Āsana, Pratique

O Yoga e a saudação ao sol

A observação do mundo à nossa volta e do comportamento dos animais humanos e não humanos permite-nos concluir que, ressalvadas as diferenças, todos procuram o mesmo ? a felicidade

Escrito por Miguel Homem · 6 mins de leitura >

A observação do mundo à nossa volta e do comportamento dos animais humanos e não humanos permite-nos concluir que, ressalvadas as diferenças, todos procuram o mesmo ? a felicidade. De facto, e ainda que por meios diferentes e em lugares diferentes, todos procuramos essa felicidade. Humanos e não humanos buscam o prazer e procuram afastar-se da dor e do sofrimento. Nenhum ser vivo quer sofrer. Este é um denominador comum. Queremos felicidade, sempre, em todos os momentos. Mas mais, queremos a felicidade no seu máximo e plenitude.

Se procuramos essa felicidade, é porque sentimos não a ter. E essa percepção existe porque a maior parte do tempo vivemos com a sensação de que falta alguma coisa, de que ainda não somos completos. Essa percepção de que somos incompletos lança-nos numa busca que, para muitos, dura uma vida inteira e sem sucesso ? a busca da parte de nos falta para finalmente sermos completos e sermos felizes. Essa felicidade seria uma plenitude que abarca tudo e que, por tudo abarcar, elimina qualquer desejo. Tudo está contido na plenitude que já somos.

Mas vejamos como o ser humano, em particular neste momento temporal, vê essa busca. O que distingue os seres humanos dos seres não humanos é onde buscam a parte em falta. Enquanto os animais não humanos são governados pelo instinto na sua busca, nós, humanos, temos o livre arbítrio para conscientemente determinar o rumo das nossas escolhas. Assim, alguns procuram encontrar essa parte que falta na aquisição de objectos: um carro, uma casa ou a nova televisão com ecrã (tela) em plasma. Outros procuram essa completude em experiências ou em relações. Sucede que, invariavelmente, após a conquista do que procurávamos, voltamos à sensação de sermos incompletos, de querermos transformar-nos em algo diferente. Quando consigo comprar o meu carro, é como se por momentos sentisse que tinha alcançado a felicidade. Mas com o tempo o cheiro a novo passa, novos modelos aparecem e o que no início originava essa sensação de felicidade, aos poucos transforma-se em indiferença e mais tarde em sofrimento. Assim é com objectos, assim é com as relações. Conheço uma pessoa por quem me apaixono. E por momentos, às vezes mais duradouros, outra vezes menos, sinto que agora sim encontrei a felicidade, sou completo. Aquela pessoa preenche tudo o que me falta. Mas mais uma vez, o tempo passa e acontece mesmo, o que antes me atraía e me fez apaixonar, agora me afasta e me irrita.

Invariavelmente o mesmo padrão: projecto a minha felicidade em algo, alcanço esse algo, e mais tarde ou mais cedo a sensação de ser incompleto, de querer algo diferente volta. O problema não pode estar, portanto, nos objectos, nas relações. Cada objecto e cada relação tem a sua própria natureza e não pode ir além dela. Um carro é um meio de locomoção, se o vejo como a fonte da minha felicidade vai ser sempre insatisfatório. De facto, e como ensina o Swami Dayananda, ‘The problem is you, the solution is you’. A questão não está pois no universo com que nos relacionamos, mas em nós, no sujeito. A questão está na nossa verdadeira identidade, naquilo com que nos identificamos, o que tomamos por ‘eu’. Esse ‘eu’ que nos parece ser incompleto, não o é, pelo contrário é púrna (completo) e a felicidade (ánanda) que procuramos reside em nós. Reside em nós, aqui e agora, não num futuro dependente desta ou daquela acção.

O Yoga é o processo, e em certo sentido também o fim, para percebermos a nossa verdadeira dimensão e identidade. Esse processo de ensinamento e técnicas é na verdade uma tradição, uma cultura e uma filosofia de vida que é aprendida e incorporada e na qual vamos ampliando a percepção do mundo à nossa volta, da sensibilidade desse mundo e dos seres que o habitam, sejam eles humanos ou não, e descobrimo-nos como o completo que buscávamos noutro lado. O Yoga pretende, então, a libertação (moksha) dessa sensação de ser incompleto, de que falta algo, de querer ser ou tornar-se algo diferente.

No universo e suas diferentes manifestações o subtil precede sempre o denso. Assim, para percebermos a nossa dimensão mais subtil haverá que partir do mais denso para o mais subtil. No ser humano a dimensão mais densa é o seu corpo físico (sthúla sharíra). Assim, a prática começa pelo mais denso, o corpo, e segue aprofundando-se culminando na meditação. Sugerimos por isso, como início, a prática do surya namaskara (a saudação ao sol).

O surya namaskara é tradicionalmente utilizado no início das práticas de Hatha Yoga, independentemente dos seus diversos estilos. Todo o Yoga que utiliza sequências de ásana (as posições físicas) é Hatha Yoga, mesmo quando recebe outros nomes. Esta sequência, cujo nome nos remete para a reverência ao sol, deve ser feita com um estado de atenção interna, como um verdadeiro namaskara.

O surya namaskara, a nível físico, desenvolve a musculatura do corpo e promove o alongamento dos músculos, não só da região periférica do corpo, mas também do tronco. É uma sequência de exercícios combinados com respiração (nasal) que permite manter a coluna vertebral saudável, cria mobilidade nas diferentes articulações, massaja os órgãos internos e estimula os sistema respiratório e circulatório. A saudação ao sol actua também no corpo subtil (súkshma sharíra) estimulando o centro energético do corpo e a circulação da energia (prána) dentro dele, gerando calor. Por fim, a sequência produz um estado de paz mental. Idealmente deve ser praticado pela manhã, em jejum, mas qualquer hora é boa desde que não se tenha comido há menos de duas horas. Ainda assim é de evitar fazê-lo imediatamente antes de ir dormir.

A sequência do surya namaskara varia consoante as escolas. Existe uma sequencia típica do Norte da Índia, e outra do Sul. Em cada uma delas existem algumas variantes. Há que lembrar que tanto na saudação ao sol como em outros ásanas (posições do Yoga) é a posição que tem de se adaptar ao corpo de cada um e não o inverso. No caso da sequência do surya namaskara deve ser a sequência a adaptar-se a cada corpo, no momento em que a pratica, e não o corpo a forçar-se dentro da sequência. As fotografias apresentadas representam o ásana (posição) perfeito para aquele corpo, naquele momento. Como costumo dizer aos meus alunos, devemos libertar-nos de tentar fazer esta ou aquela posição do livro. A posição saudável, e por isso perfeita para nós, pode não ser aquela. No Yoga tão importante como o que se faz é a consciência com que se faz.

A sequência que se apresenta conjuga as tradições do Norte e do Sul da Índia e parece-nos particularmente segura e eficaz.

1. Pranámásana [1]: em pé, com os pés juntos ou ligeiramente afastados, feche os olhos e mantenha as mãos juntas a frente do peito. Faça uma respiração profunda.

2. Úrdhva hastásana: inspire e eleve os braços, fazendo uma tracção da coluna, mantendo os ombros baixos, alinhados, sem os encostar às orelhas.

3. Uttánásana: a) expire, flectindo o corpo à frente, alongando as costas, mantendo as coxas activas (puxando os músculos na direcção dos quadris) e as patelas elevadas. b) inspire alongando o tronco, olhando em frente sem franzir a testa, mantenha as pernas activas e procure girar os quadris para trás.

4. Ashva sañchálanásana: expire e traga a perna direita para trás.

5. Chatuspádásana: inspire e traga a outra perna para trás, deixando o troco recto no alinhamento das pernas.

6. Ashtánga namaskara: expire flexione os joelhos e os braços de forma a que os pés, os joelhos, o peito, as mãos e a testa toquem no chão. Os quadris ficam elevados.

7. Úrdhva mukha shvánásana: gire os pés de forma a que os dorsos apoiem no chão. Inspire, estique os braços, com os ombros rodados para trás e para baixo, mantendo os quadris baixos, os joelhos elevados e as pernas activas.

8. Adho mukha shvánásana: expire, traga os quadris para trás com o cóccix apontado para o cima, os pés afastados à largura das ancas, mantenha as coxas activas com as rótulas para cima e procure apoiar os calcanhares nos chão. Permaneça na posição por cinco respirações.

9. Ashva shanchalanásana: Inspire traga o pé direito à frente, mantendo a perna de trás esticada e os quadris baixos. Permaneça e expire.

10. Uttánásana: a) Inspire traga o outro pé à frente, as mãos no chão ou nas pernas, mantenha as pernas activas gire os quadris para trás e alongue o tronco; b) expire, flectindo o corpo à frente, alongando as costas.

11. Úrdhva hastásana: inspire e eleve os braços, fazendo uma tracção da coluna, mantendo os ombros baixos, alinhados, sem os encostar às orelhas.

12. Pranamásana: expire baixando os braços lateralmente e juntando as mãos em anjali mudrá.

Idealmente, a sequência apresentada corresponde a meio ciclo. Na sequência seguinte inverta a movimentação dos pés. No movimento 4. traga a perna esquerda atrás e, no movimento 9. traga o pé esquerdo à frente. Assim, você completa um ciclo (indo e voltando do ponto 1 ao 12, primeiramente dando o passo com a perna direita, e depois fazendo o mesmo, mas iniciando o movimento com a esquerda). Para início sugerem-se dois ou três ciclos. Em todo o caso lembre que as indicações deixadas, mesmo com as fotografias, não substituem a indicação de um professor competente e qualificado.

