Pratique, Yoga na Vida

O presente, um presente

O caminho do Yoga é o de uma evolução marcadamente individual. Só cada um sabe a medida em que vai evoluindo. Só ele sabe os reais resultados da sua prática. Eis, para mim, um dos fascínios do Yoga

Escrito por Miguel Homem · 3 mins de leitura >

O caminho do Yoga é o de uma evolução marcadamente individual. Só cada um sabe a medida em que vai evoluindo. Só ele sabe os reais resultados da sua prática. Eis, para mim, um dos fascínios do Yoga. Ninguém pode realmente acompanhar a nossa evolução. É certo que podemos ser observados do ponto de vista da execução externa de algumas técnicas, mas não o podemos ser do ponto de vista interno.

Isto faz com que, dependendo das nossas características natas e inatas, aquilo que é dito desde a primeira aula possa ser compreendido, interiorizado e assimilado logo nesse momento, ou muito mais tarde. Às vezes não assimilamos porque as nossas ideias pré-concebidas nos impedem, outras vezes porque criamos expectativas, outras ainda porque as palavras que ouvimos não correspondem às que naquele momento proporcionariam a assimilação do conhecimento.

Assim foi comigo em relação à vivência da prática, particularmente do ásana. Quando comecei a praticar tinha uma imensa dificuldade em manter a concentração e em conseguir executar as posições como o ego desejava. Tinha pouca flexibilidade e alongamento. Com o tempo fui melhorando, não só na posição física propriamente dita, mas também na observação da respiração e da concentração. A verdade é que nunca estamos satisfeitos.

O Ser nunca se satisfaz com objectos externos, porque o Ser é infinito e a realidade exterior proporciona-nos gozos finitos. O corpo físico como realidade externa àquilo que realmente somos ? a centelha do absoluto que habita em cada um de nós ? não pode deixar de nos proporcionar gozos limitados. E assim é com a busca de perfeição no ásana quando é perseguida sem esta consciência. Esquecemos o presente, não o vivemos porque a atenção está no futuro, no que almejamos vir a realizar, no que imaginamos. Perdemos o momento e perdemos o Yoga. E, como já dizia a Katha Upanishad, ‘deve-se estar atento, pois o Yoga vem e vai’.

Um dia surge um imprevisto na forma de doença, dor, lesão ou outro que nos impede de continuar o ritmo da caminhada rumo à miragem. Primeiro surge a não aceitação do presente. Recusamo-nos a aceitar o obstáculo, porque tudo o que nos importa é encontrar a forma de o superar. Até que compreendemos que aquela limitação nos vai acompanhar, pelo menos, por algum tempo. Depois surge o desespero e a frustração. O desespero de não conseguir fazer o que se fazia, de não progredir naquela caminhada para a miragem e a frustração constante de não conseguir aceitar o presente.

A verdade é que não é a limitação do corpo que o Ser habita que nos traz o sentimento de frustração e infelicidade. Entregarmo-nos a esses sentimentos é uma escolha nossa. Pode não ser consciente, mas mais uma das reações mecânicas que assaltam o ser humano constantemente. A verdade é que temos sempre a possibilidade de escolher outra atitude: a aceitação do presente (kshanti). Li algures que o presente é sempre o momento cósmicamente perfeito. A perfeição do momento pode não ser compreendida imediatamente, mas está lá à espera de ser descoberta se assim o quisermos, se nos permitirmos, se nos entregarmos à vivência do momento presente sem julgamento, sem critica e sem culpa.

Tão logo o compreendi passei a encontrar na minha limitação uma forma de ensinamento, e no meu joelho, um mestre. Um mestre que me obrigou à prática do ásana com ahimsá (não violência) e com satya (verdade). E por isso, quando voltei a ouvir que na prática o importante é exercer a acção plena, que no Yoga ‘a única regra é permanecer consciente o tempo todo de cada acto e momento’, como ensina Pedro Kupfer, entendi o verdadeiro significado do estado de consciência testemunha ? sakshi. Percebi que exercer essa consciência testemunha significava, como afirma Pedro, ‘despreender-se e desidentificar-se das próprias vivências, sejam positivas ou negativas’.

Interiorizei que o cerne da prática do ásana era, de facto, a vivência consciente do presente, pouco importando até onde vai a cabeça, a mão ou o pé. Já o sabia, já o havia compreendido, mas só naquele momento o assimilei e interiorizei. E fi-lo porque já não tinha os pré-conceitos, porque naquele momento ouvi as palavras certas ? obrigado Pedro! ? e na minha limitação encontrei o verdadeiro oásis e não a miragem. Mas ‘o Yoga vem e vai’, pelo que há que recordar diariamente a atenção dirigida ao presente e procurar não esquecer de viver o presente, como um presente…


Miguel é português, leciona Yoga na cidade do Porto, Portugal, e participou do Curso Livre de Formação em Yoga com Pedro em Florianópolis, em maio de 2005. O email dele é [email protected]

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3 respostas para “O presente, um presente”

  1. Olá, Rita, namaste! Acabei de inserir essa informação do endereço eletrônico do Miguel, que é [email protected], no rodapé desse e de outro artigo dele publicado aqui no yoga.pro.br.

  2. Gostaria do endereço do local onde o Miguel dá aulas, ou o e-mail dele para que eu possa perguntar, pois tenho uma amiga que acabou de se mudar para o Porto, e gostaria de praticar Yoga.

    Obrigada.

  3. Parabéns pelo texto, caro amigo Miguel. Continue sempre assim, vivendo o Yoga, vivendo o Dharma. Harih OM!

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