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Katha Upanishad: há vida além da morte?

Convidamos o amigo leitor para refletir sobre a história do jovem Naciketas, que representa o buscador da verdade, na narração da Kaṭha Upaniṣad, um dos textos mais antigos que existem sobre a realização espiritual

Convido o amigo leitor para refletir sobre a história do jovem Nachiketas, que representa o buscador da verdade, na narração da Kaṭha Upaniṣad, um dos livros mais antigos que existem sobre a realização espiritual.

As Upaniṣads constituem uma das fontes mais profusas de sabedoria reveladas à Humanidade. É normal que, ao ouvirmos isto, saiamos correndo procurar alguma tradução destes śāstras para mergulharmos na leitura. É igualmente comum que fiquemos frustrados por não entender sua linguagem, e que concluamos que as Upaniṣads são “pura filosofia”, acabando por irmos procurar esse conhecimento em algum outro lugar.

Isto acontece porque muitos dos textos hindus estão escritos em uma linguagem mítica e simbólica, cujas chaves de decifração se encontram numa cultura antiqüíssima e radicalmente diferente da nossa.
Portanto, sentir-se frustrado ao não entender uma leitura dessas é um fato normal embora infeliz, pois as Upaniṣads nos oferecem dicas precisas e muito práticas para realizar o propósito supremo da existência.

Elas respondem às duas principais perguntas que um ser humano pode fazer-se:
Qual é o propósito supremo da vida?
Como posso realizá-lo?

Porém, conseguir fazer as perguntas certas é menos da metade da tarefa. A Kaṭha Upaniṣad responde essas duas perguntas colocando o questionador frente a frente com a realidade da vida e mostrando claramente o caminho a ser percorrido. Narra o encontro entre Nachiketas e o Senhor da Morte, Yama.

A Kaṭha Upaniṣad responde as perguntas essenciais colocando o questionador frente a frente com a realidade da vida e mostrando claramente o caminho a ser percorrido. Esta Upaniṣad, chamada igualmente Kāṭhakopaniṣad, pertence à escola Taittirīya do Yajur Veda.

Data do primeiro milênio a.C. e contém, em forma embrionária, elementos da cosmogonia Sāṅkhya. Consta de dois cantos, com três capítulos (vallis) cada. Usa-se de uma antiga alegoria do Ṛg Veda (X: 135) como moldura para o encontro definitivo entre o mestre perfeito, a Morte, e o discípulo ideal, um jovem adolescente sedento de sabedoria.

O início da Kaṭha Upaniṣad poderá lembrar-lhe um conto de fadas mas, diferentemente dos contos infantis, existe uma lição bem profunda por trás dela. Lembro de uma frase do rabino Nachman (1772-1810), de Bratislava (Eslováquia): “Muitas pessoas acreditam que as estórias são contadas para fazer as pessoas dormir. Eu conto as minhas para acordá-las.”

O jovem Naciketas oferece sua própria vida ao achar que as oferendas (algumas vacas magras) que Vājasravasa, seu pai, pôde reunir eram indignas de uma oferenda decente: “Pai, a quem me darás em sacrifício?” Perante a insistência impertinente do filho, Vājasravasa responde, literalmente: “Vá para o inferno!” Portanto, Nachiketas empreende sozinho a viagem ao reino da Morte.

Para entendermos o porquê do início da jornada que o jovem empreende, cabe lembrar que a palavra empenhada tem, na cultura hindu, um peso que não encontra paralelo na nossa. Se o pai disse o que disse, o filho precisa cumprir e ponto. Não há nenhum questionamento ulterior possível.

Acontece, porém, que Yama está ausente e o jovem precisa aguardar à sua porta por três dias e três noites sem comer. Ao voltar, o deus percebe que, como Nachiketas não recebeu as homenagens a ele devidas, como hóspede e vítima de um sacrifício, gerou uma dívida que decide pagar concedendo-lhe três pedidos.

Naciketas pede em primeiro lugar poder voltar para casa e para seu pai, feliz. Em segundo lugar, pede para entender o significado oculto do ritual do fogo. Em terceiro lugar, busca saber o mistério da vida além da morte.

O deus concede-lhe os dois primeiros pedidos, mas testa o jovem em relação ao terceiro, oferecendo-lhe, em troca dele, muitos séculos de vida, inúmeros descendentes, riquezas inimagináveis e mulheres belíssimas, fora do alcance dos mortais.

