Meditação, Pratique

O que é Meditação?

Meditação é algo que a maioria das pessoas já ouviu falar, poucas têm uma ideia realista do que seja e menos pessoas ainda a experimentaram de verdade. Semelhante a outras experiências subjetivas, a meditação não pode ser expressa em palavras. O leitor deve encontrá-la por si mesmo para saber o que a meditação é. A experiência é real e embora uma descrição seja uma não-experiência, particularmente no caso da meditação, farei o melhor possível para lançar alguma luz sobre o assunto.

Escrito por Swami Satyananda Saraswati · 9 mins de leitura >

Meditação é algo que a maioria das pessoas já ouviu falar, poucas têm uma ideia realista do que seja e menos pessoas ainda a experimentaram de verdade. Semelhante a outras experiências subjetivas, a meditação não pode ser expressa em palavras. O leitor deve encontrá-la por si mesmo para saber o que a meditação é. A experiência é real e embora uma descrição seja uma não-experiência, particularmente no caso da meditação, farei o melhor possível para lançar alguma luz sobre o assunto.

Vamos começar definindo o modo como a psicologia moderna define o que compõe a mente. O subconsciente ou mente inconsciente pode ser basicamente dividido em três partes: a mente inferior, a mente média e a mente elevada. A mente inferior é responsável pela ativação e coordenação das várias atividades do corpo como a respiração, a circulação e órgãos abdominais. Também é a área da mente onde as atividades instintivas nascem e é nesta parte da mente que complexos, fobias, medos e obsessões se manifestam.

A mente média é a parte da mente que se ocupa com as informações que usamos durante o estado desperto, analisando, comparando e chegando a conclusões sobre as informações que recebemos. Quando requisitado, o resultado da atividade da mente média se manifesta em nossa atenção consciente.

É esta parte da mente que nos dá respostas quando nos deparamos com problemas para os quais não temos uma solução no momento e somente mais tarde percebemos que uma resposta aflora na atividade consciente. Foi a mente subconsciente média que solucionou o problema sem que o percebêssemos, sendo este é o domínio do pensamento racional ou intelectual.

A mente elevada é a área da atividade superconsciente, sendo a fonte da intuição, inspiração, brilho e experiências transcendentais. É desta região que os gênios tiram seus vislumbres de criatividade e é a fonte do conhecimento profundo.

No período em que estamos despertos temos consciência somente de alguns fenômenos. Somos conscientes somente de uma pequena parte das atividades da mente, normalmente na região da mente média, e é esta consciência que torna possível a você, leitor, ler estas palavras e entender o seu significado.

Outra parte da mente é o inconsciente coletivo, que Carl Jung tanto trabalhou para conseguir a aceitação científica. É nesta parte da mente que temos os registros de nosso passado evolucionário. Nela estão contidos os registros das atividades de nossos ancestrais e os arquétipos. O inconsciente coletivo também nos conecta com todos os demais seres humanos, pois é a planta baixa de nosso passado em comum.

Por trás dessas diferentes partes da mente está o Eu ou o núcleo central da existência. É o Eu que ilumina tudo o que fazemos, embora não estejamos cientes disto. A maioria de nós assume que o centro de nosso ser é o ego, embora o ego seja apenas mais uma função da mente. É o Eu que ilumina o ego.

O que acontece quando meditamos? Quando meditamos estamos aptos a levar nossa consciência para partes diferentes da mente. Normalmente, como explicado anteriormente, nossa consciência está confinada a atividades superficiais em pequenas áreas da mente média ou subconsciente racional. Durante a meditação, somos capazes de nos distanciarmos da intelectualização.

Uma experiência comum para a maioria dos iniciantes em meditação é a de presenciar aparições grotescas ou tornar-se consciente de complexos profundamente enraizados, cuja existência desconheciam. Percebem que possuem medos que não sabiam que existiam. O motivo para isso é que a consciência está funcionando na região da mente inferior e está iluminando complexos, medos, etc, antes não percebidos.

