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Proibido praticar

Este texto não noticia que o Yoga esteja sob ataque de forças ocultas, nem fala sobre um complô ou propõe uma teoria conspiratória contra ele. Não obstante, lista uma série de acontecimentos, alguns recentes e outros nem tanto, que revelam a forma em que certas lideranças religiosas e políticas orientam as pessoas sob sua égide a se relacionar com esta escola de vida que é o Yoga.

Escrito por Pedro Kupfer · 11 mins de leitura >

Este texto não noticia que o Yoga esteja sob ataque de forças ocultas, nem fala sobre um complô ou propõe uma teoria conspiratória contra ele. Não obstante, lista uma série de acontecimentos, alguns recentes e outros nem tanto, que revelam a forma em que certas lideranças religiosas e políticas orientam as pessoas sob sua égide a se relacionar com esta escola de vida que é o Yoga. Possivelmente, partes deste texto poderão produzir desconforto em algumas pessoas. Respeitosamente, pedimos desculpas por isso, mas achamos que seria mais construtivo falar do que calar perante essas questões, para informação e reflexão dos nossos queridos leitores.

Cristãos

O convívio dos cristãos com o Yoga tem sido bastante ambíguo ao longo da história. Sabemos que padres católicos e pastores protestantes, em missão na terra do Yoga, foram seduzidos pelos belos e práticos ensinamentos que ele apresenta. O maior e mais conhecido exemplo de tentativa de integrar o cristianismo com a espiritualidade do Yoga foi o padre jesuíta indiano Anthony de Mello (1931-1987), autor de belíssimos poemas que respiram Yoga. Um ano após a morte deste padre-yogi, sua obra acabou previsivelmente sofrendo severa censura do então Cardeal Joseph Ratzinger.

Certamente, o amigo leitor conhece bons católicos e até mesmo algum padre ou freira que pratica, estuda, ensina ou recomenda o Yoga. Pessoalmente, já ministrei retiros num mosteiro da Ordem dos Marianos nas montanhas de Portugal e num colégio jesuíta em Florianópolis e sempre me senti muito bem-vindo nesses ambientes. No varejo do dia-a-dia, os casos de respeito mútuo e boa convivência entre a religião católica e o Yoga tem sido mais frequentes que a censura e a proibição.

Não obstante, o Yoga tem, eventualmente, sofrido ataques por parte dos missionários católicos desde a chegada dos primeiros jesuítas à Índia, no início do século XVI. Nos dias de hoje, quando a liderança da nação católica se polariza ao extremo que estamos testemunhando, a tolerância e o bom convívio simplesmente desaparecem, diante da urgência de manter o rebanho dos fiéis devidamente sob controle.

Nessa linha, não nos surpreende comprovar que a Igreja desaconselha veementemente aos católicos a prática do Yoga e de outras formas da “espiritualidade oriental”. Embora esta atitude esteja totalmente alinhada com as demais decisões que ela tem tomado noutros assuntos, o povo católico só tem a lamentar diante dessa manifestação de intransigência. Desta forma, a Igreja aprofunda desnecessariamente o abismo que já a separava da imensa maioria dos fiéis. O segmento dos esclarecidos dentro da nação católica certamente irá continuar suas práticas a despeito da proibição, que é claramente mais uma tentativa de interferir no livre pensar dos fiéis, quem sabe, com o intuito de melhor manipulá-los.

Como editor de um website cujo conteúdo está centrado nos ensinamentos e práticas do Yoga, recebo com alguma freqüência mensagens agressivas de evangélicos intolerantes que, simplesmente, exigem que tire do ar esses conteúdos “satânicos e blasfemos”, que pare de promover “rituais demoníacos” e que aceite Jesus como meu salvador. Chama a atenção o tom peremptório dessas exigências. Estes evangélicos não convidam ao diálogo nem estão dispostos a acatar nada que não seja um “sim, senhor”. Obviamente, essas mensagens ficam sem resposta.

Muçulmanos

A proibição da Igreja e as outras tentativas de censura acima descritas acontecem dentro de um contexto maior em que, recentemente (novembro de 2008), o Yoga sofreu uma condenação similar da parte de líderes fundamentalistas muçulmanos na Malásia. Curiosamente, o novo papa parece estar imitando a ala extremista do Islame. A diferença é que esses militantes radicais são uma barulhenta, mas pequena minoria da nação islâmica, enquanto que o sumo pontífice fala como a autoridade máxima e o guia espiritual de todos os católicos.

