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Neutralizando as 12 imperfeições do carácter

Os kalmashas, os 12 doshas ou imperfeições do carácter, precisam ser mantidos à distância e, eventualmente, removidos. Nas busca do conhecimento, esses doshas precisam ser evitados

Escrito por Swami Dayananda Saraswati · 9 mins de leitura >

Os kalmashas, os 12 doshas ou imperfeições do carácter, precisam ser mantidos à distância e, eventualmente, removidos. Na busca do conhecimento, esses doshas precisam ser evitados (varjya). Eles são:

1) raiva (krodha),
2) desejo (kama),
3) ambição (lobha),
4) falta de objetividade (moha),
5) curiosidade inoportuna (vivitsa),
6) ausência de compaixão (akripa),
7) descontentamento, irritação (asuya),
8) necessidade de se ter o respeito dos demais (manah),
9) tristeza (shokah),
10) apego excessivo, desejo interminável (spriha),
11) ciúmes, intolerância (irshyah), e
12) censura (jugupsa).

Vejamos como lidar com cada uma delas.

1) Raiva (krodha)

A raiva em si não é nem boa nem ruim. Ela precisa ser reconhecida e aceita. E precisa ser processada. É um dosha, uma imperfeição; portanto, precisa ser evitada. O fato de eu ter raiva não me torna especial. Todo o mundo tem raiva. Você não deve justificar suas ações sob o domínio da raiva vitimizando as pessoas à sua volta. Eu posso aceitar a sua raiva, mas tenho o direito de não me tornar uma vítima dela.

Não vitimizar os demais com a sua raiva implica dama. Dama é a capacidade de se ter auto-controle, de dizer não às imperfeições, de impedir que elas nos escravizem. Por exemplo, você pode falar para sua família que, dentro da sua casa, ninguém mais irá vitimizar os demais por causa da raiva. Percebendo-se com ravia, você pode dizer ‘eu estou com raiva neste momento; vou falar com você depois’. Ou, os outros poderão dizer ‘você está com raiva; vou falar depois contigo’. Você deve dar para as suas crianças e cónjuge o poder de lhe apontar quando você está se deixando dominar pela raiva. Este é o ponto em que o lar torna-se funcional, em que há comunicação honesta. O lar é a melhor academia emocional. A raiva está dentro de todos.

É importante ensinar para as crianças que a raiva não é essencialmente ruim, mas que tampouco é essencialmente má. É como a dor de cabeça. Você quer se livrar dela, mas ela não é nem boa nem ruim em si mesma. Todos deveríamos compreender que é normal termos raiva. Não é nada anormal se isso acontece conosco. Sejamos honestos. Entretanto, se é normal ter raiva, é totalmente equivocado vitimizar os demais por conta da raiva que estamos sentindo.

Controle da raiva significa não tentar fugir dela, mas procurar gerenciá-la da melhor maneira possível. Ocorrências de raiva são normais. Manipulá-la requer muita presença de espírito. Existem varias formas de fazer isso. Uma delas é escrever o que está acontecendo na hora em que essa emoção estiver se manifestando. Escrever é melhor que digitar. Escreva e depois destrua o papel. Não o guarde. Não é um documento do qual você irá se orgulhar. Escreva a sua raiva e depois jogue-a fora.

Assim, se você se dirigir à sua raiva, e escrever sobre ela e para ela, ela estará sendo processada, digerida e neutralizada. Assim, ela perde o poder sobre você. Se for preciso, fale com alguém que possa escutar você. Ou torne-se seu próprio terapeuta e escreva. Isso irá lhe ajudar.

O primeiro processo é dama, exercer o auto-controle, procurando dominar e evitar o primeiro impulso. O segundo processo, escrever, é shama. Não fique se perguntando onde a raiva irá parar. Apenas escreva. Essa é a maneira de lidar com esta emoção: inteligentemente, compassivamente. Seja cuidadoso, bondoso e compassivo consigo próprio. Seja compreensivo quando a raiva começar a se manifestar.

2) Desejo (kama)

Kama é desejo. Isto precisa ser compreendido adequadamente. Krishna disse na Bhagavad Gita: ‘eu sou o desejo dos amantes’. Ishvara manifesta-se sob a forma do desejo nos humanos. Isso obedece a uma ordem, uma ordem que é o próprio Ishvara. O desejo não é um problema. Ou não deveria ser, como no caso da raiva.

O desejo vem na forma de atração (raga) ou repulsa (dvesha). Desejo de adquirir o que você não tem, desejo de experienciar algo que você não conhece, desejo de possuir algo, desejo de estar num determinado lugar, de estar na companhia de alguém, de criar alguma coisa, desejo de mudar, etc.

Temos muitos tipos de ambição: não quero ser esquecido, quero deixar uma marca ‘nas areias do tempo’. Vivekananda falava desse jeito. Eu lia e me inspirava. Tudo bem, tenha desejos e ambições. Isso pode ser positivo, mas isso é dvesha. Entretanto, ainda tem aqueles desejos que vêm na forma de rejeição ou repulsa. Você não quer rugas, não quer excesso de peso, não quer a companhia de certas pessoas, quer se livrar de certas coisas ou pensamentos. Isso é dvesha, a aversão.

Não há nada de errado com ter desejos ou aversões. Krishna também disse na Gita: ‘Eu sou na forma do conhecimento e do dharma em sua própria mente’. Antes do desejo se manifestar, Krishna já é, na forma de conhecimento, dentro da sua mente.

Eu espero certas coisas de você. Você espera certas coisas de mim. Quando nós dois nos compreendemos, isso é harmonia, é dharma. O dharma sempre vem na forma de conhecimento do dharma. Para o ser humano preencher seus desejos, existe um mecanismo de controle, que é justamente esse conhecimento do dharma, que nos permite saber quando estamos agindo corretamente, e quando começamos a atropelar o direito dos demais.

Existe uma pressão que o kama exerce. O desejo é o próprio poder da motivação. O que acontece é que a pressão torna-se tão grande que você pode se tornar uma vítima desses desejos. Comprometer o dharma é algo que deve ser evitado a qualquer custo. Uma vida de disciplina, em que este tipo de imperfeição do carácter possa ser neutralizado, é uma vida na qual haverá uma harmonização com o dharma. Somente quando você tem um grande desafio, como o de harmonizar seus desejos, a pressão externa, seus conflitos internos e o próprio dharma, é que você estará praticando de fato tapah.

É preciso ver na devida perspectiva. É necessário ver o panorama geral, não apenas os detalhes dos desejos. Eu não devo machucar Ishvara significa eu não devo machucar a mim mesmo. Atropelar o dharma é atropelar minha dignidade.

 

3) Ambição cega (lobhah)

Lobhah é uma palavra interessante. Aqui, a primeira coisa que esta palavra aponta é ambição. No entanto, não há uma tradução direta e exata com uma única palavra para traduzir lobha. É preciso compreendermos o que lobha é. Lobha é ambição cega. É invejar a riqueza ou o sucesso dos demais. Às vezes, as pessoas chamam lobha de olho grande. Apreciar é muito diferente de invejar. Invejar é lobha. Outra coisa que lobha é, é o desejo de não compartilhar algo com os demais. Lobha é não querer dividir, não querer abrir mão do interesse pessoal para melhorar o bem-estar comum.

Também é não querer dar a si mesmo um pouco de conforto. O problema é que riquezas acumuladas desse jeito, não podem ser levadas depois que a pessoa morre. Portanto, lobha não é uma coisa muito boa. A busca espiritual, chamada tapah, deve ser livre desse tipo de sentimento. Portanto, dar é muito importante. Se você for analisar a vida segundo os valores vêdicos, esses valores tornam cada pessoa uma apoiadora do bem comum. O sistema de castas, originalmente, foi pensado nesse sentido. Cada um fazia uma contribuição para o bem-estar de todos.

Por exemplo, cada pessoa dava um pouco de terra para a administração pública. Essa terra era plantada pelas próprias pessoas e toda a comunidade dividia os frutos. Segundo os valores vêdicos, o fato de você não ser um contribuidor para o bem-estar de todos, tira seu status de humano. Para ser humano, você precisa contribuir. Senão, você será somente um consumidor, alguém que apenas pensa em si mesmo e pega o máximo para si, esquecendo do bem comum. Essa sociedade vaidika era altamente evoluída e muito justa.

4) Falta de objetividade (mohah)

Mohah, de modo geral, é uma falta de objetividade, uma certa falta de compeensão em relação ao que deve e o que não deve ser feito em cada situação. Quando temos algum dilema, como por exemplo quando não sabemos estabelecer as prioridades, estamos em presença de mohah. Confundir as prioridades, fazer o que não deve ser feito, confundir os valores, ter um valor ou afeição exagerada por algo que não merece, são todas formas de mohah.

Dar valor a algo que não tem ou merece, tornaf a amizade uma obsessão, permitir que o amor se torne controle, são também formas de mohah. A pessoa fica vulnerável. Onde não há vulnerabilidade, não há mohah. Ver as coisas objetivamente é ser capaz de neutralizar mohah.

Quando você começa a analisar o que você quer, a capacidade de perceber seus objetivos com clareza, é vencer mohah. Mohah é falta de clareza. Um dos remédios para mohah é o satsangam, a companhia de pessoas que não tenham esse tipo de confusão em si mesmas. É preciso ver as coisas com clareza, bem como manter uma certa firmeza, de maneira que não haja um excesso de aprêmios simultâneos. Isso chama-se nirmohatvam, a capacidade de viver sem confusões.

 

5) Curiosidade inoportuna (vivitsa)

Vivitsa pode ser traduzido como ‘desejo de conhecer’, mas, neste contexto, significa curiosidade inoportuna. O desejo de ler catálogos de bens de consumo, a vontade de provar comidas novas, a curiosidade em relação à vida dos demais, a valorização de coisas banais, ficar viciado em ver/ouvir/ler notícias, fazer correntes de emails, são formas de vivitsa.

Tem pessoas que tem uma espécie de compulsão por provar tipos de alimento diferentes. Depois do terceiro tipo de marisco, a pessoa se embrutece e come qualquer coisa. Eu já vi uma pessoa num círculo de brahmacharyas, que já tinham assumido o voto de castidade, se jogando sobre os classificados matrimoniais do jornal. Os brahmacharyas podem seguir no caminho do sannyasa ou voltar para a vida de casados. Vivitsa é quando um brahmacharya fica especulando, caso tenha feito a primeira opção, sobre como teria sido a vida dele, caso tivesse optado pela segunda. Que tipo de emprego ele teria, quanto ganharia, com quem teria casado, etc. Isso é vivitsa.

 

6) Crueldade, falta de compaixão (akripa)

Quando você vê alguém sofrendo, você tende a esquecer sua própria dor, para procurar ajudar àqueles que está precisando. Isso é empatia, e a empatia é algo totalmente natural. É algo que acontece quando você tem o coração aberto. Isso chama-se kripa, compaixão, piedade, graça. Akripa é fazer exatamente o contrário. É a incapacidade de se solidarizar com os demais. É ver somente seu próprio interesse. Num aspecto positivo, akripa pode ajudar a pessoa a sobreviver. No entanto, no seu aspecto negativo, akripa é totalmente destrutivo. É indiferença, insensibilidade, embrutecimento, crueldade gratuita.

 

7) Irritação (asuya)

Asuya é indignação, reclamação, lamúria, descontentamento, irritação. Asuya é estar chateado, frustrado com alguma coisa. Uma das formas de asuya é chatear-se com o sucesso, o mérito ou a felicidade dos demais. Asuya é o oposto de santosha, a capacidade de estar contente e em paz. Outras formas de asuya compreendem a inveja, os ciúmes e a calúnia.

 

8) Necessidade de se ter o respeito dos demais (manah)

Manah ou manitvam é a necessidade de se ter respeito da parte do outro. Quando a pessoa não tem respeito por si mesma, a demanda de respeito da parte dos demais aumenta muito. Isso pode provocar situações de muita dificuldade e sofrimento para a própria pessoa, e para os demais. A pessoa que tem respeito por si mesma não precisa do reconhecimento dos demais. Ela está satisfeita e plena por si mesma. Manah está centrado em ahamkara, no ego. É um problema do ego.

 

9) Tristeza (shokah)

Shokah é tristeza. A palavra duhkhah, pode ser dor física. No entanto, o corpo físico não pode sentir tristeza. Você não diz os meus joelhos estao tristes. Você pode sentir dor neles, mas não esta emoção. Shokah é esse sofrimento psíquico. Shokah, igualmente, está centrado no ego. Quando aquilo ao que você dá valor lhe falta, surge a tristeza. O ego fica desapontado, ferido, pois algo faltou, algo deixou de acontecer. O ego pode ficar ferido porque algo que buscava não aconteceu, ou porque algo que ele não desejava acabou acontecendo. ‘Eu não gosto deste mundo’. Porque? ‘Porque há muitas estrelas no céu’. Obviamente, isto é um exagero, mas é exatamente o que as pessoas fazem. Esa postura parte da idéia de que o mundo não é suficientemente bom para mim.

 

10) Apego excessivo (sprihah)

Sprihah é fantasiar, viajar na maionese. Pode ser apego excessivo, desejo interminável. Também assume algumas formas de ciúmes ou inveja, como a intolerância, ou a incapacidade de admirar algo bom feito por alguém. É preciso evitar relacionamentos viscosos, nos quais haja apego demais, possessividade, ciúmes demais, e onde o amor seja substituído pela necessidade de controlar o outro.

 

11) Intolerância (irshyah)

Irshyah é ciúme, intolerância, incapacidade de aceitar o sucesso dos demais. É preciso exercer dama, o auto-controle, quando este tipo de emoção se manifestar. Ser forte, ser capaz de dizer não a esse tipo de sentimento pode nos poupar muitos dissabores. É importante aceitar os outros do jeito que eles são e neutralizar a incapacidade de aceitar os defeitos dos demais. Aquele que não consegue aceitar os demais, tampouco conseguirá aceitar a si mesmo. Eu faço parte da ordem de Ishvara. Isto é fácil de aceitar.

 

12) Desaprovação (jugupsa)

Jugupsa é desgosto, desaprovação, censura. É a tendência ou a disposição para culpar, acusar, para desaprovar os demais. Também é a tendência a ficar aflito, a ser incomodado pelos demais, a ver a si mesmo como o centro do mundo.

Estas são coisas que podem ser evitadas com um pouco de objetividade. Compreendendo a ordem de Ishvara, vemos que existem muitos tipos de pessoas, com muitos tipos de talento. A glória de Ishvara pode ser apreciada em todos e em tudo o que está aí para ser visto. Todas estas 12 imperfeições podem ser evitadas por alguém que tenha conhecimento. Elas são as destruidoras da humanidade das pessoas.

* Satsang concedido por Pujya Swamiji no Ashram de Rishikesh, em 22 de março de 2007. Transcrito e traduzido por Pedro Kupfer. Quaisquer erros ou omissões, involuntários, devem ser creditados na conta kármica do transcritor/tradutor. Namastê!

2 respostas para “Neutralizando as 12 imperfeições do carácter”

  1. Obrigada por compartilhar conosco esses ensinamentos, Pedro. Tenho lido o Yoga.pro há meses. Indico o site no meu blog inclusive. Um abração.

  2. Oi!
    Só queria expressar o meu muito obrigado por este site de Yoga e Vedanta, em que toda a matéria descrita vai ser muito útil para mim. Saber gerir as imperfeições que existem em mim, vai ser fantastico. Como ser humano, uma delas é a raiva. Controlar a raiva vai ser o meu objectivo e não só. O conselho descrito, é base de tudo para onde devo canalizar a minha raiva, que mesmo se manifestando quando sinto que fui enganado, em que foi usada a mentira, eu de facto perco o controlo e a quente tomo uma reacção, a qual, mesmo que a razão esteja do meu lado, eu deveria ter aberto o coração e deixar entrar luz e esperar que essa luz ilumine também esse alguém que cometeu a falta comigo.
    O Controle da raiva, através de escrever vai ser fantástico para mim. Vou escrever e destruir o papel e essa tal de raiva.
    Muito obrigado e vou ler melhor sobre os Kalmashas, os 12 doshas ou imperfeições do caracter, para me ajuadar a viver melhor comigo.
    Um abraço
    Fernando

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