Conheça, Śāstras

Kaṭha Upaniṣad

O Ser é o sol que brilha no céu, o vento que sopra no espaço, o fogo no altar e o hóspede no lar. Ele vive nos seres humanos, nos deuses, na verdade e no vasto firmamento. Ele está no peixe nascido das águas, na planta que cresce na terra, no rio que flui desde a montanha.

|| Atha Kaṭhopaniṣad ||

Aqui, inicia-se a Kaṭha Upaniṣad.

INVOCAÇÃO DA PAZ.

Oṁ saha nāvavatu | saha nau bhunaktu | sahavīryaṁ karavāvahai |
tejasvi nāvadhītamastu | mā vidviṣāvahai || Oṁ śāntiḥ śāntiḥ śāntiḥ ||

Oṁ. Que Ele [Īśvara, o Ilimitado], proteja nós dois. Que Ele esteja feliz conosco.
Que possamos trabalhar juntos com vigor. Que o conhecimento nos ilumine.
Que nunca confundamos o que somos com o que fazemos. Oṁ. Que haja paz, paz, paz.

Parte I
Canto 1

NACIKETAS É ENTREGUE À MORTE.

Conta-se que uma vez, com grande zelo, o brâmane Vājáśravasa doou tudo o que possuía [para obter mérito espiritual]. Ele tinha um filho chamado Naciketas.

Enquanto os presentes eram doados aos sacerdotes, entusiasticamente a confiança fez-se presente nele que, [embora fosse muito jovem,] pensou:

“Beberam sua água. Comeram sua grama. Seu leite foi ordenhado. Sua vitalidade foi exaurida. Qual é o mérito em doar essas [velhas] vacas? Certamente, sem alegria é o lugar para onde vá quem dá esses presentes sem valor.”

Então, dirigindo-se a seu pai, disse-lhe vezes e mais vezes: “Pai, para quem você me dará em sacrifício?” Seu pai, [cheio de cólera,] lhe respondeu: “Dar-te-ei para a Morte!”

NACIKETAS NA CASA DA MORTE.

[Naciketas pensou: “Ao encontro da Morte] vou, o primeiro dentre muitos que morrerão, em meio a muitos que estão morrendo. Que fará a Morte comigo hoje?”

“Olhando para frente, vejo os que já morreram. Olhando para trás, vejo os que ainda estão vivos. Como o grão, o homem nasce. Como o grão, renasce outra vez”.

“Um hóspede que entra em casa de seu anfitrião, como uma chama brilhante, deve ser bem recebido. Prepara a água para as oferendas, ó Filho do Sol!”

[Yama, o deus da Morte, está ausente. Naciketas deve aguardar três dias e três noites à sua porta. Enquanto isso, ele lembra:] “Esperança e felicidade, amizade e alegria, sacrifício e boas ações, progênie e riquezas são tomados daquele que falha em seus deveres para com seus hóspedes.”

[Ao voltar de viagem, a Morte encontra o jovem e diz-lhe:] “Como tu, honrável hóspede, ficaste à minha porta sem água nem alimento por três noites, concedo-te três pedidos para compensar minha falha. Podes escolher.”

O PRIMEIRO PEDIDO DE NACIKETAS: VOLTAR PARA CASA.

[Naciketas falou assim:] “O primeiro dos meus três desejos é este: quero voltar para casa e que Gautama, meu pai, me receba com carinho. Desejo que sua cólera desapareça e que seja amoroso comigo.”

[Respondeu a Morte:] “Eu garanto que teu pai, filho de Auddālaki e Aruna, estará feliz contigo como antes. Alegre ele dormirá suas noites, ao ver que voltaste das garras da Morte”.

O SEGUNDO PEDIDO DE NACIKETAS: COMPREENDER O RITUAL DO FOGO.

[Disse Naciketas:] “No mundo celestial não há lugar para o medo. Nem para ti. Nem para a velhice. Havendo transcendido os pares de opostos, havendo ido além do sofrimento, pode-se alcançar esse mundo celestial”.

“Tu, ó Morte, conheces o ritual do fogo que conduz ao mundo celestial. Instrui-me, pois confio em ti. Aquele que conhece o segredo do fogo, conhece a imortalidade. Este é meu segundo pedido”.

[Respondeu a Morte:] “Conheço bem o fogo que conduz à imortalidade. Te ensinarei. Aprende comigo, Naciketas. Conhece aquele fogo que é o meio para alcançar a imortalidade, o pilar que sustenta o mundo, que está escondido [no coração]”.

Assim, a Morte ensinou a Naciketas os segredos do ritual do fogo, bem como a construir o altar que espelha o eixo do mundo, usando o número correto de tijolos e sua disposição adequada. Quando o jovem repetiu-lhe a lição, Yama ficou muito satisfeito.

A grande alma (Yama) disse: ”Tenho uma dádiva para te fazer: a partir deste momento, o ritual do fogo chamar-se-á por teu nome. Aceita igualmente esta girlanda múltipla”.

“Aqueles que acenderem o fogo de Naciketas por três vezes, que entrarem em união com os três [pai, mãe e mestre] e que fizerem os três atos [ritual, estudo e caridade], elevar-se-ão acima da vida e da morte. Conhecendo o Fogo que emana de Brahman, [a alma infinita,] alcançarão a paz perfeita”.

“Os sábios que cumprirem este tríplice dever, cientes de seu significado profundo, romperão os laços da morte e do sofrimento e regozijar-se-ão no mundo celestial”.

“Este é o Fogo que conduz à paz, teu segundo pedido. Este ritual será conhecido por teu nome. Escolhe agora, ó Naciketas, o terceiro.”

O TERCEIRO PEDIDO DE NACIKETAS: AUTOCONHECIMENTO.

[Disse Naciketas:] “Quando alguém morre, as pessoas afirmam: ‘ele ainda existe’ ou ‘ele deixou de existir’. Gostaria de ser instruído a esse respeito. Dos meus pedidos, este é o terceiro”.

[Respondeu a Morte:] “Até mesmo os deuses têm dúvidas em relação a isso, pois o segredo da morte é muito difícil de se conhecer. Naciketas, faça outro pedido e liberte-me de minha promesa”.

[Disse Naciketas:] “Até mesmo os deuses têm dúvidas em relação a isso, e tu, ó Morte, dizes que esse segredo não é facil de se compreender. Eu não poderia ter melhor mestre que tu. Não há outro pedido que queira fazer.”

[A Morte falou:] “Escolhe ter filhos e netos centenários. Escolhe rebanhos de gado, elefantes e cavalos. Escolhe ouro e terras infindáveis. Escolhe viver tantos outonos quanto queiras”.

“Escolhe o mais desejável que possas conceber: riquezas e uma longa vida! Podes, Naciketas, ser o rei de um grande reino. Dar-te-ei a capacidade de desfrutar os prazeres da vida”.

“Pede-me mulheres tão belas como nenhum mortal viu antes. Andando em carrugens, destras em música, prontas para atender teus desejos. Por favor, Naciketas, não me peças que te revele o segredo da Morte”.

[Naciketas replicou:] “Coisas efêmeras! Elas tiram o vigor dos sentidos. Fica com tuas dançarinas, tua música e tuas carruagens”.

“As riquezas não tornam feliz o homem. Como posso escolher o ouro, havendo visto tua face? Poderia eu viver além do tempo em que reinas? Meu pedido continua o mesmo.”

“Havendo estado em presença de um imortal como tu, como poderia eu, suscetível à doença e à morte, me deliciar numa vida de prazeres e beleza para satisfazer meus sentidos?”.

“Responde por favor a minha dúvida, ó rei da Morte: após morrer, a pessoa vive ou não? Naciketas nada deseja além da revelação deste grande mistério”.

Aqui conclui-se o primeiro canto da primeira parte da Kaṭha Upaniṣad.

Parte I
Canto 2

FELICIDADE OU PRAZER?

[Havendo testado o jovem Naciketas e, achando-o preparado para receber o conhecimento, a Morte respondeu:]
“Felicidade perene é uma coisa. Prazer efêmero, outra. Ambos, embora com propósitos diferentes, determinam as ações do homem. Tudo está bem para aquele que escolhe a felicidade perene. Falha quem escolhe o prazer efêmero”.

“A felicidade perene e o prazer efêmero fluem em direção ao homem. Ponderando sobre ambos, o sábio discerne escolhe a felicidade. Procurando o conforto mundano, o tolo escolhe o prazer”.

“Tu, Naciketas, após correta ponderação, renunciaste às correntes do prazer efêmero e das riquezas, onde tantos homens afundam”.

“Ignorância e sabedoria: diametralmente opostas são estas duas. Considero-te Naciketas, digno de receber instrução, pois não foste tentado pelos prazeres mundanos”.

“Ignorantes de sua própria ignorância, os tolos, cheios de si, considerando-se eruditos, vagueiam perdidos, como cegos guiados por cegos”.

“A passagem [a morte] não está clara para aqueles com mentalidade infantil, ofuscados pelas ilusões do mundo material. Pensando “este é o mundo real! Não há nada além dele!”, eles voltam vezes e mais vezes a ficar sob meu controle [continuam presos na roda do saṁsāra, ciclo de mortes e renascimentos sucessivos]”.

IMPORTÂNCIA DO MESTRE.

“Poucos conhecem o Ser. Menos ainda, dedicam suas vidas a permitir que ele se revele. Maravilhoso é aquele que fala sobre o Ser. Raro é aquele que torna o ser a meta de sua vida. Abençoados são aqueles que, através de um mestre, alcançam a realização”.

“A verdade sobre o Ser não pode obter-se através de alguém que não percebeu o Ser como sua própria natureza essencial. A mente não pode revelar o Ser. Para além das dualidades, aqueles que percebem a si mesmos em todos os seres e a todos os seres em si mesmos, auxiliam os demais a terem a revelação do Ser”.

“Esta tomada de consciência não acontece através do raciocínio ou do estudo, mas da associação com um mestre realizado. Sábio eres, Naciketas, pois estás em busca do Ser. Que possa haver mais buscadores como tu!”

IMPORTÂNCIA DA RENÚNCIA E DA MEDITAÇÃO.

[Disse Naciketas:] “Sei que os tesouros terrenais são efêmeros e que nunca alcançarei o Eterno através deles. Portanto, renunciei a todos meus desejos mundanos para realizar o Eterno sob tua orientação”.

[Respondeu a Morte:] “Coloquei a teu alcance, Naciketas, a satisfação de todos os desejos terrenais: fama e poder para reinar sobre a terra, prazeres divinos obtidos pela prática espiritual e a outra margem, onde não há medo. A todos estes, com determinação e sabedoria, renunciaste”.

“O sábio, percebendo em sua meditação o Ser eterno, difícil de se ver, que reside profundamente escondido no lugar segredo [o coração]”, deixa para trás o sofrimento e o prazer.”

“Aqueles que percebem a si próprios, não como corpo ou mente, mas como o Ser ilimitado, o divino princípio da existência, encontram a fonte de toda felicidade e residem nela. Percebo que as portas dessa felicidade estão abrindo-se para ti, Naciketas.”

[Naciketas pediu:] “Instrui-me sobre Aquele que está mais além do certo e do errado, da causa e do efeito, do passado e do futuro”.

O MANTRA OṀ E A LIBERTAÇÃO.

[Yama replicou: ] “Explicar-te-ei resumidamente a meta declarada pelos Vedas, o objetivo de todas as austeridades, que os homens realizam ao levar uma vida de continência. Essa meta é a sílaba sagrada [Oṁ].”

“Essa sílaba sagrada é, em verdade, o pleno Brahman. Esta sílaba é a meta mais elevada. Quem a conhece, realiza todos seus objetivos”.

“Ela é o melhor apoio, o mais elevado sustento. Quem conhece este esteio reside feliz no mundo de Brahman”.

A REVELAÇÃO DO SER, ETERNO E INDESTRUTÍVEL.

“O Ser, que é Todo o Conhecimento, não nasceu nem morrerá. Estando além de causa e efeito, é imutável, constante e eterno. Ele não perece quando o corpo se extingue”.

“Se aquele que mata acredita poder matar, e aquele que morre acredita poder morrer, ambos ignoram a verdade. O Ser eterno não mata nem pode ser morto”.

“Menor que o infinitesimal, maior que o grandioso, o Ser reside no coração de todas as criaturas. Aquele que domina seus próprios desejos liberta-se de todo sofrimento e, com a mente e os sentidos em paz, percebe a grandeza do Ser”.

“Embora o corpo fique parado durante a meditação, o Ser exerce sua influência em qualquer lugar. Embora permaneça quieto, movimenta tudo em todos os lugares”.

“Transcende o sofrimento o sábio que percebe o Ser, sem forma no mundo das formas, imutável em meio à mudança, onipresente e supremo”.

“O Ser não pode conhecer-se através do estudo das escrituras, nem usando o intelecto, nem ouvindo discursos eruditos. O Ser pode ser percebido por aqueles que ele mesmo escolhe. Verdadeiramente, é unicamente a eles que o Ser se revela”.

“O Ser não pode ser conhecido por aqueles que não tenham desistido do mal, nem por aqueles que não dominem seus sentidos, nem por aqueles que não sejam pacíficos, nem por aqueles incapazes de concentrar a própria mente”.

“Ninguém mais pode conhecer o Ser onipresente, cuja glória supera os rituais dos sacerdotes, a coragem dos guerreiros, e que vence até mesmo a própria morte”.

Aqui conclui-se o segundo canto da primeira parte da Kaṭha Upaniṣad.

Parte I
Canto 3

O SER E O EGO.

[Yama continua:] “Na caverna secreta do coração, dois estão sentados à beira da fonte da vida. O ego bebe as águas doces e amargas, desfrutando as doces, rejeitando as amargas. O Ser bebe as águas doces e amargas, sem desfrutá-las nem rejeitá-las. O ego afunda nas trevas, enquanto que o Ser mergulha na luz. Assim afirmam os sábios e aqueles que adoram os cinco fogos sagrados (pañchagni) e o fogo tríplice de Naciketas”.

“Que possamos manter aceso o fogo de Naciketas, que purifica o ego e nos permite atravessar o oceano do medo em direção às margens do imperecível Brahman”.

A PARÁBOLA DO SER E A CARRUAGEM.

“Imagine o Ser como o senhor de uma carruagem realizando uma jornada. O corpo é a própria carruagem. O discernimento é o cocheiro. A mente, as rédeas.”

“Os sentidos, dizem os sábios, são os cavalos, as estradas que eles percorrem, os labirintos do desejo. Quando o Ser é confundido com o corpo, a mente e os sentidos, ele parece desfrutar o prazer e sofrer a dor”.

Quando falta ao homem discernimento e à sua mente disciplina, os sentidos disparam e tornam-se incontroláveis, como cavalos selvagens”.

“Porém, quando o homem possui discernimento e uma mente disciplinada, seus sentidos, como bem treinados cavalos, facilmente respondem ao freio”.

“Aquele que não tiver discernimento, que não tiver disciplinado sua mente, que não for puro de coração, não alcançará a meta, ficando preso ao ciclo de mortes e renascimentos sucessivos”.

“Aquele que tiver discernimento, mente disciplinada e pureza interior, alcançará a meta, e nunca mais irá sofrer nas garras da morte”.

“Aquele que tiver o discernimento por cocheiro e controlar as rédeas de sua mente, alcançará o fim da jornada, a união com o Onipresente”.

“Para além dos sentidos estão seus objetos. Para além desses objetos está a mente. Além da mente está o discernimento e, além dele, o Ser eterno”.

“Além do Ser está o imanifesto. Mais além do imanifesto está Brahman. Além de Brahman, não há nada”.

“Embora esteja presente em todas as coisas, Brahman não se revela. Ele é percebido unicamente pelo sábio que concentra sua mente e desenvolve a visão supraconsciente”.

“A prática da meditação permite ao sábio mergulhar mais e mais profundamente na consciência, indo do mundo das palavras ao mundo dos pensamentos e, deste, à sabedoria suprema”.

“Levanta-te, desperta! Havendo adquirido tuas bênçãos, compreende-as [agora]. Estreito como o fio de uma navalha, difícil de atravessar é este caminho, declaram os poetas”.

