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Īśvara no Yoga: karma e dharma [parte 2]

O poder do livre arbítrio sempre é justo e adequado para nós. Só precisamos assumir a responsabilidade por ele. Dotar o ser humano de livre arbítrio não é como dar um carro sem freios para um adolescente rebelde. Nesse sentido, Īśvara, a inteligência universal, não joga aos dados, como disse Einstein uma vez. O poder do humano pode criar ou destruir.

Escrito por Pedro Kupfer · 3 mins de leitura >

Dharma.

O poder do livre arbítrio sempre é justo e adequado para nós. Só precisamos assumir a responsabilidade por ele. Dotar o ser humano de livre arbítrio não é como dar um carro sem freios para um adolescente rebelde. Nesse sentido, Īśvara, a inteligência universal, não joga aos dados, como disse Einstein uma vez. O poder do humano pode criar ou destruir. Podemos destruir o meio-ambiente, podemos destruir outras pessoas e podemos destruir a nós mesmos abusando do seu livre arbítrio.

A responsabilidade pelo bom uso e por evitar o abuso em relação à própria liberdade vem junto com ela para todos os seres humanos. Ninguém pode alegar ter algum privilégio especial em relação ao direito dos demais.

No entanto, por momentos vejo que tenho que fazer o que não gosto e não devo fazer aquilo de que gosto. Como agir, então? A minha base para tomar minhas decisões é exatamente igual à base sobre a qual você toma as suas. Todo organismo vivente possui o instinto de sobrevivência.

Uma vaca dá a luz um bezerro e ele é capaz de ficar em pé imediatamente, por conta desse instinto. Isso faz parte da própria ordem da vida. Todos queremos sobreviver, todos queremos viver. O mesmo que vale para o bezerro vale para todos os seres humanos.

Ninguém quer ser ferido.

Se uma vaca se sentir ameaçada, irá fugir. Se for encurralada, irá atacar o agressor. Se no processo o agressor for ferido, a vaca não vai sentir arrependimento ou remorso por tê-lo machucado. Nem será processada por isso. Ela é livre para agir desse modo, e não terá culpas nem questionamentos sobre a sua autodefesa.

A vaca quer viver e ao mesmo tempo não quer nenhum tipo de violência dirigida a ela. Um tigre sente da mesma maneira. As plantas sentem igualmente assim. Lembre daquela plantinha, a dormideira, que se recolhe quando você a toca.

O mesmo vale para os seres humanos. “Ninguém deveria me machucar”, pensamos, “nem mesmo os mosquitos”. Ninguém quer ser agredido. Basta estar vivo para querer continuar vivo. Esse parece ser um direito de todos os organismos viventes. Quem é que não quer viver tranquilo?

Como é que os seres vivos sabem disso? Como é que os seres humanos sabemos disso? A diferença entre os animais e as plantas por um lado, e os humanos, por outro, é que nós somos capazes de entender o dharma nos colocando na situação do outro. Assim como me dou conta de que não quero ser ferido, também sou capaz de reconhecer que os outros tampouco desejam ser feridos. Esse reconhecimento é o dharma.

A vaca não é adhármica, nem pode ter uma conduta adhármica. O ser humano sim, pode ter condutas dhármicas ou condutas adhármicas. As vacas, vivendo uma vida pautada pelos instintos, não precisam pensar à respeito da dieta, das escolhas alimentares.

Os humanos precisamos do dharma para regularmos a nossa conduta em relação ao direito dos demais. Se reconhecermos o valor da não-violência e o fato de que não queremos ser feridos, e se isso está naturalmente presente em todos os humanos, deveríamos igualmente reconhecer que as outras formas de vida querem o mesmo que nós queremos: viver em paz, sem serem feridos ou mortos.

Dharma no trânsito.

O dharma, então, é para os humanos, para facilitar o convívio dos homens com as demais formas de vida, e dos homens entre eles e consigo mesmos. Ninguém quer ser ferido. Ahiṁsā paramodharmaḥ: “a não-violência é o dharma primordial”, diz o Mahabhārata (Ādiparva, XIII:117.37-39). E por que? Por que ele é o pilar sobre o qual se apoiam todos os demais valores.

Ahiṁsā é uma manifestação de Īśvara, a inteligência universal, na mente do ser humano. Essa manifestação está conectada com a pessoa fundamental que você é, com aquilo que podemos chamar de consciência. Então, dharma é Īśvara. Harmonizar-se com o dharma, assim, é harmonizar-se com Īśvara.

Quando você dirige, não quer bater em ninguém, nem que ninguém bata em seu carro. Esse é o princípio básico do dharma, pois bater noutro carro significa bater o próprio carro. Você não pode machucar ninguém sem machucar a si próprio no processo.

Assim, viver uma vida de dharma, uma vida na qual Īśvara esteja presente na forma da consciência do dharma, é viver uma vida tranquila. É por isso que quando você faz a coisa certa, você se sente bem, e quando você faz a coisa errada, e você sabe que fez a coisa errada, você se sente mal.

Você já conhece bem o dharma.

Ninguém precisa de ensinamentos sobre o certo e o errado. Todos sabemos perfeitamente o que é certo e o que é errado. Pode ser que haja alguma área cinzenta, entre o branco e o negro. É justamente nessas áreas intermediárias que você precisa algum esclarecimento, mas não sobre o fundamental.

Yogaḥ karmaṣu kauśalam, aquela definição de Yoga como “perfeição na ação” que vimos na primeira parte deste texto, significa então ação alinhada com o dharma, ação correta, mais do que ação “perfeita”. Portanto, o Karma Yoga é mais sobre uma forma de conduta, o cultivo de uma atitude adequada, do que sobre fazer as coisas de forma “perfeita” mas sem levar em conta o dharma.

Namaste!

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5 respostas para “Īśvara no Yoga: karma e dharma [parte 2]”

  1. Estou lendo todas as publicações e estou amando.
    Texto maravilhoso!
    Namastê! _/_

  2. Bacana este insight, Pedro. Gostei muito do: “quando você faz a coisa certa, você se sente bem, e quando você faz a coisa errada, e você sabe que fez a coisa errada, você se sente mal… Ninguém precisa de ensinamentos sobre o certo e o errado. Todos sabemos perfeitamente o que é certo e o que é errado. Quando estamos conscientes das nossas ações, nos sentimos bem em fazer o bem, e nos sentimos mal em ter cometido alguma injustiça. Muitas das nossas ações, entretanto, são feitas de forma automática, inconsciente e inconsequente. É quando estamos distraídos, por exemplo, que surgem os acidentes. Difícil é manter o foco naquilo que se está fazendo o tempo todo. Mas não para um yogui. Namastê.

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