Āsana, Pratique

Escolhas, meios e fins

A visão equivocada que a sociedade tem do Yoga é fruto da confusão entre meios e fins que acontece em alguns círculos dentro do próprio mundo do Yoga. Muitos instrutores desconsideram a visão da vida e o ensinamento sobre si mesmo, julgando serem mera teoria, e acabam se centrando nas técnicas, que passam a ser vistas como objetivos a serem atingidos.

· 7 mins de leitura >

O Yoga como exercício.

Todos sabemos que o Yoga lida com o corpo, a mente e as emoções, mas sabemos igualmente que seu objetivo maior é a liberdade, moksha. Não obstante, a percepção que a sociedade tem do Yoga na atualidade é de que este seria uma espécie de exótica ginástica oriental ou exercício anti-estresse. Essa visão equivocada é fruto da confusão entre meios e fins que acontece em alguns círculos dentro do próprio mundo do Yoga. Muitos instrutores desconsideram a visão da vida e o ensinamento sobre si mesmo, julgando serem mera teoria, e acabam se centrando nas técnicas, que passam a ser vistas como objetivos a serem atingidos.

Quando a mídia promove esta confusão, como acontece atualmente, o público recebe a informação de que Yoga é exercício físico para o bem-estar, e mais nada. Com esta distorção na visão dos objetivos do Yoga, confundem-se ferramentas e metas e assim, o cuidado com o corpo, que sempre foi considerado um veículo para alcançar o objetivo maior, moksha, passa a ser considerado um fim em si mesmo. A responsabilidade e o demérito kármico, obviamente, ficam com os professores, que, por opiniões ou ações distorcidas ou até mesmo por omissões (por exemplo, quando um professor diz “não me meto nessas coisas”), iniciam esse processo de confundir meios e fins.

Originalmente, o Haṭha era um dos meios do Yoga. A prática das posturas, por sua vez, era uma pequena parte desse método. Presentemente, vemos que essa parte tornou-se sinônimo de Haṭha, e que este termo, por sua vez, tornou-se sinônimo de Yoga. No caminho, ficaram para trás o código de conduta, o auto-estudo e técnicas fundamentais, como mudrā, prāāyāma, mantra e meditação. A visão do Yoga que temos ao reduzir as coisas desta maneira é que se Yoga é igual a Haṭha, e Haṭha é igual a āsana, então, Yoga é āsana. Isso deixa esta bela e milenar forma de vida reduzida a um simples exercício físico:


Yoga = Ha
ha; Haha = āsana => Yoga = āsana.

Concluir isto é tão precipitado quanto concluir que se Yoga é um conjunto de técnicas, e que o mūla bandha (a contração dos esfíncteres) é uma dessas técnicas, então, qualquer pessoa que contraia os esfíncteres estará praticando Yoga.

Perigos do āsana.

Nessa ordem de coisas, o perigo que correm os praticantes desavisados é o de escolher um professor despreparado. Há na atualidade muitos “métodos” de Yoga diferentes, alguns deles sendo apenas marcas registradas de formas de praticar Haṭha Yoga. Para simplificar, quando falamos em Haṭha Yoga estamos nos referindo àquelas práticas em que o corpo físico tem um papel relevante. A popularidade crescente do Yoga fez surgir muitos novos instrutores que passaram por uma formação superficial e precipitada e infelizmente, não estão prontos para ensinar e transmitir o Yoga de maneira minimamente segura e fidedigna. A eles, se alia ainda a presença de professores que estão há muito tempo ensinando, mas cujos objetivos não são exatamente os de um yogi honesto.

Em primeiro lugar, devemos esclarecer e lembrar que a prática de Yoga, seja com envolvimento de ações do corpo físico, mantras, respiratórios, relaxamento ou meditação, não é um fim em si mesmo. Toda e qualquer prática deve ser abordada como um momento para a reflexão sobre o ensinamento que realmente faz a diferença no Yoga. É por isso que podemos dizer que, em verdade, não importa qual seja a prática “externa” que cada um escolhe, desde que essa prática sirva ao propósito da reflexão, desde que não seja lesiva nem inócua, e desde que o praticante, como recomenda o sábio Patañjali no Yogasūtra, tenha apreço por ela. Infelizmente, não é isso o que testemunhamos na maior parte das salas de Yoga. Em algumas escolas e academias, o que prevalece é a atitude no pain, no gain (“sem dor não há ganho”) o que é, desde a perspectiva da ahisā (o princípio da não-violência que deveria ser a base de toda prática), um atentado à própria auto-preservação.

“Abrir” as articulações? Os mitos da prática mal compreendida.

Outro dia, estava dando um curso intensivo numa cidade ao norte do Rio de Janeiro e um professor “muito experiente”, daqueles que têm muitos alunos, fez um aparte no meio de um treino dizendo: “temos que alongar os ligamentos do joelho no adomukhasvanasana”. Com todo o respeito, dizer isto é um disparate sem tamanho. Porém, na boca de um professor de Yoga, é ainda uma tremenda irresponsabilidade.