No entanto, Nachiketas persevera em sua ideia original, pois sabe que as coisas percebidas pelos sentidos são transitórias, e ele está em busca do conhecimento eterno. As coisas do mundo material são insignificantes e sem valor para ele. Yama, impressionado pela determinação do jovem, aquiesce em lhe ensinar. Então Yama fala-lhe sobre o valor absoluto que nós, ignorantes, colocamos em coisas finitas e relativas:

“A passagem [a morte] não está clara para aqueles com mentalidade infantil, ofuscados pelas ilusões do mundo material. Pensando “este é o mundo real! Não há nada além dele!”, eles voltam vezes e mais vezes a ficar sob meu controle [continuam presos na roda do saṁsāra, ciclo de mortes e renascimentos sucessivos]”. II:6

Aqui Yama aborda a questão matéria/espírito de maneira tão direta que pode parecer incompreensível para o leitor desatento. Quando Yama diz que tem pessoas com mentalidade infantil, quer dizer que levamos nossa vidinha material muito a sério, chorando quando nossos brinquedos quebram, nos assustando com filmes violentos, nos emocionando com telenovelas, nos preocupando com futilidades

Depois, o deus instrui o jovem sobre a natureza da alma e o processo de conhecimento do que está além dela, numa progressão gnosiológica que lembra bastante a cosmogonia da filosofia Sāṅkhya.

Somos crianças grandes. Crianças no parque de diversões. O único que muda é que, conforme crescemos, nossos brinquedos vão ficando maiores e mais caros. Estamos tão absorvidos pelas coisas do mundo material que não conseguimos sequer suspeitar que existe algo muito além dele.

Somos como crianças no parque de diversões. O único que muda é que, conforme crescemos, nossos brinquedos vão ficando maiores e mais caros. É por isso que continua sendo mais fácil falar sobre o que a vida espiritual não é, ao invés de falar sobre o que ela é. Participando de uma conversa com um yogi realizado, lendo um livro ou assistindo uma palestra, podemos nos fazer uma ideia do que haja por trás do mundo material.

No entanto, existe uma enorme diferença entre, por exemplo, ler um livro sobre a Índia e fazer uma viagem para a Índia. Para viver a Índia, precisamos viajar até lá, o que, por sua vez, requer que tenhamos não somente a vontade, mas também os meios mentais e materiais para fazermos a viagem. Quando estamos prontos para a jornada, deixamos de ser crianças. Na vida espiritual é igual.

No início somos todos crianças. Não temos experiência para saber que o mundo não é unidimensional e estamos a priori desculpados por isso. Se nossos únicos contatos forem com outras crianças que também desconhecem a profundidade da existência, ficaremos sempre no mesmo nível e continuaremos a viver nossas vidas achando que a felicidade depende de nossos brinquedos.

As diferentes experiências criam impressões na mente que não nos permitem transcender o mundo unidimensional, e acabamos por nos transformar em crianças grandes, mantendo intactas a ignorância e a conduta infantil. Assim, o mundo limitado que acabamos criando para nós mesmos através das nossas conquistas e derrotas no plano material, transforma-se na nossa única realidade, na qual ficamos girando e girando, presos no nosso parquinho de diversões particular. E assim, a vida vai passando…

Como você perceberá pelo tom no final desta primeira parte, a Kaṭha Upaniṣad parece concluir-se aqui. O erudito S. Rādhakrishnan sugere que a segunda parte, com seus três capítulos pode ser uma adição posterior. Essa segunda parte constitui uma unidade em si própria, com um método de Yoga bastante mais técnico e detalhado que o que aparece na primeira parte.

Nela, aparecem recorrentemente cinco temas práticos essenciais para a vida espiritual:
1) a identidade entre o Ser Ilimitado, Brahman, e o indivíduo, ātman;
2) a importância do guru no progresso espiritual;
3) a prática de Yoga como caminho espiritual e meio de emancipação do estado condicionado;
4) a lei do karma; e
5) a “vitória sobre a morte”, através do conhecimento.

1) Aham Brahma’smi: “Eu sou Brahman”.
Esta Upaniṣad não revela demasiados detalhes sobre as técnicas do Yoga. No entanto, sua descrição é muito verdadeira, pois aponta para a dificuldade em se manter o estado de unicidade, dizendo que ele “vêm e vai”.

