Ética, Pratique

Ensaiando ahimsa

Hoje, comecei meu dia discutindo com minha filha, uma linda menina de 9 anos que tem a capacidade de me tirar do sério. Isso, desde os dois anos e meio, quando ela conseguiu dominar a fala

Escrito por Elda Munari · 6 mins de leitura >

Hoje, comecei meu dia discutindo com minha filha, uma linda menina de 9 anos que tem a capacidade de me tirar do sério. Isso, desde os dois anos e meio, quando ela conseguiu dominar a fala.

Ela nunca me deu trabalho nas coisas do cotidiano, nunca foi bagunceira ou birrenta. Aparentemente, é tranqüila e amável, muito inteligente e perspicaz.

As nossas discussões começam sempre por coisas banais e pela necessidade que minha filha tem de reclamar se as coisas não forem do jeito dela. Tenho consciência de que isso acontece sem ela perceber. É algo mais forte que vem de dentro dela e que explode geralmente em minha presença, sabendo exatamente onde me atingir.

Eu tento lidar com isso de várias maneiras, inclusive já usei as famosas ‘boas palmadas’, que não surtiram grande efeito afora me deixar com um sentimento de culpa.

Quando eu era criança, meus pais, ‘para me educar’ também utilizavam as palmadas. Eles não nos espancavam, mas esses castigos físicos ficaram impressos nas lembranças e hoje percebo que, em alguns momentos, na educação que dou às minhas filhas, esse modelo reaparece.

Eu sempre acreditei na não violência como um dos princípios mais sagrados, e isso sem conhecer o Yoga. Tentei praticar ahimsa em vários momentos e lugares, mas essa experiência como mãe parece ser a mais difícil.

A não?violência é a força maior da qual a Humanidade dispõe. Gandhi.

Comecei a ler Gandhi aos 16 anos e ele foi quem por muito tempo marcou meu caminho e minhas escolhas.

Nessa época morava numa graciosa cidadezinha entre as montanhas do Norte da Itália, um lugar muito rico, no qual a maior preocupação das pessoas é ter mais dinheiro para guardar nos bancos. Eu achava aquilo um absurdo. Meu pai faleceu num acidente nesse mesmo período, e isso me fez pensar profundamente no sentido da vida e no caminho que eu escolheria.

Aquele mundinho tão pequeno chocava com as leituras e as notícias que eu tinha de um mundo bem maior no qual existiam guerras, violência, injustiça, um mundo no qual as riquezas sempre foram para poucos. Como não queria tampar os olhos e me fechar naquela bolha de cristal, continuei lendo, procurando entender o que acontecia de fato no mundo, e seguindo aquilo que meu coração me indicava como caminho.

A primeira condição para a não-violência é a justiça, em qualquer lugar, em qualquer setor da vida. Gandhi.

E assim, participava de grupos pacifistas e de solidariedade internacional, comercio alternativo, manifestações, passeatas e protestos. Estudava para ser educadora social e dividia um apartamento com cinco amigas, tentando partilhar os mesmos ideais. Foi aí que decidi que deveria sair da Itália para conhecer mais profundamente e ser mais coerente com minhas idéias e princípios.

Foi assim que vim para o Brasil. Na época em que lia Gandhi não conhecia o Yoga. Só procurava saber mais sobre a paz e a não-violência, já que as imagens de guerra, de fome, de injustiça me machucavam, me revoltavam e me impeliam a profundos questionamentos.

Da Itália, cheguei diretamente para São Paulo e comecei a trabalhar na Praça da Sé com crianças e adolescentes em situação de rua. Crianças e adolescentes que viviam em contato continuo com a violência, o descaso e a miséria.

Ninguém poderia ser ativamente não?violento e não insurgir-se contra as injustiças sociais em qualquer lugar essas se manifestarem. Gandhi.

Trabalhei com crianças vitimas de violência, com mulheres vitimas de violência, dias após dias conhecendo situações uma pior do que a outra e sempre me perguntando como o ser humano ainda tenha força para sobreviver no meio de tantas pancadas.