Anteriormente, a pessoa somente percebia a manifestação destes medos na forma de raiva, ódio, depressão, etc. Uma vez que estes complexos profundos sejam confrontados, eles podem ser removidos e grande felicidade pode ser adicionada na vida da pessoa. Muitas pessoas também se tornam conscientes dos processos internos de seu corpo durante a meditação, porque a consciência lançou luz sobre as atividades que controlam as funções corporais.

Estágios elevados de meditação são difíceis de alcançar se não removermos a maior parte dos medos compulsivos que estão na mente inferior porque estes complexos são tão compulsivos que parecem atrair automaticamente a atenção para si e, mesmo existindo outros locais para onde a consciência possa se deslocar, ela é atraída para as atividades da mente inferior, assim como o ferro o é por um imã, parecendo extrair um deleite perverso ao permanecer sobre nossos medos, fobias e ansiedades.

Em estados elevados de meditação a consciência se move para a mente elevada ou região da superconsciência. A consciência se eleva acima do pensamento racional e vemos atividades que parecem estar próximas da realidade, entrando nas dimensões da inspiração e iluminação, explorando verdades profundas, adentrando em novas esferas da existência que até então pareciam ser impossíveis ou pareciam ser apenas construções da imaginação.

O auge da meditação é a auto-realização, que acontece quando até mesmo a mente elevada é transcendida. A consciência deixa a exploração da mente e se identifica com o núcleo central da própria existência, o Eu. Neste ponto a consciência se torna pura. Quando uma pessoa alcança a auto-realização significa que ela fez contato com o seu Ser central e agora identifica sua existência do ponto de vista do Ser e não do ego.

As ações do centro de seu Ser, corpo e mente operam quase como entidades separadas. A mente e o corpo deixam de ser o eu real, sendo apenas manifestações do Eu, sua verdadeira identidade. A meta da meditação é explorar as diferentes regiões da mente para, eventualmente, transcender a mente completamente.

Meditação Ativa e Meditação Passiva

Existem dois tipos de meditação: a meditação ativa e a meditação passiva. A meditação ativa ocorre enquanto executamos as atividades diárias: andar, falar, nos alimentar e assim por diante. Este é o objetivo do Yoga, ou seja, permitir que meditemos enquanto estamos envolvidos com as atividades do dia-a-dia, o que não significa que as atividades não serão feitas, ou feitas sem entusiasmo. Na verdade, as atividades externas serão realizadas com mais eficiência e energia. A meditação ativa pode ser desenvolvida executando-se as práticas de meditação passiva deste livro, desenvolvendo a auto-identidade e executando as técnicas de karma e bhakti yoga.

A meditação passiva é o objetivo, a meta, ao sentarmos em uma das posições de meditação demonstradas neste livro e executarmos uma prática de meditação. O objetivo da meditação passiva é acalmar a mente, que nunca descansa e está sempre vagueando, e fazê-la unidirecionada, de modo que experiências meditacionais possam acontecer automaticamente. De modo geral, a meditação pode ser dividida em quatro estágios de proficiência:

1. Fixar a mente em uma prática de meditação, um objeto, um som, a própria respiração, uma imagem e assim por diante, o que acalma a mente e a torna introvertida.

2. O sucesso no estágio 1 acima conduz ao livre fluxo de pensamentos, complexos, visões, memórias, etc, oriundos da região da mente inconsciente, o que permite conhecer a personalidade e a mente inferior e remover conteúdos indesejáveis.

3. Quando a mente inferior for completamente explorada tem início a exploração dos domínios da mente elevada. Neste ponto a meditação real tem início. Recursos ilimitados de conhecimento e energia internos que estão disponíveis a todos começam a se manifestar espontaneamente. Também é possível nos sintonizarmos internamente com o Cosmos e tudo o mais a nossa volta.

4. Eventualmente, quando até a mente é transcendida, aquele que está meditando se une com a Suprema Consciência e o objetivo da auto-realização é alcançado.

O sucesso na meditação passiva automaticamente conduz para a meditação ativa, pois quanto mais profundamente mergulhamos na mente durante a meditação passiva, mais teremos condições de viver em um estado contínuo de meditação, mesmo enquanto executamos nossas tarefas diárias.

