Ética, Pratique

Gandhi, Hitler e a não-violência

Muito se romantiza atualmente a imagem de Mahatma Gandhi, mas o amigo leitor já se perguntou se a imagem que nós temos atualmente deste carismático líder é 100% verdadeira?

Escrito por Pedro Kupfer · 8 mins de leitura >

Você sabia que Mahātma Gandhi escreveu cartas para Adolf Hitler em duas ocasiões? Já vamos entrar no tema, mas antes gostaria de começar contando um breve capítulo da minha família, para contextualizar o amigo leitor.

A família Kupfer-Biske fugiu da Europa no início da II Guerra Mundial. Dona Helena, judia de família ucraniana, havia nascido na Suíça e não escaparia ao destino de tantos milhões de judeus naqueles anos de intolerância e horrores, quando Hitler invadisse seu país.

Gandhi hitler

Seu Markus, austríaco de nascimento, mesmo sendo de família cristã, não escaparia ao mesmo destino, uma vez que era um ativista antifascista, que lutava contra o totalitarismo nacional-socialista de Hitler. Eles fugiram um pouco antes do início da guerra, buscando um lugar onde pudessem recomeçar de zero, onde lhes fosse permitido, pelo menos, viver.

Meus avós fugiram em diferentes navios (primeiro ele, depois ela) para o Uruguai e ficaram em Montevidéu, no gueto judeu. Foi lá que meu pai, Juan, nasceu. O menino Hansi, como era chamado por meus avós, falava em iídiche (a língua dos judeus da Europa do Leste) na rua, alemão em casa e somente veio aprender espanhol na hora de ir à escola.

Como gente trabalhadora e honesta que estas pessoas sempre foram, devagarzinho e apesar das dificuldades, saíram adiante e conseguiram uma bela descendência, que hoje se espalha pelo mundo, na forma de netos e bisnetos saudáveis e de mente aberta.

Faço esta introdução para contextualizar o assunto do título, pois li, pouco tempo atrás, uma declaração que Gandhi fez naqueles anos da pré-guerra, dizendo o que ele teria feito se tivesse nascido judeu na Europa. Veremos isso mais adiante neste texto.

Muito se romantiza atualmente a imagem de Mahatma Gandhi, mas o amigo leitor já se perguntou se a imagem que nós temos atualmente deste carismático líder é 100% verdadeira?

Em 1982, na ocasião do lançamento daquele filme que narrava a vida dele protagonizado pelo ator Ben Kingsley, poucos ocidentais questionaram porquê o filme não havia tido nenhum sucesso na Índia, um país que ama o cinema acima de quase todas as coisas.

Gandhi: santo político ou político santo?

Porém, vamos aos fatos: disse alguém com muita propriedade que Gandhi foi “um santo entre os políticos e um político entre os santos. Muitas pessoas, hoje em dia na Índia, não tem uma boa imagem do legado e da pessoa de Mohandas K. Gandhi.

Há muitos indianos que o responsabilizam diretamente pela partilha Índia-Paquistão e o mais de um milhão de mortes que aconteceram nos massacres de violência comunal que aconteceram depois da Independência, em 15 de agosto de 1947.

Tenho vários grandes amigos, dentre eles o físico quântico Harbans Arora e sua esposa Ved Arora, e a família Agnihotri Kukreja, que moravam em Lahore (hoje dentro do território paquistanês), e perderam seus pais, irmãos e amigos nos massacres que poderiam perfeitamente ter sido evitados se a articulação política tivesse sido mais hábil e se tivessem sido evitadas as concessões excessivas que foram feitas aos separatistas na época.

O motivo dessas concessões, me explicaram, era a necessidade que Gandhi tinha de ser reconhecido como líder, não apenas pela massa dos hindus, mas igualmente pela minoria islâmica, como já havia acontecido nos anos em que ele viveu na África do Sul.

Muito embora da boca para fora, Gandhi fosse contrário à idéia da divisão Índia-Paquistão, a percepção de muitos indianos, à época e atualmente, é que essa partição poderia ter sido evitada, e colocam a responsabilidade pelo fracasso nesse líder.