Diferentemente da advertência da Congregação para a Doutrina da Fé, a fatwa emitida pelos muftis não foi apenas uma admoestação por escrito, já que foi implementada uma verdadeira caça às bruxas nas escolas de Yoga de Kuala Lumpur, que foram fechadas, e muitos praticantes acabaram por se fantasiar de dançarinos de balé para poderem fazer seus mantras e ásanas em paz. Essa decisão dos fundamentalistas malaios está inserida numa já tradicional e conhecida desconfiança que as formas mais radicais do islamismo nutrem por tudo o que não seja a interpretação literal do Alcorão. Até aqui, nada novo sob o Sol.

“Viva e deixe viver” é uma frase que todos ouvimos em algum momento. Uma variação dela, “Viva e deixe morrer”, ficou popular algumas décadas atrás num sucesso de Paul McCartney que servia de trilha sonora para um filme de James Bond. Aqui em Punta de Lobos, uma localidade no sul do Chile onde estou escrevendo este texto, encontrei mais uma variação numa placa fixada no alto de uma falésia: “Surfe e deixe surfar. Respeite os demais.”

A frase original é a síntese da política do bom convívio que se estabeleceu naturalmente entre os soldados dos exércitos inglês e alemão nas trincheiras da I Guerra Mundial. Os soldados pensavam assim: “se ele não atirar, eu não atiro; ele vive, eu vivo”. Então, de costas para seus respectivos comandos, os soldados disparavam para o alto quando recebiam ordem de atacar, já que esse acordo tácito de não-agressão era mais importante que as ordens recebidas dos superiores. Viva e deixe viver: poderia ser uma boa ideia aplicarmos esse mesmo princípio ao convívio entre o Yoga e as religiões que se sentem incomodadas ou ameaçadas por ele. Se serve para guerreiros e surfistas, deveria servir para yogis e religiosos também.

Comunistas

Estas situações, por sua vez, me lembram da primeira palestra que assisti com Indra Devi, uma inesquecível professora russa que tive o privilégio de conhecer mais de 25 anos atrás. Naquela ocasião, anos antes da queda da Cortina de Ferro e do Muro de Berlim, ela contou, num congresso no Uruguai, que o Yoga era proibido na então União Soviética, e que os praticantes eram perseguidos e presos pelo regime comunista. Indra Devi nos lembrou naquela ocasião de como era bom poder estar juntos, praticando e aprendendo Yoga num país livre (naquele momento, a ditadura militar tinha acabado de cair na minha terra natal).

Cabe lembrar que a perseguição sofrida pelos yogis dos países do ex-bloco soviético acontecia ao mesmo tempo em que eram proibidas todas as formas de culto religioso e livre pensar. Ditaduras, todos sabemos, não apreciam nada que possa contestar ou colocar em xeque o modelo de governo. Tampouco apreciam o estado de direito, a imprensa livre, a liberdade de expressão, a liberdade de ir e vir ou de associar-se. Nessa ordem de coisas, a proibição do Yoga não surpreende tanto, embora seja chocante e inconcebível para cidadãos de um país livre.

Cresci durante os duros anos da ditadura militar uruguaia, sem nenhuma liberdade cívica. Não que a ditadura uruguaia fosse de cunho comunista, mas na prática, pouco muda a vida sob uma ditadura de esquerda ou de direita. Até mesmo andar na rua era proibido em alguns horários. Meu pai e minha mãe, respectivamente professores de filosofia e literatura, perderam seus empregos no ensino público simplesmente por pensarem diferentemente dos donos do poder. A nossa família sofreu muito, com vários dos seus membros e amigos presos e perseguidos, desemprego e extrema pobreza. Faltava-nos o básico, como roupas e materiais de estudo e, em algumas raras ocasiões, até comida. Esse tipo de opressão é algo incompreensível para quem não a sofreu.

Pelo que sei, a influência da ditadura militar no Brasil foi bem menor na questão das liberdades individuais e no cotidiano da população. Quem não sentiu na pele essa falta de liberdade, dificilmente poderá dar valor às coisas mais simples, como tomar a decisão de fazer uma viagem ou simplesmente manter a integridade física. Um dos motivos que me levou a abandonar a minha terra natal foi constatar que, mesmo depois da ditadura, as pessoas ainda carregavam essa falta de liberdade em suas mentes. Qualquer ditadura é ruim para um praticante de Yoga, já que este busca, intrinsecamente, a liberdade, que é justamente o que aquela nega.

