Mantra, Pratique

Invocação da Paz da Īśopaniṣad

"Se todas as Upaniṣads e as demais escrituras fossem repentinamente reduzidas a cinzas, e se somente este primeiro verso da Īśopaniṣad permanecesse na memória dos hindus, o hinduísmo viveria para sempre". Mahātma Gandhi.

Escrito por Tradição vaidika · 2 mins de leitura >
Para ouvir o mantra inicial da Īśopaniṣad, clique aqui

A Īśopaniṣad foi transmitida oralmente desde a mais profunda noite dos tempos. Estima-se sua idade em 2500 anos. Ele faz parte do Śukla Yajurveda, o “Yajurveda Branco”. O nome desta Upaniṣad deriva da primeira palavra que aparece nela, Īśā ou Īśvāvāsya, que designa o Absoluto ou Ser Infinito. Īśā se traduz como “Senhor”.

O principal propósito deste śāstra é mostrar-nos a presença invariável de Īśvara, o Absoluto e a unidade essencial existente no universo. Preocupa-se, não em definir o Absoluto em si mesmo, senão em relação ao mundo. Nos ensina igualmente que espiritualidade e vida cotidiana não são incompatíveis.

Mahātma Gandhi prestou um belo tributo ao mantra inicial desta Upaniṣad quando disse: “Se as Upaniṣads e todas as outras escrituras fossem repentinamente reduzidas a cinzas, e se somente o primeiro verso da Īśopaniṣad permanecesse na memória dos hindus, o hinduísmo viveria para sempre”. Esse primeiro verso ao qual Gandhi refere-se, é a invocação inicial, śāntipaṭhaḥ, e diz assim:

ॐ पूर्णमदः पूर्णमिदं पूर्णात् पूर्णमुदच्यते ।
पूर्णस्य पूर्णमादाय पूर्णमेवावशिष्यते ॥
ॐ शांतिः शांतिः शांतिः ॥

oṁ pūrṇamadaḥ pūrṇamidaṁ pūrṇāt pūrṇamudacyate |
pūrṇasya pūrṇamādāya pūrṇamevāvaśiṣyate ||
oṁ śāntiḥ śāntiḥ śāntiḥ ||

Oṁ. Isto, [a causa], é Plenitude.
Aquilo, [o efeito], é Plenitude.
Da Plenitude, Plenitude surge
Tirando-se a Plenitude da Plenitude,
somente há Plenitude. Oṁ paz, paz, paz.

Īśopaniṣad

Essa lacônica invocação, que mais parece uma absurda fórmula matemática (1-1=1), coloca em xeque o principal dogma da civilização materialista e tecnocrática em que vivemos atualmente.

Apoiando-se num padrão de escassez muito torpe, esse dogma, tolamente consensual, afirma que nunca haverá suficiente terra, alimento, riqueza ou conforto para todos.

Consequentemente aprendemos, desde crianças, que estamos condenados a lutar com unhas e dentes para conseguir esses bens, e que morreremos se não os soubermos conservar. Este parece um triste corolário sociológico da lei da seleção natural.

O ensinamento deste śāntipaṭh é radicalmente oposto a essa atitude materialista e é absolutamente revolucionário, apesar da sua respeitável idade.

Essa visão inovadora (se podemos falar em “inovação”, em se tratando de um texto de 3500 anos) começa na constatação de que a natureza é infinitamente generosa: “tirando-se a plenitude da plenitude, somente a plenitude resta”.

O ponto de partida é diametralmente oposto ao do materialismo: existe uma fonte infinita e inesgotável de amor e plenitude, e essa fonte é Brahman, o Ilimitado. Sintonizando-nos com ele, teremos um vida plena e feliz, na qual as benesses do mundo material serão apenas uma conseqüência natural, e não a principal força que comanda nossas vidas.

É desta forma que a invocação induz o início da Īśopaniṣad, que nos faz o primeiro convite no seguinte verso:

“O Ser Infinito está presente nos corações de todos.
O Ser Infinito é a suprema realidade.
Regojizemo-nos nele através da renúncia.
Não cobiçes nada, pois tudo ao Ser pertence”.

Se todos aceitássemos essa proposta, certamente não haveria mais guerras, nem fome, nem violência. Citemos novamente Mahatma Gandhi:

“Há o suficiente no mundo para suprir as necessidades de todos.
Porém, não há o suficiente para suprir as ambições de todos”.


॥ हरिः ॐ ॥

Trechos do artigo Īśopaniṣad, a Upanishad do Ser Ilimitado, de Pedro Kupfer, originalmente publicado em 2004 nos Cadernos de Yoga.

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