Atualmente, testemunhamos uma relação de amor-ódio entre os dois países que é muito mais grave do que a rivalidade futebolística entre o Brasil e a Argentina, já que aqueles dois países tiveram várias guerras e até hoje não se puseram de acordo com a questão da Cachemira. Da mesma forma que palestinos e israelenses, indianos e paquistaneses, sendo uma mesma e única família, foram divididos pela ganância e sede de poder de alguns poucos políticos.

Um dado curioso, mas que pouca gente conhece desde lado do mundo é que, quando Gandhi foi morto, seu último desejo, que era ter suas cinzas espalhadas em todos os rios sagrados da Índia livre, não pôde ser cumprido, uma vez que o governo paquistanês recusou a permissão para que as cinzas fossem espalhadas sobre o rio Indo.

Isso mostra o grau de desprezo que os muçulmanos nutriam por ele. Disseram na ocasião que, se permitissem que as cinzas tocassem o rio deles, a “Terra dos Puros” iria virar “Terra dos Impuros”. Pakisthan significa literalmente Terra dos Puros (pak = puro, than = terra). Esse desprezo, misturado com a dor pela perda de familiares e amigos, é compartilhado por muitos punjabis, os habitantes do norte da Índia, que foram os que mais sofreram na partilha.

Por outro lado, Gandhi foi um dos principais líderes, junto com Jawaharlal Nehru, do Indian National Congress (INC), Partido do Congresso, o partido político que, liderado pela dinastia Nehru-Gandhi, governa o país até hoje.

A hegemonia política nesses 60 anos de independência da Índia tem se mantido com poucas interrupções. Embora não exista vínculo familiar entre Jawaharlal Nehru e Mohandas Gandhi, havia sim concordância política e articulação sobre a questão da independência da Índia e outros importantes assuntos políticos.

Após Nehru ter sido o primeiro Primeiro Ministro da Índia independente, foi sucedido por sua filha Indira Gandhi, que por sua vez foi substituída pelo seu filho Rajiv Gandhi e, indiretamente, por sua nora Sonia Gandhi (que preside atualmente o partido e governa através do Primeiro Ministro títere Manmohan Singh).

Todos pertencem à mesma família e todos têm se envolvido em gritantes casos de corrupção, nepotismo, demagogia, prepotência e autoritarismo que em muito lembram os atropelos cometidos pelo atual governo de um belo e grande país da América do Sul onde se fala a língua de Camões.

A não-violência tem limites?

A declaração de Gandhi da que falamos acima foi publicada no periódico Harijan, quando os nazistas já começavam a aplicar a eufemisticamente chamada Solução Final: o extermínio total dos judeus, ciganos, homossexuais e pessoas com discapacidades. Lembre-se que a perseguição e a discriminação dessas pessoas começou em 1933 e que, a partir de 1938, teve início o genocídio sistemático. Ela diz o seguinte:

“Se eu fosse um judeu e tivesse nascido na Alemanha e tivesse feito a minha vida lá, chamaria a Alemanha de meu lar, da mesma forma que o mais alto gentil-homem alemão, e o desafiaria a me matar ou me jogar num calabouço; eu me recusaria a ser expulso ou submetido a tratamento discriminatório.

“E, fazendo isto, eu não iria aguardar pelos meus colegas judeus para se juntarem a mim na resistência civil, mas teria confiança em que, no fim, os demais seguiriam meu exemplo. Se um judeu ou todos os judeus aceitassem a prescrição aqui oferecida, ele, ou eles não estariam pior do que estão agora. E, sofrendo voluntariamente, terão mais força interior e alegria. (…)

“A violência calculada de Hitler pode mesmo resultar num massacre geral dos judeus, considerando sua primeira resposta à declaração de tais hostilidades. Mas se a mente judaica estivesse preparada para o sofrimento voluntário, até mesmo o massacre que eu imagino poderia se tornar um dia de ação de graças e alegria no qual Jeová traria a redenção da raça, mesmo pelas mãos do tirano. Pois, ao temente de Deus, a morte não aterroriza”.

[Publicado no periódico Harijan, artigo The Jews, 26 de Novembro de 1938.]

