Mudrā, Pratique

Mahamudra – Os mudras nas escrituras clássicas do Hatha Yoga

Para fazer mahamudra, deve-se pressionar o calcanhar esquerdo no períneo e, mantendo esticada a perna direita, segurar os dedos do pé direito com as mãos

Escrito por Miguel Homem · 6 mins de leitura >

‘Para fazer mahamudra, deve-se pressionar o calcanhar esquerdo no períneo e, mantendo esticada a perna direita, segurar os dedos do pé direito com as mãos. Depois contrai-se a garganta (em jalandhara bandha) e conduz-se o prana para cima (por sushumná). Desta forma, kundalini move-se para cima como uma serpente cutucada por uma vara. Então, as outras nadis ficam (geladas) sem vida (porque o prana já não as percorre. Exala-se depois muito lentamente, nunca depressa; os sábios denominam esta prática mahamudra, o grande selo. Com esta prática destroem-se os kleshas (aflições existenciais) e vence-se a morte; é por isso que os homens mais sábios a chamam mahamudra. Depois de praticar com o (calcanhar) esquerdo (no períneo) deve-se repetir com o direito, finalizando a prática quando se houver executado igual número de vezes para cada lado.’ Hatha Yoga Pradipika (III, 10-15).

A tradução é já por si bastante explícita, mas analisemos alguns pormenores. O texto refere a contracção da garganta (kanthe bandham) o claramente significa o jalandhara bandha. E em seguida a condução do prana para cima, o que sugere o mula bandha associado a uma visualização própria.

O prana genérico (ou vayu) divide-se em cinco pranas ou vayus principais: prana, apana, udana, samana e vyana. O prana está situado no alto do tórax, na região do coração, e o seu percurso começa no umbigo e vai até à garganta. Este vayu, associado à respiração, é activado pela inspiração e é responsável pela captação da energia do meio ambiente, para vitalizar o corpo. A sua polaridade é positiva. Já o apana está situado abaixo do tórax, na região coccígea. É o vayu responsável pelos processos de excreção e expulsão no corpo e é activado pela expiração. O apana é de polaridade negativa.

Esta conjugação do jalandhara bandha com o mula bandha associada ao pranayama procura sobretudo unir estes dois vayus (prana e apana), através da inversão das suas direcções naturais, no manipura chakra. Quando prana e apana se unem é estimulado o despertar da kundalini e isso ‘proporciona resultados de particular importância para la experiencia última del yoga.[1]. Segundo a Hatha Yoga Pradipika,
Com a prática constante de mula bandha alcança-se a união de prana e apana, reduzem-se consideravelmente as secreções (de urina e excrementos) e até os mais velhos rejuvenescem. III-65.

Quando apana e o fogo se unem ao prana, quente por natureza, um clarão intensamente abrasador brota no corpo. Kundalini, adormecida, aquecida por esse abrasamento, desperta. Tal como uma serpente tocada por uma vara, ela se levanta sibilando; e, como se entrasse em sua toca, entra na brahmanadi (sushumna, o canal central). III-67 – 69.

Desta forma se poderá explicar porque o prana abandona as nadis laterais, ida (respiração lunar associada à narina esquerda) e pingala (respiração solar associada à narina direita), e penetra sushumná causando a cessação da respiração pelas duas narinas.

Outras técnicas podem ainda ser associadas ao mahamudra. Theos Bernard[2], testemunhando a sua aprendizagem e experiência na Índia, complementava a retenção (kumbhaka) com o uddiyana bandha e a fixação do olhar no intercílio.

Faz-se ainda referência à destruição dos kleshas. Os kleshas são as misérias existenciais, as causas do sofrimento humano, e foram enumerados e definidos por Patañjali nos sutras II-3 e seguintes. Eles são: avidya, ignorância, asmita, egoísmo, raga, paixão, apego, dvesha, aversão e abhinivesha, o medo da morte. Sendo que todos eles surgem de avidya, a ignorância existencial.

E, por fim, surge a indicação para se fazer para ambos os lados, e não apenas para um. Indicação esta que falha no texto seguinte, mas que preferencialmente será seguida.

Vejamos agora a Gheranda Samhita, que acrescenta mais uma indicação:

‘Pressionando cuidadosamente o períneo com o calcanhar esquerdo, estique a perna direita e segure o dedo grande do pé com a mão; contraia a garganta (sem soltar a respiração), e fixe o olhar entre as sobrancelhas. Isto é chamado de mahamudra pelos sábios.’ (III, 6-7).

A fixação do olhar entre as sobrancelhas corresponde ao bhrumadhya drishti, também conhecido como shambhavi mudra, e pode ser feito tanto com as pálpebras abertas como fechadas. No entanto, o antaranga drishti (com as pálpebras fechadas) só deve ser executado depois de dominado o primeiro, com as pálpebras abertas. O bhrumadhya drishti, ou shambhavi mudra, permite aumentar a concentração na técnica do mahamudra e ajuda a estabilizar a consciência, e por conseguinte a manter estáveis e firmes o ásana, pranayama e visualização de suporte

De uma forma genérica o drishti ajuda a manter a concentração, uma vez que ‘fecha’ uma das portas de dispersão para o exterior. Ao mantermos o olhar fixo não nos deixamos permear pela visão, um dos jñanendriyas (órgãos do conhecimento) que nos apresenta o mundo exterior e que incessantemente alimenta manas, o pensamento. Com menos uma fonte de distracção, mais fácil é a percepção e vivência do momento no mudra.