Democracia: a salvação da lavoura

Assim, cristãos raivosos, muçulmanos fundamentalistas e comunistas inflexíveis têm tentado por diversos meios impedir que o Yoga chegue às pessoas. Diante dessa situação, os praticantes das democracias não podemos menos que suspirar aliviados por não vivermos num regime ditatorial, nem sob a influência emocional ou psíquica de líderes religiosos opressivos e intolerantes.

Nesse sentido, muitas vezes tomamos com bastante leviandade o fato de praticar Yoga em paz e livremente. Se formos pensar que no passado os praticantes de Yoga tântrico, do qual o Hatha nasceu, eram perseguidos e condenados à morte por esquartejamento entre dois elefantes, ou que neste preciso momento seres humanos iguais a nós possam estar sendo perseguidos pela justiça ou condenados por seus guias espirituais pela “heresia” ou pelo crime de praticar Yoga, devemos realmente dar graças aos céus pelo privilégio de não sermos importunados nas nossas práticas e estudos.

Nesse sentido, creio que as religiões monoteístas, com a honrosa exceção do judaísmo, que sempre estimulou o diálogo inter-religioso, ainda têm um longo caminho pela frente no que diz respeito à tolerância e convívio com o que é diferente. No caso, a desconfiança do cristão ou do muçulmano em relação ao Yoga é oriunda da incapacidade de compreendê-lo, o que conduz à dificuldade de aceitá-lo.

Mais uma teoria conspiratória?

Alguns líderes católicos e evangélicos estão convencidos de que nós, professores e praticantes de Yoga, estamos promovendo uma espécie de complô mundial para acabar com o cristianismo através de uma conversão disfarçada das pessoas pelas técnicas yogikas. Eles afirmam que, por exemplo, quando fazemos a saudação ao Sol, estamos obrigando os praticantes a reverenciar inadvertidamente algum deus hindu, ou que quando convidamos alguém para fazer um mantra, esse mantra funciona como uma espécie de lavagem cerebral que irá fazer com que o cristão rejeite Jesus como o único salvador e queira se converter ao budismo ou outra religião exótica. A paranóia de ser convertido, no fundo, pode ser expressão da necessidade de converter os demais para reafirmar suas próprias convicções. Isso, por sua vez, pode ser uma manifestação de insegurança em relação ao próprio dogma.

Na mesma linha de irraciocínio, ensinam que nossas meditações são formas de adoração satânica, que kundalini é um demônio que precisa ser exorcizado e que “a mente vazia é oficina do diabo”. Também, soube recentemente que alguns pastores explicam que o sexo tântrico seja o objetivo final do Yoga. Considerando a obsessão que a nossa sociedade tem pelo sexo, essa abordagem deve despertar mais interesse que rejeição nos fregueses, acredito. O tiro, neste caso, pode sair pela culatra. Sorte deles, a vertente do Tantra como “terapia” sexual não ser tão popular assim.

Por outro lado, sabemos que os movimentos missionários salvíficos têm muitas vezes como características a intolerância e o preconceito, como ilustra o discurso proferido pelo Cardeal Pio, em Chartres, em 1841:

Nosso século clama: “tolerância, tolerância”. Tem-se como certo que um padre deve ser tolerante, que a religião deve ser tolerante. Meus irmãos, não há nada que valha mais que a franqueza, e eu aqui estou para vos dizer, sem disfarce, que no mundo inteiro só existe uma sociedade que possui a verdade e que esta sociedade deve ser necessariamente intolerante.

Obviamente, o Cardeal Pio refere-se à sociedade católica. Pouca coisa parece ter mudado na maneira com que a Igreja conduz seus negócios no ultimo século e meio, desde que o citado cardeal pronunciou estas palavras. Portanto, se a única forma de espiritualidade que presta é o catolicismo, o Yoga não pode senão ser uma excrescência incômoda, que é necessário apagar do mapa. Talvez os muçulmanos pensem de maneira similar. E os antigos dirigentes do politburo.