Historicamente falando, é totalmente inadequado fazer, como o grande líder faz nestas afirmações, um paralelismo entre a situação do colonialismo inglês na Índia e o genocídio dos judeus na Europa. Até mesmo porque, face às perseguições que os indianos sofriam, Gandhi chegou a justificar o uso da força para auto-defesa.

Concedeu aos indianos aquilo que neste texto nega aos judeus, que foram chamados por ele “os descastados da Europa”. Quando li isto por primeira vez, não pude deixar de lembrar as histórias de horror que os sobreviventes dos campos de concentração contavam para meus irmãos e para mim quando éramos crianças, através das suas palavras ou das marcas das torturas ou tatuagens em seus corpos.

Pode parecer muito nobre pedir aos outros para morrer como mártires, prometendo que eles “terão mais força interior e alegria” ou que isso trará a “redenção da raça”, mas eu não aceitaria o conselho de Gandhi. Se meus avôs tivessem seguido essa recomendação, eu certamente não teria nascido nessa família. Assim sendo, creio que tenho o direito de dar a ele uma resposta, mesmo que tardia, como descendente desses sobreviventes que optaram por fugir e recomeçar a vida num lugar tranqüilo.

Como filho de pai judeu, que durante toda a infância conviveu com os sobreviventes judeus que conseguiram chegar a Montevidéu, onde se refugiaram após terem perdido suas famílias, trabalhos e posses, fico indignado com as palavras que Gandhi dirige aos judeus. Não me considero judeu, mas levo em mim a memória dessas pessoas com quem cresci.

Genetica, cultural e etnicamente, carrego esse sangue e essa memória. Nenhum dos judeus daquela geração com quem convivi, aliás, era especialmente religioso. Alguns se manifestavam contrários até mesmo à existência do estado de Israel. Ou seja, eram gentes de mente aberta, muito diferentes dos judeus fundamentalistas que se acham o povo eleito.

Ahiṁsā e autodestruição

Duvido que se de fato Gandhi tivesse nascido como judeu alemão, e Kasturba, sua esposa, lhe pedisse para fugirem junto com seus quatro filhos, ele tivesse feito aquilo que recomendou aos meus avós. O princípio da não-violência (ahiṁsā) tem certamente uma tremenda força e é um poderoso fator de transformação, tanto coletiva quanto individual.

Porém, não podemos confundir não-violência com passividade, nem deveríamos considerar que a não-violência não deva ser dirigida a si mesmo. Se ele fizesse, como recomendou aos judeus, um ato solitário de resistência não-violenta e se deixasse prender, torturar e matar, a lápide no seu túmulo poderia dizer: “Aqui jaz Jakob Gandhinstein, um homem que não soube cuidar da própria sobrevivência e arrastou toda a sua família para uma morte inútil”.

Então, chegamos ao âmago da questão. No calor da partição Índia-Paquistão, muita gente teve que trocar de lado na fronteira. Havia bandos de fundamentalistas hindus e muçulmanos, de ambos os lados da fronteira, prestes a massacrar as caravanas de refugiados. Isso acontecia nas estradas, nas rodoviárias e nas estações de trem.

Qual seria a atitude do amigo leitor se se visse na contingência de defender a própria família na beira de uma estrada de um bando de ladrões e estupradores? Não-violência não é ficar de braços cruzados assistindo a cena. Pelo que entendo, mas posso estar equivocado, corresponderia assumir uma atitude firme de defesa dos mais fracos e usar a força física para afastar os malfeitores, não é mesmo?

Qual seria a atitude do amigo leitor se se visse na contingência de ter que fugir do próprio país ou morrer torturado? Cabe lembrar que, na época em que Gandhi escreveu o texto citado, o genocídio dos judeus já tinha começado. A partir de março de 1938, eles começaram a ser massacrados ao ar livre e jogados em valas comuns por esquadrões da morte conhecidos como Einsatzgruppen (“grupos de intervenção”).

Posteriormente, a partir de 1941, eles conduzidos como animais até os campos de concentração, onde eram condenados a trabalhos forçados até a exaustão. Depois eram jogados numa câmara de gás. Com a gordura remanescente dos cadáveres, os nazistas fabricavam sabão. Com a pele das vítimas, faziam luminárias.

