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O Agora Eterno e a Síndrome do Pânico

Não me lembro o ano exato em que tudo começou, pois como todo início, não dei muita bola para o que meu corpo me mostrava. Deixei o rio fluir e chegou um momento em que este transbordou

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Passado, presente e futuro se cruzam e se perdem em nuvens negras de medo e temporalidade. A Síndrome do Pânico é mais uma, das tantas, patologias modernas. Não importa que idade você tenha ou quão zen você seja, qualquer um de nós pode ser mais uma de suas vítimas.

Não me lembro o ano exato em que tudo começou, pois como todo início, não dei muita bola para o que meu corpo me mostrava. Deixei o rio fluir e chegou um momento em que este transbordou. Nesse transbordar vi toda minha vida rodar a minha volta e eu, no epicentro, incapaz de reagir. Passei um ano indo de médico em médico, e realizando todos os tipos de exames, sem que nenhum pudesse diagnosticar o que havia de errado comigo. Até que um neurologista resolveu me prescrever um remédio, de tarja preta, contra ansiedade. Não tomei. Isso não era o bastante para mim. Queria entender o que estava de errado e não apenas tampar o sol com a peneira.

Como acredito muito nas terapias integrativas ou alternativas, fui buscar auxílio na homeopatia. Fiz um tratamento de um ano e me senti relativamente melhor. Até que um dia, descobri que nada havia melhorado. Fui num show no estádio do Pacaembu (sim! Professor de Yoga também vai a show!) com uns amigos, e num determinado momento, eles se afastaram e eu fiquei sozinha. O desespero foi aos poucos pegando meu pé, depois minha perna, meu estômago e quando vi, ele se enrolara por todo meu corpo, como uma jibóia paralisando sua presa para o jantar.

Eu estava à mercê das minhas projeções. Estava totalmente identificada com meus sentimentos, com as sensações e projeções de um passado e de um futuro. O Agora não existia mais. No auge de meu desespero, me direcionei para a enfermaria, e fiquei lá, ao lado, só para o caso do pior acontecer. Pegava meu celular, e a cada um minuto, ligava para meu pai. Pedia socorro. Tinha a nítida certeza de que iria morrer. Não sabia exatamente do que ou como, mas sabia que iria morrer.

Sentia tontura, sentia fraqueza, sentia minhas mãos geladas e me visão fraquejava. Estava mais uma vez a mercê da Síndrome do Pânico. Não tinha controle nenhum sobre mim e estava distante do meu Ser, identificada com meu Ego e minhas fragilidades. Acreditava ser o medo, ser o corpo e ser a solidão. Quem já passou por isso, sabe como ficamos impotentes perante tudo. Como uma marionete. No meu caso, a crise só passava quando estava em companhia de alguém. Aquela falsa sensação de segurança que buscamos no outro. Mas que não é real. É impermanente. Depois desse dia decidi que não podia mais viver assim. Não queria ser mais uma marionete, queria ser Inteira. Completa de mim.

Voltei-me então para o tratamento ortomolecular e para a prática de yoga. Não me voltei para os ásanas, mas sim, para a prática de pránáyáma e meditação. Fiz de cada momento uma oportunidade de parar e me observar na ação. Se estava conversando com alguém, tentava realmente estar ali, ouvindo e sentindo a companhia da pessoa. Se estava assistindo televisão ou lendo um livro, mergulhava fundo e desligava as percepções do exterior. Respirava profundo. Na inspiração mentalizava: estou aqui. Na expiração mentalizava: está tudo bem. Eu não sou essas sensações de meu corpo, não há motivo para ter medo.

Todos nós vamos morrer um dia, e se hoje for esse dia, está tudo bem também. Não preciso temer. O passado não me importa, pois não posso modificá-lo. O futuro não me interessa, pois é incerto. A única coisa que me importa é este momento. Somente neste momento eu posso agir. Somente o Agora é eterno. O tempo é uma criação humana. Quando nos damos conta disso, paramos de correr contra o relógio, o que só aumenta a ansiedade, e passamos a nos entregar para a única verdade. O Agora eterno, atemporal.

Assim, eu abraçava e acolhia a minha fragilidade, aceitando-a por completo. Parei de me culpar ou me julgar por ser uma professora de yoga, e não ter controle sobre mim. Aceitei-me como um ser encarnado e, portanto, repleta de limitações e suscetível de erro. Aceitei a minha limitação, ao mesmo tempo, em que me distanciava dessas emoções negativas e do Ego. Concentrando-me somente no Agora.

Anos se passaram e minha prática ainda continua. Um passo de cada vez, firme e incerto, sem saber se voltarei a cair de novo. Mas estou tranqüila e feliz. Sei que o Ego é algo criado por nós, e sei também, que o Ser é a única realidade eterna. E que este é paz, amor, felicidade e saúde perfeita. Confio no Yoga e no que ele pode nos oferecer. Pois graças ao yoga e a minha família e amigos que encontrei a minha força interna, para lutar e reassumir o espaço, antes do Ego. O Yoga fortalece o nosso senso de integração entre mente-corpo-espírito, e retira, pouco a pouco, todos os véus que obscuram nossa visão do Ser. Meu coração se abriu para a realidade e poder de presença do Agora Eterno. E se por algum motivo eu me esqueço disso, tenho sempre em mente o seguinte mantra, Aham Prema (Eu sou Amor), respiro fundo e sinto que não existe nada além do momento presente. E nas sábias palavras do querido professor Hermógenes: Aceito. Confio. Entrego. Agradeço.

Espero que todos aqueles que lutam contra a Síndrome do Pânico possam se conectar com sua força interna e ver além das emoções sufocantes. Ir além. Gate Gate. Há muito no Presente de belo e todo o poder de cura se encontra dentro de nós. Não importa aonde você busque auxílio nesse momento de dificuldade, mas não deixe de lutar. Pois o poço tem mola, e quando a gente salta, o Ser brilha e preenche todo o espaço. Tornamos-nos plenitude e quebramos as amarras do Ego, abrindo os braços para saudar e brincar com a vida, onde tudo se torna plenitude, dentro e fora. Lembre-se que você não é suas projeções, é o Ser, a Consciência Divina. Tente se lembrar mais disso, ao invés de sempre se esquecer.

Om shanti Om prema!

Ana Paula é yogini e professora em São Paulo: [email protected].

8 respostas para “O Agora Eterno e a Síndrome do Pânico”

  1. Tenho sindrome do panico ha quatro anos, nao sei mais o que fazer pra livrar desse mal… Mas fiquei bem mais entusiasmada depois que li esse depoimento, é muito bom saber que temos capacidade de lutar contra nossas limitaçoes, e parabens por sua coragem e perseverança.

  2. Namastê, Ana! Sou yogin há 6 anos e esta experiência mudou radicalmente minha vida. Comecei a praticar o yoga justamente por causa do transtorno de pânico, e obtive ótimos resultados a longo prazo. Acho que a indução ao estado meditativo que ássanas e planayamas promovem é fundamental na obtenção do equilíbrio total (físico e mental) que faz o pânico desaparecer. Hoje tenho eventos esporádicos e perfeitamente controláveis com uma simples respiração diafragmática. Tudo isso graças ao yoga, onde também encontrei uma filosofia de vida a seguir. Cursos que fiz com Pedro Kupfer e Luciana Jatobá fizeram-me ver que o yoga transcende em muito o plano físico, sendo um caminho maravilhoso para se conseguir um estado de iluminação e felicidade. Desejo-lhe toda sorte do mundo, e parabéns pelo artigo.
    Ôm Shanti!

  3. Ana, que a paz esteja sempre contigo e que Deus lhe de o equilíbrio necessário em sua caminhada. Muitas vezes a vida nos mostra o quanto temos que correr atraz de nossos objetivos, e se acomodarmos, ela nos envia ferramentas para que venhamos a caminhar e caminhar no sentido de um todo.
    Em uma ansiedade generalizada, buscamos apoi e batemos em diversidades de portas, nas quais algumas se fecham por não estarem ainda preparadas para compreender, porem outras generosamente, não só abrem,como nos abrigam de maneira acolhedora ensinando-nos a alçar novamente o vôo livre, esta é de de fato a misericórdia de Deus!
    Encontrei uma grande paz e compreensão da vida , nos ensinos de Kardec, sou de pouco comhecimento e estudo, mas percebo que o YOGA, pode ser fundamental para o equilíbrio humano. Um abraço! Rony.