Tolerância e convívio

O hinduísmo tem, historicamente, uma exemplar tradição de tolerância. A Índia recebeu, ao longo dos séculos, populações inteiras de pessoas que eram perseguidas em suas terras de origem por causa da religião, como foi o caso dos cristãos assírio-caldeus, jacobitas e nestorianos que se estabeleceram no sul da Índia a partir dos primeiros séculos desta era, o da comunidade dos parsis, que migraram desde o Irã para Maharashtra há mais de 1500 anos, e o mais recente caso dos budistas tibetanos que se mudaram para o norte da Índia após a invasão do Tibete pelos chineses, em 1959. A todas e cada uma dessas populações, foi dado o direito de estabelecer-se, trabalhar e conviver lado a lado, pacifica e harmoniosamente, com a maioria da população hindu.

Note-se que estamos falando aqui sobre convivência entre comunidades de distintas religiões, etnias, línguas e culturas e que o Yoga, como todos bem sabemos, dista muito de ser um credo religioso. É possível distinguir um budista de um hindu por certos sinais externos. Porém, não é possível identificar um yogi por algum desses sinais. O praticante de Yoga pode ser tanto budista como hindu, muçulmano ou cristão. Aí jaz o grande paradoxo das situações descritas no início deste texto: sem ser uma religião, o Yoga sofre perseguição por parte de algumas religiões; sem ser um sistema político, regimes ditatoriais se sentem ameaçados por ele ao ponto de proibi-lo e encarcerar seus praticantes.

Talvez um dos motivos da desconfiança que o Yoga desperta nesses setores do establishment seja justamente a quase impossibilidade de catalogá-lo, de enquadrá-lo dentro de um esquema familiar para quem pretende julgá-lo desde dentro de um dogma fechado ou de um sistema totalitário.

O yogi na sociedade

Não existe um gueto de praticantes de Yoga em nenhuma sociedade, como houve guetos judeus nos países ocupados pelos nazistas durante a Grande Guerra, ou como há guetos de hindus no Paquistão atualmente. O praticante pertence a uma família, está inserido na sociedade em que escolheu viver e exerce suas funções convivendo pacificamente com os demais. De maneira alguma, poderíamos considerar o praticante uma espécie de outsider, desajustado, pária social, ou coisa similar.

Não há, afora as escolas de Yoga, ambientes separados onde os praticantes convivam apenas entre eles, isolados da sociedade. Tampouco há um perfil social, econômico ou cultural definido do praticante de Yoga. Não obstante, o yogi é visto algumas vezes como um avis rara, como alguém esquisito ou alienado e, portanto, potencial alvo de discriminação ou escárnio. Entretanto, noto que a maioria de nós convive tranquilamente com os preconceitos que algumas pessoas nutrem em relação à gente.

Essa eventual fricção se percebe de maneira mais clara em relação à dieta vegetariana, já que não é raro ver pessoas tensas perante um yogi vegetariano, que descarregam essa tensão muitas vezes na forma de agressividade ou comentários irônicos sobre a opção de não comer carnes. Por outro lado, vemos também praticantes que desenvolvem uma atitude intolerante perante aqueles que não compactuam com sua opção alimentar, escolhas ou modo de vida. Porém, essas questões são muito pequenas, defronte o pano de fundo acima exposto.

Há mais alguma característica que possa definir um yogi nos tempos atuais? O praticante não tem classe social determinada. Ou, pelo menos, não deveria ter. Um dos motivos de satisfação que tenho como professor é ver que na pequena comunidade onde moro e ensino, a sala de práticas é o ponto de encontro de todas as camadas sociais: o pescador, o comerciante, o artesão, o engenheiro, o carteiro e o estudante praticam lado a lado, e há muita harmonia nos relacionamentos. E, afora as Testemunhas de Jeová que já tentaram me dissuadir de ensinar no município, percebo que a sociedade como um todo aceita perfeitamente o fato de pessoas praticarem Yoga, independentemente de posição social, idade ou gênero.

Conclusões

É provável que tanto o defunto politburo soviético quanto o papa e os imames islâmicos tenham resolvido proibir e perseguir o Yoga porque eles sabem positivamente que esta escola de vida tem como objetivo libertar o ser humano das correntes da ignorância. É possível também que saibam que o propósito maior do Yoga é moksha, a liberdade, e que na medida em que as pessoas se libertarem, elas se tornam difíceis de serem manipuladas, questionadoras, livre-pensantes e independentes.