Quanto mais profundamente mergulhamos na mente durante a meditação passiva, mais potente nos expressaremos na forma de atividades externas. Na medida em que exploramos a mente ela se torna mais poderosa e a vida, o trabalho, as atividades, etc, também se tornam mais poderosos e ficamos aptos a realizar coisas que antes pareciam impossíveis.

A meditação passiva se torna desnecessária quando a auto-realização é alcançada. O indivíduo auto-realizado vive totalmente de acordo com seus valores espirituais internos mais profundos e continua sendo capaz de se expressar no mundo exterior. Uma pessoa auto-realizada é capaz de viver uma vida espiritual e material sem conflito. No estado de auto-realização há uma experiência contínua e espontânea de meditação ativa.

O ser humano tende a se identificar completamente com os objetos da percepção. Por exemplo, ao presenciarmos um lindo pôr-do-sol, toda a nossa atenção é envolvida por ele, de tal forma que esquecemos completamente de nossa identidade. Esquecemos o fato de que estamos vivenciando a experiência daquele espetáculo. Então como podemos vivenciar de verdade o prazer de observar o pôr-do-sol?

O indivíduo, o sujeito, aquele que tem a experiência, esqueceu sua natureza, pois ela foi ocultada pelo objeto da percepção, o pôr-do-sol. A consciência se identificou com o objeto excluindo o sujeito. O leitor deve pensar sobre isto enquanto lê estas palavras. Você está consciente do fato que está vivendo a experiência de ler estas palavras ou está se identificando completamente com elas?

A situação ideal é aquela em que o pôr-do-sol ou qualquer outro objeto tenha sua experiência vivenciada ao mesmo tempo em que a consciência de nós mesmos não seja perdida. Devemos vivenciar a experiência objetiva do observador, fortalecendo assim a percepção espiritual da experiência.

Deste modo, o Eu ou alma percebe conscientemente a experiência do objeto e o Eu pode brilhar em resposta a experiência objetiva do mundo exterior. Antes, a natureza do Eu estava eclipsada pela experiência do objeto e agora o Eu pode brilhar com toda a sua glória prístina.

Esta experiência objetiva do observador deve ser aplicada em toda a nossa existência material. Temos que viver a experiência dos fenômenos externos pois isto é uma parte da vida, mas devemos complementar nossa vida exterior com a vida interior. Assim seremos capazes de aproveitar a existência material de forma mais completa. Neste exato momento, a maioria de nós vive uma vida quase totalmente extrovertida devido à ignorância.

Não percebemos o oceano de inspiração que existe nas profundezas do interior de nosso ser. Um dos objetivos da meditação é desviar, mesmo que por pouco tempo, nossa consciência dos motivos externos e direcioná-la para dentro, tentando vislumbrar a vida interior e perceber sua conexão com a vida exterior.

Esta conexão sempre está presente, embora não estejamos cientes dela. A meditação nos faz ver esta conexão, trazendo a felicidade espiritual e a paz, tornando-nos cientes da importância vital da experiência subjetiva, o nosso interior, a natureza essencial que é nossa herança.

A meditação é um legado de todos e todos podem e são capazes de experimentá-la espontaneamente, ainda que o modo que vivamos não o permita. Estamos constantemente em um estado de tensão porque não conhecemos a nós mesmos, a nossa natureza interior. Constantemente estamos tentando fazer coisas porque sentimos que devemos fazê-las, mesmo que sejam contrárias a nossa natureza.

Existe um conflito contínuo entre o que somos e o que queremos. Somos sempre motivados a nos tornarmos algo ao invés de apenas sermos. Se conseguíssemos perceber a unidade entre o que somos e o que queremos, então a meditação aconteceria espontaneamente.

O conhecimento que a maioria de nós experimenta é em forma de conhecimento intelectual, que é derivado da parte racional de nossa mente. Na realidade, este é uma forma de conhecimento relativo. Não é um conhecimento real, pois consiste de um campo limitado de fatos e figuras a partir dos quais deduzimos teorias, conceitos e nossa relação com o ambiente.