O Ser está além de nome e de forma, além dos sentidos. Sem início, sem fim, estando além do tempo, do espaço e da causalidade, ele é eterno e imutável. Aquele que percebe o Ser livra-se das garras da morte”.

Quando esta antiga história de Naciketas, contendo os ensinamentos de Yama, for narrada ou ouvida pelos sábios, estes entrarão no mundo de Brahman.

Aquele que recitar devotamente este supremo segredo numa reunião de brahmanas ou com ocasião dos rituais para os mortos, merecerá a imortalidade!

Aqui conclui-se o terceiro canto da primeira parte [da Kaṭha Upaniṣad].

Parte II
Canto 1

O ILIMITADO NÃO PODE SER CONHECIDO PELOS SENTIDOS.

[Disse Yama:] “O auto-existente (svayambhū), atravessou as aberturas [dos sentidos] em direção ao exterior. Por essa razão, o homem olha para fora, ao invés de procurar dentro de si (antarātman). Um homem sábio, buscando a imortalidade, retraiu seus sentidos do mundo externo, sempre mutante. Olhando para o interior, contemplou face a face o Ser imortal”.

“As pessoas com mentalidade infantil perseguem os prazeres efêmeros, só para cair nas redes da morte. Noentanto, os sábios, sabendo que o Ser é imortal, não procuram por ele no mundo das coisas finitas“.

“Aquele através do qual experienciam-se a forma, o gosto, o olfato, a audição, o toque e a união carnal, é o Ser. Pode existir algo desconhecido para Aquele que é o Uno no Todo? Aquele que conhece o Uno, conhece o Todo“.

“Aquele através do qual experienciam-se os estados da vigília e do sono é o Ser. Para o sábio, perceber o Ser Onipresente como a própria consciência é ir além do sofrimento“.

O SER IMORTAL É UNO COM A ALMA INDIVIDUAL E TODA A CRIAÇÃO.
“Aquele que conhece este Ser como o desfrutador do mel obtido das flores dos sentidos, presente no interior e senhor do tempo, está além do medo. Este, realmente, é Aquele [que estás buscando]“.

“Aquele nascido antes que a austeridade (tapas), nasceu igualmente antes que as águas. Aquele que entrou no lugar segredo [do coração] e olhou através dos seres, realmente, é Aquele [que estás buscando]“.

“Aditi, a alma dos deuses que surje junto com a vida, havendo entrado no lugar segredo [do coração], e havendo nascido com os seres, realmente, é Aquele [que estás buscando]“.

“Agni, o Fogo Onisciente, oculto na lenha como o embrião no ventre da mãe, deve ser adorado com oferendas pelos homens de bem pois este, realmente, é Aquele [que estás buscando]“.

“Aquele que é a fonte do Sol e de todos os poderes do Universo, além do qual nada há, realmente, é Aquele [que estás buscando]“.

“O que está aqui, está lá; o que está lá, está igualmente aqui. De morte em morte vagueia aquele que vê algo diferente disto“.

“Apenas a mente unidirecionada é capaz de perceber a Unidade. Nada existe além do Ser. De morte em morte vagueia aquele que vê algo diferente disto“.

O SER ETERNO É O ALICERCE DE TODOS OS SERES.

O Ser, menor que o dedo polegar, reside no centro do coração. Senhor do que foi e do que será, ele é o mesmo, hoje e amanhã. Este, realmente, é Aquele [que estás buscando]“.

“O Ser, menor que o dedo polegar, brilha como uma chama sem fumaça. Senhor do que foi e do que será, ele é o mesmo, hoje e amanhã. Este, realmente, é Aquele [que estás buscando]“.

“Assim como a chuva que desce as ladeiras da montanha, aqueles que percebem apenas a multiplicidade aparente da vida, dispersam-se correndo atrás dos objetos efêmeros“.

“Assim como água pura jorrada sobre água pura tornam-se uma só, da mesma forma, ó Gautama, o ser individual do sábio silencioso (muni) torna-se uma coisa só com o Ser Infinito“.

Aqui conclui-se o primeiro canto da segunda parte da Kaṭha Upaniṣad.

Parte II
Canto 2

O ILIMITADO É IDÊNTICO AO INDIVÍDUO.

[Disse Yama: ] “O governante da cidade de onze portas é o Ser, cuja luz brilha por sempre. Deixam o sofrimento para trás e são libertados do ciclo de mortes e nascimentos aqueles que meditam no Ser. Este, realmente, é Aquele [que estás buscando]“.

“O Ser é o sol que brilha no céu, o vento que sopra no espaço, o fogo no altar e o hóspede no lar. Ele vive nos seres humanos, nos deuses, na verdade e no vasto firmamento. Ele está no peixe nascido das águas, na planta que cresce na terra, no rio que flui desde a montanha”.

“Aquele que está no coração reina sobre o alento vital. Ante ele, todos os deuses [os sentidos] se inclinam”.

“Quando o habitante do corpo liberta-se das correntes da carne, quem permanece? Este, realmente, é Aquele [que estás buscando]“.

“Não vivemos pelo alento que flui para dentro ou para fora. Vivemos por causa daquele que faz com que o alento vital flua”.

“Agora, ó Gautama, falar-te-ei do Brahman, eterno e invisível, que está presente no Ser, mesmo além da morte”.

“Alguns entram num ventre e encarnam [como animais ou humanos], enquanto que outros permanecem estacionários, [encarnando como vegetais,] conforme é determinado por suas próprias ações e conhecimento”.

“Puruṣa, o Ser perfeito, permanece desperto no sono e inspira os incessantes desejos do sonho. Chama-se Brahman, o Imortal. Alicerce dos mundos, nada é diferente dele. Este, realmente, é Aquele [que estás buscando]“.

“Assim como o fogo, sendo único, assume diversas formas ao consumir diversos objetos, da mesma forma o Ser assume as formas de todas as criaturas, nas quais está presente”.

“Assim como o ar, sendo único, assume diversas formas ao abraçar diversos objetos, da mesma forma o Ser assume as formas de todas as criaturas, nas quais está presente”.

“Assim como o sol, que é o olho do céu, não é manchado pelo defeito em nossos próprios olhos ou pelos objetos que ele ilumina, da mesma forma o Ser, vivendo nos corações de todos, permanece intocado pelos males do mundo, pois tudo transcende”.

A FELICIDADE DE RECONHECER A SI PRÓPRIO COMO ILIMITADO.

“O Ser, presente em todos os seres, multiplica sua própria Unidade. A felicidade eterna acompanha àqueles que percebem o Ser em seus próprios corações. A mais ninguém Ele se revela!”

“Imutável em meio ao que perece, Pura Consciência no coração dos sábios, o Único atende as preces de muitos. A paz eterna é daqueles que percebem o Ser em seus próprios corações. A mais ninguém Ele se revela!”

[Perguntou Naciketas:] “Como posso conhecer àquele Ser, supremo e bem-aventurado, conhecido pelos sábios? É Ele a Luz, ou Ele reflete a Luz?”

[Respondeu a Morte:] “Não brilha o sol, nem a lua ou as estrelas, nem o raio nem o trovão, nem o fogo sobre a terra, sem a presença do Ser. O Ser é a luz por todos refletida. Quando ele brilha, tudo brilha”.

Aqui conclui-se o segundo canto da segunda parte da Kaṭha Upaniṣad.

Parte II
Canto 3

BRAHMAN MANIFESTADO COMO A ÁRVORE CÓSMICA.

“A Árvore da Eternidade, cujas raízes crescem para o céu e cujos ramos crescem para baixo, é o puro, é Brahman, é o que se chama Não-Morte. Todos os mundos derivam Dele, que por ninguém pode ser transcendido. Este, realmente, é Aquele [que estás buscando]“.

O GRANDE TEMOR.

“O Cosmos deriva de Brahman e nele se move. Seu poder reverbera, como um trovão no céu. Aqueles que o realizam, libertam-se da morte”.

“Por temor do Ser, o fogo queima. Por temor do Ser, o sol aquece. Por temor do Ser, a chuva cai e o vento sopra. Por temor do Ser, a morte mata”.

PERCEPÇÃO DE SI MESMO.

“Se a pessoa falhar na tarefa da realização suprema nesta vida antes que o corpo se desintegre, ela deve retornar ao mundo encarnada num novo corpo”.

“Brahman pode ser visto, como num espelho, num coração puro. No mundo dos ancestrais, como um sonho. No mundo dos elementais, como círculos na água. Como a claridade da luz, no mundo de Brahman”.

“Sabendo que os sentidos estão separados do Ser, e sabendo que as experiências deles advindas são impermanentes, o sábio não se aflige”.

“Além dos sentidos está a mente. Além da mente está a razão. Além dela está a individualidade. Além da individualidade está a Causa não manifestada”.

“Além da Causa não manifestada está Brahman, onipresente e sem atributos. Aquele que percebe isto liberta-se do ciclo dos nascimentos e mortes”.

“Ele não tem forma e não pode ser visto com estes olhos. Porém, revela-se no coração purificado pela prática da meditação e o controle sensorial. Aquele que percebe isto liberta-se do ciclo dos nascimentos e mortes”.

YOGA: VEÍCULO PARA A LIBERDADE.

“Quando os cinco sentidos e a mente estão parados, e a própria razão descansa em silêncio, começa o caminho supremo”.

“Esta firmeza calma dos sentidos chama-se Yoga. Mas deve-se estar atento, pois o Yoga vem e vai.”

“A visão da não-separação não pode ser alcançada através de palavra, pensamento ou testemunho. Como pode Brahman ser conhecido, exceto por aquele que o percebe em si próprio?”

“Há dois seres: o ego separado e o ātman indivisível. Quando nos elevamos acima das noções de eu, mim e meu, ātman revela-se como nossa natureza real”.

A RENÚNCIA COMO MEIO DE SUPERAR OS CONDICIONAMENTOS.

“Quando renuncia [à identificação com] os desejos que surgem do coração, o mortal torna-se imortal”.

“Desfazendo os nós que estrangulam o coração, o mortal torna-se imortal. Essa é a síntese dos ensinamentos das escrituras”.

TRANSIÇÃO DO CONDICIONAMENTO À EMANCIPAÇÃO.

“A partir do coração, surgem os cento e um caminhos (nāḍīs) da força vital. Um deles conduz ao topo da cabeça. Esse caminho conduz à imortalidade. Os outros, à morte”.

“Puruṣa, menor que o dedo polegar, repousa eternamente no coração de todos. Distingue-o do corpo físico, como o caule que surge do junco. Conhece a ti mesmo como o Ser Puro e Imortal! Conhece a ti mesmo como o Ser Puro e Imortal!”

Assim, Naciketas aprendeu de Yama, o Senhor da Morte, a disciplina realizadora da meditação. Libertando-se de toda separação, conquistou a imortalidade de Brahman. Abençoados aqueles que conhecem o Ser!

INVOCAÇÃO DA PAZ.

Oṁ bhadraṁ karṇebhiḥ śṛṇu yāma devāḥ | bhadraṁ paśyemākṣabhir yajatrāḥ ||
sthirair aṅga istuṣṭu vāṁ sastanūbhiḥ | vyaśema devahitaṁ yadāyuḥ ||
svasti na indro vṛddha śravāḥ | svasti naḥ pūśā viśva vedāḥ ||
svastinastārkṣyo ariṣṭanemiḥ | svastirno bṛhaspatir dadhātu ||
Oṁ śāntiḥ śāntiḥ śāntiḥ || Oṁ tat sat ||

Ó Deuses! Que possamos ouvir o que é auspicioso. Que nós, capazes de meditar (sobre o que escutamos), possamos ver com nossos olhos o que é auspicioso. Que saibamos exaltar os devas com eloqüência e com os órgãos dos sentidos controlados. Que possamos viver a vida com Sua benção. Que Indra, o visível, nos abençoe. Que o Sol onisciente nos abençoe. Que Bṛhaspati (o guru) nos abençoe. Oṁ. Paz, paz, paz. Oṁ. Verdade suprema absoluta.

Aqui conclui-se o terceiro canto da segunda parte da Kaṭha Upaniṣad.

 Kaha Upaniad

Está aqui o convite para o amigo leitor: refletir sobre a história do jovem Naciketas, que representa o buscador da verdade, na narração da Kaṭha Upaniṣad, uma das mais antigas obras que existem sobre o autoconhecimento.

O filme clássico “O Sétimo Selo” de 1956, do diretor sueco Ingmar Bergman guarda alguns paralelos com esta narração. Nesse filme, Antonius Block, um nobre que volta das Cruzadas na Terra Santa para seu castelo na Escandinávia, em meio a uma séria crise existencial, vê-se na contingência de jogar xadrez com a Morte para salvar a própria vida.

Ele busca algum sinal de confirmação de sua fé, da presença divina na vida dos homens e do sentido profundo da existência, enquanto atravessa uma Europa assolada pela peste, a fome e a miséria. Durante a viagem, encontra artistas, fanáticos religiosos, patifes de toda espécie e, por toda parte a Morte, empenhada em ganhar-lhe o jogo de qualquer jeito.

Naciketas, o jovem protagonista desta antiga escritura, vê-se numa situação similar, ao defrontar-se com Yama, o deus da Morte. Não obstante, há diferenças importantes entre as duas personagens, posto que, enquanto que o nobre perdeu totalmente a confiança em Deus e em si próprio, Naciketas vai, destemidamente, ao encontro da Morte.

Há diferenças importantes também em quanto à postura frente à vida: o nobre é totalmente pessimista e não vê motivos para alegria em nada, enquanto que o jovem yogin encarna a avidez, a curiosidade, a resolução firme de libertar-se e a sede de conhecimento que definem o praticante ideal. Por outro lado, seu sacrifício é voluntário: ele não hesita em oferecer a própria vida para auxiliar seu pai a cumprir suas obrigações dhármicas.

No fim do filme de Bergman, Antonius e todas as pessoas que ele encontra em sua jornada, acabam dançando a dança da Morte. “Dançam rumo a escuridão, e a chuva cai em seus rostos”, diz um trovador que testemunha a cena.

No fim da Kahopaniad, o jovem yogin, havendo superado as provações e tentações que a Morte lhe coloca, volta para o mundo dos vivos transformado pela experiência e conhecendo o segredo da vida além da morte.

As Upaniṣads constituem uma das fontes mais profusas de sabedoria reveladas à Humanidade. É normal que, ao ouvirmos isto, saiamos correndo procurar alguma tradução destes śāstras para mergulharmos na leitura. É igualmente comum que fiquemos frustrados por não entender sua linguagem, e que concluamos que as Upaniṣads são “especulações metafísicas”, acabando por irmos procurar esse conhecimento em algum outro lugar.

Isto acontece porque muitos dos textos hindus estão escritos em uma linguagem mítica e simbólica, cujas chaves de decifração se encontram numa cultura antiquíssima e radicalmente diferente da nossa.

Portanto, sentir-se frustrado ao não entender uma leitura dessas é um fato normal embora infeliz, pois as Upaniṣads nos oferecem dicas precisas e muito práticas para realizar o propósito supremo da existência. Elas respondem às duas principais perguntas que um ser humano pode fazer-se:

Qual é o propósito supremo da vida? 
Como posso realizá-lo?

Porém, conseguir fazer as perguntas certas é menos da metade da tarefa. A Kahopaniad responde essas duas perguntas colocando o questionador frente a frente com a realidade da vida e mostrando claramente o caminho a ser percorrido. Narra o encontro entre Naciketas e o Senhor da Morte, Yama.

Kahopaniad responde as perguntas essenciais colocando o questionador frente a frente com a realidade da vida e mostrando claramente o caminho a ser percorrido.

Esta Upaniṣad, chamada igualmente Kāṭhakopaniṣad, pertence à escola Taittirīya do Yajurveda. Data do primeiro milênio a.C. e contém, em forma embrionária, elementos da cosmogonia Sāṅkhya. Consta de dois cantos, com três capítulos (vallis) cada.

Usa-se de uma antiga alegoria do Ṛgveda (x: 135) como moldura para o encontro definitivo entre o mestre perfeito, a Morte, e o discípulo ideal, um jovem adolescente sedento de sabedoria.