É possível que a existência de seres humanos assim não seja do interesse de instituições como as ditaduras ou de líderes dogmáticos. Felizmente, há lugar para esse tipo de gente nas sociedades abertas e democráticas. Felizmente, os praticantes de Yoga podemos viver pacificamente em alguns países, fazendo nossa contribuição para uma sociedade melhor.

Não obstante, creio que há algo de positivo nessas proibições, já que as pessoas de bom-senso e inteligência não poderão deixar de perceber o ridículo dessas patéticas tentativas de apagar o Yoga da memória das pessoas ou tirá-lo do seu cotidiano. Digo patéticas tentativas, pois todos sabemos do melancólico destino que tiveram os regimes comunistas, assim como vislumbramos o possível final dessas religiões que sofrem presentemente um processo de franca decadência e retraimento nas sociedades onde a liberdade e a educação prevelecem.

Enquanto isso, o Yoga segue muito bem das pernas, obrigado. Os cães latem, a caravana passa. Pelo menos, nas democracias do planeta. Felizmente, lá se foram a Idade Média, a Santa Inquisição, o obscurantismo e o Muro de Berlim. Pense então no privilégio de viver num país livre e poder trilhar o caminho da prática e do autoconhecimento, se você costuma se definir como yogi. E escolha bem seu candidato nas próximas eleições para que os fantasmas do autoritarismo e a corrupção se afastem do nosso querido país já que isso também fere a nossa dignidade, como humanos e como praticantes de Yoga. Namaste!

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21 respostas para “Proibido praticar”

  1. Olá Pedro.
    Achei um texto interessante sobre tolerãncia, o qual está inserido dentro do contexto. Isso tudo me fez refletir sobre toda essa discussão entre unívoros e vegetarianos, alcólatras e abstêmicos, yoguis legítimos e não legítimos, etc..
    Espero que haja mais tolerãncia de ambas as partes, doravante. Grande abraço, Paulo.
    ====================
    Tolerância e ofensa
    por Desidério Murcho
    Universidade Federal de Ouro Preto – MG
    A tolerância é uma das noções mais difíceis de compreender. Confunde-se geralmente com o relativismo epistémico e esta confusão denuncia incapacidade ou até falta de vontade para aceitar a tolerância. Os pensadores pós-modernistas são responsáveis por contaminar a cultura contemporânea com esta confusão grave, que acaba por tornar impossível a genuína tolerância.
    Ser tolerante é aceitar o direito de alguém afirmar o que pensamos firmemente ser falso ou errado ou inaceitável ou ofensivo. Isto é de tal modo difícil de assimilar que os pensadores pós-modernistas se sentem na necessidade de declarar que não há “verdades”, mas apenas “construções sociais da realidade”.
    E, por causa disso, todas as diferentes “construções” são igualmente aceitáveis. Pensa-se então que esta atitude é tolerante, quando, ironicamente, torna impossível a tolerância. Pois se ninguém pode realmente estar errado nem dizer coisas falsas nem inaceitáveis, não podemos realmente ser tolerantes: limitamo-nos a aceitar todas as perspectivas que reconhecemos à partida serem tão aceitáveis como as nossas.
    Pior: a falsa tolerância abre as portas ao fanatismo, cada vez mais presente na sociedade contemporânea. O fanatismo consiste em usar sistematicamente a noção de ofensa para silenciar os outros.
    Assiste-se assim à imposição de um discurso falsamente politicamente correcto, proibindo-se seja quem for de dizer seja o que for que possa ser ofensivo seja para quem for. Não se pode dizer que o cristianismo, o islamismo, o budismo ou o judaísmo são basicamente tolices supersticiosas, porque isso é ofensivo.
    Não se pode dizer, como James Watson, que os negros são menos inteligentes do que os brancos. Não se pode fazer cartoons a gozar com Maomé. E, numa reviravolta digna dos Monthy Python, os docentes da Universidade de Roma La Sapienza declaram-se ofendidos com as opiniões do Papa sobre Galileu e os estudantes encenam protestos mediáticos análogos aos protestos contra os cartoons do Maomé.
    A tolerância pressupõe a convicção do erro. Só podemos tolerar o que estamos convictos de que é um erro inaceitável, uma falsidade patente, um absurdo ofensivo. Tolerar é tolerar humanamente. Não é tolerar epistemicamente, no sentido de defender que qualquer afirmação é igualmente justificável epistemicamente.
    Não é epistemicamente justificável a opinião de que o Holocausto não existiu ou que qualquer negro é menos inteligente do que qualquer branco ou que os seres humanos descendem de Adão e Eva.
    E é precisamente porque tais opiniões são claramente falsas, claramente injustificáveis, que podemos ser tolerantes relativamente a quem as defende. Ser tolerante é defender as pessoas que têm ideias falsas, idiotas ou inaceitáveis e atacar essas ideias; não é atacar as pessoas para evitar o incómodo de provar que as suas ideias são falsas.
    E, se tais ideias nos ofendem, paciência. Não é possível garantir a liberdade de expressão e ao mesmo tempo garantir que não seremos ofendidos. Desidério Murcho Publicado no jornal Público (22 de Janeiro de 2008).

