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Isso não é Yoga! O problema da Intolerância

Você já escutou a frase do título dentro da sala de prática, pronunciada por um professor que supostamente deveria ser equânime? Acontece que alguns têm o hábito de agredir os colegas com chavões desse tipo. Esses professores, que felizmente são minoria, acreditam piamente que o sistema que eles defendem seja o melhor, o mais autêntico ou o “original”.

Escrito por Pedro Kupfer · 3 mins de leitura >
A intolerância parece estar ganhando terreno no mundo do Yoga

Você já escutou a frase do título dentro da sala de prática, pronunciada por um professor que supostamente deveria ser equânime? Acontece que alguns professores de Yoga têm o hábito de cutucar ou agredir seus colegas com chavões desse tipo.

Esses professores, que felizmente são minoria, acreditam piamente que o sistema que eles defendem seja o melhor ou o mais autêntico, ou o mais eficiente, ou o “original”.

Intolerância

Qual é a razão de alguns professores teimar em manter viva a controvérsia “o meu Yoga é o melhor”? Pense aí: é o medo. De um lado, medo de estarem errados na sua crença; do outro, medo de que você vá praticar com o professor da próxima esquina (o que acaba naturalmente acontecendo quando as pessoas percebem o quanto essas atitudes são erradas e desnecessárias).

Pense aqui jto comigo: isto soa “yógico” para você? Opiniões e palavras fortes podem dar a impressão de que derivam de um lugar justo e aceitável, mas é bem mais provável que elas nasçam no ódio, na intolerância e no medo de quem as sustenta.

Professores de Yoga que usam salas de práticas e blogs como púlpitos para doutrinação ou descarregar suas frustrações em relação ao que os colegas ensinam ou praticam estão perdendo uma bela oportunidade de praticarem a tolerância, a equanimidade e a aceitação, atitudes sobre as quais a tradição do Yoga sempre se apoiou.

O certo e o errado

Há lugares e lugares para dialogar, e formas e formas de dizer as coisas. Há condutas dharmikas e condutas adharmikas. As condutas dharmikas devem ser elogiadas e apoiadas publicamente.

Gestos de alegria e aprovação devem ser dirigidos às pessoas que as ostentam, segundo o sábio Patañjali recomenda no Yogasūtra:“o psiquismo se purifica cultivando atitudes de amizade, compaixão, alegria e equanimidade, diante da felicidade, do sofrimento, da virtude e da equivocação, respectivamente” (sūtra I:33).

As condutas adharmikas devem ser apontadas, também publicamente, para alertar os demais praticantes para que esse tipo de atitude não prolifere, e para que não se corra o risco de achar que adharma é dharma.

Não há nada de errado enquanto a isso. Aliás, errado é se omitir e dar de ombros pensando “isso não me diz respeito”, quando algum atropelo é cometido, em nome do dharma ou não.

Tampouco acho que seja errado debater temas como a maneira em que o Yoga vai evoluindo ao longo do tempo, especialmente na atualidade, quando tantas formas híbridas estão surgindo e tantas distorções acontecendo. Mas, existe uma grande distância entre apontar o errado ou questionar construtivamente uma prática, e se arvorar em único dono da verdade.

Intolerância: bater ou debater?

Uma coisa é fazer o inevitável comentário jocoso sobre o Yoga do cuspe (que existe de verdade!) ou sobre o Yoga para cavalos, ou manifestar uma justa indignação em relação à mistura de Yoga com pornografia. Outra coisa, muito diferente, é alimentar um discurso intolerante e agressivo em relação a todas as formas e tradições que não sejam a própria da pessoa que fala.

Muitas vezes essa agressividade nasce da insegurança, e esta do medo, e este da ignorância. Assim, a ignorância dá lugar a atitudes infelizes nas quais o professor ataca irracionalmente os colegas que não assinam embaixo do seu credo.

O discurso do “Yoga superior” é essencialmente idêntico ao discurso da raça superior, ao da religião superior e aos demais discursos que, historicamente, levaram os seres humanos à guerra e ao genocídio.

Em alguns casos, falta muito pouco para os supremacistas do Yoga chegarem à agressão física, ostentando atitudes típicas de adolescentes inseguros que precisam se afirmar agredindo os demais.

Recentemente, recebi uma mensagem através do meu site onde uma pessoa que queria estudar e praticar Yoga, com total justiça, se dizia negativamente surpresa com a banalização, as intrigas e a falta de união que percebeu no nosso meio.

Vamos crescer?

Assim, a minha opinião é que esse tipo de discurso supremacista poderia perfeitamente ser deixado de lado, já que não acrescenta nada ao debate sobre o futuro do Yoga (se é que esse futuro importa para nós), assim como não acrescenta nada (pelo contrário, empobrece), a bela variedade de caminhos e pontos de vista que existem no Yoga.

Cabe lembrar que existem vias diferentes para pessoas diferentes, e cada uma dessas vias merece nosso respeito e aceitação. Quando encontramos a maneira de praticar que nos satisfaz e a visão que sacia nossa sede de conhecimento, deveriamos, igualmente, encontrar a tolerância em relação ao Yoga que os demais caminhantes escolheram.