O início da Kaṭhopaniṣad poderá lembrar-lhe um conto de fadas mas, diferentemente dos contos infantis, existe uma lição bem profunda por trás dela.

Lembro de uma frase do rabino Nachman (1772-1810), de Bratislava (Eslováquia): “Muitas pessoas acreditam que as estórias são contadas para fazer as pessoas dormir. Eu conto as minhas para acordá-las.”

O jovem Naciketas oferece sua própria vida ao achar que as oferendas (algumas vacas magras) que Vājasravasa, seu pai, pôde reunir eram indignas de uma oferenda decente: “Pai, a quem me darás em sacrifício?”

Perante a insistência impertinente do filho, Vājasravasa responde, literalmente: “Vá para o inferno!” Portanto, Naciketas empreende sozinho a viagem ao reino da Morte.

Para entendermos o porquê do início da jornada que o jovem empreende, cabe lembrar que a palavra empenhada tem, na cultura hindu, um peso que não encontra paralelo na nossa. Se o pai disse o que disse, o filho precisa cumprir e ponto. Não há nenhum questionamento ulterior possível.

Levamos nossa vidinha material muito a sério, chorando quando nossos brinquedos quebram, nos assustando com filmes violentos, nos emocionando com telenovelas, nos preocupando com futilidades.

Acontece, porém, que Yama está ausente e o jovem precisa aguardar à sua porta por três dias e três noites sem comer. Ao voltar, o deus percebe que, como Naciketas não recebeu as homenagens a ele devidas, como hóspede e vítima de um sacrifício, gerou uma dívida que decide pagar concedendo-lhe três pedidos.

Naciketas pede em primeiro lugar poder voltar para casa e para seu pai, feliz. Em segundo lugar, pede para entender o significado oculto do ritual do fogo. Em terceiro lugar, busca saber o mistério da vida além da morte.

O deus concede-lhe os dois primeiros pedidos, mas testa o jovem em relação ao terceiro, oferecendo-lhe, em troca dele, muitos séculos de vida, inúmeros descendentes, riquezas inimagináveis e mulheres belíssimas, fora do alcance dos mortais.

No entanto, Naciketas persevera em sua ideia original, pois sabe que as coisas percebidas pelos sentidos são transitórias, e ele está em busca do conhecimento eterno.

As coisas do mundo material são insignificantes e sem valor para ele. Yama, impressionado pela determinação do jovem, aquiesce em lhe ensinar. Então Yama fala-lhe sobre o valor absoluto que nós, ignorantes, colocamos em coisas finitas e relativas:

“A passagem [a morte] não está clara para aqueles com mentalidade infantil, ofuscados pelas ilusões do mundo material. Pensando “este é o mundo real! Não há nada além dele!”, eles voltam vezes e mais vezes a ficar sob meu controle [continuam presos na roda do saṁsāra, ciclo de mortes e renascimentos sucessivos]”. II:6

Aqui Yama aborda a questão matéria-espírito de maneira tão direta que pode parecer incompreensível para o leitor desatento. O deus instrui o jovem sobre a natureza do Ser e o processo de conhecimento do que está além dela, numa progressão gnosiológica típica do Yoga.

Quando Yama diz que há pessoas com mentalidade infantil, quer dizer que levamos nossa vidinha material muito a sério, chorando quando nossos brinquedos quebram, nos assustando com filmes violentos, nos emocionando com telenovelas, nos preocupando com futilidades.

Mal sabia Yama que nos dias atuais, pessoas de qualquer idade, como crianças, buscam validação e felicidade em coraçõezinhos e rostos amarelos sorridentes em telas de computador e telefones. Somos crianças grandes. Crianças num parque de diversões.

O único que muda é que, conforme crescemos, nossos brinquedos vão ficando maiores e mais caros. Estamos tão absorvidos pelas coisas do mundo material que não conseguimos sequer suspeitar que existe algo muito além dele. É por isso que é mais fácil negar aquilo que o Ser não é, ao invés de especular sobre o que ele é.

No início somos crianças mesmo. Não temos experiência para saber que o mundo não é unidimensional e estamos a priori desculpados por isso. Se nossos únicos contatos forem com outras crianças que também desconhecem a profundidade da existência, ficaremos sempre no mesmo nível e continuaremos a viver nossas vidas achando que a felicidade depende de nossos brinquedos.

As diferentes experiências criam impressões na mente que não nos permitem ver mais além das aparências, e acabamos por nos transformar em crianças grandes, mantendo intactas a ignorância e a conduta infantil.

Assim, o mundo limitado que acabamos criando para nós mesmos através das nossas conquistas e derrotas no plano material, transforma-se na nossa única realidade, na qual ficamos girando e girando, presos no nosso parquinho de diversões particular. E assim, a vida passa. 

Śreyas preyas, a felicidade e o prazer, são opções que aparecem diante do ser humano. Felicidade é para sempre. Prazer é imediato, e imediatamente acaba. O que é sábio escolher? Esse aprendizado é o que o Naciketas precisa: como viver a vida, como construir o caráter, como viver o dharma no cotidiano.

Como você perceberá pelo tom no final desta primeira parte, a Kaṭhopaniṣad parece concluir-se aqui. O erudito S. Radhakrishnan sugere que a segunda parte, com seus três capítulos pode ser uma adição posterior.

Essa segunda parte constitui uma unidade em si própria, com um método de Yoga bastante mais técnico e detalhado que o que aparece na primeira parte. Assim como em outras traduções que fizemos anteriormente, utilizamos o recurso de reconstituição de texto usando colchetes.

॥ हरिः ॐ ॥

॥ कठोपिनषत् ॥
|| kaṭhopaniṣad ||

ॐ सह नाववतु । सह नौ भुनक्तु । सहवीयर्ं करवावहै ।

तेजिस्व नावधीतमस्तु । मा िविद्वषावहै ॥ॐ शािन्तः शािन्तः शािन्तः ॥

Oṁ saha nāvavatu | saha nau bhunaktu | sahavīryaṁ karavāvahai |
 tejasvi nāvadhītamastu | mā vidviṣāvahai || Oṁ śāntiḥ śāntiḥ śāntiḥ ||

Invocação da Paz.

Oṁ. Que Ele (Īśvara) proteja nós dois. Que Ele esteja feliz conosco.  Que possamos trabalhar juntos com vigor. Que a visão nos ilumine. Que nunca confundamos nossos papéis. Oṁ. Que haja paz, paz, paz.

॥ हरिः ॐ ॥

Parte I
Canto 1

ॐ उशन् ह वै वाजश्रवसः सवर्वेदसं ददौ ।
 तस्य ह निचके ता नाम पुत्र आस ॥ १ ॥

Oṁ uśan ha vai vājaśravasaḥ sarvavedasaṁ dadau |
 tasya ha naciketā nāma putra āsa || 1 ||

A História de Naciketas.

Oṁ. Conta-se que uma vez, com grande zelo, o brâmane Vājáśravasa doou tudo o que possuía [para obter mérito espiritual]. Ele tinha um filho chamado Naciketas.” || 1 ||

तँ ह कु मारँ सन्तं दिक्षणासु

नीयमानासु श्रद्धािववेश सोऽमन्यत ॥ २ ॥

tam̐ ha kumāram̐ santaṁ dakṣiṇāsu 
 nīyamānāsu śraddhāviveśa so’manyata || 2 ||

Enquanto os presentes eram doados aos sacerdotes, entusiasticamente a confiança fez-se presente nele, que pensou: || 2 ||

पीतोदका जग्धतृणा दग्धु दोहा िनिरिन्द्रयाः ।

अनन्दा नाम ते लोकास्तान् स गच्छित ता ददत् ॥ ३ ॥

pītodakā jagdhatṛṇā dugdhadohā nirindriyāḥ |
 anandā nāma te lokāstān sa gacchati tā dadat || 3 ||

“Beberam sua água. Comeram sua grama. Seu leite foi ordenhado. Sua vitalidade foi exaurida. Qual é o mérito em doar essas [velhas] vacas? Certamente, sem alegria é o lugar para onde vá quem dá esses presentes sem valor.” || 3 ||

स होवाच िपतरं तत कस्मै मां दास्यसीित ।

िद्वतीयं तृतीयं तँ होवाच मृत्यवे त्वा ददामीित ॥ ४ ॥

sa hovāca pitaraṁ tata kasmai māṁ dāsyasīti |
 dvitīyaṁ tṛtīyaṁ tam̐ hovāca mṛtyave tvā dadāmīti || 4 ||

Então, dirigindo-se ao seu pai, disse-lhe uma vez, duas vezes e três vezes: “Pai, para quem você me dará em sacrifício?” Seu pai, [em cólera,] respondeu: “Dar-te- ei para a Morte!” || 4 ||

बहूनामेिम प्रथमो बहूनामेिम मध्यमः ।

िकँ िस्वद्यमस्य कतर्व्यं यन्मयाऽद्य किरष्यित ॥ ५ ॥

bahūnāmemi prathamo bahūnāmemi madhyamaḥ |

kim̐ svidyamasya kartavyaṁ yanmayā’dya kariṣyati || 5 ||

Naciketas na casa da Morte.

[Naciketas pensou: “Ao encontro da Morte] vou, o primeiro dentre muitos que morrerão, em meio a muitos que estão morrendo. Que fará a Morte comigo hoje?” || 5 ||

अनुपश्य यथा पूवेर् प्रितपश्य तथाऽपरे ।

सस्यिमव मत्यर्ः पच्यते सस्यिमवाजायते पुनः ॥ ६ ॥

anupaśya yathā pūrve pratipaśya tathā’pare |

sasyamiva martyaḥ pacyate sasyamivājāyate punaḥ || 6 ||

“Olhando para frente, vejo os que já morreram. Olhando para trás, vejo os que ainda estão vivos. Como o grão, o homem nasce. Como o grão, renasce outra vez”. || 6 ||

वैश्वानरः प्रिवशत्यितिथब्रार्ह्मणो गृहान् ।

तस्यैताँ शािन्तं कु वर्िन्त हर वैवस्वतोदकम् ॥ ७ ॥

vaiśvānaraḥ praviśatyatithirbrāhmaṇo gṛhān |
 tasyaitām̐ śāntiṁ kurvanti hara vaivasvatodakam || 7 ||

“Um hóspede que entra em casa de seu anfitrião, como uma chama brilhante, deve ser bem recebido. Prepara a água para as oferendas, ó Filho do Sol!” || 7 ||

आशाप्रतीक्षे संगतँ सूनृतां चेष्टापूतेर् पुत्रपशूँश्च सवार्न् ।

एतद्वृङ्क्ते पुरुषस्याल्पमेधसो यस्यानश्नन्वसित ब्राह्मणो गृहे ॥ ८ ॥

āśāpratīkṣe saṁgatam̐ sūnṛtāṁ ceṣṭāpūrte putrapaśūm̐śca sarvān |
 etadvṛṅkte puruṣasyālpamedhaso yasyānaśnanvasati brāhmaṇo gṛhe || 8 ||

[Yama, o deus da Morte, está ausente. Naciketas deve aguardar três dias e três noites à sua porta. Enquanto isso, ele lembra:] “Esperança e felicidade, amizade e alegria, sacrifício e boas ações, progênie e riquezas são tomados daquele que falha em seus deveres para com seus hóspedes.” || 8 ||

ितस्रो रात्रीयर्दवात्सीगृर्हे मेऽनश्नन् ब्रह्मन्नितिथनर्मस्यः ।
 नमस्तेऽस्तु ब्रह्मन् स्विस्त मेऽस्तु तस्मात्प्रित त्रीन्वरान्वृणीष्व ॥ ९ ॥

tisro rātrīryadavātsīrgṛhe me’naśnan brahmannatithirnamasyaḥ |
 namaste’stu brahman svasti me’stu tasmātprati trīnvarānvṛṇīṣva || 9 ||

[Ao voltar, a Morte encontra o jovem e diz-lhe:] “Como tu, honorável hóspede, ficaste à minha porta sem água nem alimento por três noites, concedo-te três pedidos para compensar minha falha. Podes escolher.” || 9 ||

शान्तसंकल्पः सुमना यथा स्याद् वीतमन्युगौर्तमो माऽिभ मृत्यो ।
 त्वत्प्रसृष्टं माऽिभवदेत्प्रतीत एतत् त्रयाणां प्रथमं वरं वृणे ॥ १० ॥

śāntasaṁkalpaḥ sumanā yathā syād vītamanyurgautamo mā’bhi mṛtyo | tvatprasṛṣṭaṁ mā’bhivadetpratīta etat trayāṇāṁ prathamaṁ varaṁ vṛṇe || 10 || O primeiro pedido de Naciketas: voltar para casa.

[Naciketas disse:] “O primeiro dos meus três desejos é este: quero voltar para casa e que Gautama, meu pai, me receba com carinho. Desejo que sua cólera desapareça e que seja amoroso comigo.” || 10 ||

यथा पुरस्ताद् भिवता प्रतीत औद्दालिकरारुिणमर्त्प्रसृष्टः ।

सुखँ रात्रीः शियता वीतमन्युः त्वां ददृिशवान्मृत्युमुखात् प्रमुक्तम् ॥ ११ ॥

yathā purastād bhavitā pratīta auddālakirāruṇirmatprasṛṣṭaḥ |

sukham̐ rātrīḥ śayitā vītamanyuḥ tvāṁ dadṛśivānmṛtyumukhāt pramuktam || 11 ||

[Respondeu a Morte:] “Eu garanto que teu pai, filho de Auddālaki e Aruṇa, estará feliz contigo como antes. Alegre dormirá suas noites ao ver que voltaste das garras da Morte”. || 11 ||

स्वगेर् लोके न भयं िकं चनािस्त न तत्र त्वं न जरया िबभेित ।

उभे तीत्वार्ऽशनायािपपासे शोकाितगो मोदते स्वगर्लोके ॥ १२ ॥

svarge loke na bhayaṁ kiṁcanāsti na tatra tvaṁ na jarayā bibheti |
 ubhe tīrtvā’śanāyāpipāse śokātigo modate svargaloke || 12 ||

O segundo pedido de Naciketas: aprender o ritual do fogo.