  4. Oi Ana, li seu depoimento e me identifiquei muito contigo… Faço Yoga há poucos meses e sempre fui uma pessoa extremamente calma e equilibrada, a alguns anos sofro com a sindrome do panico e não aceito ter que passar por essa situação, aos poucos consigo me libertar das crises. Eu não procuro não falar disso com ninguém pois muitos dizem que é frescura para chamar atenção, etc. E ao ver depoimentos como o seu me fazem acreditar cada vez mais que somos capazes de solucionar nossos próprios problemas e medos. Um beijo!!!

  5. Namastê!Também como tu sou professora de Yoga e também como tu tenho sindrome do pânico desde muito cedo,7 anos, fui vivendo com crises fortes aos 30 e aos 40, mas tudo mudou quando entendi que o papel da fortaleza tinha de ceder algum espaço á fragilidade, eu também era vunerável e frágil,aceitação díficil mas um dia de cada vez! Depois percebi bem no centro de mim que eu não era “aquilo” eu era “Paz” aquilo acontecia assim e eu obsevava… eu sinto quando estou frágil e abrando ,muitas vezes as sensações fazem-se presentes e eu continuo dando a aula,embora não seja fácil… quando me retira toda a energia simplesmente digo estou em crise e não posso! Volto-me para dentro e afirmo “eu sou Paz”. Somos muitos ,mas esta doença tem subjacente uma proposta, convém que cada um de nós vá percebendo qual é. Muito obrigada pela sua partilha. Agardeço aqui ao meu querido amigo Pedro Kupfer, foi com ele que o meu SER foi ficando mais visivel para mim. Serei eternamente grata.

  6. Aninha, Fico emocionado ao ler este relato e perceber o quanto somos e estamos susceptíveis a tantos pensamentos e ilusões de nosso ego. É incrível como deixamos facilmente a desatenção tomar conta do Agora. Uma das minhas maiores práticas, ao longo de alguns anos de dedicação no CaminhO (se é q existe busca), tem sido a observação acerca do questionamento sobre Quem está por trás de Tudo Isto? Sobre Quem está Presente Comigo neste momento, que me faz mover em direção ao momento seguinte? É uma benção. Embora pouco conheça sobre esta situação que veio para compartilhar, inspiro e desejo momentos de reflexão para investigar dentro na observação da sensação e de qualquer sentimento que venha a surgir. Na impermanência dos desejos materiais que surgem e desaparecem, assim como qualquer outra sensação em nossos corpos, perceba que a mente vê e personaliza tudo sem ter uma conexão com a existência real que é presente. Mas enfim, agradeço pela humildade e abertura do ser para evoluir e inspirar o auto-aperfeiçoamento nesta jornada. Jaya.

  7. Oi Ana! É interessante você estar expondo este lado “humano” do instrutor de yoga, seus erros e acertos, suas paixões, etc. Não raramente observamos a tendência a se criar um ar místico ao redor do instrutor de yoga, aquela auréola de ser iluminado que transcendeu a influência das gunas do karma e de kala. A honestidade de se colocar como um ser humano que está num processo de auto realização e que ainda está sujeito a influência das inúmeras energias que afetam a jiva neste mundo é sem dúvida um grande passo para realmente avançarmos rumo a realidade suprema. Meus respeitos e tudo de bom para vc. Guilherme.

  8. “O Yoga fortalece o nosso senso de integração entre mente-corpo-espírito, e retira, pouco a pouco, todos os véus que obscuram nossa visão do Ser.” Excelente frase, essa visão, onírica de mundo é talvez um dos mais fortes pricípios rumo ao samanthi, no entanto o samanthi é justo o fato que embora indivíduo no encontremos como parte do todo e alcancemos esta plena sintonia. Namastê!

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