Começando, Pratique

Impressões sobre uma prática pessoal

Quando me iniciei na prática do Yoga foi um mero acaso. Depois de muito ácido láctico acumulado nos músculos, proveniente dos meus incansáveis treinos de corrida, resolvi ir a uma aula de Yoga. Puro alongamento da musculatura, era o que eu procurava

· 7 mins de leitura >

Este texto é sobre a minha prática. Como ela era, como aprendi o que devia mudar, e como mudou, durante e após um encontro intensivo que fiz em Abril de 2008 na Quinta das Águias, no norte de Portugal.

Passo algum tempo a ler os Cadernos de Yoga, e já os li repetidas vezes. É certo que quando releio um artigo parece que o estou a ler pela primeira vez. Não é distracção na primeira leitura, mas é um pouco a aplicação daquele ditado português ‘água mole em pedra dura, tanto bate até que fura’. Isto aplica-se perfeitamente à prática do Yoga. E assim, descubro coisas novas nos artigos ‘velhos’, dando continuidade ao meu caminho, observando e reflectindo.

E porque resolvi escrever sobre a evolução da minha prática, e sobretudo sobre o meu caminho no Yoga, reli de novo alguns artigos. Não foi propositado, mas aconteceu. Num dos cadernos, encontrei um artigo sobre ‘Ser aluno de Yoga’, escrito pela Karla Rizzon, jornalista e estudante de Yoga. Decidi então iniciar o trabalho escrito com um excerto desse artigo, por também ele se aplicar ao momento presente.

Estou tentando praticar aparigraha em relação à minha prática, ou seja, não ficar apegada ao progresso, mas deixar ele vir espontaneamente. Nem sempre isso é fácil.

(?) Às vezes, vou em aulas diferentes. Percebi a seriedade de ser um professor e vi que criei expectativas e que as opiniões deles passaram a ser muito importantes (?)

(?) Percebi que, hoje, já não me interessa se o professor consegue fazer todos os movimentos avançados. É claro que é lindo ver um ásana bem feito. Mas, o mais importante para mim, como aluna, é que eles demonstrem viver o caminho do Yoga nas próprias vidas (?)»

Quando me iniciei na prática do Yoga foi um mero acaso. Depois de muito ácido láctico acumulado nos músculos, proveniente dos meus incansáveis treinos de corrida, resolvi ir a uma aula de Yoga. Puro alongamento da musculatura, era o que eu procurava.

Deparei-me com muito mais do que isso. Deparei-me com uma professora ou instrutora, não sei que nome preferiria, que literalmente me surpreendeu. Apesar de me ter custado horrores, aquela parte que aprendi chamar-se de ásana, senti-me extraordinariamente bem. Parei, naquela aula e em todas as outras que vieram depois dessa. Para mim, aquele momento de recolhimento tornou-se rapidamente num momento que se iria repetir por muito tempo.

Percebi logo ali a tal seriedade do professor e percebi também o que a Karla refere no seu artigo quando fala da importância do professor demonstrar que ‘vive o caminho do Yoga na própria vida’.

Fiquei realmente impressionada com a paz e a tranquilidade, com o amor que aquela professora emanava. E também com o facto de todos os que estavam em aula demonstrarem um grande apresso por ela.

É verdade que também me sentia pouco à vontade, era das poucas ‘alunas iniciadas’. Ainda hoje sinto por vezes esse ‘pouco à vontade’, como quando estou perto daqueles que muitos chamam ‘alunos avançados’, ou mesmo daqueles que teimam em referir os seus anos de Yoga. Como se o Yoga fosse uma contagem sucessiva de anos. E como se tivéssemos todos que nos catalogar como alunos de 1o, 2o, 3o grau, numa escala crescente de prática.

Este começo passou-se em S.Paulo, no Brasil, e quando regressei a Portugal, dei continuidade às minhas aulas, inicialmente também num ginásio e posteriormente numa escola que apenas se dedica ao Yoga.

Essa passagem teve que ver com o meu crescente interesse pela prática. Num ginásio, quer queiramos quer não, é sempre um pouco mais evasiva a prática do Yoga. Não querendo com isto dizer que os instrutores e professores que ensinam em ginásios tenham menos crédito, ou que pelo facto de ensinarem naqueles espaços não sigam a prática da mesma forma que o fariam numa escola, simplesmente o ambiente é diferente.