O primeiro desses assuntos tem a ver com a prioridade absoluta para o buscador: a percepção de si mesmo como Brahman, o Ser. A palavra Brahman significa literalmente “vasta expansão”, e deriva da raiz briḥ, que significa “crescer” ou “expandir”. Tradicionalmente traduz-se Brahman como “o “Ser”, ou “o Absoluto”, e designa o princípio supremo impessoal que permeia a criação, e que é uma das ideias centrais da filosofia hindu.

Na Kaṭha Upaniṣad, Brahman é descrito através de metáforas como as seguintes: ”Assim como o fogo, sendo único, assume diversas formas ao consumir diversos objetos, da mesma forma o Ser assume as formas de todas as criaturas, nas quais está presente. Assim como o ar, sendo único, assume diversas formas ao abraçar diversos objetos, da mesma forma o Ser assume as formas de todas as criaturas, nas quais está presente”.

O tema central de todas as Upaniṣads, assim como da filosofia Vedānta, é a identidade entre Brahman, o Ser Absoluto, e ātman, a alma individual. O Vedānta distingue dois aspectos diferentes do Absoluto: um não manifestado (para), e outro, manifestado (apara). Com freqüência, este aspecto manifestado de Brahman é chamado Śabda Brahman, o “Som do Absoluto”, e identificado com o mantra sagrado Oṁ.

2) A importância do guru.
O segundo desses temas tem a ver com a figura do guru: nesta vida, não podemos aspirar à realização espiritual sem a ajuda de um mestre vivo realizado: “O estado unitivo não pode ser alcançado através de palavra, pensamento ou testemunho. Como pode Brahman ser conhecido, exceto por aquele que o percebe em si próprio?” O Ser é sempre sujeito. Jamais poderá ser objeto de conhecimento. Jamais poderá ser observado ou percebido pela mente ou pelo intelecto. Ele pode ser percebido apenas através da prática constante do Yoga.

3) O Yoga como instrumento para o autoconhecimento.
O terceiro grande assunto desta segunda parte da Kaṭha é a prática de Yoga como veículo para a realização. Esta Upaniṣad não revela demasiados detalhes sobre as técnicas do Yoga. No entanto, sua descrição é muito verdadeira, pois aponta para a dificuldade em se manter o estado de unicidade, dizendo que ele “vêm e vai” (prabhavāpyayau): “Quando os cinco sentidos e a mente estão parados, e a própria razão descansa em silêncio, começa o caminho supremo. Esta firmeza calma dos sentidos chama-se Yoga. Mas deve-se estar atento, pois o Yoga vem e vai.” O cultivo da atentividade plena é essencial para manter o estado de Yoga. Se formos cuidadosos, esse estado se manifesta. Se nos distrairmos, ele se evapora.

A metáfora do Ser como sendo “menor que o dedo polegar”, que aparece mais de uma vez na Kaṭha, não deve interpretar-se literalmente, uma vez que este não tem tamanho nem localização física, mas é um esforço do autor para indicar que a concentração deve realizar-se no interior e que o Ser, presente no tempo e no espaço, existe igualmente além deles.

Ainda no âmbito do Yoga e sua relação com o corpo humano, aparece uma metáfora do Ser como Senhor do corpo: “O governante da cidade de onze portas é o Ser, cuja luz brilha por sempre. Deixam o sofrimento para trás e são libertados do ciclo de mortes e nascimentos aqueles que meditam no Ser”. As “onze portas” são: olhos, ouvidos, narinas, boca, sexo, ânus, umbigo e sutura sagital, a abertura no topo do crânio por onde a consciência individal abandona o corpo no momento da morte.

4) Karma: o princípio de causalidade.
A auto-realização não “surge” do destino ou do além, mas está em função das escolhas que estamos fazendo nesta vida e no mundo real das nossas ações. O quarto grande tema desta obra é a lei do karma, o princípio de causalidade através do qual cada ser humano determina seu próprio destino: “Se a pessoa falhar na tarefa da realização suprema nesta vida antes que o corpo se desintegre, ela deve retornar ao mundo encarnada num novo corpo”.

Os meios de realização que aqui se postulam afastam-se diametralmente do fatalismo e do “alémismo”, uma vez que a auto-realização não “surge” do destino ou do além, mas está em função das escolhas que estamos fazendo nesta vida e no mundo real das nossas ações (karmabhūmi). O que esta importante passagem nos ensina é que a realização espiritual pode alcançar-se agora mesmo, e que não devemos ficar esperando que ela aconteça como graça dos deuses ou coisa similar.