Os dentes de ouro eram arrancados e fundidos em barras que terminavam num banco suíço. Para abreviar, não irei mencionar a situação de degradação física e moral à qual estes inocentes eram submetidos. Sabendo desses horrores, o amigo leitor iria seguir o conselho de Gandhi?

Ele disse uma vez que, se seguíssemos o conselho bíblico do “olho por olho, o mundo inteiro iria ficar cego”. Concordo. Mas, existe certa distância entre ser não-violento, e permitir que a própria vida seja arrancada sem tentar a preservar. Há uma enorme distância também entre ser equânime e escrever cartas a um genocida como Adolf Hitler chamando-o de “meu querido amigo”. Gandhi fez isso em duas ocasiões.

Não estamos dizendo aqui que o ideal teria sido que os judeus oferecessem resistência armada aos nazistas, mas propondo quem sabe um caminho do meio, em que é preservada própria vida daquele que está sendo perseguido e dá-se a ele o direito, pelo menos, de fugir. É o que parece o mais lógico.

Não quero, com estas palavras, diminuir o legado de Gandhi em termos de não-violência, resistência pacífica, autossuficiência e vida simples aplicados politicamente e em grande escala. Porém, incomoda-me o fato de que atualmente fala-se no Ocidente como se ele fosse um santo iluminado. É bom lembrarmos que todos os santos têm seu lado de sombras, como qualquer humano.

O milhão de vítimas do massacre que aconteceu durante a partição Índia-Paquistão e a memória dos seis milhões de judeus exterminados não deveriam ser esquecidos ou varridos para baixo do tapete da história no afã de elogiar um político-santo.

Se Gandhi se equivocou ao avaliar as mortes que aconteceriam por causa da divisão da Índia em dois países, ou se errou em recomendar a melhor atitude perante a brutalidade nazista, fica aqui a nossa pontualização e lembrança. Namaste!

॥ हरिः ॐ ॥

Mais sobre Yoga e sociedade aqui.

Pedro nasceu no Uruguai, 54 anos atrás. Conheceu o Yoga na adolescência e pratica desde então. Aprecia o o Yoga mais como uma visão do mundo que inclui um estilo de vida, do que uma simples prática. Escreveu e traduziu 10 livros sobre Yoga, além de editar as revistas Yoga Journal e Cadernos de Yoga e o website www.yoga.pro.br. Para continuar seu aprendizado, visita à Índia regularmente há mais de três décadas.

Escrito por Pedro Kupfer
Pedro nasceu no Uruguai, 54 anos atrás. Conheceu o Yoga na adolescência e pratica desde então. Aprecia o o Yoga mais como uma visão do mundo que inclui um estilo de vida, do que uma simples prática. Escreveu e traduziu 10 livros sobre Yoga, além de editar as revistas Yoga Journal e Cadernos de Yoga e o website www.yoga.pro.br. Para continuar seu aprendizado, visita à Índia regularmente há mais de três décadas. Perfil
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Haṭha Yoga: 1 Prática Completa

Pedro Kupfer em Āsana, Pratique
  ·   1 mins de leitura

26 respostas para “Gandhi, Hitler e a não-violência”

  1. Ao João Pugliero. Há muito não vejo alguém assim com tamanha fé na humanidade. Que os céus te conservem! P.S. Nas tuas conexões com a divindade, não esquece de nós.

  2. Namaskar a todos. Os caminhos do karma individual, familiar e racial são complexos e por vezes dificeis de serem interpretados pela inteligência humana. Os verdadeiros lideres normalmente são veiculos para organizar e atenuar as reações dos karmas e como
    em tudo nesse mundo, ha limites para a interferência deles, principalmente quando se trata de questões politicas ou sociais. As raças antigas também fizeram algumas maldades em suas trajetórias evolutivas, e como diz o ditado:” nós encontramos fora o que temos dentro.” O lado bom de todos esses conflitos é que depois dos acertos de contas, voltaremos a ser uma grande famillia e juntos desfrutaremos das melhores coisas desse universo.