Estudando o básico da anatomia humana, ficamos sabendo que ligamentos e tendões não são alongáveis. Essas estruturas, que unem ossos com ossos ou músculos com ossos, são feitas de fibras colágenas alinhadas que simplesmente não podem nem devem ser alongadas. Certos músculos do corpo admitem, sem perigo de lesões, um alongamento de até 100% do tamanho original em repouso. Outros chegam até 130%.

Ligamentos e tendões, no máximo, admitem um alongamento de 4%, ou seja, o grau de elasticidade é praticamente nulo. É por isso que dizemos que eles não podem ser alongados, já que não são estruturas elásticas e, se submetidos a algum tipo de tração, irão provocar a perda da estabilidade das articulações.

Quando professores despreparados ouvem queixas dos alunos em relação a dores ou lesões articulares, eles repetem uma frase pronta, que é mais ou menos assim: “as articulações estão abrindo, e por isso doem. Mas não precisa parar de praticar. Isso passa com o tempo”. Em algumas escolas, tendões e ligamentos lesionados são moeda corrente. Infelizmente, esses mesmos professores têm a crença de que as leis da física e o bom-senso não se aplicam ao método que eles ensinam. Coincidentemente, acreditam que o Yoga funciona apenas pela repetição de técnicas e que o objetivo deste método, seja qual for, se alcança somente por praticar.

A outra crença que condena os alunos destas pessoas à “rota de colesão“ é que a prática que eles ensinam vale para todas as pessoas, de todas as idades, em todos os estados físicos e de todos os biótipos. Uns meses atrás, escrevi um texto para a revista Yoga Journal sobre a importância de não forçar o corpo na prática.

Uma leitora respondeu com uma carta agressiva e insultante, dizendo que propor uma prática baseada na responsabilidade, no bom-senso e no equilíbrio entre esforço e não-violência, era algo “raso”. É bem provável que esta pessoa já esteja lesionada, pois com essa atitude certamente não se vai muito longe no Yoga. Nem na vida.

Mais dois desvios do caminho.

Acredito que o que esteja faltando para praticantes como essa leitora é uma compreensão mais profunda do que seja o Yoga e da forma em que ele funciona. Isso acontece, mormente, por que muitos daqueles que ensinam Yoga acham que sua meta seja uma experiência especial, chamada samādhi. Ora, acontece que o samādhi não é uma experiência, mas um estado de consciência, um atitude que, se estiver presente no praticante, irá permear todas suas experiências e, se não estiver presente, não poderá ser encontrado em nenhuma delas. No entanto, na falsa busca pela emoção suprema, pela experiência máxima, vale tudo.

Nessa trilha, a cada mês surge uma nova prática, um novo “estilo”, uma nova “tradição milenar”. Há um frisson no ar, e igualmente uma curiosidade mórbida pela parte de alguns que olham pasmos enquanto outros inventam as modas, sobre quem irá surgir com a próxima acrobacia, a próxima combinação de Yoga com caviar, Yoga com coreografias, Yoga com champanhe, Yoga com futebol, Yoga com circo, Yoga com molho de tomate, Yoga com disco music, Yoga com banhos de chocolate, Yoga com cachorro, Yoga com axé, Yoga com droga…

Nessa ordem de coisas, chama a atenção a necessidade de misturar ou temperar as práticas com outras experiências. O código de conduta yogika existe para proteger os praticantes, mas infelizmente não é aplicado ou sequer mencionado em muitas das práticas que vemos hoje em dia. Então, vou colocar apenas mais dois exemplos de coisas que acontecem atualmente no mundo do Yoga, mas que não estão alinhadas com o espírito desta nobre escola de vida.

1) O Yoga não promove nem recomenda o consumo de drogas de nenhum tipo, nem maconha, nem santo daime, nem álcool, nem outras “plantas sagradas” ou coisa que o valha. O primeiro princípio ético do Yoga é ahimsa, a não-violência, que inclui evitar a autodestruição por meio de drogas de qualquer tipo. O segundo dos niyamas, shauchan, ensina também que devemos manter um estado de purificação física, emocional e mental, que certamente exclui o consumo de substâncias tóxicas e estupefacientes.

2) O Yoga (dito “tântrico” ou não), não ensina e nunca ensinou que possamos usar ou abusar dos demais ao nosso bel-prazer, nem que exista o direito pela parte do professor a constranger os praticantes com propostas sexuais indecorosas e não consentidas. Nesse sentido, uma sensata interpretação do princípio ético brahmacharya, feita pelo grande erudito Georg Feuerstein, ensina que “Professores de Yoga concordam em evitar qualquer forma de assédio sexual aos alunos. Professores de Yoga farão todo o possível para não tirar proveito da confiança e a da potencial dependência de seus alunos”.