A Shiva Samhita fará a referência explícita a estas ‘portas’:

‘Minha querida, vou agora descrever-te o mahamudra, através de cujo conhecimento os sábios antigos como Kapila e outros obtiveram sucesso no Yoga.’ (IV, 13-15).

O sábio Kapila é o lendário criador do sistema Samkhya.

‘De acordo com as instruções do guru, pressiona gentilmente o períneo com o calcanhar do pé esquerdo. Esticando o pé direito para fora, segura-o bem entre as duas mãos. Tendo fechado as nove entradas (do corpo), coloca o queixo no peito. Então concentra as vibrações da mente, inspira ar e retém-no pelo kumbhaka (pelo tempo que for confortável mantê-lo). Este é o mahamudra mantido secreto em todos os Tantras. O yogí de mente serena, tendo-o praticado do lado esquerdo, deve depois praticá-lo do lado direito; e em todos os casos deve ser firme no pranayama, a regulação do seu alento.’ (IV, 13-15).

O que a Gheranda Samhita sugeria com a indicação do shambhavi mudra, abstracção sensorial, a Shiva Samhita afirma: fechar as nove entradas do corpo. Estas nove entradas são os ouvidos, olhos, narinas, boca, ânus e órgão sexual. As primeiras sete portas correspondem a quatro dos cinco jñanendriyas, os sentidos do conhecimento, a saber: audição, olfacto, visão, tacto e paladar. E as duas últimas portas correspondem a duas das cinco faculdades da acção, karmendriyas, que são: palavra, gozo, preensão, locomoção e excreção. Aliás a boca é uma das portas que, se fechada, anula rasana (o jñanendriya do paladar) e vak (o karmendriya da palavra).

Ora, valendo-nos aqui dos elementos (tattvas) das cosmogonias Samkhya e Tantra, sabemos que são os indriyas (jñanendriyas e karmendriyas) que apresentam ao manas o mundo exterior para que aquele retire as impressões deste.

Na relação com o mundo exterior manas (pensamento) percebe e apresenta, ahamkara (ego) arroga-se, e buddhi (o intelecto superior) descrimina e decide, vindo assim a dar origem à acção. Estes três tattvas são conjuntamente denominados chitta, o complexo mente-personalidade, com que geralmente nos identificamos.

Claro que o fechar das nove portas não deve ser entendido em sentido literal. Chitta (a mente) é constantemente estimulada por objectos externos e o fechar das nove portas não é mais do que uma referência ao estado de pratyahara (indriya pratyahara), de abstracção sensorial. Na abstracção sensorial desempenham um papel essencial os bandhas e drishti utilizados. Pretende-se que o praticante feche aquele circuito de alimentação constante de chitta com objectos externos ? ‘Quando os sentidos já não estão em contacto com os seus próprios objectos e assumem a natureza de chitta, isto é pratyahara.’ (Yoga Sutra, II:54). O objectivo é que o praticante esteja presente e observante. O texto faz ainda referência à importância do pranayama na execução do mudra.

Técnica do mahamudra

Eis o mahamudra como me foi ensinado pelo Prof. Pedro Kupfer.

1. Sente-se pressionando o calcanhar esquerdo no períneo;

2. estenda a perna direita em frente ao corpo;

3. segure o pé direito com ambas as mãos e faça uma tracção da coluna para cima e para a frente, inspirando longamente;

4. faça khechari mudra e, retendo o ar, jalandhara bandha e shambhavi mudra com os olhos fechados;

5. acrescente o mula bandha ao kumbhaka (retenção);

6. repita mentalmente ajña, vishuddha, muladhara, durante a retenção com ar, visualizando o circuito descendente;

7. faça cinco ciclos e mude de lado, repetindo tudo com a outra perna esticada;

8. termine com cinco ciclos sobre ambas as pernas, juntas e esticadas em paschimottanásana.

9. Esta prática faz-se depois dos ásanas, o shatkarma e o pranayama e antes da meditação.

É esta, aliás, a ordem prescrita nos shastras.

O Dada Dhyanananda, que me ensinou o mahamudra de acordo com os ensinamentos de Shrii Shrii Anandamurti, seu guru, aconselha a retenção no mudra durante cerca de meio minuto e depois desfazer, sentar com a coluna recta e expirar.

A citações da Hatha Yoga Pradipika são extraídas da tradução de Pedro Kupfer, Instituto Dharma-Yogashala, 2002, Florianópolis, Brasil, enquanto as da Gheranda Samhita e Shiva Samhita são a tradução para o português feita pelo autor a partir de The Forceful Yoga, Being the Translation of Hahayoga-Pradipika, Gheranda-Samhita and Shiva-Samhita, tradução para o Inglês de Pancham Sinh e Rai Bahadur Srisa Chandra Vasu, 1a Edição, Motilal Banarsidas Publishers, 2004, Delhi, Índia.

[1] André Van Lysebeth, Pranayama, A la serenidad por el yoga, Ediciones Urano, 1985, Barcelona, pag. 250.

[2] Hatha Yoga, The Report of a Personal Experience, 4a Impressão, Essence of Health Publishing, 2001, África do Sul, pag. 62.

Miguel ensina Yoga no Porto, em Portugal. Seu email é [email protected]

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