  3. É da maior importancia falar sobre um tema assim tão controvertido para aprofundar a reflexão e o conhecimento de todos. Mas não devemos esquecer que todo líder está exposto a cometer erros, por que tudo que disser ou fizer terá consequencias “elevadas à potencia N ” por que irá atingir a vida de centenas ou milhares de pessoas. A responsabillidade de um formador de opiniões é grande, da mesma forma. Tudo que ele disser ou ou fizer será registrado e ficará na memória, nos livros ou entrará para a história. E terão seu julgamento no presente e no funturo.

    Por isso eu convido a todos a refletirem sobre essa idéia: Não devemos ter formadores de opiniões! Não devemos idolatrar ninguém, devemos sim ser livres pensadores! Para não cometermos o erro de milhões de nazistas, que aceitaram ideias preconceituosas e assassinas numa “embalagem diferente”, com a promessa de atingirem a hegemonia.

    Quanto a Gandhi, não sei o que pensar. Quero ainda estudar bastante sobre o assunto para ter uma opinião pessoal.
    Obrigada por tudo Pedro, vc nos faz refletir.
    Om Shanti!
    Diva Vieira.

  4. Parece que o ser humano tem sempre a necessidade de idealizar situações, pessoas ou o que lhe convier para lhe prestar algum sentido à existência, lhe ocupar com algo, etc. Isso é fato.
    Todavia, os questionamentos começam quando nos apegamos de forma parcial à apenas duas das facetas do real, ou seja, vendo os dados de forma maniqueísta: só otimista, ou só pessimista, esquecendo que existe uma terceira via: a realista que muito embora possa não abdicar daquelas duas, as ultrapassa por pretender aproximar-se o máximo da verdade, sem se arvorar em ser a senhora dela.
    Sinto que isso foi o objetivo seu (Sr. Kupfer), mas a linguagem (escrita ou pronunciada) sempre deixa margem a interpretações e pode se tornar, por vezes, ?uma fonte de mal-entendidos?.
    Como o Sr., ao seu modo, também mencionou, cabe a história julgar mais precisamente os fatos, e dar seu veredicto. Só espero que os realistas se interessem mais por ocorridos dessa natureza, uma vez que o que tem prevalecido é a história contada pelos que detêm maior poder de barganhá-lo dentro de um contexto econômico, social e cultural que atenda seus interesses particularistas. (Vale mencionar, no entanto, que esse viés não se presta para compreender Gandhi, posto que seus feitos pareçam anular episódios (atos falhos1?) como esses mencionados pelo senhor).
    Gandhi e o anti-semitismo, em princípio, sugestionam não ter nada em comum, ainda que aquele, em algum momento de suas ações, não tenha agradado a todos (como já foi dito, a história julgará). Mas, quanto ao anti-semitismo? A história tem condenado esse tipo de ação sem classificação e mesmo assim as minorias continuam a sofrer toda sorte de intolerância. Por atrasado que pareça, ainda não conseguimos nem tolerar o diferente, quanto mais conviver com ele mais pacificamente. Assim, faz-se preciso desvendar e paralisar, na verdade e em princípio, o germe da tolerância porque ?ela pressupõe que o outro me incomoda (Zea)?, (só tolero o que me incomoda) e o outro não deve me incomodar por ser outro, portanto, diferente de mim. É preciso que aceitemos e aprendamos a conviver com as diferenças porque no final das contas, temos todos algo em comum: somos todos humanos. (O que é diferente de acatar, ser cúmplice, … das transgressões penais, ou não, do outro). É necessário citar, todavia, que no mundo dito moderno há um ?adoecimento de contato? (Adorno e Horkheimer) que faz com que as vítimas da vez (minorias ou grupos que estejam incomodando de alguma forma) sejam intercambiáveis. Exemplo, no passado o holocausto, no presente, a guerra na Faixa de Gaza. Mas, afinal o que se aprende com tudo isso?
    Vemos que em nome de Deus (guerras ?santas?), da ?razão?(invasão do Iraque pelos EUA), cometem-se ainda muitas atrocidades inclassificáveis. Quando aprenderemos na prática a convivência pacífica; o verdadeiro ecumenismo?
    Sou a favor de um Estado binacional e não vejo nisso nenhuma traição a Israel, uma vez que Ismael era filho de Abraão com uma escrava, mas foi amparado por IAHWEH.
    Vejo na profissão que o Sr. abraçou uma significativa oportunidade de contribuir para impedir que outros Auschwitz (ou coisa que os valha) não aconteçam novamente, pois a mensagem do yoga, como o Sr. sabe bem melhor que eu, também tem esse poder, ainda que, vez por outra, algumas situações somente negativas possam (tentar!?) denegrir sua imagem milenarmente ilibada, como a do ?guru do laxante? (ocorrida no passado próximo).
    Destarte, fico feliz de saber da sua ascendência judaica e se orgulhar dela, o que nos faz ser solidários com as minorias por sabermos ?o que é ser imigrante em terra estrangeira.?
    Shalom e bem!

  5. Un comentario con relación al artículo; Gandhi, Hitler e a nao violencia. Muchos no saben, muchos ni siquiera lo quieren saber, otros se “olvidan”, otros muchos quieren que se olvide, otros tantos prefieren que se olvide, mientras otros, con toda la razón, se quieren olvidar, que la cuestión judía, sobretodo en Europa, no se relaciona solo con los alemanes, y es bastante anterior, infinitamente anterior al holocausto. Tan anterior, que casi estoy seguro que muchos de los judíos que han vivido y sobrevivido al holocausto, y sus descendientes la desconocen.
    No pretendo justificar, juzgar, o santificar a Gandhi, siquiera lo considero un santo, simplemente lo veo como un ser excepcional, que actuó en defensa de un ideal de no violencia en su tiempo y en su tierra según sus propias creencias y circunstancias. No pretendo justificar ni juzgar a los judíos, pues ni siquiera estoy seguro, así como nadie puede estarlo, de ser un descendiente de ellos, llevándose en cuenta que la historia nos habla de los judíos conversos, tanto al cristianismo como, curiosamente, al islam. No pretendo juzgar ni justificar a los alemanes de entonces, tampoco al austriaco Hitler.
    No pretendo quitar ni darle la razón al responsable del citado articulo, pero algo que si desearía saber es, deseo quizás irrealizable, con que intención se escriben artículos como este. Quizás la única intención sea el deseo de prestarle un homenaje a un ser querido, algo incuestionable, a no ser por la forma elegida.
    No pretendo motivar, juzgar ni justificar a nadie, pero sin romanticismos, una pregunta si me permito;

    Si no debemos confundir la no-violencia con la permisividad, si el pacifismo no debe ser confundido con la pasividad, si intentar salvarse debe ser visto únicamente como una actitud loable, y buscando practicar la ética, según lo propuesto, como única forma de evitar un nuevo holocausto pregunto;
    ¿Que actitud deben tener palestinos con relación a los judíos, y que actitud deben tener los judíos con relación a los palestinos?
    Y para finalizar complemento, hay respuestas que no convencen, actitudes que no se explican, e intenciones que no se dejan ver.

    Respeto vuestro derecho de no contestarme.

    Joe & Joe.

    Om Shanti, Shanti, Shanti.

  6. A MENSAGEM DE VIKTOR FRANKL
    por Olavo de Carvalho

    http://www.oindividuo.com/convidado/olavo1.htm

    “Desde seu posto de observação privilegiado, ele pôde enxergar o que nenhum intelectual deste século quis ver: a aliança secreta entre a cultura materialista, progressista, democrática, cientificista, e a barbárie nazista. Aliança, sim: seria apenas uma coincidência que o século mais empenhado em negar nas teorias a autonomia e o valor da consciência também fosse o mais empenhado em criar mecanismos para dirigi-la, oprimi-la e aniquilá-la na prática? Dirigindo-se a um público universitário norte-americano, Viktor Frankl pronunciou estas palavras onde a lucidez se alia a uma coragem intelectual fora do comum:

    “Não foram apenas alguns ministérios de Berlim que inventaram as câmaras de gás de Maidanek, Auschwitz, Treblinka: elas foram preparadas nos escritórios e salas de aula de cientistas e filósofos niilistas, entre os quais se contavam e contam alguns pensadores anglo-saxônicos laureados com o Prêmio Nobel. É que, se a vida humana não passa do insignificante produto acidental de umas moléculas de proteína, pouco importa que um psicopata seja eliminado como inútil e que ao psicopata se acrescentem mais uns quantos povos inferiores: tudo isto não é senão raciocínio lógico e conseqüente.” (Sêde de Sentido, trad. Henrique Elfes, São Paulo, Quadrante, 1989, p. 45.)”

  7. Pedro, eu entendi perfeitamente o que vc quis dizer nesse dilema entre ahimsa x passividade.

    Lembrei de um diálogo entre dom Juan e o Carlos Castañeda, em que o velho diz ao seu aprendiz que “procurar a morte é procurar nada…”, ou seja, se os judeus ficassem como dito no texto, estariam procurando a morte.

    Abraços.

  8. Primeiramente, PARABÉNS a Pedro Kupfer pelo texto defendendo uma tese bastante interessante.

    O legado de Ganghi é, indiscutivelmente, positivo ao mundo inteiro. Nós do ocidente temos, realmente, uma tendência em criar “semi-deuses” ou “santos políticos”.

    No entanto, acredito que toda a concretização de pacificidade alcançada por Gandhi e transmitida por ele através de belas palavras, decisões e atitudes é única e genial.

    Os sofrimentos passados pelos judeus foram intensos e a transcrição de alguns deles aqui no texto nos remete a outros tantos passados por negros nas diversas colônias escravistas, por índios nativos do nosso próprio território brasileiro e por tantos outros povos que até hj, infelizmente, padecem.

    Proponho a todos uma reflexão não focada em um único “povo reprimido” como se estivessemos defendendo algo com o conforto que o conhecimento histórico nos dá.

    (Lembremo-nos que agora em 2008 fica mais fácil fazer declarações a respeito do nazismo do que em 1938, quando as forças de Hitlher eram intensas.)
    O interessante seria discutir o equilíbrio NÃO VIOLÊNCIA (Ahimsa) – REATIVIDADE de uma maneira mais ampla ou, até mesmo, menos classista.

    Um abraço a todos e PARABÉNS novamente ao autor pelo bom texto para reflexão.

    Namaste.