Com isto, não estou querendo me meter na vida privada dos praticantes. O que acontece a portas fechadas, na intimidade de cada um, é algo pessoal, e nem você nem eu temos nada com isso. Tampouco quero dizer que devamos fazer uma coisa na nossa intimidade e afirmar outra diferente em público. Cada um sabe a importância que dá a ser coerente em pensamento, palavra e ação. O que é inadmissível é abusar desse espaço sagrado e ao mesmo tempo público que é a sala de práticas, para realizar as próprias fantasias sexuais ou tornar o convívio com os colegas um palco para experiências psicodélicas, que irão concluir em sofrimento, confusão mental e distorção dos propósitos do Yoga.

Conclusões.

Por que é que não nos podemos simplesmente nos contentar com aquilo que o Yoga tem de bom para nos dar? Por que é que tantos maus professores insistem em misturar Yoga com drogas e sexo? Por que é que não nos damos a oportunidade de apenas fazer um prāāyāma ou um mantra e relaxar nos frutos dessas práticas simples e eficientes? Por que é que não nos damos a oportunidade de nos conhecer um pouco mais através da auto-investigação que o Yoga nos propõe, ao invés de abusar dessas evasões e buscar essas experiências?

Vale lembrar que o que o Yoga propõe não é a busca da felicidade em experiências sensoriais, mas uma mudança de perspectiva em relação a nós mesmos, na qual, da pessoa incompleta que vemos quando nos olhamos no espelho passamos, não a tentar preencher o vazio com vivências ou paraísos artificiais, mas a olhar para nós mesmos como seres completos e felizes, dentro daquilo que somos, segundo o milenar ensinamento das Upanishads.

O problema é que quem vira as costas para estas distorções, dá igualmente seu silencioso aval aos despreparados e mal-intencionados. Na medida em que não fizermos nada para mudar esse panorama, os oportunistas ganharão terreno sobre os honestos praticantes e professores, e continuarão manchando o bom nome do Yoga. Fica aqui a sugestão para o amigo leitor escolher com muito cuidado seus professores, usando o bom-senso e a intuição. Namaste!

Pedro nasceu no Uruguai, 54 anos atrás. Conheceu o Yoga na adolescência e pratica desde então. Aprecia o o Yoga mais como uma visão do mundo que inclui um estilo de vida, do que uma simples prática. Escreveu e traduziu 10 livros sobre Yoga, além de editar as revistas Yoga Journal e Cadernos de Yoga e o website www.yoga.pro.br. Para continuar seu aprendizado, visita à Índia regularmente há mais de três décadas.
Biografia completa | Artigos

13 respostas para “Escolhas, meios e fins”

  1. Oi, Pedro,
    Eu tenho lido bastante sobre yoga, e tenho começado a praticar. Li algumas coisas, e comecei a perceber um histórico de abusos sexuais cometidos por grandes “mestres” da Krya yoga como Paramahansa Yogananda e Swami Kriyananda (J. Donald Walters).
    Relatos de abusos sexuais por parte de instrutores de yoga são bem comuns, mas não sao amplamente divulgados em língua portuguesa. Há muitos sites com relatos e matérias a esse respeito na internet, na língua inglesa. Até que ponto é interessante se dispor diante de um “mestre yogue” pra obter aprendizado na hatha yoga, ou na krya yoga, em caminho da evolução espiritual?
    Os abusos parecem ser tantos. Há muitos casos de atentado violento ao pudor e estupro. Não seria melhor mulheres serem instruídas apenas por mulheres, por exemplo? Há alguma norma nesse sentido? Desculpe se toquei num assunto indelicado, mas eu, pessoalmente, depois de ter lido relatos de abusos na yoga, pretendo manter minha prática sozinha.
    Agradeço se puder me auxiliar. Bia.
    ====================
    Olá, Bia,
    Obrigado pela sua mensagem. Olha, eu fico tão indignado quanto você ao saber da presença de abusadores, corruptos e desonestos no mundo da espiritualidade. Nunca ouvi, no entanto, falar mal nesse sentido de Swami Yogananda. Creio que ele pode ter sido injustamente acusado de algo que não fez, nesse sentido. Agradeceria se você pudesse me dizer onde viu provas desse suposto abuso por parte dele. Ele tem a minha total confiança nesse ponto, até o presente momento. Já não posso dizer o mesmo do seu discípulo Kriyananda Donald Walters.
    Como não temos uma “polícia do Yoga” que possa nos proteger de abusadores, o que cabe é cada um usar seu próprio bom-senso e se afastar desses falsos gurus. Da nossa parte, colocamos neste website, para alertar os praticantes, uma série bastante ampla de conselhos, testes, recomendações e alertas para que as pessoas possam diferenciar o joio do trigo.
    Namaste!

  2. ola! eu sou estudante do colegial. em minha escola tenho um grupo de relaxamento comrporal. desntro do mesmo estao 10 meninas com o objetivo de alcançar o relaxamento corporal e da mente! por isso pensamos em yoga! só que eu nunca pratiquei e nao sei como o fazer! desconheço tudosobre yoga, por isso estou pedindo ajuda! voce pode me ajudar! estou pesquisando muito! mas nao sei como começar a praticar!
    grata desde já!
    Camilla

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *