Começando, Pratique

Do abraço

Não sei dizer quanto tempo durou... nem ao menos sei se era eu quem, de fato, estava ali. Certamente, não era o ego que sou, nem meu nome ou profissão

Escrito por Tereza Freire · 3 mins de leitura >

Não sei dizer quanto tempo durou… nem ao menos sei se era eu quem, de fato, estava ali. Certamente, não era o ego que sou, nem meu nome ou profissão. Ali, eu era apenas um Ser. Como tantos outros que foram receber o seu abraço.

Na primeira noite, não consegui… Passava da meia-noite e ainda não estava nem perto da minha senha. Todos recebemos uma senha para chegar perto da Amma. Fui embora decidida a voltar bem cedo na manhã seguinte. Mas só de ter estado em sua presença, algo estava diferente em mim… dormi e sonhei com tudo que aconteceria no dia seguinte. Se não estivesse dormindo, diria que o que eu tive foi uma visão. Porque aconteceu exatamente como no meu sonho.

Ao chegar, garanti minha senha e fui fazer seva, serviço devocional, ajudando o staff, como tradutora. Depois, entrei numa fila para entregar a ela a prasada, que deveria ser entregue a cada pessoa abraçada. Cada voluntário tem o direito de ficar ao lado dela por cinco minutos. Foram os cinco minutos mais intensos da minha vida.

A cada prasada que entregava a ela, era como se compartilhasse de seu amor, como se a sua compaixão por todos, passasse através de mim, como se fizesse parte de sua congregação, como se fosse sua filha querida, ajudando-a em sua missão. E este é um dos sentimentos mais puros que se pode sentir.

Embriagada de amor, fui sentar sozinha para meditar e ouvir os bhajans, enquanto me preparava para receber seu abraço.

Ao meu lado, sentou-se um renunciante indiano que a acompanha nas turnês e que mora no Canadá. Não perguntei seu nome, nem ele o meu, mas foi um encontro abençoado pela Amma.

Ao dizer-lhe que tinha vontade de morar em seu ashram e vivenciar toda esta devoção, vivendo de fato como renunciante, ele me instruiu: você não precisa estar lá para estar perto dela. Amma está em todos os lugares, cuidando de seus filhos. É só chamar…

Entendi suas palavras como sábios conselhos. Talvez eu não precise mesmo renunciar a tudo para servir a Deus. Talvez cada Ser tenha sua missão no lugar onde nasceu e o que eu deveria fazer era ser uma seguidora do exemplo de Amma no meu país e na profissão que escolhi, ao lado da minha família e amigos e lutar para que nenhuma pessoa sofra, para que todos vivam em paz e com dignidade. Não mudar de lugar e sim, mudar o lugar…

Muitas horas depois, chegou o momento de entrar na fila para receber seu abraço. Conforme ia se aproximando a minha vez, tudo que eu pensei em dizer, em fazer, foi se apagando, minhas pernas foram ficando bambas, a boca secou, os olhos não viam mais nada a não ser sua forte presença.

Não havia tempo ou lugar, o mundo todo era ela e aquele momento. Seu sorriso e olhos de quem sabe tudo… ‘Ela sabe quem é você’, havia me dito o renunciante…

Então, ela me puxou para seu colo, me abraçou falando mantras que eu tentei repetir na hora. Isso é tudo que me lembro. Todo o resto, tudo que eu era, tudo que sabia, todo o passado e o futuro se fundiram na luz da graça de Amma.

Como explicar o intraduzível? Como colocar em palavras o inexplicável? Qualquer tentativa de definição, seria banalizar uma experiência que precisa ser vivida, ser sentida porque extrapola o que a nossa razão conhece. Diz a física quântica que só conseguimos enxergar aquilo que o cérebro reconhece, e os poetas dizem que há muitas coisas entre o céu e a terra que nossa vã filosofia desconhece.

O que sentimos depois de abraçar a Amma é um destes chamados que razão nenhuma explica. Não por ser milagre, mas por ser transmutação. Deixamos para trás o vil metal e passamos a enxergar ouro em tudo, em todas as nossas ações.

Toda a nossa existência passa a ter valor. Nada mais é jogado fora, tudo leva consigo a intenção de servir a Deus. Então qualquer obstáculo, qualquer compromisso indesejado, as obrigações, as contas (metafóricas ou não) que pagamos em nossa vida terrena, passam a fazer parte de um plano muito maior, onde nada pode ser desperdiçado, nenhum minuto pode ser perdido por ser sagrado.

Trata-se de um Ser iluminado, uma encarnação divina, um avatar… Mas antes de tudo, um ser humano como todos nós, provando com seu trabalho e sua coragem, com seu amor e humildade, que através da compaixão, podemos tornar o mundo mais feliz.

Om lokah samasta sukhino bhavantu.

Que todos os seres, em todos os lugares do mundo, sejam felizes.

No amor de Amma,
Namastê!

Tereza é yogini, mora e pratica em São Paulo. Dirigiu e produziu, em parceria com Daisy Rocha, o documentário Caminhos do Yoga, filmado na Índia em 2003.

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5 respostas para “Do abraço”

  1. Agradeço a todos pelos relatos. Como disse uma irmã num comentário anterior, seus braços estendem até nós, que fisicamente não fomos abraçados pela Amma, todavia, as emoções nos relatos transmitem uma paz, uma alegria, uma harmonia, indescritível.
    Namastê!

  2. Eu também tive a fortuna de ser abraçada pela Amma e desde então sinto que algo se transformou em mim, que não sou mais a mesma.
    Desde do encontro com a Amma venho pensando em como faria para largar tudo e servi-la onde quer que estivesse, mas suas palavras nesse artigo caem sobre mim como uma resposta e vejo que realmente não preciso abandonar nada nem ninguém para entender e espalhar toda a mensagem de amor e paz que esse ser de luz tão docemente nos concede.
    Namastê!

  3. Receber o darshan é uma experiência fantástica. Uma pessoa que é abraçada pela Amma várias vezes leva sempre consigo a impressão de que cada benção é como a recebida pela primeira vez. É tudo sempre novo, sempre mais vivo.
    Tive oportunidade de estar no encontro do Rio e foi simplesmente maravilhoso. Na próxima vez que Ela vier, pretendo prestar serviços nos 3 dias.

    Parabéns pelo artigo!

    Om namah shivaya.
    Namastê!

  4. Fiquei emocionadíssima com seu sentimento com o abraço da Amma. Senti-me, também, abraçada num misto de emoção,ternura, compaixão e amor. Obrigada , querida afilhada, pelo seu imenso amor à humanidade da qual eu faço parte, tentando ser melhor cada dia.

  5. Obrigada por estender esse abraço a nós leitores. Não tive a oportunidade de ir até Amma mas acho que um pouco dela chegou até mim neste momento com suas palavras. Obrigada por estas lágimas gostosas que agora caem e deixam meu coração mais leve e mais cheio de amor.

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