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Pensamento positivo: funciona realmente?

Você certamente já ouviu falar sobre o pensamento positivo. Mas já parou para pensar se ele é mesmo eficiente? Pensar apenas positivamente é como dirigir um carro achando que basta ter um acelerador funcional. Se quisermos chegar vivos ao nosso destino, no entanto, não podemos esquecer de usar o freio quando for necessário.  Qualquer pessoa […]

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Pensamento positivo

Você certamente já ouviu falar sobre o pensamento positivo. Mas já parou para pensar se ele é mesmo eficiente? Pensar apenas positivamente é como dirigir um carro achando que basta ter um acelerador funcional. Se quisermos chegar vivos ao nosso destino, no entanto, não podemos esquecer de usar o freio quando for necessário. 

Qualquer pessoa que queira dirigir sem morrer, nem matar os demais usuários das ruas, precisa tanto do acelerador quanto do freio, por mais que alguns prefiram apenas acelerar. Se você nega a existência do freio ou se recusa a usá-lo, corre o sério risco de provocar um acidente. 

A mesma conta vale para o chamado pensamento positivo. Diferentemente do que reza a crença tão em voga nos dias atuais, o pensamento não molda a realidade. Não há qualquer relação causal entre o que positivamente desejamos e a realidade que nos circunda.

A felicidade não vêm sozinha, só por “pensar positivamente”. A paz interior não vêm espontaneamente, ou só por fazer simpatias ou rituais. Há algo fundamental, chamado trabalho, ou karma, que deve ser realizado em prol desses objetivos: resultados práticos requerem causas práticas.

Acreditar que felicidade, paz interior, prosperidade ou “abundância”, como fiz o eufemismo, dependam apenas de pensar positivamente é uma crença falsa e absurda. Ninguém pode forçar Īśvara a agir de acordo com seus desejos e vontades.

Īśvara, o Conhecimento manifestado na forma das leis naturais, não existe para satisfazer os desejos dos seres humanos. Esse tipo de crença é perigosa e potencialmente mortal, como no caso dos negacionistas da pandemia que assola presentemente o planeta.

Conheço duas pessoas que achavam que pensar positivo e focar-se na saúde e na espiritualidade seria o suficiente para evitar a COVID-19. Ambas jovens e saudáveis. Ambas atletas. Ambas recusaram a vacina. 

Ambas foram parar no hospital. Ambas ficaram com pneumonia. Uma delas está há três semanas no hospital, respirando através de uma máquina, com 85% dos pulmões inoperantes e a vida, literalmente, por um fio.

Positividade tóxica

O  perigo do pensamento positivo é que ele facilmente deriva em positividade tóxica. Positividade tóxica é negar aspectos da realidade dos quais a pessoa não gosta. Essa é uma abordagem superficial e infantil. 

É como aquela criança que fecha os olhos para não ver o que não quer. Isso é tentador e fácil de se fazer, mas você não resolve um problema deixando de pensar nele para focar-se em coisas “positivas”.

Se você tentar resolver o problema da louça suja que se acumula na pia deixando de pensar na necessária limpeza, o tema só vai piorar. Pior ainda seria uma pessoa deixar de pagar suas contas para focar-se apenas em “co-criar abundância” enquanto os juros e multas se acumulam.

Situações e problemas tópicos se resolvem com soluções e ações pontuais, e essas soluções pedem, em todos os casos, planejamento, estratégia, dedicação, esforço e trabalho.

Alimentar esse tipo de crença é negar a realidade. Com frequência, a pessoa tomada pela positividade tóxica tende a negar o que não lhe serve, criando na sua mente uma bolha que mantém afastadas as verdades inconvenientes.

A positividade tóxica dá lugar a atitudes negacionistas, como o do trágico exemplo dos doentes que demos acima. “Vibrar na frequência da saúde”, como dizem os arautos do pensamento mágico, não foi suficiente para salvar essas pessoas de um vírus potencialmente mortal, nem as poupará das sequelas que carregam. 

Pensamento mágico é um padrão mental que, confundindo analogias com identidades, abusando de falácias, sofismas e simpatias, estabelece relações de causa e efeito entre eventos que não têm nenhuma conexão.

Esse padrão mental surge quando a pessoa não consegue compreender a realidade, quando não percebe adequadamente as causas dos eventos, ou quando perde o controle das emoções.

É melhor ser otimista do que pessimista

É melhor ser alegre que ser triste? Sim. É melhor ser otimista do que pessimista? Certamente, pois essa atitude é fundamental e uma grande ajuda para lidar com as agruras e desafios.