[Disse Naciketas:] “No mundo celestial não há lugar para o medo. Nem para ti. Nem para a velhice. Havendo transcendido os pares de opostos, havendo ido além do sofrimento, pode-se alcançar esse mundo celestial”. || 12 ||

स त्वमिग्नँ स्वग्यर्मध्येिष मृत्यो प्रब्रूिह त्वँ श्रद्दधानाय मह्यम् ।
 स्वगर्लोका अमृतत्वं भजन्त एतद् िद्वतीयेन वृणे वरेण ॥ १३ ॥

sa tvamagnim̐ svargyamadhyeṣi mṛtyo prabrūhi tvam̐ śraddadhānāya mahyam |
 svargalokā amṛtatvaṁ bhajanta etad dvitīyena vṛṇe vareṇa || 13 ||

“Tu, ó Morte, conheces o ritual do fogo que conduz ao mundo celestial. Instrui- me, pois confio em ti. Aquele que conhece o segredo do fogo, conhece a imortalidade. Este é meu segundo pedido”. || 13 ||

प्र ते ब्रवीिम तदु मे िनबोध स्वग्यर्मिग्नं निचके तः प्रजानन् ।
 अनन्तलोकािप्तमथो प्रितष्ठां िविद्ध त्वमेतं िनिहतं गुहायाम् ॥ १४ ॥

pra te bravīmi tadu me nibodha svargyamagniṁ naciketaḥ prajānan |
 anantalokāptimatho pratiṣṭhāṁ viddhi tvametaṁ nihitaṁ guhāyām || 14 ||

[Respondeu a Morte:] “Conheço bem o fogo que conduz a svarga, o paraíso. Te ensinarei. Aprende comigo, Naciketas. Conhece aquele fogo que é o meio para alcançar anantaloka, [o paraíso,] o pilar que sustenta o mundo, que está escondido [no coração]”. || 14 ||

लोकािदमिग्नं तमुवाच तस्मै या इष्टका यावतीवार् यथा वा ।

स चािप तत्प्रत्यवदद्यथोक्तं अथास्य मृत्युः पुनरेवाह तुष्टः ॥ १५ ॥

lokādimagniṁ tamuvāca tasmai yā iṣṭakā yāvatīrvā yathā vā |

sa cāpi tatpratyavadadyathoktaṁ athāsya mṛtyuḥ punarevāha tuṣṭaḥ || 15 ||

Assim, a Morte ensinou a Naciketas os segredos do ritual do fogo, bem como a construir o altar que espelha o eixo do mundo, usando o número correto de tijolos e sua disposição adequada. Quando o jovem repetiu-lhe a lição, Yama ficou muito satisfeito. || 15 ||

तमब्रवीत् प्रीयमाणो महात्मा वरं तवेहाद्य ददािम भूयः ।

तवैव नाम्ना भिवताऽयमिग्नः सृङ्कां चेमामनेकरूपां गृहाण ॥ १६ ॥

tamabravīt prīyamāṇo mahātmā varaṁ tavehādya dadāmi bhūyaḥ |

tavaiva nāmnā bhavitā’yamagniḥ sṛṅkāṁ cemāmanekarūpāṁ gṛhāṇa || 16 ||

O grande Ser (Yama) disse: “Tenho uma dádiva para te fazer: a partir deste momento, o ritual do fogo chamar-se-á por teu nome. Aceita igualmente esta guirlanda múltipla”. || 16 ||

ित्रणािचके तिस्त्रिभरेत्य सिन्धं ित्रकमर्कृ त्तरित जन्ममृत्यू ।

ब्रह्मजज्ञं देवमीड्यं िविदत्वा िनचाय्येमाँ शािन्तमत्यन्तमेित ॥ १७ ॥

triṇāciketastribhiretya sandhiṁ trikarmakṛttarati janmamṛtyū |
 brahmajajñaṁ devamīḍyaṁ viditvā nicāyyemām̐ śāntimatyantameti || 17 ||

“Aqueles que acenderem o fogo de Naciketas por três vezes, que entrarem em união com os três [pai, mãe e mestre] e que fizerem os três atos [ritual, estudo e caridade], elevar-se-ão acima da vida e da morte. Conhecendo o Fogo que emana de Brahman, o Ilimitado, alcançarão a paz perfeita”. || 17 ||

ित्रणािचके तस्त्रयमेतिद्विदत्वा य एवं िवद्वाँिश्चनुते नािचके तम् ।

स मृत्युपाशान् पुरतः प्रणोद्य शोकाितगो मोदते स्वगर्लोके ॥ १८ ॥

triṇāciketastrayametadviditvā ya evaṁ vidvām̐ścinute nāciketam |
 sa mṛtyupāśān purataḥ praṇodya śokātigo modate svargaloke || 18 ||

“Os sábios que cumprirem este tríplice dever, cientes do seu significado, romperão os laços da morte e do sofrimento e regozijar-se-ão no mundo celestial”. || 18 ||

एष तेऽिग्ननर्िचके तः स्वग्योर् यमवृणीथा िद्वतीयेन वरेण ।

एतमिग्नं तवैव प्रवक्ष्यिन्त जनासः तृतीयं वरं निचके तो वृणीष्व ॥ १९ ॥

eṣa te’gnirnaciketaḥ svargyo yamavṛṇīthā dvitīyena vareṇa |

etamagniṁ tavaiva pravakṣyanti janāsaḥ tṛtīyaṁ varaṁ naciketo vṛṇīṣva || 19 ||

“Este é o Fogo que conduz à paz, teu segundo pedido. Este ritual será conhecido por teu nome. Escolhe agora, ó Naciketas, o terceiro”. || 19 ||

येयं प्रेते िविचिकत्सा मनुष्ये- ◌ऽस्तीत्येके नायमस्तीित चैके ।
 एतिद्वद्यामनुिशष्टस्त्वयाऽहं वराणामेष वरस्तृतीयः ॥ २० ॥

yeyaṁ prete vicikitsā manuṣye’stītyeke nāyamastīti caike |
 etadvidyāmanuśiṣṭastvayā’haṁ varāṇāmeṣa varastṛtīyaḥ || 20 ||

O terceiro pedido de Naciketas: autoconhecimento.

[Disse Naciketas:] “Quando alguém morre, as pessoas afirmam: ‘ele ainda existe’ ou ‘ele deixou de existir’. Gostaria de ser instruído a esse respeito. Dos meus pedidos, este é o terceiro”. || 20 ||

देवैरत्रािप िविचिकित्सतं पुरा न िह सुिवज्ञेयमणुरेष धमर्ः ।

अन्यं वरं निचके तो वृणीष्व मा मोपरोत्सीरित मा सृजैनम् ॥ २१ ॥

devairatrāpi vicikitsitaṁ purā na hi suvijñeyamaṇureṣa dharmaḥ |
 anyaṁ varaṁ naciketo vṛṇīṣva mā moparotsīrati mā sṛjainam || 21 ||

[Respondeu a Morte:] “Até mesmo os deuses têm dúvidas em relação a isso, pois o segredo da morte é muito difícil de se conhecer. Naciketas, faça outro pedido e liberte-me de minha promessa”. || 21 ||

देवैरत्रािप िविचिकित्सतं िकल त्वं च मृत्यो यन्न सुज्ञेयमात्थ ।

वक्ता चास्य त्वादृगन्यो न लभ्यो नान्यो वरस्तुल्य एतस्य किश्चत् ॥ २२ ॥

devairatrāpi vicikitsitaṁ kila tvaṁ ca mṛtyo yanna sujñeyamāttha |
 vaktā cāsya tvādṛganyo na labhyo nānyo varastulya etasya kaścit || 22 ||

[Disse Naciketas:] “Até mesmo os deuses têm dúvidas em relação a isso, e tu, ó Morte, dizes que esse segredo não é fácil de se compreender. Eu não poderia ter melhor mestre que tu. Não há outro pedido que queira fazer.” || 22 ||

शतायुषः पुत्रपौत्रान्वृणीष्वा बहून्पशून् हिस्तिहरण्यमश्वान् ।
 भूमेमर्हदायतनं वृणीष्व स्वयं च जीव शरदो याविदच्छिस ॥ २३ ॥

śatāyuṣaḥ putrapautrānvṛṇīṣvā bahūnpaśūn hastihiraṇyamaśvān |
 bhūmermahadāyatanaṁ vṛṇīṣva svayaṁ ca jīva śarado yāvadicchasi || 23 ||

[A Morte disse:] “Escolhe ter filhos e netos centenários. Escolhe rebanhos de gado, elefantes e cavalos. Escolhe ouro e terras infindáveis. Escolhe viver tantos outonos quanto queiras”. || 23 ||

एतत्तुल्यं यिद मन्यसे वरं वृणीष्व िवत्तं िचरजीिवकां च ।

महाभूमौ निचके तस्त्वमेिध कामानां त्वा कामभाजं करोिम ॥ २४ ॥

etattulyaṁ yadi manyase varaṁ vṛṇīṣva vittaṁ cirajīvikāṁ ca |
 mahābhūmau naciketastvamedhi kāmānāṁ tvā kāmabhājaṁ karomi || 24 ||

“Escolhe o mais desejável que possas conceber: riquezas e uma longa vida! Podes, Naciketas, ser o rei de um grande reino. Dar-te-ei a capacidade de desfrutar os prazeres da vida”. || 24 ||

ये ये कामा दलु र्भा मत्यर्लोके सवार्न् कामाँश्छन्दतः प्राथर्यस्व ।

इमा रामाः सरथाः सतूयार् न हीदृशा लम्भनीया मनुष्यैः ।
 आिभमर्त्प्रत्तािभः पिरचारयस्व निचके तो मरणं माऽनुप्राक्षीः ॥ २५ ॥

ye ye kāmā durlabhā martyaloke sarvān kāmām̐śchandataḥ prārthayasva |
 imā rāmāḥ sarathāḥ satūryā na hīdṛśā lambhanīyā manuṣyaiḥ | 
 ābhirmatprattābhiḥ paricārayasva naciketo maraṇaṁ mā’nuprākṣīḥ || 25 ||

“Pede-me mulheres tão belas como nenhum mortal viu antes. Andando em carruagens, destras em música, prontas para atender teus desejos. Por favor, Naciketas, não me peças que te revele o segredo da Morte”. || 25 ||

श्वोभावा मत्यर्स्य यदन्तकै तत् सवेर्ंिद्रयाणां जरयंित तेजः ।
 अिप सवर्ं जीिवतमल्पमेव तवैव वाहास्तव नृत्यगीते ॥ २६ ॥

śvobhāvā martyasya yadantakaitat sarveṁdriyāṇāṁ jarayaṁti tejaḥ |
 api sarvaṁ jīvitamalpameva tavaiva vāhāstava nṛtyagīte || 26 ||

[Naciketas replicou:] “Coisas efêmeras! Elas tiram o vigor dos sentidos. Fica com tuas dançarinas, tua música e tuas carruagens”. || 26 ||

न िवत्तेन तपर्णीयो मनुष्यो लप्स्यामहे िवत्तमद्राक्ष्म चेत्त्वा ।
 जीिवष्यामो यावदीिशष्यिस त्वं वरस्तु मे वरणीयः स एव ॥ २७ ॥

na vittena tarpaṇīyo manuṣyo lapsyāmahe vittamadrākṣma cettvā |
 jīviṣyāmo yāvadīśiṣyasi tvaṁ varastu me varaṇīyaḥ sa eva || 27 ||

“As riquezas não tornam feliz o homem. Como posso escolher o ouro, havendo visto tua face? Poderia eu viver além do tempo em que reinas? Meu pedido continua o mesmo”. || 27 ||

अजीयर्ताममृतानामुपेत्य जीयर्न्मत्यर्ः क्वधःस्थः प्रजानन् ।
 अिभध्यायन् वणर्रितप्रमोदान् अितदीघेर् जीिवते को रमेत ॥ २८ ॥

ajīryatāmamṛtānāmupetya jīryanmartyaḥ kvadhaḥsthaḥ prajānan |
 abhidhyāyan varṇaratipramodān atidīrghe jīvite ko rameta || 28 ||

“Havendo estado em presença de um imortal como tu, como poderia eu, suscetível à doença e à morte, me deliciar numa vida de prazeres e beleza para satisfazer meus sentidos?”. || 28 ||

यिस्मिन्नदं िविचिकत्सिन्त मृत्यो यत्साम्पराये महित ब्रूिह नस्तत् ।
 योऽयं वरो गूढमनुप्रिवष्टो नान्यं तस्मान्निचके ता वृणीते ॥ २९ ॥

yasminnidaṁ vicikitsanti mṛtyo yatsāmparāye mahati brūhi nastat |
 yo’yaṁ varo gūḍhamanupraviṣṭo nānyaṁ tasmānnaciketā vṛṇīte || 29 ||

“Responde por favor a minha dúvida, ó rei da Morte: após morrer, a pessoa vive ou não? Naciketas nada deseja além da revelação deste grande mistério”. || 29 ||

॥ इित काठकोपिनषिद प्रथमाध्याये प्रथमा वल्ली ॥
|| iti kāṭhakopaniṣadi prathamādhyāye prathamā vallī ||

Aqui conclui-se o primeiro canto da primeira parte da Kaṭhopaniṣad.


Parte I
Canto 2

अन्यच्छ्रेयोऽन्यदतुैवप्रेयस्तेउभेनानाथेर्पुरुषँिसनीतः।

तयोः श्रेय आददानस्य साधु भवित हीयतेऽथार्द्य उ प्रेयो वृणीते ॥ १ ॥

anyacchreyo’nyadutaiva preyaste ubhe nānārthe puruṣam̐ sinītaḥ |

tayoḥ śreya ādadānasya sādhu bhavati hīyate’rthādya u preyo vṛṇīte || 1 ||

Felicidade ou prazer?

[Havendo testado o jovem Naciketas e, achando-o preparado para receber o conhecimento, a Morte respondeu:] “Felicidade perene é uma coisa. Prazer efêmero, outra. Ambos, embora com propósitos diferentes, determinam as ações do homem. Tudo está bem para aquele que escolhe a felicidade perene. Falha quem escolhe o prazer efêmero”. || 1 ||

श्रेयश्च प्रेयश्च मनुष्यमेतः तौ सम्परीत्य िविवनिक्त धीरः ।

श्रेयो िह धीरोऽिभ प्रेयसो वृणीते प्रेयो मन्दो योगक्षेमाद्वृणीते ॥ २ ॥

śreyaśca preyaśca manuṣyametaḥ tau samparītya vivinakti dhīraḥ |
 śreyo hi dhīro’bhi preyaso vṛṇīte preyo mando yogakṣemādvṛṇīte || 2 ||

“A felicidade perene e o prazer efêmero fluem em direção ao homem. Ponderando sobre ambos, o sábio discerne escolhe a felicidade. Procurando o conforto das coisas do mundo, o tolo escolhe o prazer”. || 2 ||

स त्वं िप्रयािन्प्रयरूपांश्च कामान् अिभध्यायन्निचके तोऽत्यस्राक्षीः ।
 नैतां सृङ्कां िवत्तमयीमवाप्तो यस्यां मज्जिन्त बहवो मनुष्याः ॥ ३ ॥

sa tvaṁ priyānpriyarūpāṁśca kāmān abhidhyāyannaciketo’tyasrākṣīḥ |
 naitāṁ sṛṅkāṁ vittamayīmavāpto yasyāṁ majjanti bahavo manuṣyāḥ || 3 ||

“Tu, Naciketas, após correta ponderação, renunciaste às correntes do prazer efêmero e das riquezas, onde tantos humanos afundam”. || 3 ||

दरू मेते िवपरीते िवषूची अिवद्या या च िवद्येित ज्ञाता ।
िवद्याभीिप्सनं निचके तसं मन्ये न त्वा कामा बहवोऽलोलुपन्त ॥ ४ ॥

dūramete viparīte viṣūcī avidyā yā ca vidyeti jñātā |

vidyābhīpsinaṁ naciketasaṁ manye na tvā kāmā bahavo’lolupanta || 4 ||

“Ignorância e sabedoria: diametralmente opostas são estas duas. Considero-te Naciketas, digno de receber instrução, pois não foste tentado pelos prazeres mundanos”. || 4 ||

अिवद्यायामन्तरे वतर्मानाः स्वयं धीराः पिण्डतंमन्यमानाः ।
 दन्द्रम्यमाणाः पिरयिन्त मूढा अन्धेनैव नीयमाना यथान्धाः ॥ ५ ॥

avidyāyāmantare vartamānāḥ svayaṁ dhīrāḥ paṇḍitaṁmanyamānāḥ |
 dandramyamāṇāḥ pariyanti mūḍhā andhenaiva nīyamānā yathāndhāḥ || 5 ||

“Ignorantes de sua própria ignorância, os tolos, cheios de si, considerando-se eruditos, vagueiam perdidos, como cegos guiados por cegos”. || 5 ||

न साम्परायः प्रितभाित बालं प्रमाद्यन्तं िवत्तमोहेन मूढम् ।

अयं लोको नािस्त पर इित मानी पुनः पुनवर्शमापद्यते मे ॥ ६ ॥

na sāmparāyaḥ pratibhāti bālaṁ pramādyantaṁ vittamohena mūḍham |
 ayaṁ loko nāsti para iti mānī punaḥ punarvaśamāpadyate me || 6 ||

“A passagem [a morte] não está clara para aqueles com mentalidade infantil, ofuscados pelas ilusões do mundo material. Pensando “este é o mundo real! Não há nada além dele!”, eles voltam vezes e mais vezes a ficar sob meu controle [continuam presos na roda do sasāra, ciclo de mortes e renascimentos sucessivos]”. || 6 ||

श्रवणायािप बहुिभयोर् न लभ्यः शृण्वन्तोऽिप बहवो यं न िवद्युः ।

आश्चयोर् वक्ता कु शलोऽस्य लब्धा आश्चयोर् ज्ञाता कु शलानुिशष्टः ॥ ७ ॥

śravaṇāyāpi bahubhiryo na labhyaḥ śṛṇvanto’pi bahavo yaṁ na vidyuḥ |
 āścaryo vaktā kuśalo’sya labdhā āścaryo jñātā kuśalānuśiṣṭaḥ || 7 ||

Importância do mestre.