  9. Senhores, gostaria de acrescentar, neste debate, alguns trechos do livro “Paixão Índia” de Javier Moro. Apesar de ser um romance, as páginas 305 e 306 mencionam Gandhi no período da 1º Guerra Mundial: “… todos os líderes indianos decidem continuar ajudando a Inglaterra, inclusive um advogado que acaba de chegar da África do Sul, um homem pequeno, valente e indiscreto, que vive como um pobre e defende os deserdados perante os ricos … chama-se Mohandas Gandhi. Apesar de ser um fervoroso independentista, declarou que a Índia não seria nada sem os ingleses e que ajudar o Império é ajudar a Índia, e que os indianos só poderão aspirar à independência, ou pelo menos ao autogoverno, no caso da vitória dos aliados… ” Nesse mesmo ano, na inauguração da Universidade Hindu de Benares, a cidade santa às margens do Ganges […] as palavras que Gandhi pronuncia no auditório da universidade nunca antes tinham sido ouvidas na Índia. Diante de uma multidão de estudantes, personalidades, marajás e maranis – vestindo esplendores uniformes -, Gandhi aparece vestindo um tecido de algodão branco. De baixa estatura e com seus braços e pernas desproporcionalmente longos em relação ao tronco, orelhas separadas do crânio, nariz chato sobre um fino bigode cinza e óculos de armação metálica, lembra uma velha ave pernalta: “A exibição de jóias que vocês nos oferecem hoje é uma festa esplêndida para a vista”, começa dizendo o campeão da não-violência. “Mas quando a comparo com o rosto dos milhões de pobres, deduzo que não há salvação para a Índia enquanto não tirarem essas jóias e as depositarem nas mãos desses pobres…”
    Até esse momento , ninguém havia se atrevido a dizer a verdade na cara dos príncipes da Índia. Gandhi ainda não é uma figura nacional. As centenas de milhões de indianos não o conhecem ainda. Mas sua fama começa a se estender. A Índia eterna, que sempre se inclinou diante do poder e da riqueza, também adora os humildes servidores dos pobres. As posses materiais, os elefantes, as jóias, os exércitos conseguiram sua obediência; o sacrifício e a renúncia vão conquistar seu coração.
    Há outras preciosidades históricas no livro que demonstram a relação amistosa e até amorosa entre os dois países, no início da Índia britânica. Depois de muito tempo, com medo que a miscigenação levasse ao processo de independência ocorrido na América do Norte, o império britânico passou a criar regras de segregação. Além de Gandhi, vários outros indianos que iam estudar na Inglaterra, voltavam fazendo as mesmas perguntas: “Como ser indianos britânicos sem ter os mesmos direitos dos ingleses? Como viver a vida toda entre o luxo e a miséria? Essas perguntas representavam o fermento de uma nova Índia.” (pg. 250)
    Apesar disso, o povo não vivia tão mal assim. No Principado de Kapurthala, região central do enredo, o Marajá conseguira transformá-lo em um estado modelo em miniatura, bem administrado e sem corrupção – pg 364. Conseguira atrair capital para implantar três fábricas, e implantar uma incipiente indústria açucareira. O alto índice de escolarização das crianças rendia-lhe os cumprimentos dos europeus. O índice de criminalidade era baixíssimo. Jamais usara seu exclusivo direito de impor a pena de morte… Tirava um ministro mulçumano aqui, colocando um administrador hindu lá, de modo que todos sentisem-se representados… mas o que mais o marajá se orgulhava era o carinho que seu povo tinha por ele…”
    Quando houve a divisão, o marajá decidiu incorporar seu principado à União Indiana, apesar de ter maioria mulçumana, pelo fato da constituição oferecer maiores garantias de proteção à pluralidade de seus cidadãos, do que o Paquistão Islâmico. Convocou uma reunião com representantes do povo, chefes de aldeia, pandits hindus, mufties mulçumanos e sacerdotes siques para anunciar a decisão, que foi recebida em meio a um absoluto silêncio. Só uma pessoa ousou fazer um comentário, um ancião chefe de aldeia, que lhe disse: “Está tudo certo, senhor, mas quem secará nossas lágrimas no futuro?”.
    De acordo com o texto do Pedro, não resta dúvidas que Gandhi foi infeliz ao fazer tal declaração, condenando à morte sem resistência, milhares de judeus alemães. Por outro lado, não restam dúvidas também sobre que o discurso e a prática da não-violência, fez com que Gandhi entrasse para a História como um líder político que libertou seu povo da opressão inglesa, não obstante o fato de que essa independência política não ter dado ainda ao povo indiano a independência financeira e a ordem social.
    Por estar distante, o ocidente vê apenas o lado romântico da coisa. Isso talvez, explique o fato do filme não ter feito tanto sucesso lá na Índia. Mas eu aposto que se Paixão Índia virar um filme, ele fará um enorme sucesso, tanto no oriente quanto no ocidente. Saudações a todos.

  10. Prezado Senhor: Desde meus tempos de universitária, tenho esta posição tão bem explanada pelo Senhor sobre a não-violência. De fato, não-violência não está relacionado com a subserviência, ou mesmo a postura equivocada de “agradar gregos e troianos”, mas sim na defesa de um ideal, através da eloquencia, do discurso integro e honesto, que brota da propria convicção daquele que o profere. Tanto assim que me sinto profundamente incomodada com o texto transcrito em seu belo artigo, levando em consideração o ideal que ali foi despojado e, além do mais a tentativa de estabelecer posturas incompatíveis com o próprio “eu”, pois como muito bem colocado, aquele que não ama a si próprio (como no caso da pretensão contida no texto) não tem condição de amar ao próximo, e assim a família que é a base da sociedade, ficaria à mercê de incontáveis violências. É sempre um prazer ler seus artigos. Edinéia

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