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Purushottama Prapti Yoga – Bhagavad Gita, canto XV

Escrito por Vyasadeva · 3 mins de leitura >

Yoga do alcance do Princípio Supremo

Fala Krishna:

1. Eterno é chamado o Ashvattha, a figueira sagrada que tem suas raízes para cima e os ramos para baixo. Suas folhas são os hinos vêdicos (1). Quem o conhece, conhece os Vedas.

2. Seus ramos se espalham para cima e para baixo, nutridos pelas três qualidades. Suas folhas são os objetos dos sentidos. Suas raízes, os vínculos da ação no mundo dos mortais (2), se estendem para baixo.

3. Neste mundo não é possível compreender sua forma real, seu começo, seu fim e sua base. Quando o homem consegue derrubar essa árvore de raízes profundas com o poderoso machado do desinteresse,

4. pode ir à procura daquela Meta, da qual, desde que se consiga alcançá-la, não se retorna jamais. Refiro-me àquele Princípio Primordial, de que brotou a antiga emanação (3).

5. Aqueles que, isentos de orgulho e erro, venceram o mal das afecções (mundanas) e vivem concentrados no Espírito Supremo, tendo extinguido seus desejos, libertos dos “pares contrários” denominados prazer e dor, encaminham-se sem extravio à Meta perdurável,

6. aquela esplendorosa Meta que não é iluminada nem pelo Sol, nem pela Lua, nem pelo fogo e de onde não retornam aqueles que A alcançaram. Essa é Minha Morada Suprema.

7. Uma parte eterna de Mim mesmo, convertida em Espírito individual (4) no mundo dos viventes, atrai o sentido interno e os outros cinco sentidos que têm sua sede na natureza material.

8. Quando o Senhor toma posse de um corpo, ou quando o abandona, leva consigo o sentido interno e os demais (5), assim como a brisa transporta o perfume das flores.

9. Pelo domínio que tem sobre o ouvido, a vista, o tato, o olfato e o paladar, assim como sobre o sentido interno, entra em relação com os objetos dos sentidos.

10. Os que vivem em erro não vêem o Senhor ausentando-se ou permanecendo no corpo, ou experimentando sensações, influenciado pelas qualidades, mas percebem-No, aqueles que estão dotados do olho da sabedoria.

11. Através de seus esforços, os yogis O vêem situado neles mesmos; mas os insensatos, tendo a mente mal preparada, não O percebem, por mais que O desejem.

12. O esplendor desprendido pelo Sol e que ilumina toda a Terra, assim como o da Lua e o do fogo, sabe que procedem de Mim.

13. Penetrando na Terra, sustento todas as criaturas com Minha energia vital e, transformado em soma (6) suculento, nutro todas as plantas e lhes dou sabor.

14. Transformado em calor (7), penetro no corpo de todos os seres que respiram e, unindo-Me ao ar inspiratório e expiratório, produzo a digestão dos quatro tipos de alimento.

15. Habito o coração de todos e de Mim provêm a memória, o conhecimento e a provação de ambos (8). Sou o que se deve conhecer em todos os Vedas. Sou o autor do Vedanta (9) e o conhecedor dos Vedas.

16. Neste mundo há dois princípios: um perecível e outro imperecível. O perecível é a totalidade dos seres viventes; o imperecível é denominado o Imutável.

17. Mas há outro princípio, o mais elevado, a que se dá o nome de Espírito Supremo (10), o Senhor Eterno e Infinito que preenche e mantém os três mundos.

18. Porque sou superior ao perecível e ao imperecível, o mundo e os Vedas Me proclamam Princípio Supremo (11).

19. Aquele que, livre de ilusão, Me conhece como Princípio Supremo, Me adora com um conhecimento completo e em todas as condições de seu ser natural.

20. Assim acabo de desvelar-te a mais misteriosa doutrina, ó tu que não tens pecado. Quem chega a conhecê-la merece o nome de sábio, e toda sua obra está consumada, ó descendente de Bhárata.

Notas:
(1) O Ashvattha é o símbolo do Universo, da vida e do ser. Suas raízes simbolizam o Ser Supremo, a Causa Primeira, a raiz do Cosmo. A corrente cíclica da existência individual é representada por seus ramos que descem até o solo engendrando novas raízes. Essa árvore só pode ser derrubada através do conhecimento espiritual. Sua destruição conduz à Imortalidade.
(2) Essas raízes secundárias, símbolo das obras sugeridas pelos desejos ou inclinações pessoais, prendem o homem a sucessivos nascimentos.
(3) Pravritti, o Universo, ou mundo dos fenômenos.
(4) Jíva, o Eu humano.
(5) De acordo com a filosofia Sámkhya, o Espírito individual (Jíva) se reveste de um corpo fluido, sutilíssimo, etéreo, constituído pelo intelecto (buddhi), consciência egóica (ahamkára), sentido interno (manas) e os cinco elementos sutis (tanmátras), correspondentes aos cinco sentidos. Esse corpo sutil, laço de união entre o Espírito e a matéria, acompanha o Espírito (Jíva) em suas transmigrações, até que este se liberte definitivamente, quando o corpo sutil se dissolve para sempre na matéria primordial, enquanto o Espírito se absorve na Divindade.
(6) A seiva que nutre os vegetais.
(7) A digestão, segundo antiga crença dos hindus, devia-se a um fogo interno.
(8) Assim como o conhecimento e a memória são dotes dos justos, os pecadores perdem tais faculdades.
(9) O Vedanta (literalmente “final dos Vedas“), sistema de interpretação dos Vedas, é posterior à Bhagavad Gítá. Segundo Ádi Shankaracharya, essa passagem significa: “Sou o intérprete das verdades dos Vedas“.
(10) Paramátman.
(11) Purushottama.


Traduzido para o castelhano por Roviralta Borrel (1856-1926), e deste para o português por Eloísa Ferreira.
Publicado originalmente pela Editora Três, de São Paulo, em 1973, na Biblioteca Planeta, Volume 7.
Digitado por Cristiano Bezerra.

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