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Ramana Maharshi, o santo hindu

Zimmer vinha se interessando há muitos anos pelo Maharshi de Tiruvannamalai, e a primeira pergunta que me fez, quando voltei de minha viagem à Índia, foi a respeito desse novo santo e sábio da Índia

Escrito por Carl Gustav Jung · 6 mins de leitura >

Heinrich Zimmer vinha se interessando há muitos anos pelo Maharshi de Tiruvannamalai, e a primeira pergunta que me fez, quando voltei de minha viagem à Índia, foi a respeito desse novo santo e sábio da Índia Meridional. Não sei se meu amigo considerava um pecado imperdoável, ou pelo menos incompreensível, de minha parte, o fato de não ter ido visitar Sri Ramana. Minha impressão era de que dificilmente ele teria deixado de fazer tal visita, tão calorosa era a sua participação na vida e no pensamento desse santo. Isso não me surpreendia, porquanto eu sabia com que profundidade Zimmer penetrara no espírito da Índia. Seu mais ardente desejo, que era o de ver a Índia pessoalmente em sua realidade, infelizmente não chegou a materializar-se, e a oportunidade que teve para isso desvaneceu-se às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Ele possuía uma visão grandiosa da Índia espiritual. Ele me proporcionou, num trabalho de colaboração, inestimáveis conhecimentos da alma oriental, não só pela sua especialização, como principalmente por sua compreensão genial do sentido da mitologia hindu. Cumpriu-se, infelizmente, o ditado segundo o qual os prediletos dos deuses morrem prematuramente, e resta-nos apenas lamentar a perda de um espírito que venceu as limitações de um saber especializado e, voltado para a Humanidade, proporcionou-lhe o beatificante dom de “frutos imorredouros”.

O depositário da sabedoria mitológica da Índia tem sido, desde os tempos mais remotos, o “santo”, designação ocidental que não expressa com fidelidade a essência e a maneira de se manifestar dessa figura paralela do Oriente. Essa figura corporifica a Índia espiritual, e a encontramos muitas vezes na literatura. Por isso, não é de admirar que Zimmer se interessasse apaixonadamente pela encarnação mais recente e mais perfeita desse espécime na pessoa de Sri Ramana. Ele via nesse yogi a realização avatárica da figura ao mesmo tempo lendária e histórica do rishi, o vidente e filósofo perambulante através dos séculos e dos milênios.

Tudo indica q eu deveria ter visitado Sri Ramana. Receio, porém, que me acontecesse a mesma coisa, se eu tivesse de voltar à Índia para recuperar as oportunidades perdidas, ou seja, que, não obstante se tratar de um tipo único e irrepetível, me faltasse, mais uma vez, o ânimo de visitá-lo pessoalmente, ainda que seja inegável o fato de tratar-se de figura de grande significação. Gostaria, no entanto, de dizer que duvido de sua irrepetibilidade. Ele é um tipo que existiu e sempre existirá. Por isso achei desnecessário visitá-lo. Vi-o por toda parte, na vida e na figura de Ramakrishna, nos discípulos deste último, nos monges budistas, nos personagens da vida cotidiana da Índia, e as palavras de sua sabedoria são o sous entendu (o substrato) da vida da alma da Índia. Nesse sentido, não há dúvida de que Sri Ramana é um hominum homo, um verdadeiro “filho do homem” da terra hindu. É autêntico e, ainda mais, é um fenômeno que, visto na perspectiva da Europa, reinvidica sua singularidade. Mas na Índia ele é o ponto mais alvo de uma superfície alva (cuja alvura só mencionamos porque existem outras tantas superfícies negras). Na Índia, ademais, vê-se tanta coisa que afinal se gostaria de ter visto muito menos, e a imensa variedade de regiões e de tipos humanos produz um desejo profundo de simplicidade. E também existe simplicidade na Índia: ela impregna a vida psíquica do hindu como um perfume ou uma melodia: sempre a mesma em toda a parte, mas nunca monótona e sim variando sempre ao infinito. Para conhecê-la, basta ler uma Upanishad ou alguns diálogos de Buddha. Neles ressoa o eco do que se ouve por toda parte, falando-nos através de milhões de olhos e expressando-se em um sem número de gestos. E não há aldeia nem estrada principal que não tenha aquela árvore de largos ramos a cuja sombra o ego não busque sua própria supressão, afogando no universo e na unidade comum o mundo da multiplicidade das coisas. Eu senti esse apelo na Índia a tal ponto, que depois não conseguia desvencilhar-me de sua força persuasiva. Eu estava, portanto, convencido de que ninguém era capaz de superá-lo, e menos ainda o sábio. E se Sri Ramana dissesse alguma coisa que destoasse dessa melodia, ou pretendesse saber mais do que isso, em qualquer das hipóteses o iluminado estaria errado. Foi essa laboriosa argumentação, perfeitamente concordante com o calor do clima da Índia Meridional – se o santo está certo, ele reproduz fielmente o antigo tom da Índia; se lhe empresta uma nota diversa, está errado – que me impediu de visitar Tiruvannamalai, e disso não me arrependi.

Foi justamente esse caráter impenetrável da Índia que me proporcionou a ocasião de encontrar o santo, e isso de maneira muito mais cômoda para mim, e sem que o tivesse procurado: em Trivandrum, capital de Travancore, encontrei um dos discípulos do Maharshi. