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O sono segundo o Yoga Sutra

O sono (nidra) é o quarto dos vrittis enumerados por Patañjali. O sono é definido como um avastha, um estado de consciência

Escrito por Miguel Homem · 3 mins de leitura >

Abhavapratyayalambana vrittirnidra || 10 ||

O sono é a ausência [não deliberada] de qualquer conteúdo [de chitta]

 

abhava = ausência, inexistência
pratyaya = cognição, experiência
alambana = suportar
vrittir = flutuações psico-mentais
nidra = sono

O sono (nidra) é o quarto dos vrittis enumerados por Patañjali. O sono é definido como um avastha, um estado de consciência. Em vários shastras são descritas sequências de evolução dos estados de consciência (avasthaparinama). As Upanishads referem-se a quatro estados de consciência: vigília (jagrat), sonho (svapna), sono (sushupti) e o turiyavastha (que significa literalmente quarto estado). A Maitri Upanishad, VII, 11, descreve-os, respectivamente, assim:

‘o estado em que se vê com os olhos, o estado em que é possível mover-se em sonhos, aquele em que se dorme profundamente e o que está além do sono profundo. Esses são os quatro estados. Desses quatro, o quarto é superior aos demais.’

O sono ao qual refere-se Patañjali é também interpretado como sono profundo, sem sonhos[1]. Este é o único vritti que surge quando chitta, a mente, não conhece conteúdos. Todos os outros ? cognição correcta, cognição errada, ilusão e memória, ocorrem quando chitta está activa. Durante o sono profundo existe uma experiência do vazio em que não há qualquer conteúdo psico-mental. O sono é então um pratyaya (experiência) de abhava (inexistência) não consciente. Ou, dito de outra forma, nidra (sono) é abhava (ausência) de pratyaya (conteúdos) em chitta, sendo que chitta é o complexo ego-mente-personalidade, buddhi (intelecto, inteligência, intuição) ahamkara (ego), manas (pensamento). No sono profundo, todos os tattvas subjectivos a partir de buddhi se detêm, cessam a sua actividade. Os karmendriyas (os órgãos de acção) estão imóveis, os jñanendriyas (os órgãos dos sentidos) nada percebem e por isso manas, ahamkara e buddhi estão em abhava. Pode por isso dizer-se que no sono profundo a consciência do ego (ahamkara) se dissolve temporariamente. Quando isso acontece, e no sono predomina sattva, experimenta-se, ainda que de forma limitada, ananda (felicidade suprema). Isso explica porque depois de uma noite de sono profundo é comum a pessoa acordar com uma sensação de leveza e bem-estar, e explica também porque tantos buscam refugiar-se dos seus problemas no sono.

No entanto, o vritti existe porque não há consciência desse processo, não existe discernimento (viveka). Falha a observação da mente, embora a consciência testemunha (sakshi), permaneça presente ao longo desse processo, como o está nos outros estados de consciência.

O yoga foi definido nos sutras anteriores a este como a cessação da identificação com as modificações e instabilidade da consciência. Ora, como se sabe, o yoga é consciência e samadhi é um estado de supra consciência. E para que esse estágio seja alcançado é imprescindível que quem o experimenta esteja consciente do processo. A não ser assim, reconduzimo-nos à ignorância existencial, avidya [2], que assalta o ser humano não iluminado. A ignorância da própria natureza, de que somos o Ser, o purusha ? A ignorância é a causa da conexão entre o observador e o objecto da observação (sutra II:24). Sem jñana (no sentido de vidya), o conhecimento metafísico, vemo-nos identificados com a nossa vida psico-mental e com o corpo. Enquanto essa identificação com o ‘eu fazedor’ se mantiver, também a equação samskara (impressões subliminais) – vasana (impulsos latentes) – vritti – karma (acções) se mantém. Quando acordamos aquela identificação não se desfez, e tudo o que resta é uma recordação difusa do vazio não deliberado e não consciente.

A partir do sutra I:12, Patañjali começa a enumerar os meios para suprimir os vrittis. E fá-lo, não reportando-se individualmente a cada vritti, mas de uma forma geral.

O Tantra desenvolveu uma técnica chamada nyasa, que viria a dar origem ao yoganidra. Embora o yoganidra, tal como o conhecemos hoje, não existisse quando o Yoga Sutra foi escrito e por isso Patañjali não se refira a ele, este é certamente um dos meios mais apropriados para trabalhar o vritti nidra.

O yoganidra, comummente traduzido como “técnica de descontracção” ou relaxamento, vai muito além desses conceitos. A tradução literal, como se já se advinha, é o “sono do Yoga”. Entre outros objectivos, o yoganidra procura, num último grau, conseguir um ‘sono’ consciente. Partindo do estado de vigília (jagratavastha) o praticante procura avançar conscientemente até um estado que seria semelhante ao sono (sushuptyavastha), mas consciente. Ou seja, através deste processo o praticante procura atingir o turiyavastha (o quarto estado) que alguns identificam como também sendo Kaivalya (literalmente, “isolamento”), a libertação pelo samadhi.

[1] Embora haja quem entenda que nidra não deve ser entendido no sentido de sono, mas como um estado de consciência em que a mente divaga, sem conteúdo, num estado se torpor, esta não parece ser a melhor interpretação. O devaneio enquadra-se mais no vritti vikalpa descrito no sutra anterior. O devaneio é um sonhar acordado, fruto da ilusão e imaginação (vikalpa).

[2] Aviya é tomar o não eterno, o impuro, a dor e o não Ser como sendo o eterno, puro, a felicidade e o Ser respectivamente ? sutra II,5.

Miguel ensina Yoga no Porto, em Portugal. Seu email é [email protected]

2 respostas para “O sono segundo o Yoga Sutra”

  1. boa tarde Miguel, eu tenho sempre esse estado de sono profundo, que seria o quarto estágio, mas não sei como tirar proveito disso, talvez tenha que estudar sobre projeção da alma ou qualquer coisa assim… me aprofundar mais em conhecimentos… vc poderia me orientar?

  2. Prezado Miguel,

    Eu já havia escutado de um mestre indiano que mora nos E.U.A. que o propósito do yoganidra é deixar o corpo físico relaxado e estático enquanto que a sua consciência o abandona por alguns instantes, fazendo-se desprender e afastar-se do corpo material, vislumbrando a sua própria consciência/essência.

    Na ocasião, não compreendi o ensinamento. Somente mais tarde, quando entrei em contato com uma ciência chamada Projeciologia, é que consegui entender o real significado daquelas sábias palavras e pude experimentar que aquele “processo” é tão comum já que acontece com qualquer um, tornando-se diferente apenas quanto à lucidez do participante.

    Lógico que foi preciso um pouco de estudo a respeito, pois, como todo ser humano comum, possuía medo do desconhecido, mas, com o passar do tempo, fica mais evidente que o “estado de sono profundo” faz parte de nossa natureza e que o ideal seria conscientemente desenvolver e pesquisar tal experiência tão intimamente ligada à nossa essência.

    Um grande abraço e muita paz,

    Alexandre.

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