em Florianópolis, tive oportunidade esclarecer e aprofundar o estudo do Karma Yoga e os primeiros quatro sutras de Patañjali.

Aprender a aceitar a minha natureza, a natureza da minha mente, pensamento e ego foi o ensinamento que retirei daquelas palestras. A interpretação que fazia de alguns conceitos como Karma Yoga ou chitta vritti nirodhah impedia-me de aceitar a minha natureza, nublava o caminho que devia perseguir e como conhecimento equivocado (viparyaya, um dos cinco vrittis enumerados por Patañjali), essa interpretação só gerava maior instabilidade na minha consciência (chitta vritti), perturbando a minha prática.

O Karma Yoga na interpretação que lhe dava representava o exercício da acção sem expectativas. Ora, como bem expôs Swami Vagishananda, não é possível praticar uma acção sem esperar uma reacção. A negação desta verdade, a confiança naquele conhecimento incorrecto ? o Karma Yoga como exercício da acção sem expectativas ? traduzia-se numa não aceitação da natureza humana, que por sua vez se traduzia numa dificuldade em compreender o ensinamento do Karma Yoga e levá-lo adiante. Aquele conhecimento incorrecto gerava um conflito interior entre o que a mente havia interpretado e a sua própria natureza.

Uma vez que percebemos que a ‘inacção na acção’ não é não esperar um resultado, mas sim aceitar que não podemos mudar um resultado, e aceitá-lo em santosha (contentamento), ou seja, agir sem apego ao resultado, agir com desapego; então compreendemos o ensinamento do Karma Yoga. E ao escrever estas palavras percebi também que uma coisa é o conhecimento intelectual e outra o conhecimento compreendido, assimilado e integrado.

De facto, muitas vezes considerei o Karma Yoga como a acção com desapego dos resultados, mas nem sempre percebi o conceito de desapego como aceitação de qualquer resultado ao invés do desapego como ausência de expectativas. Porém, quando ouvi as palavras de Swami Vagishananda compreendi e fiz da verdade de outros a minha verdade. Percebi, não apenas intelectualmente, mas experimentando a realidade e profundo interesse prático do ensinamento. E quando o conhecimento deixa de ser apenas intelectual, mas é interiormente compreendido e pode ser experimentado com o coração, então estamos em Yoga, unidos em nós e com a inteligência que permeia o universo.

O mesmo vritti (viparyaya, conhecimento equivocado) me condicionava em relação à definição de Yoga por Patañjali. Entendia que o Yoga como cessação das modificações da consciência significava a paragem do pensamento. Nada mais difícil de realizar, explicar e tentar transmitir. E difícil porque, de novo, aquela interpretação negava a natureza do Homem e a natureza da mente. Ora, é da natureza da mente ser agitada e ter actividade. O que não é da nossa real natureza é identificarmo-nos com essa agitação e com o seu conteúdo.

Novamente, o conhecimento incorrecto toldava a minha compreensão e a minha prática e impedia-me de alcançar o Yoga.

De facto, mais uma vez negava a realidade, quando o que havia e há que negar é a identificação com essa manifestação. Eu não sou o meu corpo, nem a minha mente, mas eles são o que eu sou ? chidanandarupah shivo’ham shivo’ham. O Yoga não é a cessação da modificação da consciência strictu senso, ou a paragem do pensamento enquanto tal, mas a cessação da identificação com as modificações e instabilidade da consciência. Uma vez esclarecido o conceito, mais fácil se torna o caminho. O Yoga é uma via para moksha (libertação), libertação do ciclo da vida, libertação do sofrimento, e no nosso dia-a-dia o sofrimento começa sem dúvida na identificação que temos com o nosso conteúdo psico-mental. Libertemo-nos, cessemos essa identificação e reencontremo-nos com o ser que habita em nós, o purusha. Eis o caminho apontado por Patañjali.

Esta interpretação resulta da conjugação do segundo (‘Yoga é a cessação das modificações da consciência’) com o quarto sutra (‘Nos outros estados de consciência, existe uma identificação da pessoa com os vrittis‘).

Mas para que a conjugação se fizesse foi preciso que alguém apontasse o caminho ? um acharya. É este o outro ensinamento que levo. A importância de alguém que nos transmita o ensinamento vivo, ensinamento que não se reduz ao conhecimento técnico, mas também, e talvez com importância acrescida, ao que incorrectamente se qualifica como conhecimento filosófico. E incorrectamente porque a sua correcta compreensão não muda apenas os parâmetros teóricos, mas pode mudar o rumo de uma prática.

Assim, termino ressalvando, por um lado, a importância da aceitação da natureza humana. Sem assumirmos o que somos nunca encontraremos a base para nos transformamos, para nos aperfeiçoarmos e para avançarmos no Yoga. É que sem verdade (satya), sem honestidade, o caminho do Yoga não chega a ser iniciado.

Por outro lado, a importância da exposição continuada ao conhecimento vivo é o espelho que nos mostra a realidade, não como a queremos ver, mas como ela é. E nesse sentido traz-nos sempre de volta a satya e ao eterno aprendiz e discípulo que nunca devemos perder.


Miguel é português, leciona Yoga na cidade do Porto, Portugal, e participou do Curso Livre de Formação em Yoga com Pedro em Florianópolis, em maio de 2005. O email dele é [email protected]

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Uma resposta para “Descobertas sobre Yoga e Karma Yoga”

  1. Adorei o teu artigo. Vem em direção a alguns conceitos com os quais me debatia há algum tempo e ajudou-me bastante a fazer a ligação entre o conhecimento racional (mente) e o verdadeiro conhecimento, aquele que é assimilado e entendido não com a razão mas sim com o coração. Obrigada, Miguel!

    Beijos,

    Helena.

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