Esta é a forma do raciocínio científico, tecnológico, filosófico, etc, o qual deriva da parte racional da mente. A falácia é que as pressuposições originais são fundamentalmente adequadas em si mesmas. Percebemos que este tipo de conhecimento é constantemente provado como sendo falso quando nova luz é lançada sobre o assunto. Peguemos um exemplo da ciência. Newton expôs a teoria da gravidade que foi aceita com sendo absolutamente verdadeira.

Entretanto, alguns séculos após, Eisntein mostrou em sua teoria que a gravidade não existe da forma como Newton postulou. É claro que isto não se aplica somente a ciência, mas a cada ato intelectual que executamos. Qualquer conclusão a que cheguemos através da mente racional pode ser superada sob a luz de nova informação.

Também podemos experimentar o conhecimento na forma de sentimento ou emoção. Podemos sentir mentalmente a verdade de uma ideia e, ao mesmo tempo, sentir emocionalmente que algo é verdadeiro. Muitas pessoas confundem este tipo de conhecimento com o conhecimento intuitivo.

Além do conhecimento emocional e intelectual existe outro tipo de conhecimento, que é adquirido em estados de meditação e é uma forma mais real de conhecimento. Este é o conhecimento intuitivo, que abrange a totalidade da situação. A intuição apreende diretamente o todo, a totalidade, bem diferente do conhecimento racional que tenta construir um quadro completo do todo usando as partes.

O conhecimento intuitivo vem da parte superconsciente da mente, da qual estamos normalmente desatentos. Este tipo de conhecimento não depende nem do intelecto e nem das emoções, que tendem a colorir ou envolver a forma real do conhecimento. A meditação não depende de projeção pessoal e se isto acontecer, não é meditação.

Durante a meditação uma ligação é feita entre as regiões elevadas da mente (relacionadas a assim chamada expansão da consciência ou parte superconsciente da mente) e a assim denominada consciência desperta. Esta ligação permite que vibrações mentais elevadas sejam percebidas pela consciência desperta da pessoa que estiver meditando.

Estas vibrações sutis elevadas existem o tempo todo, ainda que não sejam percebidas. Algumas vezes, elas são percebidas em raras ocasiões na forma de um “estalo” intuitivo, inspiração, iluminação criativa, etc. Normalmente não percebemos estas vibrações, verdades e conhecimentos elevados devido ao estado predominantemente impuro e complexo de nossa mente.

Estas formas elevadas de conhecimento, as vibrações elevadas, mostram as causas subjacentes e verdades por traz das manifestações que vivenciamos em nossas atividades diárias, e os aspectos profundos da vida se revelam durante a meditação.


Traduzido por Rogério Maniezi do livro Meditations from the Tantras, capítulo 1 What is Meditation? de autoria de Swami Satyananda Saraswati, editora Yoga Publications Trust. Munger, Índia.

Você sabe parar?

Swami Satyananda Saraswati em Pratique, Yoga na Vida
  ·   4 mins de leitura

6 respostas para “O que é Meditação?”

  1. Obrigado por compartilhar o material. Conheci a meditação através do aplicativo HeadSpace, foi o primeiro contato.
    Agora estou lendo o livro “Felicidade Genuína – Meditaçao como o caminho para a Realização” de B.Alan Wallace com prefácio de Dalai Lama e apresentação de Lama Padma Samten.
    Namaste!

  2. Maravilhosa a escolha desse texto tão importante e explicativo sobre a meditação. Com certeza é uma prática que tem mudado completamente meu ser e minha vida.

  3. Obrigada pela tradução e compartilhamento destas informações conosco. Na psicologia analítica (fundada por Carl Jung) o processo de fusão da consciência com o inconsciente chama-se “Individuação”. Maravilhoso perceber a semelhança deste processo com o objetivo da meditação.

  4. Ótimo texto! Estou lendo o “Tao da Física” e os assuntos do livro permeiam com o desse texto. Obrigado por disponibilizá-lo!

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