Não estamos negando o valor do otimismo. Mas não é possível construir uma vida funcional ou equilibrada apenas sobre o otimismo, ou negando o que não nos convém. Essa atitude é perigosa, pois facilmente a pessoa escorrega para a frustração ou agressão quando não acontece o que ela desejava realizar.

O pessimista só vê o lado ruim das coisas, o que não é uma atitude muito edificante. O defensor do pensamento positivo só vê o lado bom das coisas. Ambos estão enganados. Qual seria a solução, então? Existe algum caminho do meio para resolver esta situação?

O meio áureo

O grande filósofo grego Aristóteles chamou esse caminho de Teorema do Meio Áureo. O meio áureo seria o ponto de equilíbrio perfeito entre o excesso e a deficiência. Se formos tomar por exemplo a coragem, o meio áureo é o ponto de equilíbrio entre o medo e a confiança. 

Excesso de medo ou falta de confiança podem nos imobilizar. Excesso de confiança ou ausência de medo podem nos levar a agir de modo torpe, temerário ou precipitado. O mesmo vale para os demais sentimentos vinculados com a tomada de decisões e a realização de ações.

Talvez a solução esteja nessa direção. Se a positividade tóxica nos impede de avaliar os riscos ou as consequências indesejáveis dos nossos planos ou desejos, e a negatividade sozinha nada resolve, então o que vale, como dizem os portugueses, é não ir nem muito para o mar, nem muito para a terra.

Mente positiva, mente negativa

O nosso mestre, Swāmi Dayānanda, sempre ensinou que não precisamos de uma mente positiva nem de uma mente negativa. Precisamos mesmo é de uma mente objetiva, que possa ponderar todos os lados, virar cada situação do avesso para melhor analisá-la. 

É preciso fazer um planejamento objetivo e realista para realizar os nossos objetivos. É preciso ponderar todas as possibilidades, inclusive aquelas que possam dar errado ou forem contrárias ao nosso desejo. E fazermos um plano A, um plano B e um plano C se for preciso.

Se não fizermos isso, corremos o risco de nos frustrar seriamente caso as nossas expectativas não se concretizem. Outro ensinamento que o nosso mestre repetia com frequência para nos afastar desse perigo, é we are reality people: somos gente da realidade. Portanto, é necessário manter os pés no chão e cultivarmos o discernimento e a dedicação.

Existe pensamento positivo no Yoga?

Finalmente, é necessário igualmente lembrar que esse tipo de crença não faz parte do ensinamento original do Yoga. Os yogis dos tempos védicos sempre deram muita importância ao discernimento, à observação e à compreensão da realidade. 

Se o amigo leitor der uma olhada nos textos mais importantes da tradição do Yoga, e for do Yogasūtra à Bhagavadgītā, da Haṭhayoga Pradīpikā ao Śivasūtra e outros, não achará uma única sílaba dedicada ao tema. Esses não são bestsellers de autoajuda, certamente. 

Portanto, a nossa recomendação é que quem tem como objetivo uma vida de liberdade e paz, deixe de lado tais crenças limitantes, pois cabe lembrar que a meta do Yoga é justamente a liberdade desse tipo de condicionamento.

Para concluir…

Sermos otimistas ou cultivarmos a alegria e o contentamento (santoṣa) são atitudes extremamente necessárias nos dias atuais, para podermos fazer frente à torrente de notícias alarmantes que nos chegam incessantemente: a pandemia, a crise, a injustiça social, a emergência climática, a deterioração da saúde mental e tantas outras mazelas do nosso tempo.

Mas cabe igualmente lembrar que, junto com essas lindas atitudes, o que muda mesmo a realidade é o trabalho, o esforço e o foco no autoconhecimento. 

A vida nos deu algo chamado discernimento, que deveríamos usar da maneira mais construtiva: bom-senso e responsabilidade deveriam prevalecer sobre as superstições, tanto dentro como fora do Yoga.

॥ हरिः ॐ ॥

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Pedro nasceu no Uruguai, 55 anos atrás. Conheceu o Yoga na adolescência e pratica desde então. Aprecia o o Yoga mais como uma visão do mundo que inclui um estilo de vida, do que uma simples prática. Escreveu e traduziu 10 livros sobre Yoga, além de editar as revistas Yoga Journal e Cadernos de Yoga e o website www.yoga.pro.br. Para continuar seu aprendizado, visita à Índia regularmente há mais de três décadas.
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Vivendo a Ética do Yoga

Pedro Kupfer em Pratique, Yoga na Vida
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