  2. Muito bem colocado todo o artigo. Em um mundo que chegou ao seu limite de caose destruiçao ainda vemos governos e lideres religiosos se opondo ao ser humano. Sim, porque an verdade trata-se da pior das torturas, a pior das camisas de força, quando se tenta inibir a consciencia de uma pessoa para se ter poder sobre ela e seus pensamentos emoçoes e atos.
    Nosso Dharma sem duvida e a gratidao por sermos livres e de forma livre vivenciarmos o Yoga levando seu caminho de libertaçao a outras pessoas. muito obrigado a ti que nos brinda com teu espirito tao profundo e nos faz ver o quanto somos abençoados e responsaveis pelo que podemos receber da Luz do Yoga.
    Amo teu pais natal pois vivo na Fronteira da Paz-Livramento/Rivera e aqui vivemos Yoga com liberdade e temos todos, mulçumanos, cristaos, evangelicos e judeus convivendo e em respeito, e isso e uma bençao!!! e nos poe a pensar e vermos q a vida e perfeita para alguns.
    Namaste!

  3. Parabéns Pedro por sua lucidez e expressão tão clara da situação.
    Como professora já sofri preconceito de vizinhos evangélicos que reclamavam dos mantras e até do uso do incenso, que consideram “macumba”. Mas também, já tive outras experiências positivas que demonstram que existe abertura em alguns setores.
    Há pouco tempo fui convidada pela coordenação do Colégio Marista para participar de um ciclo de palestras e práticas integrativas para os professores que voltavam das férias. Depois de refletir sobre que tipo de abordagem eu daria, tive a feliz idéia de falar sobre os Yamas e Niyamas de Patañjali e traçar paralelos com os preceitos do cristianismo.
    De forma bem descontraída abordei até a questão da sexualidade e fui muito bem recebida por todos os ouvintes. Cheguei a contar histórias e feitos de alguns gurus indianos e disse que considero Cristo um grande Yogue, pelo estilo de vida, pelas pregações, pelos milagres.
    Ninguém se espantou! Ao final todos participaram de um sádhana com ásanas, mantra OM, pránáyámas, relaxamento e meditação e, amaram!

  4. Oi, Pedro.
    Infelizmente a liberdade faz medo a muitas pessoas, principalmente às mais religiosas. As religiões parecem que mais aprisionam as pessoas nos seu dogmas , do que libertam è uma falsa sensação de liberdade, então fica facil compreender ( mas não aceitar) a necessidade de aprisionar os outros nestas crenças. Belo texto com os ventos da liberdade.

    Namastê!
    Andrea.

  5. Pedro, muito obrigada. Não tenho ideia de onde nós, praticantes de Yoga, tiraríamos essas informações tão atuais e ao mesmo tempo embasadas na História do mundo. E que bom que o praticante não tem classe social determinada na sua sala.

  6. Muito bom amigo!
    Continue assumindo suas posições, independente de quais forem. O dharmin é aquele que faz o que deve ser feito. Em um mundo repleto de falsidade e covardia, onde muitos se escondem como falsos moralistas e pseudo-defensores do dharma, apontando e esquecendo que os demais dedos estão voltados para ele próprio. “Quem é amigo de todo mundo não é amigo de ninguém!” Rezo e agradeço por todos os inimigos que tive em minha vida, pois me fizeram crescer e superar meus obstáculos.
    Jaya!

  7. Por termos liberdade de praticar o yoga sem restrições ou perseguições, eu digo: Graças a Deus ou Alá ou Jeová ou …

  8. Muito bom!!
    Textos assim so nos motivam mais a disciplinarmos mais as nossas práticas a nos tornamos mais conscientes do presente e saber que não importa os outros fizemos tudo por nos mesmo e pelo beim de todos .
    Namaste!