“Poucos conhecem o Ser. Menos ainda, dedicam as suas vidas a reconhece-lo em si mesmos. Maravilhoso é aquele que fala sobre o Ser. Raro é aquele que torna o Ser a meta de sua vida. Abençoados são aqueles que, através de um mestre, alcançam a realização”. || 7 ||

न नरेणावरेण प्रोक्त एष सुिवज्ञेयो बहुधा िचन्त्यमानः ।
 अनन्यप्रोक्ते गितरत्र नािस्त अणीयान् ह्यतक्यर्मणुप्रमाणात् ॥ ८ ॥

na nareṇāvareṇa prokta eṣa suvijñeyo bahudhā cintyamānaḥ |
 ananyaprokte gatiratra nāsti aṇīyān hyatarkyamaṇupramāṇāt || 8 ||

“A verdade sobre o Ser não pode obter-se através de alguém que não o percebeu como sendo a sua própria natureza. A mente não pode revelar o Ser. Para além das dualidades, aqueles que percebem a si mesmos em todos os seres e a todos os seres em si mesmos, auxiliam os demais a ter a revelação do Ser”. || 8 ||

नैषा तकेर् ण मितरापनेया प्रोक्तान्येनैव सुज्ञानाय प्रेष्ठ ।

यां त्वमापः सत्यधृितबर्तािस त्वादृङ् नो भूयान्निचके तः प्रष्टा ॥ ९ ॥

naiṣā tarkeṇa matirāpaneyā proktānyenaiva sujñānāya preṣṭha |

yāṁ tvamāpaḥ satyadhṛtirbatāsi tvādṛṅno bhūyānnaciketaḥ praṣṭā || 9 ||

“Esta tomada de consciência não acontece através do raciocínio ou do estudo, mas da associação com um mestre realizado. Sábio és, Naciketas, pois estás em busca do Ser. Que possa haver mais buscadores como tu!” || 9 ||

जानाम्यहं शेविधिरत्यिनत्यं न ह्यध्रुवैः प्राप्यते िह ध्रुवं तत् ।

ततो मया नािचके तिश्चतोऽिग्नः अिनत्यैद्रर्व्यैः प्राप्तवानिस्म िनत्यम् ॥ १० ॥

jānāmyahaṁ śevadhirityanityaṁ na hyadhruvaiḥ prāpyate hi dhruvaṁ tat | 
 tato mayā nāciketaścito’gniḥ anityairdravyaiḥ prāptavānasmi nityam || 10 ||

Importância da renúncia e da meditação.

[Disse Naciketas:] “Sei que os tesouros terrenais são efêmeros e que nunca alcançarei o Eterno através deles. Portanto, renunciei a todos meus desejos mundanos para realizar o Eterno sob tua orientação”. || 10 ||

कामस्यािप्तं जगतः प्रितष्ठां क्रतोरानन्त्यमभयस्य पारम् ।

स्तोममहदरुु गायं प्रितष्ठां दृष्ट्वा धृत्या धीरो निचके तोऽत्यस्राक्षीः ॥ ११ ॥

kāmasyāptiṁ jagataḥ pratiṣṭhāṁ kratorānantyamabhayasya pāram |
 stomamahadurugāyaṁ pratiṣṭhāṁ dṛṣṭvā dhṛtyā dhīro naciketo’tyasrākṣīḥ || 11 ||

[Respondeu a Morte:] “Coloquei a teu alcance, Naciketas, a satisfação de todos os desejos terrenais: fama e poder para reinar sobre a terra, prazeres divinos obtidos pela prática espiritual e a outra margem, onde não há medo. A todos estes, com determinação e sabedoria, renunciaste”. || 11 ||

तं ददु र्शर्ं गूढमनुप्रिवष्टं गुहािहतं गह्वरेष्ठं पुराणम् ।
 अध्यात्मयोगािधगमेन देवं मत्वा धीरो हषर्शोकौ जहाित ॥ १२ ॥

taṁ durdarśaṁ gūḍhamanupraviṣṭaṁ guhāhitaṁ gahvareṣṭhaṁ purāṇam | 
 adhyātmayogādhigamena devaṁ matvā dhīro harṣaśokau jahāti || 12 ||

“O sábio, percebendo em sua meditação o Ser eterno, difícil de se ver, que reside profundamente escondido no lugar secreto [o coração]”, deixa para trás o sofrimento e o prazer [junto com todas as demais dualidades].” || 12 ||

एतच्छ्रु त्वा सम्पिरगृह्य मत्यर्ः प्रवृह्य धम्यर्मणुमेतमाप्य ।

स मोदते मोदनीयँ िह लब्ध्वा िववृतँ सद्म निचके तसं मन्ये ॥ १३ ॥

etacchrutvā samparigṛhya martyaḥ pravṛhya dharmyamaṇumetamāpya |

sa modate modanīyam̐ hi labdhvā vivṛtam̐ sadma naciketasaṁ manye || 13 ||

“Aqueles que percebem a si próprios, não como corpo ou mente, mas como o Ser ilimitado, princípio sagrado da existência, encontram a fonte de toda felicidade e residem nela. Percebo que as portas dessa felicidade estão abrindo-se para ti, Naciketas.” || 13 ||

अन्यत्र धमार्दन्यत्राधमार्दन्यत्रास्मात्कृ ताकृ तात् ।
 अन्यत्र भूताच्च भव्याच्च यत्तत्पश्यिस तद्वद ॥ १४ ॥

anyatra dharmādanyatrādharmādanyatrāsmātkṛtākṛtāt |
 anyatra bhūtācca bhavyācca yattatpaśyasi tadvada || 14 ||

[Naciketas pediu:] “Instrui-me sobre Aquele que está mais além do certo e do errado, da causa e do efeito, do passado e do futuro”. || 14 ||

सवेर् वेदा यत्पदमामनिन्त तपाꣳिस सवार्िण च यद्वदिन्त ।

यिदच्छन्तो ब्रह्मचयर्ं चरिन्त तत्ते पदꣳ संग्रहेण ब्रवीम्योिमत्येतत् ॥ १५ ॥

sarve vedā yatpadamāmananti tapāmsi sarvāṇi ca yadvadanti |  yadicchanto brahmacaryaṁ caranti tatte padam 
saṁgraheṇa bravīmyomityetat || 15 ||

O mantra Oṁ como veículo para a liberdade.

[Yama replicou: ] “Explicar-te-ei resumidamente a meta declarada pelos Vedas, o objetivo de todas as austeridades, que os homens realizam ao levar uma vida de continência. Essa meta é a sílaba sagrada [Oṁ]”. || 15 ||

एतदध्य् ेवाक्षरं ब्रह्म एतदध्य् ेवाक्षरं परम् ।

एतदध्य् ेवाक्षरं ज्ञात्वा यो यिदच्छित तस्य तत् ॥ १६ ॥

etaddhyevākṣaraṁ brahma etaddhyevākṣaraṁ param |
 etaddhyevākṣaraṁ jñātvā yo yadicchati tasya tat || 16 ||

“Essa sílaba sagrada é, em verdade, o invariável Brahman. Esta sílaba é a meta mais elevada. Quem a conhece, realiza todos seus objetivos”. || 16 ||

एतदालम्बनँ श्रेष्ठमेतदालम्बनं परम् ।
 एतदालम्बनं ज्ञात्वा ब्रह्मलोके महीयते ॥ १७ ॥

etadālambanam̐ śreṣṭhametadālambanaṁ param |
 etadālambanaṁ jñātvā brahmaloke mahīyate || 17 ||

“Ela é o melhor apoio, o mais elevado sustento. Quem conhece este esteio reside feliz no mundo de Brahman”. || 17 ||

न जायते िम्रयते वा िवपिश्चन् नायं कु तिश्चन्न बभूव किश्चत् ।
 अजो िनत्यः शाश्वतोऽयं पुराणो न हन्यते हन्यमाने शरीरे ॥ १८ ॥

na jāyate mriyate vā vipaścin nāyaṁ kutaścinna babhūva kaścit |
 ajo nityaḥ śāśvato’yaṁ purāṇo na hanyate hanyamāne śarīre || 18 ||

A revelação do Ser, Ilimitado e Invariável.

“O Ser, que é Todo-o-Conhecimento, não nasceu nem morrerá. Estando além de causa e efeito, é imutável, invariável e eterno. Ele não perece quando o corpo se extingue”. || 18 ||

हन्ता चेन्मन्यते हन्तुँ हतश्चेन्मन्यते हतम् ।

उभौ तौ न िवजानीतो नायँ हिन्त न हन्यते ॥ १९ ॥

hantā cenmanyate hantum̐ hataścenmanyate hatam |  ubhau tau na vijānīto nāyam̐ hanti na hanyate || 19 ||

Continua Yamarāja com a instrução: “Se aquele que mata acredita poder matar e aquele que morre acredita poder morrer, ambos ignoram a verdade. Ninguém mata. Ninguém pode ser morto”. || 19 ||

अणोरणीयान्महतो महीया- नात्माऽस्य जन्तोिनर् िहतो गुहायाम् ।
 तमक्रतुः पश्यित वीतशोको धातुप्रसादान्मिहमानमात्मनः ॥ २० ॥

aṇoraṇīyānmahato mahīyānātmā’sya jantornihito guhāyām | 
 tamakratuḥ paśyati vītaśoko dhātuprasādānmahimānamātmanaḥ || 20 ||

“Menor que o infinitesimal, maior que o grandioso, o Ser vive no coração de todas as criaturas. Aquele que domina seus desejos, liberta-se de todo sofrimento e, com a mente e os sentidos em paz, percebe a grandeza do Ser”. || 20 ||

आसीनो दरू ं व्रजित शयानो याित सवर्तः ।
 कस्तं मदामदं देवं मदन्यो ज्ञातुमहर्ित ॥ २१ ॥

āsīno dūraṁ vrajati śayāno yāti sarvataḥ |

kastaṁ madāmadaṁ devaṁ madanyo jñātumarhati || 21 ||

“Embora o corpo fique parado durante a meditação, o Ser exerce sua influência em qualquer lugar. Embora permaneça quieto, movimenta tudo em todos os lugares”. || 21 ||

अशरीरँ शरीरेष्वनवस्थेष्वविस्थतम् ।

महान्तं िवभुमात्मानं मत्वा धीरो न शोचित ॥ २२ ॥

aśarīram̐ śarīreṣvanavastheṣvavasthitam |

mahāntaṁ vibhumātmānaṁ matvā dhīro na śocati || 22 ||

“Transcende o sofrimento o sábio que percebe o Ser, sem forma no mundo das formas, imutável em meio à mudança, ilimitado e supremo”. || 22 ||

नायमात्मा प्रवचनेन लभ्यो न मेधया न बहुना श्रुतेन ।

यमेवैष वृणुते तेन लभ्यः तस्यैष आत्मा िववृणुते तनूꣳ स्वाम् ॥ २३ ॥

nāyamātmā pravacanena labhyo na medhayā na bahunā śrutena |
 yamevaiṣa vṛṇute tena labhyaḥ tasyaiṣa ātmā vivṛṇute tanūm svām || 23 ||

“O Ser não pode conhecer-se através do estudo das escrituras, nem usando o intelecto, nem ouvindo discursos eruditos. O Ser pode ser percebido por aqueles que ele mesmo escolhe. Verdadeiramente, é unicamente a eles que o Ser se revela”. || 23 ||

नािवरतो दश्चु िरतान्नाशान्तो नासमािहतः ।
 नाशान्तमानसो वाऽिप प्रज्ञानेनैनमाप्नुयात् ॥ २४ ॥

nāvirato duścaritānnāśānto nāsamāhitaḥ |
 nāśāntamānaso vā’pi prajñānenainamāpnuyāt || 24 ||

“O Ser não pode ser conhecido por aqueles que não tenham desistido do erro, nem por aqueles que não dominem seus sentidos, nem por aqueles que não sejam pacíficos, nem por aqueles incapazes de concentrar a própria mente”. || 24 ||

यस्य ब्रह्म च क्षत्रं च उभे भवत ओदनः ।
 मृत्युयर्स्योपसेचनं क इत्था वेद यत्र सः ॥ २५ ॥

yasya brahma ca kṣatraṁ ca ubhe bhavata odanaḥ |
 mṛtyuryasyopasecanaṁ ka itthā veda yatra saḥ || 25 ||

“Ninguém mais conhece o Ilimitado, cuja glória supera os rituais dos sacerdotes, a coragem dos guerreiros, e que vence até mesmo a própria morte”. || 25 ||

इित काठकोपिनषिद प्रथमाध्याये िद्वतीया वल्ली ॥
iti kāṭhakopaniṣadi prathamādhyāye dvitīyā vallī ||

Aqui conclui-se o segundo canto da primeira parte da Kahopaniad. .

Parte I Canto 3

ऋतं िपबन्तौ सुकृ तस्य लोके गुहां प्रिवष्टौ परमे पराधेर् ।

छायातपौ ब्रह्मिवदो वदिन्त पञ्चाग्नयो ये च ित्रणािचके ताः ॥ १ ॥

ṛtaṁ pibantau sukṛtasya loke guhāṁ praviṣṭau parame parārdhe | chāyātapau brahmavido vadanti pañcāgnayo ye ca triṇāciketāḥ || 1 ||

O Ser e o ego.

[Yama continua:] “Na caverna secreta do coração, dois estão sentados à beira da fonte da vida. O ego bebe as águas doces e amargas, desfrutando as doces, rejeitando as amargas. O Ser bebe as águas doces e amargas, sem desfrutá-las nem rejeitá-las. O ego afunda nas trevas; o Ser mergulha na luz. Assim dizem os sábios e os que adoram os cinco fogos sagrados e o fogo tríplice de Naciketas”. || 1 ||

यः सेतुरीजानानामक्षरं ब्रह्म यत् परम् ।

अभयं िततीषर्तां पारं नािचके तँ शके मिह ॥ २ ॥

yaḥ seturījānānāmakṣaraṁ brahma yat param |
 abhayaṁ titīrṣatāṁ pāraṁ nāciketam̐ śakemahi || 2 ||

“Que possamos manter aceso o fogo de Naciketas, que purifica o ego e nos permite atravessar o oceano do medo em direção às margens do Indestrutível”. || 2 ||

आत्मानँ रिथतं िविद्ध शरीरँ रथमेव तु ।

बुिद्धं तु सारिथं िविद्ध मनः प्रग्रहमेव च ॥ ३ ॥

ātmānam̐ rathitaṁ viddhi śarīram̐ rathameva tu |

buddhiṁ tu sārathiṁ viddhi manaḥ pragrahameva ca || 3 ||

A parábola do Ser e a carruagem.