Harih Om!

Miguel Homem é professor de Yoga em Porto, Portugal. Seu email é [email protected].

Miguel e Maria, sua esposa, estão preparando um novo website sobre Yoga, dharma e não violência, cujo endereço será www.dharmabindu.com. Este website entrará no ar nas próximas semanas. Fique ligado!

[1] Os ásanas do Yoga recebem diferentes nomes consoante as escolas de ensino indianas. A mesma posição pode ser conhecida por dois ou três nomes diferentes.

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8 respostas para “O Yoga e a saudação ao sol”

  1. Acredito que alguns pontos de interrogação do ínício foram erros de formatação na hora de mudar o site. Não consegui ver as fotos tb. Será que é só no meu computer? Em todo caso, excelente texto. Muito grato novamente!

  2. Olá,
    Moro em Natal/Rn e gostaria de indicação de onde fazer Yoga aqui, com uma pessoa com os devidos conhecimentos na área.

  3. Oi Miguel, entrei neste site e não consegui sair dele sen absorver ao máximos os ensinamentos sobre os exercícios do Sol… Estou vivendo um momento de verdadeiro desiquilibrio e ter encontrado estas dicas era o início do meu reencontro comigo mesma.
    Obrigada e muita energia a todos…

  4. Sou iniciante no Yoga, que é apaixonante. Sou praticante de artes marciais e o Yoga só vem me a ajudar a aumentar o equilíbrio. Gostei muito desse site.

  5. Agradeço aos criadores desse site, bem como a todos aqueles que auxiliam com artigos. Atualmente moro em uma cidade no interior de Santa Catarina que tem 5 mil habitantes. Pratiquei por um pequeno período Yoga quando morava em Florianópolis. Aqui nesta cidade não tem nenhum curso de Yoga, e o que tem me ajudado muito é esse site.

    Grata.

  6. Obrigada, parabéns e obrigada!

    Eu só queria mesmo agradecer a existência desse site e lhes dizer que há muito tempo eu sinto uma enorme atração pelo Yoga, mas nunca havia conseguido indicação e referências confiáveis sobre algum mestre ou academia em minha região.

    Moro atualmente em Natal, RN, e se algum de vocês quiser e puder me dar alguma dica, ficarei imensamente agradecida.

    Apreciei demais esse presente de Miguel Homem sobre o Yoga e a Saudação ao Sol, mas confesso que me sinto insegura em me exercitar sem uma boa indicação e orientação.

    Por outro lado, agora, mais do que nunca, quero e sei que preciso muito dar este próximo passo: praticar algum tipo de Yoga, o mais adequado para minha idade (tenho 48 anos). Por isso, desejo tanto conhecer um bom mestre.

    Paz e luz em todos os corações!

  7. Me tocou em especial a reflexão sobre a busca da felicidade, complementando uma releitura que fiz essa semana da Introdução do livro A Tradição do Yoga: Aspiração à Transcendência. Meta que é meta não se esquece, e lembrar da felicidade plena que se deve sentir quando se atinge moksha é sempre bom para tornar o objetivo mais próximo, mesmo enfeitando-o com uma sensação. O que é um yogi sem saber qual é a meta?

    Em relação à Saudação ao Sol, costumo sentir falta de uma chave que absorvi ser essencial para essa seqüência: ?O objetivo da saudação ao Sol é sincronizar o movimento com respiração para aguçar a mente? (pág. 83 da apostila do Curso livre formação em Yoga ? Pedro Kupfer).

    Sem essa sincronização, sinto que pode-se cair no condicionamento dos movimentos. Além disso, acredito que o sutil da respiração pode banhar o denso pra facilitar sua busca.

    Miguel, estou escrevendo uma peça: ?Há 500 anos Cabral achou que tivesse chegando na Índia, e hoje a Índia tá chegando ao Brasil!? Gratidão aos seus antepassados, que são meus também!

    Harih Ommmmm!

    Murillo “Mumukshutva”

  8. Namaste,

    Este comentário serve, entre outras coisas, para tornar público o meu apreço e carinho pelo trabalho que o professor Miguel Homem tem vindo a realizar pelo Yoga, como é possível perceber neste artigo.

    E mais, ao abrir as portas da sua casa, tornando-a uma escola auspiciosa para a comunidade da cidade do Porto, em Portugal, o Miguel transmite os seus ensinamentos e vivências de uma forma muito prazeroza e enriquecedora, enchendo o coração, a alma e o gênio de cada um com o conhecimento luminoso da Verdade e da União.

    Espero reencontrá-lo em http://www.dharmabindu.com, todas as quartas-feiras nos seus maravilhosos Sat Sangas e sempre que o Universo o desejar e proporcionar.

    Que o prana vital flua livremente pelas suas nadis, rumo ao samadhi!

    Harih Om, meu amigo,

    Gustavo da Cunha
    http://www.escoladeyoga.com

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