Crianças que sofrem abusos e são espancadas dentro de casa pelos familiares fogem para as ruas e são novamente espancadas pelas policias e maltratadas pelas pessoas.

Foi esse trabalho que me fez aproximar do Yoga, e também a minha primeira gestação, comecei praticando asanas procurando um pouco de paz no meio de tantas situações pesadas e a possibilidade de ter um momento para ter um contato mais profundo com meu bebê.

Nessa época, para mim, o Yoga eram os ásanas apenas. Não conhecia as outras partes da prática e da filosofia. Percebia que tinha algo a mais más aonde praticava nunca me falaram nada e assim consegui ficar mais em contato com meu corpo e mais tranqüila, mas me faltava algo.

Após alguns anos, voltei a praticar em outra escola e aí ficou claro que o Yoga era algo mais, algo que mexia com minha alma, com meus princípios, algo bem mais profundo. Sentia a vontade de me aprofundar e fiz um curso de formação com a intenção de aplicar o Yoga nos encontros que tinha com as mulheres vitimas de violência doméstica. Muitas vezes olhava para elas e para aqueles corpos rígidos, sofridos e doloridos e sugeria alguns exercícios para aliviar as tensões, para relaxar um pouco.

Foi no curso que descobri que no Yoga existem princípios éticos, e que a não-violência e um deles. Então voltei para o ponto de partida, lembrei do Gandhi, dos cartazes que eu escrevia com as frases sobre a paz e a não violência.

Quando a não-violência é aceita como lei de vida, deve permear toda a nossa existência e não pode ser aplicada só em alguns momentos isoladas. Gandhi.

Após 10 anos neste trabalho no centro de São Paulo no começo deste ano me afastei. Hoje continuo dando aula de Yoga para as adolescentes da ONG uma vez por semana, com o objetivo de oferecer um momento de paz, de silêncio interior, e de descoberta das potencialidades de cada uma.

No trabalho que desenvolvi nas ruas de São Paulo, a minha postura junto aos meus colegas sempre foi de respeito e acolhidas dos meninos/as que a gente encontrava. E os meninos/as sabiam disso, se sentiam respeitados e sempre nos respeitaram. Nunca tive medo dos meninos e nunca aconteceu nada com a gente, nunca sofremos violência, nunca fomos assaltados, mesmo quando trabalhávamos de noite.

Muitas vezes os meninos/as nos protegiam dos traficantes ou da polícia, que não gostava da nossa presença na Praça. Essa experiência me ensinou muitas coisas: a paciência, a perseverança, a aceitação do outro e do momento do outro, a gratuidade e a confiança. Muitas vezes foi um soco no estômago e foi frustrante, mas aprendi muito com tudo isso.

Exercitar ahimsa continua para me um desafio e hoje praticando Yoga o sentido é ainda maior. Ahimsa, como disse Hermógenes:

Colocada à frente de todos os yamas e niyamas não só como sendo o mais importante, mas para ser o objetivo de todas as abstinências e preceitos éticos estabelecidos por Patañjali.

Nesse texto comecei falando da minha filha porque, após ter percorrido todo esse caminho, o desafio maior hoje é exercitar a não-violência com ela. Comecei de longe para chegar perto. A não-violência não é um bonito discurso, mas é uma pratica cotidiana. As situações de violência que conheci no trabalho muitas vezes começaram dentro de casa entre pais e com os filhos, e se repetem nas ruas e nos relacionamentos.

Me considero uma pessoa tranqüila, e fui uma criança tranqüila, mas lembro que brigava com os meus irmãos e a gente se batia assim como meus pais faziam com a gente. Existe uma agressividade no ser humano que vem de longe e se manifesta nos gestos, nas palavras e nas atitudes, muitas vezes a nossas inseguranças nos fazem esconder atrás de uma postura de superioridade, de autoritarismo e de violência.

Hoje, após ter caminhado e refletido um pouco mais sei que a violência não é algo meu e é algo que não quero para me, e assim tentando praticar os princípios do Yoga coloquei novamente ahimsa como objetivo procurando alternativas para educar minhas filhas.

