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O recheio das batatas e o futuro da Humanidade

Ontem fui a um churrasco. Aniversário de uma amiga. Não haveria nada demais nisso, se eu não fosse vegetariano. Escrevo só para dar resposta à pergunta que sempre me fazem nessas ocasiões

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Ontem fui a um churrasco. Aniversário de uma amiga. Não haveria nada demais nisso, se eu não fosse vegetariano. Fui – até ajudei a preparar a carne – mas obviamente não comi. Meu almoço foram as batatas recheadas que prudentemente costumo levar para assar na churrasqueira. Bom, mas até aí isso só valeria um texto se fosse para dar a receita. Escrevo é para dar resposta à pergunta que sempre me fazem nessas ocasiões. Procuro evitar responder na hora para não passar por estraga-prazeres, falando mal de algo de que estão todos justamente reunidos para desfrutar. Mas agora fico à vontade.

A pergunta que sempre se repete é ‘Mas por que você não como carne?’. E a resposta que evito dar é que essa pergunta está errada e eu sim deveria perguntar ‘Mas por que você come carne?’. Porque a pergunta da forma que me fazem tem implícito o pressuposto de que eu estaria fazendo algum esforço para me privar de algo ‘normal’, que eu me daria o trabalho de evitar um caminho mais fácil; quando na verdade acontece justamente o contrário.

Comendo carne é que se contraria o natural, se rema contra a correnteza. Sempre que fiz a réplica que sugeri acima, a resposta que tive foi ‘Eu como carne porque gosto’. É o que você me responderia também, não é? Acontece que isso não é verdade. Ninguém, absolutamente ninguém, gosta de carne. Eu sou gaúcho, fui criado no meio do povo que talvez mais consuma carne bovina no mundo, onde o churrasco de domingo é praticamente um ritual, um elemento cultural básico e firmemente enraizado, onde se aprende a assar uma picanha com perfeição desde criança, mas mesmo lá nunca conheci ninguém que gostasse de carne.

De todos os seres vivos que consomem a carne de seres mortos, o homem é o único que faz isso a contragosto. Só o homem precisa disfarçar a carne que ingere. Precisa maquiá-la, mascará-la, alterar sua aparência, cheiro, textura e sabor para poder comê-la. Um tigre abate uma presa e simplesmente rasga sua pele e abocanha sua carne. Uma cobra não precisa mais que abrir sua mandíbula para engolir um rato e se alimentar dele. Também é assim com os tubarões, os ursos, leões, moréias, águias, hienas, lobos, gatos, sapos, lagartixas… O homem é o único necrófago incapaz disso. Por isso afirmo que ninguém gosta de carne. Sim, existe quem goste de bife, churrasco, picadinho, estrogonofe, galeto, moqueca, almôndega, peixada, fricassê, salsicha, hambúrguer ou qualquer outra das formas de foram inventadas para disfarçá-la; mas carne, carne mesmo, in natura, é intragável para qualquer um, seja ela de que bicho for. Se um homem se encontrar num bote à deriva em alto-mar sem nada além de 20 quilos de contrafilé ao molho madeira, vai tranquilamente viver disso durante alguns dias, até ser encontrado. Se esse mesmo homem estiver no bote com um boi morto (o mesmo boi de onde foi extraída a carne da hipótese anterior), muito provavelmente morra de fome. Primeiro se passariam dias onde a repulsa e o nojo de cravar os dentes naquele cadáver o impediriam de comer. Depois, quando a fome e o medo de morrer dela fossem maiores do que o asco, ele dificilmente conseguiria se alimentar daquela carne, pois a natureza não lhe deu ferramentas para isso ? suas unhas e dentes não seriam capazes nem de rasgar o couro.

Não, não adianta ficar aí pensando: não há exceções. Sashimi? Aquele show de destreza com as facas afiadíssimas disfarça a forma do peixe e poucos o apreciam sem fortes temperos para alterar o cheiro e o sabor. Qualquer samurai sentiria ânsias se tivesse que rasgar as escamas de um belo salmão com os dedos e cravar os dentes naquilo que com poucos truques culinários se transforma num apetitoso quitute. Carpaccio? Idem. Talvez ostras? Não, mesmo animais desse tipo, com um sistema nervoso rudimentar demais para sentir dor e incapazes até de fugir ou dar qualquer demonstração de que preferiam, por obséquio, continuar vivos, poucos aceitam sem azeite, sal e um limãozinho providenciais.