Assim, acredito, estaremos honrando nossos mestres, e aqueles que vieram antes deles. Estaremos honrando os sábios Vyāsadeva, Patañjali, Śaṅkarācārya, Gorakṣanaṭha e todas as diferentes linhagens de ṛṣis que mantiveram viva e nos legaram essa visão libertadora. Concluo esta reflexão citando o Ṛgveda:

“Ó homem que procuras a verdade e a sabedoria,
abre os braços e deixa que o conhecimento
chegue a ti de todas as partes.
A verdade é una e os sábios irão
ensiná-la de diferentes maneiras”.

॥ हरिः ॐ ॥

Mais artigos sobre ética aqui. Matthew Remski é um ótimo autor e professor de Yoga canadense que aborda o tema da violência no meio do Yoga com muita sensibilidade e uma mente bem aguçada. Leituras altamente recomendáveis aqui.

11 respostas para “Isso não é Yoga! O problema da Intolerância”

  1. Bom dia , Pedro , gratidão pela sabedoria!
    Ha tantas formas de se praticar Yoga , quanto ha professores , da preguiça de ver essas discussões , rs , cada aluno escolhe o professor ou o tipo de Yoga a que se sentir mais confortável , e sem julgamento , até porque esse excesso de julgamento e ego vai de encontro aos yamas e nyamas , rs , bem dito mestre, namatê!

  2. Professor, muito obrigada!!!
    Hoje ia escrever sobre o descondicionamento. Mas… Você refletiu em seu texto tudo o que eu Queria dizer.
    Jaya!!! 🙂 🙂 🙂

  3. Na minha opinião, humildade,respeito Yamas e Nyamas.
    Podem estar presente em todas as profissões e relações.
    Adorrei
    gratidão

  4. Olá Pedro

    Sou instrutora de yoga na minha cidade, e o artigo acima foi como uma benção para mim; pois tinha acabado de ouvir um comentário de que o “meu” Yoga era menos espiritualizado do que o “yoga de uma nova professora” que chegou na cidade. Fiquei triste, decepcionada, explique pra pessoa que não existe meu yoga e seu yoga, que yoga é um só, mas aí, respirei, respirei profundamente, acalmei meu coração; li seu artigo e agradeci. Agradeci por existir no mundo pessoas como você.
    Obrigada!
    Namastê!!
    _/\_

  5. Esse é o meu professor! Se os seres humanos são tão diversos como um tipo de Yoga pode querer ser melhor ou pior que outro, cada pessoa se adequa a um estilo. Uns mais meditativos,outros mais pelo louvor, outros no físico etc.

  6. Obrigada pelo texto e aproveito apenas para partilhar a minha experiência. Como praticante, já assisti e testemunhei, enquanto aluna, dessa atitude de professores de um determinado “tipo de yoga”. Esses professores, ou professora no caso, merecem-me todo o respeito pela dedicação que nutrem ao seu método e mestre e à própria prática.
    Felizmente, na altura, essa não era a minha professora principal e sabia que estava lá de passagem, apenas para aprofundar o estudo de ásanas. O certo é que, por diversas vezes, saía da aula frustrada sem compreender a razão de tanta agressividade e despeito por tudo o que não fosse aquele “tipo de yoga”.
    Durante as aulas, muitas vezes dava por mim com compaixão pelos colegas da turma que estavam em intenso sofrimento e pensava sempre “como estas pessoas precisavam de ouvir o meu Professor e verem o yoga de outra forma” ou “como elas precisavam de aprender vedanta”.
    Em todas as aulas terminei a prática sentindo-me muito bem do corpo, mas a mente estava baralhada e agitada a inquirir o porquê de tanta disparidade de atitudes quando estamos todos na mesma longa estrada do auto-conhecimento e da libertação da tirania do corpo e da mente.
    A certa altura, foi o mesmo corpo e mente, durante a prática, a “pedirem-me”, passo a expressão, para descontinuar aquelas práticas por muito que gostasse da prática de ásanas, a ambiguidade e o desconforto foram crescendo e, como já era claro para mim quem era o meu Professor e com quem ia aprender, não foi difícil tomar essa decisão.
    Mas ainda hoje não percebo a necessidade desse tipo de atitudes se, como diz, o Rg Veda, a verdade é só uma e é ela que deve ser o referencial, e não métodos e mestres adoptados de forma dogmática, penso eu. E métodos não são seitas…

  7. Olá Pedro,

    Podes esclarecer a relação entre as filosofias Vedanta e Sámkhya?

    Muito obrigado!

  8. Genial Pedro, parabéns pelo belo artigo. Concordo plenamente com suas palavras. Já fui “convidado” pra “debater” se batendo, através de rede social, pois de acordo com a opinião da pessoa em questão, o que era “adequado” a “pessoas como eu”, que praticam um tal tipo de “Yoga” (entre aspas é ele que usa), era apenas a linguagem do jiu-jitsu. Lamentável… 108 saudações a ti hermano, faltava exatamente este teu artigo neste momento. Pil poil, como dizem os franceses. Jaya!

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