“Pense no Ser como o senhor de uma carruagem realizando uma jornada. O corpo é a carruagem. O discernimento é o cocheiro. A mente, as rédeas”. || 3 ||

इिन्द्रयािण हयानाहुिवर् षयाँ स्तेषु गोचरान् ।
 आत्मेिन्द्रयमनोयुक्तं भोक्तेत्याहुमर्नीिषणः ॥ ४ ॥

indriyāṇi hayānāhurviṣayām̐ steṣu gocarān |
 ātmendriyamanoyuktaṁ bhoktetyāhurmanīṣiṇaḥ || 4 ||

“Os sentidos, dizem os sábios, são os cavalos, as estradas que eles percorrem, os labirintos do desejo. Quando o Ser é confundido com o corpo, a mente e os sentidos, ele parece desfrutar o prazer e sofrer a dor”. || 4 ||

यस्त्विवज्ञानवान्भवत्ययुक्तेन मनसा सदा ।
 तस्येिन्द्रयाण्यवश्यािन दष्टु ाश्वा इव सारथेः ॥ ५ ॥

yastvavijñānavānbhavatyayuktena manasā sadā | tasyendriyāṇyavaśyāni duṣṭāśvā iva sāratheḥ || 5 ||

Quando falta ao homem discernimento e à sua mente disciplina, os sentidos disparam e tornam-se incontroláveis, como cavalos selvagens”. || 5 ||

यस्तु िवज्ञानवान्भवित युक्तेन मनसा सदा ।
 तस्येिन्द्रयािण वश्यािन सदश्वा इव सारथेः ॥ ६ ॥

yastu vijñānavānbhavati yuktena manasā sadā |
 tasyendriyāṇi vaśyāni sadaśvā iva sāratheḥ || 6 ||

“Porém, quando o homem possui discernimento e uma mente disciplinada, seus sentidos, como bem treinados cavalos, facilmente respondem ao freio”. || 6 ||

यस्त्विवज्ञानवान्भवत्यमनस्कः सदाऽशुिचः ।

न स तत्पदमाप्नोित संसारं चािधगच्छित ॥ ७ ॥

yastvavijñānavānbhavatyamanaskaḥ sadā’śuciḥ |
 na sa tatpadamāpnoti saṁsāraṁ cādhigacchati || 7 ||

“Aquele que não tiver discernimento, que não tiver disciplinado sua mente, que não for puro de coração, não alcançará a meta, ficando preso ao ciclo de mortes e renascimentos sucessivos”. || 7 ||

यस्तु िवज्ञानवान्भवित समनस्कः सदा शुिचः ।
 सतुतत्पदमाप्नोितयस्माद्भयूोनजायते॥८॥

yastu vijñānavānbhavati samanaskaḥ sadā śuciḥ |
 sa tu tatpadamāpnoti yasmādbhūyo na jāyate || 8 ||

“Aquele que tiver discernimento, mente disciplinada e pureza interior, alcançará a meta, e nunca mais irá sofrer nas garras da morte”. || 8 ||

िवज्ञानसारिथयर्स्तु मनः प्रग्रहवान्नरः ।

सोऽध्वनः पारमाप्नोित तिद्वष्णोः परमं पदम् ॥ ९ ॥

vijñānasārathiryastu manaḥ pragrahavānnaraḥ |
 so’dhvanaḥ pāramāpnoti tadviṣṇoḥ paramaṁ padam || 9 ||

“Aquele que tiver o discernimento por cocheiro e controlar as rédeas de sua mente, alcançará o fim da jornada, a união com o Onipresente”. || 9 ||

इिन्द्रयेभ्यः परा ह्यथार् अथेर्भ्यश्च परं मनः ।
 मनसस्तु परा बुिद्धबुर्द्धेरात्मा महान्परः ॥ १० ॥

indriyebhyaḥ parā hyarthā arthebhyaśca paraṁ manaḥ |
 manasastu parā buddhirbuddherātmā mahānparaḥ || 10 ||

O Ilimitado e as suas manifestações.

“Para além dos sentidos estão seus objetos. Para além desses objetos está a mente. Além da mente está o discernimento e, além dele, o Ser eterno”. || 10 ||

महतः परमव्यक्तमव्यक्तात्पुरुषः परः ।

पुरुषान्न परं िकं िचत्सा काष्ठा सा परा गितः ॥ ११ ॥

mahataḥ paramavyaktamavyaktātpuruṣaḥ paraḥ |
 puruṣānna paraṁ kiṁcitsā kāṣṭhā sā parā gatiḥ || 11 ||

“Além do mahat está avyaktam, o imanifesto, [o germe da natureza]. Mais além de avyaktam está Puruṣa. Além de Puruṣa, não há nada. Ele é a culminação, o fim mais elevado da jornada”. || 11 ||

एष सवेर्षु भूतेषु गूढोऽऽत्मा न प्रकाशते ।

दृश्यते त्वग्र्यया बुदध्य् ा सूक्ष्मया सूक्ष्मदिशर् िभः ॥ १२ ॥

eṣa sarveṣu bhūteṣu gūḍho’’tmā na prakāśate |

dṛśyate tvagryayā buddhyā sūkṣmayā sūkṣmadarśibhiḥ || 12 ||

“Embora esteja presente em tudo, Brahman não se revela. Ele é percebido unicamente pelo sábio que concentra sua mente e desenvolve a visão”. || 12 ||

यच्छेद्वाङ्मनसी प्राज्ञस्तद्यच्छेज्ज्ञान आत्मिन ।

ज्ञानमात्मिन महित िनयच्छेत्तद्यच्छेच्छान्त आत्मिन ॥ १३ ॥

yacchedvāṅmanasī prājñastadyacchejjñāna ātmani |
 jñānamātmani mahati niyacchettadyacchecchānta ātmani || 13 ||

“A prática da meditação permite ao sábio mergulhar mais e mais profundamente na consciência, indo do mundo das palavras ao mundo dos pensamentos e, deste, à sabedoria suprema”. || 13 ||

उित्तष्ठत जाग्रत प्राप्य वरािन्नबोधत ।
क्षुरस्य धारा िनिशता दरु त्यया दगु र्ं पथस्तत्कवयो वदिन्त ॥ १४ ॥

uttiṣṭhata jāgrata prāpya varānnibodhata |

kṣurasya dhārā niśitā duratyayā durgaṁ pathastatkavayo vadanti || 14 ||

“Levanta-te, desperta! Havendo adquirido tuas bênçãos, compreende-as. Estreito como o fio de uma navalha, difícil de atravessar é este caminho, declaram os poetas”. || 14 ||

अशब्दमस्पशर्मरूपमव्ययं तथाऽरसं िनत्यमगन्धवच्च यत् ।
 अनाद्यनन्तं महतः परं ध्रुवं िनचाय्य तन्मृत्युमुखात् प्रमुच्यते ॥ १५ ॥

aśabdamasparśamarūpamavyayaṁ tathā’rasaṁ nityamagandhavacca yat |
 anādyanantaṁ mahataḥ paraṁ dhruvaṁ nicāyya 

tanmṛtyumukhāt pramucyate || 15 ||

O Ser está além de nome e de forma, além dos sentidos. Sem início, sem fim, estando além do tempo, do espaço e da causalidade, ele é eterno e imutável. Aquele que percebe o Ser livra-se das garras da morte”. || 15 ||

नािचके तमुपाख्यानं मृत्युप्रोक्तँ सनातनम् ।

उक्त्वा श्रुत्वा च मेधावी ब्रह्मलोके महीयते ॥ १६ ॥

nāciketamupākhyānaṁ mṛtyuproktam̐ sanātanam | 
 uktvā śrutvā ca medhāvī brahmaloke mahīyate || 16 ||

Quando esta antiga história de Naciketas, contendo os ensinamentos de Yama, for narrada ou ouvida pelos sábios, estes entrarão no mundo de Brahmā. || 16 ||

य इमं परमं गुह्यं श्रावयेद् ब्रह्मसंसिद ।

प्रयतः श्राद्धकाले वा तदानन्त्याय कल्पते । तदानन्त्याय कल्पत इित ॥ १७ ॥

ya imaṁ paramaṁ guhyaṁ śrāvayed brahmasaṁsadi |

prayataḥ śrāddhakāle vā tadānantyāya kalpate | tadānantyāya kalpata iti || 17 ||

Aquele que enaltecer este supremo segredo numa reunião de brahmāṇas ou na ocasião dos rituais para os defuntos, merecerá a imortalidade! || 17 ||

इित काठकोपिनषिद प्रथमाध्याये तृतीया वल्ली ॥
iti kāṭhakopaniṣadi prathamādhyāye tṛtīyā vallī ||

Aqui conclui-se o terceiro canto da primeira 
 parte da Kahopaniad.

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Kaṭha Upaniṣad 
Vida Além da Morte 
Parte II

Apresentamos aqui a segunda e última parte da Kahopaniad. Nesta parte do diálogo entre o jovem Naciketas e o Senhor da Morte aparecem recorrentemente cinco temas práticos essenciais para a vida espiritual:

1) a identidade entre o Ilimitado, Brahman, e o indivíduo, Ātma;
2) a importância do mestre no processo do autoconhecimento;
3) a prática do Yoga como caminho para a libertação;
4) o princípio de causa e efeito, ou lei do karma; e
5) a “vitória sobre a morte”, através do conhecimento.

1) Aham Brahma’smi: “Eu sou Ilimitado”.

Esta Upaniṣad não revela demasiados detalhes sobre as técnicas do Yoga. No entanto, sua descrição é muito verdadeira, pois aponta para a dificuldade em se manter o estado de unicidade, dizendo que ele “vêm e vai”.

O primeiro desses assuntos tem a ver com a prioridade absoluta para o buscador: a percepção de si mesmo como Brahman, o Ser. A palavra Brahman significa literalmente “vasta expansão”, e deriva da raiz bṛḥ, que significa “crescer” ou “expandir”. Tradicionalmente traduz-se Brahman como “o “Ser”, ou “o Absoluto”, e designa o princípio supremo impessoal que permeia a criação, e que é uma das ideias centrais da filosofia hindu.

Na Kahopaniad, Brahman é descrito através de metáforas como as seguintes: ”Assim como o fogo, sendo único, assume diversas formas ao consumir diversos objetos, da mesma forma o Ser assume as formas de todas as criaturas, nas quais está presente. Assim como o ar, sendo único, assume diversas formas ao abraçar diversos objetos, da mesma forma o Ser assume as formas de todas as criaturas, nas quais está presente”.

O ensinamento medular de todas as Upaniṣads é a identidade entre Brahman, o Ilimitado, e Ātma, o indivíduo. O Vedānta distingue dois aspectos diferentes do Ilimitado: para apara, ou o não manifestado e o manifestado. Com frequência, este aspecto manifestado de Brahman é chamado Śabdabrahman, o “Som do Ilimitado”, e identificado com o mantra sagrado Oṁ.

2) A importância do guru.

O segundo desses temas tem a ver com a figura do guru: nesta vida, não podemos aspirar à realização espiritual sem a ajuda de um mestre vivo realizado: “O Yoga não pode ser alcançado através de palavra, pensamento ou testemunho. Como pode Brahman ser conhecido, exceto por aquele que o percebe em si próprio?” O Ser é sempre sujeito. Jamais poderá ser objeto de conhecimento. Jamais poderá ser observado ou percebido pela mente ou pelo intelecto. Ele pode ser percebido apenas através da prática constante do Yoga.

3) O Yoga como instrumento para o autoconhecimento.

O terceiro grande assunto desta segunda parte da Kaṭha é a prática de Yoga como veículo para a realização. Esta Upaniṣad não revela demasiados detalhes sobre as técnicas do Yoga.

No entanto, sua descrição é muito verdadeira, pois aponta para a dificuldade em se manter o estado de unicidade, dizendo que ele “vêm e vai” (prabhavāpyayau): “Quando os cinco sentidos e a mente estão parados, e a própria razão descansa em silêncio, começa o caminho supremo. Esta firmeza calma dos sentidos chama-se Yoga. Mas deve-se estar atento, pois o Yoga vem e vai.”

O cultivo da atentividade plena é essencial para nos manter em Yoga. Se formos cuidadosos, o Yoga se manifesta. Se nos distrairmos, se evapora.

A metáfora do Ser como sendo “menor que o dedo polegar”, que aparece mais de uma vez na Kaṭha, não deve interpretar-se literalmente, uma vez que este não tem tamanho nem localização física, mas é um esforço do autor para indicar que a concentração deve realizar-se no interior e que o Ser, presente no tempo e no espaço, existe igualmente além deles.

Ainda no âmbito do Yoga e sua relação com o corpo humano, aparece uma metáfora do Ser como Senhor do corpo: “O governante da cidade de onze portas é o Ser, cuja luz brilha por sempre.

Deixam o sofrimento para trás e são libertados do ciclo de mortes e nascimentos aqueles que meditam no Ser”. As “onze portas” são: olhos, ouvidos, narinas, boca, sexo, ânus, umbigo e sutura sagital, a abertura no topo do crânio por onde a individualidade abandona o corpo no momento da morte.

4) Karma: o princípio de causalidade.
A auto-realização não “surge” do destino ou do além, mas está em função das escolhas que estamos fazendo nesta vida e no mundo das nossas ações.

O quarto grande tema desta obra é a lei do karma, o princípio de causalidade através do qual cada ser humano determina seu próprio destino: “Se a pessoa falhar na tarefa da realização suprema nesta vida antes que o corpo se desintegre, ela deve retornar ao mundo encarnada num novo corpo”.

Os meios de realização que aqui se postulam afastam-se diametralmente do fatalismo e do “alémismo”, uma vez que a auto-realização não “surge” do destino ou do além, mas está em função das escolhas que estamos fazendo nesta vida e no mundo real das nossas ações, karmabhūmi.

O que esta importante passagem nos ensina é que a realização espiritual pode alcançar-se agora mesmo, e que não devemos ficar esperando que ela aconteça como graça dos deuses ou coisa similar.

No início do terceiro canto, aparece um elemento cosmogônico muito antigo e comum a várias culturas: a árvore da vida. Essa árvore, que representa o eixo do mundo (axis mundi), é ao mesmo tempo uma espécie de passagem entre o mundo manifestado e o invisível.

Essa árvore é chamada Aśvattha nas Upaniṣads, Yggdrasil na mitologia nórdica e Asherah na cultura mesopotâmica, mas aparece igualmente na Bíblia como a árvore do bem e do mal, na religião muçulmana e na dos povos indígenas da América do Norte.

Aqui, o Universo é representado como uma grande árvore invertida, que espalha suas raízes no firmamento e estende seus galhos e folhagens sobre a terra. Esta Upaniṣad descreve-a assim: “Este Aśvattha eterno, cujas raízes crescem para cima e cujos ramos para baixo, é o puro, é o Brahman, é o que se chama Não-Morte. Todos os mundos repousam nele”.

Na tradição da Índia, vencer a morte significa abrir o coração: “Desfazendo os nós que estrangulam do coração, o mortal torna-se imortal”.

O final do terceiro canto contém, em forma embrionária, alguns dos elementos da cosmogonia Sāṅkhya, uma antiga escola de filosofia hindu: “Além dos sentidos está a mente. Além da mente está a razão. Além dela está a individualidade. Além da individualidade está a Causa não manifestada. Além da Causa não manifestada está Brahman, onipresente e sem atributos. Aquele que percebe isto liberta-se do ciclo dos nascimentos e mortes”.

A mente (manas) é a sede dos pensamentos e emoções, sendo também responsável pelo processamento das percepções sensoriais. A razão (buddhi), traduzida igualmente como intelecto, governa a faculdade de afirmar. O ego (ahakāra) é a auto-referência, através do qual o indivíduo (jīva) percebe a si próprio como uma entidade separada da criação. Além da individualidade está a Causa não manifestada (Puruṣa) que, por sua vez, é a expressão individual de Brahman.

5) Amta: a vitória sobre a morte.

O desejo de vencer a morte, um dos últimos assuntos abordados nesta obra, é tão antigo quanto universal. Na tradição da Índia, “vencer a morte” significa abrir o coração, como fica claro nesta passagem: “Desfazendo os nós que estrangulam do coração, o mortal torna-se imortal. Essa é a síntese dos ensinamentos das escrituras”.

Nesta edição, optamos por traduzir Brahman como Ser, por acharmos que esta palavra é intuitivamente mais compreensível que a palavra Absoluto. Assim como nas outras traduções anteriormente apresentadas, utilizamos o recurso de reconstituição de texto usando colchetes. Boa leitura e boas reflexões!

Parte II
Canto 1

परािञ्च खािन व्यतृणत् स्वयम्भूस्तस्मात्पराङ्पश्यित नान्तरात्मन् । 
किश्चद्धीरः प्रत्यगात्मानमैक्षदावृत्तचक्षुरमृतत्विमच्छन् ॥ १ ॥

parāñci khāni vyatṛṇat svayambhūstasmātparāṅpaśyati nāntarātman |
 kaściddhīraḥ pratyagātmānamaikṣadāvṛttacakṣuramṛtatvamicchan || 1 ||

O Ilimitado não pode ser conhecido pelos sentidos.