Ou seja, o diferente, o estranho, o antinatural é as pessoas se darem ao enorme trabalho de transformar algo pelo que sentem repulsa em algo comestível. Ao contrário dos vegetais que qualquer um de nós com prazer simplesmente arranca da árvore e leva à boca, sem antes alterar o aspecto dos cadáveres dos animais através de pelo menos uma ou duas das três técnicas possíveis (corte, moagem ou demais alterações no aspecto visual; temperos e especiarias para alterar o cheiro e o sabor; e cozimento, fritura ou as outras modificações na textura e, novamente, no aroma e paladar através do calor), ninguém os encara. Por que será?

Porque algo nos ‘avisa’ que não devemos comê-los: o nojo. O nojo é um dos instintos humanos mais fundamentais à preservação da espécie. Tão fundamental quanto o medo. Aliás, é possível dizer que o nojo é o medo de ficar doente. Se o medo é o instinto que nos avisa que corremos perigo de nos ferir se não evitarmos determinada situação, o nojo nos alerta de que poderemos adoecer se não nos afastarmos de algo. O nojo é o ‘medo’ do que não podemos enxergar, é o ‘medo’ de microorganismos e substâncias que podem nos fazer mal. Temos nojo de insetos que podem carregar vírus e bactérias nocivas, de animais potencialmente venenosos como sapos e cobras, de água estagnada ou locais contaminados por micróbios e de coisas que nos farão mal se ingerirmos.

É desnecessário dizer o quanto o corpo é sábio em demonstrar através do nojo ‘temer’ ingerir pedaços de animais mortos, não é? Não há quem não esteja cansado de ler sobre os riscos da gordura animal, do colesterol, dos vermes e parasitas da carne, dos problemas que podem decorrer de se comer acidentalmente carne em estado de decomposição mais avançado (sim, mais avançado, porque em decomposição toda carne está desde que o animal é morto) e etc. Também não vale a pena esmiuçar os aspectos mais, digamos, filosóficos do assunto, que envolvem o direito ou não que temos de matar outros seres vivos. Praticamente todas as religiões já o fazem restringindo totalmente a carne ou a permitindo apenas após passar por rituais de purificação, como, por exemplo, nos casos do judaísmo e islamismo. Das grandes religiões, apenas as cristãs com o tempo foram afrouxando suas regras e hoje toleram quase sem restrições a ingestão de carne. Da mesma forma, sobre a questão ambiental que envolve a abstinência de carne é fácil se informar por aí e não vale a pena falar demais. Basta lembrar que as extensas áreas de pasto ou de plantação de ração que a pecuária exige são a maior causa de desmatamento no Brasil e no mundo, além do ridículo do metano expelido pelo gado (sim, o peido dos bois) ser a causa de cerca de um quinto da redução da camada de ozônio.

Portanto, o ponto que considero mais importante é perceber que insistir em comer carne apesar dos alertas do nosso corpo e ter todo o trabalho de disfarçar esse alimento para enganar esse instinto é que deveria ser questionado e visto como algo diferente, estranho ou curioso.

Então é a minha vez de questionar. Por que a maioria das pessoas come carne apesar do que o seu corpo pede?

Houve um homem que sabia que comer carne é algo que faz mal para o corpo e o espírito, mas ainda assim, quando lhe ofereciam, não recusava. Ele ficou conhecido como o Buddha (Iluminado) e hoje é venerado como um Deus por milhões. O Buddha aceitava o alimento que sabia que lhe faria mal, por desapego. Ele vivia das esmolas que lhe davam e não se sentia no direito de pensar antes no seu bem-estar do que na gratidão aos que lhe ofereciam o que podiam. Talvez por coincidência (ou não), a história diz que ele morreu em decorrência de uma infecção alimentar ao comer carne de porco; mas não é isso que importa aqui. O ponto é que obviamente não é por possuírem a extrema generosidade de um iluminado que as pessoas comem carne. As pessoas a comem porque na história da evolução da espécie humana houve um tempo em que isso foi necessário. Aliás, todo o imenso acervo de técnicas culinárias para transformar a carne em algo comestível talvez seja o mais impressionante exemplo da capacidade adaptativa da espécie humana. O homem domina o globo porque não se deixa levar totalmente por seus instintos. Continuando no exemplo anterior, quando o homem sente medo, ele não reage apenas instintivamente como os demais animais. O instinto, no primeiro momento, lhe deixa alerta, mas depois ele traz à tona a razão, analisa a situação e procura uma forma de resolvê-la. Caso contrário não teria conquistado os lugares mais inacessíveis do planeta, construído navios e aviões e pisado até na lua. O mesmo se deu com o nojo da carne. Sem vencê-lo, teria sido impossível sobreviver a glaciações sem a proteína e a gordura animal ou viver em regiões onde o clima ou a topografia não permite produzir alimentos vegetais suficientemente. Ou seja, entre se adaptar a um alimento que com o tempo pode vir a fazer mal e passar fome, o ser humano escolheu a alternativa mais lógica. E é por esse hábito, adquirido há milênios e passado de geração a geração, que as pessoas comem carne hoje.

Mas acontece que essa necessidade não existe mais. Nós continuamos evoluindo e agora aprendemos a nos alimentar sem precisar desse recurso extremo. Já sabemos produzir alimentos vegetais em quantidade suficiente para todos e temos todo o conhecimento científico para equilibrar a dieta de forma que os poucos nutrientes que antigamente só tínhamos aprendido a obter pela carne sejam tranquilamente supridos. Em resumo, deixar de comer carne é uma questão de evolução, é mais um passo que devemos e vamos dar no nosso caminho. Os corpos de todos os animais que matamos para nos alimentar já cumpriram seu papel; devemos ser gratos a eles, mas agora podemos nos livrar dessa muleta e seguir com nossos próprios pés.

Ah, caso alguém tenha se interessado, a receita das batatas é simples. Escolha de preferência batatas grandes. Cozinhe durante uns 20 minutos em água com sal, e os temperos da sua preferência. Deixe esfriar. Faça um corte longitudinal, abrindo uma ‘tampa’. Com uma faca ou colher, cave um buraco na polpa, para rechear.

Encha com o recheio que quiser. Recheios a base de queijo costumam ficar bons, rúcula com tomate-seco fica uma delícia, pasta de berinjela com pimenta e alho é sensacional. Mas não se constranja, se ainda quiser, pode rechear com carne também.

Enrole com papel laminado e coloque no forno bem quente ou entre as brasas da churrasqueira. Bom apetite.


Renato pratica Yoga em Fortaleza, CE, e é o Webdesigner deste nosso site yoga.pro.br

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19 respostas para “O recheio das batatas e o futuro da Humanidade”

  1. Te respondo moço: eu como carne porque minha espécie é onivora. Não como carne crua por costume, nossos ancestrais comiam. Tempero, sal, ervas e cocção da carne é puramente paladar. Eu amo comer tomate, mas eu como tomate com sal e azeite de oliva pq fica melhor do que comer tomate puro. Simples assim. Nosso estômago não digere celulose, entao muitas vitaminas e sais minerais não são absorvidos de plantas pelo fato delas terem celulose, que é um polissacarídeo não digerível pelo sistema digestório humano. Eu respeito quem decide nao ingerir alimentos de origem animal, mas é complicado essa militância pela alimentação vegana/vegetariana. Já me compararam inclusive com nazistas por eu comer carne. Chato isso.