  9. Oi Pedro,

    Harih Om!
    Sinto um pouco disto tudo na pele todos os dias. Moro em uma cidade bem pequena onde 70% da população são católicos ferrenhos, 20% evangélicos e os outros 10% tendo de tudo um pouco. Posso relatar o absurdo de passarem a frente do studio e imediatamente fazerem o sinal da cruz(como se isto afastasse os bichos que eles tem dentro do coração e da cabeça sem muito conhecimento), olha que não falo de pessoas pouco instruidas, pena, ignorantes.
    Bem, os relatos poderiam lotar este comentário mas o que posso concluir é que, seja qual for sua posição na sociedade que vivencia, se não tiver conhecimento, terá pré- conceito, respeito e tolerância é para quem olha para os lados e não apenas para quem olha o próprio umbigo ou o umbigo de quem escolheu para muleta.
    Caminhar para a liberdade, moksha, não é fácil e o caminho nem deve ser curto, ter bom-senso faz sempre a diferença. Não me importo que me olhem diferente pelo simples fato de ouvirem que sou professora de yoga, me coloco sempre a disposição desta sociedade que escolhi para viver e sei que quem chega perto e me conhece de fato percebe que o diferente não está em mim.
    Que tenhamos sempre esta boa disposição e tolerância para com esta situação e vamos continuar em frente com o nosso firme propósito de conhecer o Yoga, vivenciar esta maneira linda, tranquila e feliz de existir.
    AH!!! esqueci de dizer que meus vizinhos de fundo são jeovás, que tal? quando me perguntaram o que eu fazia, dá para imaginar a fisionomia deles, rs….
    Abraços, Adriane Kassis
    Namastê!!! Boas Ondas.

  10. Yoga… a revolucao silenciosa… titulo de um livro de Maria Sueli Firmino, da o tom do que acontece ao esclarecermos nosso cristal interior, livres de condicionamentos e automatismos…
    Yogascittavrttinirodhah… a cessacao do movimento automatico… Esses manipuladores estudam e sabem muito bem das caracteristicas de um ser humano, a forma como influenciar psiquicamente, as palavras certas, os medos que o ser humano desta epoca possui(a maior forma de manipulacao), como por exemplo o terrorismo sendo divulgado nos EUA como uma forma de fazer toda a opiniao publica concordar e tolerar o massacre de milhares e milhares de vidas… e tudo isso por dinheiro e graxa!
    Mas tudo tem volta… a lei do karma, acao e reacao… E hora de despertar, saber pensar com seu proprio cerebro, esse maravilhoso equipamento ja tao atrofiado pela televisao, midia, jogos, alimentos industrializados… que assim fica mais facil ainda de ser manipulado por lideres corruptos que nao estao nem ai para os cidadaos do mundo (religiosos, politicos), e que lhe autorizam a venda de transgenicos e produtos toxicos ao meio ambiente(humanos incluidos, na onda de controle de populacao…).
    Um desses “lideres” pode estar ai do seu lado neste momento, pela luta por mais e mais energia… um vampiro psiquico prestes a usar todos os meios para atingir seus objetivos egoistas. Abram os olhos! Saia de frente da sua tv, voce esta sendo apenas mais um produto do sistema! “Pouco se espera de uma nacao, em que o heroi e a televisao”. E aqueles que pensam e fazem a diferenca, como Jesus, sao crucificados!
    Pensar no mangala mantra, em que rezamos para que os lideres mantenham o caminho correto… faz doer por dentro de pensar nos lideres que temos por ai. Lideres de um rebanho que baixa a cabeca e aceita tudo, sem perceber que caminha para um precipicio. Mas o mangala mantra finaliza pedindo que “haja protecao para aqueles que sabem que esta terra e sagrada”.
    Esse grupo que respeita o solo que pisa, e todos que nele pisam tambem, mantem a vida sob todas as formas, nos atos diarios, como nao comprar produtos em que usem animais em teste como cobaias, por exemplo.
    E isso ai, muito legal este texto, parabens pela abertura de consciencia promovida, para mostrar que Yoga nao e so ficar saradinho, esguio, com tudo durinho… blablabla de midia… eu pratico ha dez anos, e cada vez mais liberto. Recomendo a todos. E mantenham o respeito!

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