[Disse Yama:] “O autoexistente (svayambhū), atravessou as aberturas [dos sentidos] em direção ao exterior. Por essa razão, o homem olha para fora, ao invés de procurar dentro de si (antarātman). Um homem sábio, buscando a imortalidade, retraiu seus sentidos do mundo externo, sempre mutante. Olhando para o interior, contemplou face a face o Ser imortal”. || 1 ||

पराचः कामाननुयिन्त बालास्ते मृत्योयर्िन्त िवततस्य पाशम् । 
अथ धीरा अमृतत्वं िविदत्वा ध्रुवमध्रुवेिष्वह न प्राथर्यन्ते ॥ २ ॥

parācaḥ kāmānanuyanti bālāste mṛtyoryanti vitatasya pāśam |

atha dhīrā amṛtatvaṁ viditvā dhruvamadhruveṣviha na prārthayante || 2 ||

“As pessoas com mentalidade infantil perseguem os prazeres efêmeros, só para cair nas redes da morte. No entanto, os sábios, sabendo que o Ser é imortal, não procuram por ele no mundo das coisas finitas”. || 2 ||

येन रूपं रसं गन्धं शब्दान् स्पशार्ꣳश्च मैथुनान् ।

एतेनैव िवजानाित िकमत्र पिरिशष्यते । एतद्वै तत् ॥ ३ ॥

yena rūpaṁ rasaṁ gandhaṁ śabdān sparśāmśca maithunān | 
etenaiva vijānāti kimatra pariśiṣyate | etadvai tat || 3 ||

“Aquele através do qual experienciam-se a forma, o gosto, o olfato, a audição, o toque e a união carnal, é o Ser. Pode existir algo desconhecido para Aquele que é o Uno no Todo? Aquele que conhece o Uno, conhece o Todo”. || 3 ||

स्वप्नान्तं जागिरतान्तं चोभौ येनानुपश्यित । 
महान्तं िवभुमात्मानं मत्वा धीरो न शोचित ॥ ४ ॥

svapnāntaṁ jāgaritāntaṁ cobhau yenānupaśyati | 
mahāntaṁ vibhumātmānaṁ matvā dhīro na śocati || 4 ||

“Aquele através do qual experienciam-se os estados da vigília e do sono é o Ser. Para o sábio, perceber o Ilimitado como a própria consciência é ir além do sofrimento”. || 4 ||

य इमं मध्वदं वेद आत्मानं जीवमिन्तकात् ।

ईशानं भूतभव्यस्य न ततो िवजुगुप्सते । एतद्वै तत् ॥ ५ ॥

ya imaṁ madhvadaṁ veda ātmānaṁ jīvamantikāt |

īśānaṁ bhūtabhavyasya na tato vijugupsate | etadvai tat || 5 ||

O Ilimitado é Uno com o indivíduo e com a Criação.

“Aquele que conhece este Ser como quem liba o mel obtido das flores dos sentidos, presente no interior e senhor do tempo, está além do medo. Este, realmente, é Aquele [que estás buscando]”. || 5 ||

यः पूवर्ं तपसो जातमदभ्य् ः पूवर्मजायत ।
गुहां प्रिवश्य ितष्ठन्तं यो भूतेिभव्यर्पश्यत । एतद्वै तत् ॥ ६ ॥

yaḥ pūrvaṁ tapaso jātamadbhyaḥ pūrvamajāyata |

guhāṁ praviśya tiṣṭhantaṁ yo bhūtebhirvyapaśyata | etadvai tat || 6 ||

“Aquele nascido antes que a austeridade, nasceu igualmente antes das águas. Aquele que entrou no lugar secreto [do coração] e olhou através dos seres, realmente, é Aquele [que estás buscando]”. || 6 ||

या प्राणेन संभवत्यिदितदेर्वतामयी ।

गुहां प्रिवश्य ितष्ठन्तीं या भूतेिभव्यर्जायत । एतद्वै तत् ॥ ७ ॥

yā prāṇena saṁbhavatyaditirdevatāmayī |

guhāṁ praviśya tiṣṭhantīṁ yā bhūtebhirvyajāyata | etadvai tat || 7 ||

“Aditi, a essência dos devatāque surge com a vida, havendo entrado no lugar secreto [o coração], e havendo nascido como os seres, realmente, é Esse [que estás buscando]”. || 7 ||

अरण्योिनर् िहतो जातवेदा गभर् इव सुभृतो गिभर् णीिभः ।

िदवे िदवे ईड्यो जागृविद्भहर्िवष्मिद्भमर्नुष्येिभरिग्नः । एतद्वै तत् ॥ ८ ॥

araṇyornihito jātavedā garbha iva subhṛto garbhiṇībhiḥ |

dive dive īḍyo jāgṛvadbhirhaviṣmadbhirmanuṣyebhiragniḥ | etadvai tat || 8 ||

“Agni, o Fogo Onisciente, oculto na lenha como o embrião no ventre da mãe, deve ser adorado com oferendas pelos homens pois este, realmente, é Aquele [que estás buscando]”. || 8 ||

यतश्चोदेित सूयोर्ऽस्तं यत्र च गच्छित ।

तं देवाः सवेर्ऽिपर् तास्तदु नात्येित कश्चन । एतद्वै तत् ॥ ९ ॥

yataścodeti sūryo’staṁ yatra ca gacchati |

taṁ devāḥ sarve’rpitāstadu nātyeti kaścana | etadvai tat || 9 ||

“Aquele que é a fonte do Sol e de todos os poderes do Universo, além do qual nada há, realmente, é Aquele [que estás buscando]”. || 9 ||

यदेवेह तदमुत्र यदमुत्र तदिन्वह ।

मृत्योः स मृत्युमाप्नोित य इह नानेव पश्यित ॥ १० ॥

yadeveha tadamutra yadamutra tadanviha |
mṛtyoḥ sa mṛtyumāpnoti ya iha nāneva paśyati || 10 ||

“O que está aqui, está lá; o que está lá, está igualmente aqui. De morte em morte vagueia quem vê algo diferente disto”. || 10 ||

मनसैवेदमाप्तव्यं नेह नानाऽिस्त िकं चन ।

मृत्योः स मृत्युं गच्छित य इह नानेव पश्यित ॥ ११ ॥

manasaivedamāptavyaṁ neha nānā’sti kiṁcana |
 mṛtyoḥ sa mṛtyuṁ gacchati ya iha nāneva paśyati || 11 ||

“Apenas a mente unidirecionada é capaz de perceber a Unidade. Nada existe além do Ser. De morte em morte vagueia aquele que vê algo diferente disto”. || 11 ||

अङ्गुष्ठमात्रः पुरुषो मध्य आत्मिन ितष्ठित ।

ईशानं भूतभव्यस्य न ततो िवजुगुप्सते । एतद्वै तत् ॥ १२ ॥

aṅguṣṭhamātraḥ puruṣo madhya ātmani tiṣṭhati |

īśānaṁ bhūtabhavyasya na tato vijugupsate | etadvai tat || 12 ||

O Ser, menor que o dedo polegar, reside no centro do coração. Senhor do que foi e do que será, ele é o mesmo, hoje e amanhã. Este, realmente, é Aquele [que estás buscando]”. || 12 ||

अङ्गुष्ठमात्रः पुरुषो ज्योितिरवाधूमकः ।

ईशानो भूतभव्यस्य स एवाद्य स उ श्वः । एतद्वै तत् ॥ १३ ॥

aṅguṣṭhamātraḥ puruṣo jyotirivādhūmakaḥ |

īśāno bhūtabhavyasya sa evādya sa u śvaḥ | etadvai tat || 13 ||

“O Ser, menor que o dedo polegar, brilha como uma chama sem fumaça. Senhor do que foi e do que será, ele é o mesmo, hoje e amanhã. Este, realmente, é Aquele [que estás buscando]”. || 13 ||

यथोदकं दगु ेर् वृष्टं पवर्तेषु िवधावित ।

एवं धमार्न् पृथक् पश्यंस्तानेवानुिवधावित ॥ १४ ॥

yathodakaṁ durge vṛṣṭaṁ parvateṣu vidhāvati |

evaṁ dharmān pṛthak paśyaṁstānevānuvidhāvati || 14 ||

“Assim como a chuva que desce as ladeiras da montanha, aqueles que percebem apenas a multiplicidade aparente da vida, dispersam-se correndo atrás dos objetos efêmeros”. || 14 ||

यथोदकं शुद्धे शुद्धमािसक्तं तादृगेव भवित ।
 एवं मुनेिवर् जानत आत्मा भवित गौतम ॥ १५ ॥

yathodakaṁ śuddhe śuddhamāsiktaṁ tādṛgeva bhavati |
 evaṁ munervijānata ātmā bhavati gautama || 15 ||

“Assim como água pura vertida sobre água pura tornam-se uma só, da mesma forma, ó Gautama, Ātma, a individualidade do sábio (muni), torna-se una com o Ilimitado”. || 15 ||

इित काठकोपिनषिद िद्वतीयाध्याये प्रथमा वल्ली ॥
iti kāṭhakopaniṣadi dvitīyādhyāye prathamā vallī ||

Aqui conclui-se o primeiro canto da segunda parte da Kahopaniad. .

Parte II
Canto 2

पुरमेकादशद्वारमजस्यावक्रचेतसः ।

अनुष्ठाय न शोचित िवमुक्तश्च िवमुच्यते । एतद्वै तत् ॥ १ ॥

puramekādaśadvāramajasyāvakracetasaḥ |

anuṣṭhāya na śocati vimuktaśca vimucyate | etadvai tat || 1 ||

O Ilimitado é idêntico ao indivíduo.

[Disse Yama: ] “O governante da cidade de onze portas é o Ser, cuja luz brilha por sempre. Deixam o sofrimento para trás e são libertados do ciclo de mortes e nascimentos aqueles que meditam [i.e., conhecem] o Ser. Este, realmente, é Aquele [que estás buscando]”. || 1 ||

हँसःशुिचषद्वसुरान्तिरक्षसदह्ोतावेिदषदितिथदर्रुोणसत्।
 नृषद्वरसदृतसदव्य् ोमसद् अब्जा गोजा ऋतजा अिद्रजा ऋतं बृहत् ॥ २ ॥

ham̐saḥ śuciṣadvasurāntarikṣasad hotā vediṣadatithirduroṇasat |
 nṛṣadvarasadṛtasadvyomasad abjā gojā ṛtajā adrijā ṛtaṁ bṛhat || 2 ||

“[O Ser] vive no céu como aquele que se move [o sol]. Como o que tudo anima, [vive] na atmosfera. Como o fogo, no altar. Como o hóspede, no lar. Vive nos humanos, vive nos elementais, vive na verdade e vive no vasto espaço. Ele é tudo o que nasce das águas, tudo o que nasce da terra, tudo o que nasce da verdade, tudo o que nasce da montanha; imenso e grandioso”. || 2 ||

ऊध्वर्ं प्राणमुन्नयत्यपानं प्रत्यगस्यित ।

मध्ये वामनमासीनं िवश्वे देवा उपासते ॥ ३ ॥

ūrdhvaṁ prāṇamunnayatyapānaṁ pratyagasyati |
 madhye vāmanamāsīnaṁ viśve devā upāsate || 3 ||

“Aquele que está no coração reina sobre o alento vital. Ante ele todos os devas [os sentidos] se prostram”. || 3 ||

अस्य िवस्रंसमानस्य शरीरस्थस्य देिहनः ।
 देहािद्वमुच्यमानस्य िकमत्र पिरिशष्यते । एतद्वै तत् ॥ ४ ॥

asya visraṁsamānasya śarīrasthasya dehinaḥ |
 dehādvimucyamānasya kimatra pariśiṣyate | etadvai tat || 4 ||

“Quando o habitante do corpo liberta-se das correntes da carne, quem permanece? Este, realmente, é Aquele [que estás buscando]”. || 4 ||

न प्राणेन नापानेन मत्योर् जीवित कश्चन ।
 इतरेण तु जीविन्त यिस्मन्नेतावुपािश्रतौ ॥ ५ ॥

na prāṇena nāpānena martyo jīvati kaścana |
 itareṇa tu jīvanti yasminnetāvupāśritau || 5 ||

“O ser vivo não vive por causa do alento que flui para dentro ou para fora, prāṇou apāna. Ele vive por causa daquele que faz a vitalidade fluir”. || 5 ||

हन्त त इदं प्रवक्ष्यािम गुह्यं ब्रह्म सनातनम् ।
 यथा च मरणं प्राप्य आत्मा भवित गौतम ॥ ६ ॥

hanta ta idaṁ pravakṣyāmi guhyaṁ brahma sanātanam |
 yathā ca maraṇaṁ prāpya ātmā bhavati gautama || 6 ||

“Agora, ó Gautama, falar-te-ei de Brahman, eterno e invisível, bem como sobre o que acontece além da morte”. || 6 ||

योिनमन्ये प्रपद्यन्ते शरीरत्वाय देिहनः । स्थाणुमन्येऽनुसंयिन्त यथाकमर् यथाश्रुतम् ॥ ७ ॥

yonimanye prapadyante śarīratvāya dehinaḥ |
 sthāṇumanye’nusaṁyanti yathākarma yathāśrutam || 7 ||

“Alguns entram num ventre e encarnam [como animais ou humanos], enquanto que outros permanecem estacionários, [encarnando como vegetais,] conforme é determinado por suas próprias ações e conhecimento”. || 7 ||

य एष सुप्तेषु जागितर् कामं कामं पुरुषो िनिमर् माणः ।

तदेव शुक्रं तद्ब्रह्म तदेवामृतमुच्यते ।

तिस्मँ ल्लोकाः िश्रताः सवेर् तदु नात्येित कश्चन । एतद्वै तत् ॥ ८ ॥

ya eṣa supteṣu jāgarti kāmaṁ kāmaṁ puruṣo nirmimāṇaḥ |
 tadeva śukraṁ tadbrahma tadevāmṛtamucyate |

tasmim̐llokāḥ śritāḥ sarve tadu nātyeti kaścana | etadvai tat || 8 ||

“Puruṣa, o Ser perfeito, permanece desperto no sono e inspira os incessantes desejos no sonho. Chama-se Brahman, o Imortal. Alicerce dos mundos, nada é diferente dele. Este, realmente, é Aquele [que estás buscando]”. || 8 ||

अिग्नयर्थैको भुवनं प्रिवष्टो रूपं रूपं प्रितरूपो बभूव ।
 एकस्तथा सवर्भूतान्तरात्मा रूपं रूपं प्रितरूपो बिहश्च ॥ ९ ॥

agniryathaiko bhuvanaṁ praviṣṭo rūpaṁ rūpaṁ pratirūpo babhūva |
 ekastathā sarvabhūtāntarātmā rūpaṁ rūpaṁ pratirūpo bahiśca || 9 ||

“Assim como o fogo, sendo único, assume diversas formas ao consumir diversos objetos, da mesma forma o Ser assume as formas de todas as criaturas, nas quais está presente”. || 9 ||

वायुयर्थैको भुवनं प्रिवष्टो रूपं रूपं प्रितरूपो बभूव ।
 एकस्तथा सवर्भूतान्तरात्मा रूपं रूपं प्रितरूपो बिहश्च ॥ १० ॥

vāyuryathaiko bhuvanaṁ praviṣṭo rūpaṁ rūpaṁ pratirūpo babhūva |
 ekastathā sarvabhūtāntarātmā rūpaṁ rūpaṁ pratirūpo bahiśca || 10 ||

“Assim como o ar, sendo único, assume diversas formas ao abraçar diversos objetos, da mesma forma o Ser assume as formas de todas as criaturas, nas quais está presente”. || 10 ||

सूयोर् यथा सवर्लोकस्य चक्षःु न िलप्यते चाक्षुषैबार्ह्यदोषैः । एकस्तथा सवर्भूतान्तरात्मा न िलप्यते लोकदःु खेन बाह्यः ॥ ११ ॥

sūryo yathā sarvalokasya cakṣuḥ na lipyate cākṣuṣairbāhyadoṣaiḥ |
 ekastathā sarvabhūtāntarātmā na lipyate lokaduḥkhena bāhyaḥ || 11 ||

“Assim como o sol, olho do universo, não é manchado pelo defeito visto pelos olhos ou pelos objetos que ilumina, da mesma forma o Ser, vivendo nos corações de todos, permanece intocado pelo sofrimento, pois tudo transcende”. || 11 ||

एको वशी सवर्भूतान्तरात्मा एकं रूपं बहुधा यः करोित ।

तमात्मस्थं येऽनुपश्यिन्त धीराः तेषां सुखं शाश्वतं नेतरेषाम् ॥ १२ ॥

eko vaśī sarvabhūtāntarātmā ekaṁ rūpaṁ bahudhā yaḥ karoti |

tamātmasthaṁ ye’nupaśyanti dhīrāḥ teṣāṁ sukhaṁ śāśvataṁ netareṣām || 12 ||

A felicidade de reconhecer a si mesmo como Ilimitado.