  2. Texto maravilhoso!!! Pena que as pessoas não entendem, não vêem a coisa além do prato. Eu comia carne, mas não sabia como ela vinha parar no meu prato. Era tão egoísta que nem me preocupava em pensar sobre isso. Agora que sei, o condicionamento de 20 anos é tão forte que é uma luta deixar de comer carne, mesmo com a consciência de que está errado. Não é difícil pelo sabor da carne não, mas é difícil pelo costume e facilidade, por ter que destruir tudo aquilo que eu estava acostumada pra ter que criar uma outra forma de me alimentar. Gostaria de nunca ter tido um pedaço de carne no meu prato, isso faz eu me sentir suja, mas ninguém nunca me perguntou se eu queria comer carne. Eu é que tive que me perguntar 22 anos depois de nascer.

  3. Renato, parabéns pelo texto, muito bom!

    E comentando os comentários, eu diria que:
    a) Cozinhamos a batata, mas se for necessário comê-las cruas, faremos isso sem sentir nojo algum – concordo com a teoria exposta pelo Renato no texto;
    b) Vegetarianos não são anêmicos. Isso é lenda. Qualquer pessoa, carnívora ou vegetariana, pode se tornar anêmica se não se alimentar corretamente.

  4. Nossa, não concordo de jeito nenhum! Sem querer ser antipática, mas e daí que eu não como carne crua? Eu adoro carne, me delicio!! E não precisa ser crua para deixar de ser carne. Quer dizer que se você colocar um azeite no seu alface você estará fazendo isso pq na verdade odeia alface? Você também assou sua a batata no churrasco! Então você odeia batatas, não comeu ela crua! Não é?
    Não concordo mesmo. Acho que não deve tentar buscar explicações para coisas inexplicáveis. Eu gosto de carne, você não gosta!! Just that! Abraços!

  5. Eu comeria no churrasco. Evito a carne em excesso, mas pior do que isso é fazer desfeita com alguem que preparou algo para eu comer!
    Mesmo porque eu gosto de carne, se não gostasse não comeria. Mas se gosto e fazem para eu, nao digo não!

  6. Bom pessoal um comentário muito importante deve ser feito, Tanto a carne como os vegetais participam de uma dieta desregulada em nossa sociedade, tem uns que comem só carne, outro que só arroz e feijão, outros que se beneficiam de uma grande alimentação rica em frutas, verduras, carnes, grãos, etc.
    Muitos possuem excesso de proteína derivada de uma alimentação pessimamente balanceada sem contar naqueles que sofrem com a falta de vitaminas, proteínas, glicídios,… O fato é que não temos preconceito de que vegetarianos são anêmicos, e carnívoros obesos.
    Outro ponto é que ser vegetariano na condição de classe média do Brasil é barra, porque os melhores alimentos ( frutas frescas, produção orgânica,…) são caros, tão caros quanto a carne.
    E ainda tem o fator de tempo para uma construção de nova cultura, aquela que se habilita a aprender uma culinária que não é passada de mãe para filha nem de pai para filho.
    Portanto falei tudo e não disse nada muito obrigado pela atenção de todos, e só um comentário o Ferro que está nas plantas é absorvido igualmente do que aquele da carne.

  7. Caro Renato,

    Parabéns pelo seu texto. É sintético e profundo.

    Luiz Felipe.

  8. Sou um sujeito que tem muito apetite e sempre foi muito curioso pelos diversos tipos de pratos e culinárias.

    Não consigo ter disciplina alimentar que me proíba certos alimentos.

    No entanto, gostaria de ver e de contribuir para uma sociedade que não matasse animais. Que bom que seria poupar a vida de seres que tem sentimentos e que são passíveis de dor como os humanos!

    Tenho reduzido a ingestão de carne. Como carne porque ainda não consigo me abster de peixes, carnes bovinas, suínas e de muitas outras que me apetecem sob algumas formas de apresentação.

    Não teria coragem de matar um animal, mas não resisto às receitas que tem como ingredientes as carnes deles. Muitas vezes sinto culpa de consumir tais alimentos.

    No entanto, não penso que carne faça mal à saúde. Creio sim que os benefícios de um mundo que não sacrificasse animais seria espiritualmente o caminho para a paz interior quase completa de quase todos.

    Estou reduzindo o consumo, mas tenho dúvidas se vou conseguir me abster da carne totalmente um dia.

    Não consigo cobrar coerência do meu apetite, o que seria inútil. Talvez um dia ele esteja de acordo com o que penso.

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