E na escola, com o fácil acesso a livros e com as práticas um pouco mais profundas, iniciei-me num curso de formação para instrutores. Comecei a dar aulas, sendo esta hoje a minha actividade.

Lentamente e deixando que tudo acontecesse, fui mergulhando cada vez mais profundamente no Yoga, na Cultura do Yoga.

Confrontei-me com os mesmos sentimentos e emoções. Deslumbrei-me com o ásana, identifiquei-me com um e outro professor. E da mesma forma me decepcionei com outros tantos.

Para alguém que dedicou 5 anos da sua vida ao ballet, foi muito fácil ficar ‘quase’ dependente daquela técnica. E sendo a disciplina e a dedicação os grandes alicerces desta arte, fácil foi manter a prática diária. Ainda hoje, à parte das aulas que dou, tenho a minha prática pessoal diária e faço aulas com outros professores. Não é uma mais valia para mim, é apenas uma das formas que encontrei para continuar o meu caminho, manter a disciplina e evoluir.

Mas durante muito tempo, o ásana ocupou-me o maior tempo das práticas. Para além da quase necessidade de conquistar posições, depois de as conseguir treinava o tempo de permanência! Claro está que muitas vezes se apoderou de mim um sentimento de frustração e quase desistência.

Demorei um ano para realizar o sirshásana, e no dia em que me deparei com a cabeça no chão e as pernas para cima, foi realmente uma vitória. Até porque me parecia um entrave à minha condição de instrutora. Nos dias, semanas e meses que se seguiram o sirshásana era a minha realização pessoal.

Perante a minha insistência nas leituras e na procura de respostas às minhas questões, alguém me falou ao coração.

Alguém me disse que precisamos entregar. Precisamos aceitar e entregar. O corpo é um veículo, e o ásana é mais uma técnica que devemos usar como ferramenta, tal como as outras, mas o trabalho do Yoga é muito mais do que isso. E não depende do quanto se dobra o corpo, não depende do quanto tempo se demora a conquistar uma posição e do quanto tempo se permanece.

Descobri que a prática é sem dúvida importante, assim como a disciplina, mas o caminho é muito mais complexo.

«A palavra yoga (?) significa também ‘união’ ou ‘comunhão’. É a verdadeira união de nossa vontade com a vontade de Deus. ‘Assim, significa’, diz Mahadev Desai em sua introdução à Gita segundo Gandhi, ‘o jungir de todas as forças do corpo, da mente e da alma com Deus; significa a disciplina do intelecto, da mente, das emoções, da vontade, que é o que o yoga pressupõe; significa uma atitude da alma que permite a alguém encarar a vida em todos os seus aspectos com equanimidade.’

(?)

Mas o problema do controlo da mente requer um grande esforço, como se depreende do seguinte diálogo do sexto capítulo do Bhagavad Gita. Arjuna pergunta a Sri Krishna:

‘Krishna, falaste-me do yoga como de uma comunhão com Brahman (o Espírito Universal), que é sempre uno. Mas como pode isso ser permanente, já que a mente é tão inquieta e contraditória? A mente é impetuosa e obstinada, forte e voluntariosa, tão difícil de dominar quanto o vento’.

Sri Krishna replica:
‘Sem dúvida, a mente é incansável e difícil de controlar. Mas pode ser treinada pela prática constante (abhiasa) e pela liberdade do desejo (vairagia). Um homem incapaz de controlar sua mente achará difícil atingir essa comunhão com o divino; mas o homem que se controla pode atingi-la se se esforçar e dirigir sua energia pelos meios adequados’.»

Mas por incrível que pareça, quanto mais me desapegava das técnicas, sem nunca deixar de praticar, mais praticantes encontrava em busca de aulas puxadas. Puro ásana, desprovido de qualquer intenção. Desprovido até de consciência e bom senso.

E simultaneamente me deparava com o reverso da medalha. A ideia de que o Yoga é algo para descontrair e relaxar e que é tudo muito à vontade. Às vezes, e acho que o posso dizer, chega até a ser leviana esta forma de caracterizar o Yoga, pela superficialidade com que se pratica.