“O Ser, presente em todos os seres, multiplica sua própria Unidade. A felicidade eterna acompanha àqueles que percebem o Ser em seus próprios corações. A mais ninguém ele se revela!” || 12 ||

िनत्योऽिनत्यानां चेतनश्चेतनानाम् एको बहूनां यो िवदधाित कामान् ।
 तमात्मस्थं येऽनुपश्यिन्त धीराः तेषां शािन्तःशाश्वती नेतरेषाम् ॥ १३ ॥

nityo’nityānāṁ cetanaścetanānām eko bahūnāṁ yo vidadhāti kāmān |
 tamātmasthaṁ ye’nupaśyanti dhīrāḥ teṣāṁ śāntiḥ śāśvatī netareṣām || 13 ||

“Imutável em meio ao que perece, Pura Consciência no coração dos sábios, o Único atende as preces de muitos. A paz eterna é daqueles que percebem o Ser em seus próprios corações. A mais ninguém ele se revela!” || 13 ||

तदेतिदित मन्यन्तेऽिनदेर्श्यं परमं सुखम् ।

कथं नु तिद्वजानीयां िकमु भाित िवभाित वा ॥ १४ ॥

tadetaditi manyante’nirdeśyaṁ paramaṁ sukham |
 kathaṁ nu tadvijānīyāṁ kimu bhāti vibhāti vā || 14 ||

[Perguntou Naciketas:] “Como posso conhecer àquele Ser, supremo e pleno, conhecido pelos sábios? É ele a luz, ou ele reflete a luz?” || 14 ||

न तत्र सूयोर् भाित न चन्द्रतारकं नेमा िवद्युतो भािन्त कु तोऽयमिग्नः ।
 तमेव भान्तमनुभाित सवर्ं तस्य भासा सवर्िमदं िवभाित ॥ १५ ॥

na tatra sūryo bhāti na candratārakaṁ nemā vidyuto bhānti kuto’yamagniḥ | tameva bhāntamanubhāti sarvaṁ tasya bhāsā sarvamidaṁ vibhāti || 15 ||

[Respondeu a Morte:] “Não brilha o sol, nem a lua ou as estrelas, nem o raio nem o trovão, nem o fogo sobre a terra, sem a presença do Ser. O Ser é a luz por todos refletida. Quando ele brilha, tudo brilha”. || 15 ||

इित काठकोपिनषिद िद्वतीयाध्याये िद्वतीया वल्ली ॥
iti kāṭhakopaniṣadi dvitīyādhyāye dvitīyā vallī ||
Aqui conclui-se o segundo canto da segunda parte da Kahopaniad.

Parte II
Canto 3

ऊध्वर्मूलोऽवाक्शाख एषोऽश्वत्थः सनातनः ।

तदेव शुक्रं तद्ब्रह्म तदेवामृतमुच्यते ।

तिस्मँ ल्लोकाः िश्रताः सवेर् तदु नात्येित कश्चन । एतद्वै तत् ॥ १ ॥

ūrdhvamūlo’vākśākha eṣo’śvatthaḥ sanātanaḥ |

tadeva śukraṁ tadbrahma tadevāmṛtamucyate |

tasmim̐llokāḥ śritāḥ sarve tadu nātyeti kaścana | etadvai tat || 1 ||

A árvore do mundo cresce do Ilimitado.

“A Árvore da Eternidade (Aśvattha), cujas raízes crescem para o céu e cujos ramos crescem para baixo, é o puro, é Brahman, é o que se chama Não-Morte. Todos os mundos derivam Dele, que por ninguém pode ser transcendido. Este, realmente, é Aquele [que estás buscando]”. || 1 ||

यिददं िकं च जगत् सवर्ं प्राण एजित िनःसृतम् ।
 महद्भयं वज्रमुद्यतं य एतिद्वदरु मृतास्ते भविन्त ॥ २ ॥

yadidaṁ kiṁ ca jagat sarvaṁ prāṇa ejati niḥsṛtam |

mahadbhayaṁ vajramudyataṁ ya etadviduramṛtāste bhavanti || 2 ||

“O Cosmos deriva do prāṇ[i.e., o Ser], e nele se move. Seu poder aterroriza, como o trovão no céu. Aqueles que o conhecem livram-se da morte”. || 2 ||

भयादस्यािग्नस्तपित भयात्तपित सूयर्ः । भयािदन्द्रश्च वायुश्च मृत्युधार्वित पञ्चमः ॥ ३ ॥

bhayādasyāgnistapati bhayāttapati sūryaḥ |
 bhayādindraśca vāyuśca mṛtyurdhāvati pañcamaḥ || 3 ||

“Por temor do Ser, o fogo queima. Por temor do Ser, o sol aquece. Por temor do Ser, a chuva cai e o vento sopra. Por temor do Ser, a morte mata”. || 3 ||

इह चेदशकद्बोद्धंु प्राक्षरीरस्य िवस्रसः ।

ततः सगेर्षु लोके षु शरीरत्वाय कल्पते ॥ ४ ॥

iha cedaśakadboddhuṁ prākṣarīrasya visrasaḥ |
 tataḥ sargeṣu lokeṣu śarīratvāya kalpate || 4 ||

Transformação.

“Se a pessoa falhar na tarefa da realização suprema nesta vida antes que o corpo se desintegre, ela deve retornar ao mundo encarnada num novo corpo”. || 4 ||

यथाऽऽदशेर् तथाऽऽत्मिन यथा स्वप्ने तथा िपतृलोके ।

यथाऽप्सु परीव ददृशे तथा गन्धवर्लोके छायातपयोिरव ब्रह्मलोके ॥ ५ ॥

yathā’’darśe tathā’’tmani yathā svapne tathā pitṛloke |

yathā’psu parīva dadṛśe tathā gandharvaloke chāyātapayoriva brahmaloke || 5 ||

“Brahman pode ser visto, como num espelho, num coração puro. No mundo dos ancestrais, como um sonho. No mundo dos elementais, como círculos na água. Como a claridade da luz, no mundo de Brahman”. || 5 ||

इिन्द्रयाणां पृथग्भावमुदयास्तमयौ च यत् ।
 पृथगुत्पद्यमानानां मत्वा धीरो न शोचित ॥ ६ ॥

indriyāṇāṁ pṛthagbhāvamudayāstamayau ca yat |
 pṛthagutpadyamānānāṁ matvā dhīro na śocati || 6 ||

“Sabendo que os sentidos estão separados do Ser, e sabendo que as experiências deles advindas são impermanentes, o sábio não se aflige”. || 6 ||

इिन्द्रयेभ्यः परं मनो मनसः सत्त्वमुत्तमम् ।
 सत्त्वादिध महानात्मा महतोऽव्यक्तमुत्तमम् ॥ ७ ॥

indriyebhyaḥ paraṁ mano manasaḥ sattvamuttamam | sattvādadhi mahānātmā mahato’vyaktamuttamam || 7 ||

“Além dos sentidos está a mente. Além da mente está a razão. Além dela está Ātma. Além de Ātma está avyaktam, o imanifesto, [o germe da natureza]”. || 7 ||

अव्यक्तात्तु परः पुरुषो व्यापकोऽिलङ्ग एव च ।
 यं ज्ञात्वा मुच्यते जन्तुरमृतत्वं च गच्छित ॥ ८ ॥

avyaktāttu paraḥ puruṣo vyāpako’liṅga eva ca |

yaṁ jñātvā mucyate janturamṛtatvaṁ ca gacchati || 8 ||

“Além [de Prakṛti], está Brahman, o Ilimitado, sem atributos. Aquele que percebe isto liberta-se do ciclo dos nascimentos e mortes”. || 8 ||

न संदृशे ितष्ठित रूपमस्य न चक्षुषा पश्यित कश्चनैनम् ।

हृदा मनीषा मनसाऽिभक्लृप्तो य एतिद्वदरु मृतास्ते भविन्त ॥ ९ ॥

na saṁdṛśe tiṣṭhati rūpamasya na cakṣuṣā paśyati kaścanainam |
 hṛdā manīṣā manasā’bhiklṛpto ya etadviduramṛtāste bhavanti || 9 ||

“Ele não tem forma e não pode ser visto com estes olhos. Porém, revela-se no coração purificado pela prática da meditação e o controle sensorial. Aquele que percebe isto liberta-se do ciclo dos nascimentos e mortes”. || 9 ||

यदा पञ्चावितष्ठन्ते ज्ञानािन मनसा सह ।

बुिद्धश्च न िवचेष्टते तामाहुः परमां गितम् ॥ १० ॥

yadā pañcāvatiṣṭhante jñānāni manasā saha |
 buddhiśca na viceṣṭate tāmāhuḥ paramāṁ gatim || 10 ||

O Yoga como calma atitude.

“Quando os cinco sentidos e a mente repousam, e a própria razão descansa em silêncio, então começa o caminho supremo”. || 10 ||

तां योगिमित मन्यन्ते िस्थरािमिन्द्रयधारणाम् ।
 अप्रमत्तस्तदा भवित योगो िह प्रभवाप्ययौ ॥ ११ ॥

tāṁ yogamiti manyante sthirāmindriyadhāraṇām |
 apramattastadā bhavati yogo hi prabhavāpyayau || 11 ||

“Esta firmeza calma dos sentidos chama-se Yoga. Mas deve-se estar atento, pois o Yoga vem e vai.” || 11 ||

नैव वाचा न मनसा प्राप्तुं शक्यो न चक्षुषा ।
 अस्तीित ब्रुवतोऽन्यत्र कथं तदपु लभ्यते ॥ १२ ॥

naiva vācā na manasā prāptuṁ śakyo na cakṣuṣā |
 astīti bruvato’nyatra kathaṁ tadupalabhyate || 12 ||

“A visão da não-separação não pode ser alcançada através de palavra, pensamento ou testemunho. Como pode o Ilimitado ser conhecido, exceto por aquele que diz “Ele é”?” || 12 ||

अस्तीत्येवोपलब्धव्यस्तत्त्वभावेन चोभयोः ।
 अस्तीत्येवोपलब्धस्य तत्त्वभावः प्रसीदित ॥ १३ ॥

astītyevopalabdhavyastattvabhāvena cobhayoḥ |
 astītyevopalabdhasya tattvabhāvaḥ prasīdati || 13 ||

“Há dois seres: o ego separado e o Ātma indivisível. Quando nos elevamos por cima das noções de eu, mim e meu, Ātma revela-se como a natureza real”. || 13 ||

यदा सवेर् प्रमुच्यन्ते कामा येऽस्य हृिद िश्रताः ।
 अथ मत्योर्ऽमृतो भवत्यत्र ब्रह्म समश्नुते ॥ १४ ॥

yadā sarve pramucyante kāmā ye’sya hṛdi śritāḥ |

atha martyo’mṛto bhavatyatra brahma samaśnute || 14 ||

O desapego como meio para superar os condicionamentos.

“Quando renuncia [à identificação com] os desejos que amarram o coração [o ego], o mortal torna-se imortal. Então, alcança o Ilimitado, mesmo [vivendo no corpo]”. || 14 ||

यदा सवेर् प्रिभद्यन्ते हृदयस्येह ग्रन्थयः ।

अथ मत्योर्ऽमृतो भवत्येतावदध्य् नुशासनम् ॥ १५ ॥

yadā sarve prabhidyante hṛdayasyeha granthayaḥ |
 atha martyo’mṛto bhavatyetāvaddhyanuśāsanam || 15 ||

“Desfazendo os nós que estrangulam o coração, o mortal torna-se imortal. Essa é a síntese do ensinamento”. || 15 ||

शतं चैका च हृदयस्य नाड्य- स्तासां मूधार्नमिभिनःसृतैका । तयोध्वर्मायन्नमृतत्वमेित िवष्वङ्ङन्या उत्क्रमणे भविन्त ॥ १६ ॥

śataṁ caikā ca hṛdayasya nāḍyastāsāṁ mūrdhānamabhiniḥsṛtaikā |
 tayordhvamāyannamṛtatvameti viṣvaṅṅanyā utkramaṇe bhavanti || 16 ||

Dos condicionamentos para a Liberdade.

“A partir do coração, surgem os cento e um caminhos (nāḍīs) da força vital. Um deles conduz ao topo da cabeça. Esse caminho conduz à imortalidade. Os outros, à morte”. || 16 ||

अङ्गुष्ठमात्रः पुरुषोऽन्तरात्मा सदा जनानां हृदये संिनिवष्टः ।
 तं स्वाच्छरीरात्प्रवृहेन्मुञ्जािदवेषीकां धैयेर्ण ।

तं िवद्याच्छु क्रममृतं तं िवद्याच्छु क्रममृतिमित ॥ १७ ॥

aṅguṣṭhamātraḥ puruṣo’ntarātmā sadā janānāṁ hṛdaye saṁniviṣṭaḥ |
 taṁ svāccharīrātpravṛhenmuñjādiveṣīkāṁ dhairyeṇa |

taṁ vidyācchukramamṛtaṁ taṁ vidyācchukramamṛtamiti || 17 ||

“Puruṣa, menor que o dedo polegar, repousa eternamente nos corações de todos. Distingue-o do corpo físico, como o caule que surge do junco. Conhece a ti mesmo como Ser, Pleno e Ilimitado! Conhece a ti mesmo como Ser, Pleno e Ilimitado!” || 17 ||

मृत्युप्रोक्तां निचके तोऽथ लब्ध्वा िवद्यामेतां योगिविधं च कृ त्स्नम् ।
 ब्रह्मप्राप्तो िवरजोऽभूिद्वमृत्यु- रन्योऽप्येवं यो िवदध्यात्ममेव ॥ १८ ॥

mṛtyuproktāṁ naciketo’tha labdhvā vidyāmetāṁ yogavidhiṁ ca kṛtsnam |
 brahmaprāpto virajo’bhūdvimṛtyuranyo’pyevaṁ yo vidadhyātmameva || 18 ||

Assim, Naciketas aprendeu do Senhor da Morte o autoconhecimento e o disciplina libertadora do Yoga. Libertando-se de toda separação, conquistou a morte e reconheceu o Ilimitado. Abençoados são os que conhecem o Ser. || 18 ||

॥ इित काठकोपिनषिद िद्वतीयाध्याये तृतीया वल्ली ॥
|| iti kāṭhakopaniṣadi dvitīyādhyāye tṛtīyā vallī ||
Aqui conclui-se o terceiro canto da segunda parte da Kahopaniad.

ॐ सह नाववतु । सह नौ भुनक्तु । सहवीयर्ं करवावहै ।

तेजिस्व नावधीतमस्तु । मा िविद्वषावहै ॥ॐ शािन्तः शािन्तः शािन्तः ॥

Oṁ saha nāvavatu | saha nau bhunaktu | sahavīryaṁ karavāvahai | tejasvi nāvadhītamastu | mā vidviṣāvahai || Oṁ śāntiḥ śāntiḥ śāntiḥ ||

Invocação da Paz.

Oṁ. Que Ele (Īśvara) proteja nós dois. Que Ele esteja feliz conosco. 
 Que possamos trabalhar juntos com vigor. Que a visão nos ilumine.
 Que nunca confundamos nossos papéis. Oṁ. Que haja paz, paz, paz.


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Kaṭha Upaniṣad

॥ हरिः ॐ ॥

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4 respostas para “Kaṭha Upaniṣad”

  1. Muito bom o artigo, gratidão por compartilhar o conhecimento.

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