Procuro não me envolver com a raiva dela, procuro contar até 10 (ou até 100!) antes de agir. Muitas vezes é possível perceber que manifestamos a nossa agressividade com aqueles que estão mais próximos de nós, cujo amor não colocamos em dúvida. Hoje penso que a presença desses dois seres humanos na minha vida tem um sentido que vai além do desejo que eu tive de tê-las.

Elas me questionam muito mais profundamente, elas presencíam e vivem cotidianamente a minha coerência e a minha incoerência, com elas aprendo e desaprendo o amor, a amizade, o carinho, a raiva, o apego e o desapego, a paz e a não-violência e acima de tudo a paciência.

A não-violência não é uma coisa fácil de ser entendida, e menos ainda de ser praticada, frágeis como somos. Temos que agir todos com devoção e humildade, pedindo sempre a Deus de abrir-nos os olhos do intelecto, prontos para agir segundo a luz que cotidianamente recebemos. Gandhi.

Elda mora com suas duas filhas e seu marido Paulo pertinho da cidade de São Paulo.

A ONG que ela menciona neste texto chama-se Associação de Apoio a Meninas e Meninos da Região Sé. O website da ONG é www.aacrianca.org.br. Eles tem um belo projeto dentro desta ONG: a Revista Viração, produzida e dirigida por adolescentes: http://www.revistaviracao.org.br/. Visite, apoie, colabore! Faça sua parte!

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3 respostas para “Ensaiando ahimsa”

  1. Creio que a chave resida na questão da justiça abordada por Gandhi. Crianças *sabem* quando estão sendo tratadas com justiça e quando não.
    Uma vez, pedi a meus três filhos (5, 7 e 9 anos) que decidissem qual punição mereciam pela bagunça que tinham acabado de fazer. Surpreendi-me ao ver que foram mais duros com eles mesmos do que eu seria.

    Se sabem que fizeram bobagem, aceitam as punições numa boa. Mas choram o choro mais sentido do mundo se forem punidos injustamente, por algo que não fizeram.
    É preciso ter ciência do que é violência e do que não é. Deixar de dar limite a uma criança é a maior violência que se pode cometer contra ela. Maior violência teria cometido Arjuna se tivesse se furtado a lutar. Não?
    Penso que punir uma criança por uma falta cometida, seja com um sermão, um “pensar” ou uma palmada não se constitui em violência, ao contrário: crianças pedem, clamam por limites e nos amam agradecidas quando os providenciamos.
    Penso que crianças não nos podem tirar do sério. Se formos justos, se definirmos as regras e a criança souber que as regras serão cumpridas, elas respeitarão a autoridade moral do pai ou da mãe. Irão sempre testá-los, é verdade, mas saberão que não é bom negócio ultrapassar a linha. Assim, crescerão justos, não violentos e sem temor de lutar as guerras justas.
    Assim como Krishna alertou Arjuna para sua pusilanimidade, também Gandhi alertou-nos que a não-violência é para os que não temem o combate e não um escudo para os que dele fogem.
    Quando seu filho te tirar do sério, não saia do sério. Deixe claro quem tem discernimento, quem faz as regras e quem as segue.

  2. Adorei este artigo. Achei muito interessante a análise que faz sobre ahimsa e a sua aplicação nas várias esferas da vida, desde o macro até ao nosso micro-cosmos familiar.
    Realmente muitas vezes é em casa, o local onde tudo nos toca mais profundamente, que temos mais dificuldade em aplicar os nossos princípios e valores.
    Mais dificuldade até do que nos contextos mais agrestes e difíceis como o trabalho com meninos desfavorecidos que a autora menciona neste texto. Muito obrigada por ter partilhado connosco a sua experiência e nos ter enriquecido com ela.

  3. Lindo e verdadeiro texto, Elda. Me sinto exatamente como você, na educação de duas “meninas” de 18 e 20 anos. Aprendendendo e desaprendendo a cada dia, por vezes ignorando a luz que nos é dada em cada início deles.

    Estar num meio desfavorável ao exercício da solidariedade, e ainda assim ir em busca disto, é muito valoroso. Continue, sempre! Namastê!

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