Esta foi também uma aprendizagem. A certa altura tive que interiorizar que não podia exigir de alguém a mesma postura em relação à prática e a tudo o que envolve a Cultura do Yoga. Mas ao mesmo tempo devo ser coerente. Procuro entender o Yoga tal como ele é descrito em cima, porque é assim que faz sentido para mim.

Pratico todos os dias com uma disciplina invejável até para mim. Apaixonei-me pelas técnicas porque através da prática mais facilmente percorro o meu caminho. E tudo começa a fazer sentido.

Deixei de sentir a necessidade de afirmar que pratico Yoga, prefiro o silêncio e a paz que tenho dentro de mim, à afirmação da minha razão, à afirmação do pouco que me possa caracterizar. A mensagem que passo nas aulas que dou, é aquela que toca o meu coração, aquela que aprendo através da prática, de livros e ensinamentos de Mestres e Professores, através daquilo que acho ser mais profundo no caminho do Yoga. Uma mensagem de Amor e Unicidade com o Todo. E da mesma forma é isso que pretendo retirar da prática.

Por vezes não é fácil, quando em aulas quase torno a sentir a mesma frustração quando me deparo com a incapacidade de realizar algum ásana. Ao mesmo tempo, contrario essa emoção, porque não deixo que a minha mente disperse. E nesse momento agarro-me aos bandhas, à respiração, à concentração e à consciência de que é o Todo que importa. E de que eu sou o Todo.

Provavelmente, é porque não nos falam ao coração. Mas quando o justifico desta forma, estou a chamar a razão, e a procurar uma identificação com alguém. E afinal não se trata de nos identificarmos com o professor, a observação em aula não deve ser para tecermos considerações sobre quem ensina, mas para nos concentrarmos em nós, no corpo que pratica.

Por outro lado, é importante que como professor, este viva de acordo com as palavras que profere. Se a fonte das palavras for o coração, e se os actos forem uma continuidade do som, então tudo é Verdade. Pessoalmente, e porque o artigo é sobre a evolução da minha prática, eu encontro-me em aulas puxadíssimas.

A prática mudou sim. Está mais consciente. Apesar de algumas diferenças tenho como aconchego o ditado da ‘água mole em pedra dura, tanto bate até que fura’, até porque acredito que através da repetição da prática, consigo mais facilmente estabilizar a mente, e parar. Mais facilmente descubro aquele que é o estado de Yoga.

Continuo a acreditar na disciplina, e mantenho o rigor e o alinhamento no ásana. Experimento posições se for o caso, mas sem que isso se torne num objectivo. Quando estou no pránáyáma e na meditação, o silêncio e a paz apoderam-se de mim, e aqueles transformam-se em momentos de pura felicidade e beleza, serenidade e plenitude.

Neste momento aceito o que a prática tem para me oferecer, entregando-me à prática. E sobretudo deixo que me falem ao coração, e que o Yoga e toda a sua Cultura se envolvam comigo.

«(?)Quando a inquietude da mente, do intelecto e do ego é imobilizada pela prática do yoga, o yogi, por meio da graça do espírito que está dentro dele mesmo, encontra a realização. Então ele conhece a alegria eterna que está além da paliçada dos sentidos, que sua razão pode alcançar. Ele se conforma com essa realidade e não foge a ela. Descobriu o tesouro que está acima de todos. Não há nada mais elevado que isso. Esse é o significado real do yoga ? uma libertação do contacto com a dor e a tristeza.»

O caminho parece bem longo, mas assim também se será a minha vida. E percorrendo-o de uma forma desapegada, vou estando de bem comigo e de bem com o mundo.

Bibliografia Consultada:

  • Cadernos de Yoga, no13
  • A Luz do Yoga, B.K.S.Iyengar

Marta é praticante e instrutora de Yoga em Lisboa. Seu email é [email protected].

2 respostas para “Impressões sobre uma prática pessoal”

  1. Parabéns Martinha, que texto rico e sincero!
    Admiro muito a maneira como vives o Yoga…
    Obrigada por partilhares connosco as tuas impressões.
    Um xi apertadinho, Daniela.

  2. Lindo texto Marta. Parabens pela reflexão, estudo e dedicação que tens ao Yoga… verás que tudo retorna multiplicado muitas vezes. Fica tranquila e segue teu caminho, não duvides pois tudo está perfeitamente bem… um beijo de quem te quer muito…

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