No início do terceiro canto, aparece um elemento cosmogônico muito antigo e comum a várias culturas: a árvore da vida. Essa árvore, que representa o eixo do mundo (axis mundi), é ao mesmo tempo uma espécie de passagem entre o mundo manifestado e o invisível. Essa árvore é chamada Aśvattha nas Upaniṣads, Yggdrasil na mitologia nórdica e Asherah na cultura mesopotâmica, mas aparece igualmente na Bíblia como a árvore do bem e do mal, na religião muçulmana e na dos povos indígenas da América do Norte.

Aqui, o Universo é representado como uma grande árvore invertida, que espalha suas raízes no firmamento e estende seus galhos e folhagens sobre a terra. Esta Upaniṣad descreve-a assim: “Este Aśvattha eterno, cujas raízes crescem para cima e cujos ramos para baixo, é o puro, é o Brahman, é o que se chama Não-Morte. Todos os mundos repousam nele”.

Na tradição da Índia, vencer a morte significa abrir o coração: “Desfazendo os nós que estrangulam do coração, o mortal torna-se imortal”. O final do terceiro canto contém, em forma embrionária, alguns dos elementos da cosmogonia Sāṅkhya, uma antiga escola de filosofia hindu: “Além dos sentidos está a mente. Além da mente está a razão. Além dela está a individualidade. Além da individualidade está a Causa não manifestada. Além da Causa não manifestada está Brahman, onipresente e sem atributos. Aquele que percebe isto liberta-se do ciclo dos nascimentos e mortes”.

A mente (manas) é a sede dos pensamentos e emoções, sendo também responsável pelo processamento das percepções sensoriais. A razão (buddhi), traduzida igualmente como intelecto, governa a faculdade de afirmar. A individualidade (mahanātmā) designa o princípio de auto-referência, através do qual o indivíduo (jīva) percebe a si próprio como uma entidade separada da criação. Além da individualidade está a Causa não manifestada (Puruṣa) que, por sua vez, é a expressão individual de Brahman.

5) Amṛtaṁ: a vitória sobre a morte.
O desejo de vencer a morte, um dos últimos assuntos abordados nesta obra, é tão antigo quanto universal. Na tradição da Índia, “vencer a morte” significa abrir o coração, como fica claro nesta passagem: “Desfazendo os nós que estrangulam do coração, o mortal torna-se imortal. Essa é a síntese dos ensinamentos das escrituras”.

Nesta edição, optamos por traduzir Brahman como Ser, por acharmos que esta palavra é intuitivamente mais compreensível que a palavra Absoluto. Boa leitura e boas reflexões. Leia a Upaniṣad aqui.

4 respostas para “Katha Upanishad: há vida além da morte?”

  1. Pedro, esse link para a Katha Upanishad está quebrado. Será que pode me mandar o texto por e-mail ou republica-lo aqui? Eu tenho ele na minha apostila de formação mas está no Brasil! Obrigada, abraços.

    1. Olá Paty.
      Agora o texto está corrigido e o link aponta para o texto completo da Upanishad.

      Obrigado por avisar.

      Namaste.

  2. Gostaria apenas de avisá-los que o link para a versão completa do texto não funciona mais, ou como dizem na internet, está “quebrado”.

  3. Tendo a certeza e a compreensão de que tudo na vida é passageiro e que nada dura para sempre, podemos evitar determinados sofrimentos, sem apego, sabendo que tudo é impermanente. Aproveitando cada momento e desfrutando as oportunidades sem perder o sentido da vida, damos uma direção em nosso caminho para não torná-lo fútil. Se cair, levante-se e continue seu caminho, mas não desista, siga em frente, resista. Em meio às dificuldades, sua força aumenta de intensidade. Sem problemas você não cresceria interiormente. Use discernimento: se não der certo de um jeito, tente de outro, sem se abalar com os acontecimentos, pois tudo tem sua causa. Busque compreender. Suporte um pouco mais. Espere esse pouco. Aguarde com paciência. Silencie, se necessário. Toda solução está na sua mente. Uma perfeita noção de como nos encontramos é sinal de equilíbrio perante a vida. Namaste! Victor Colares.

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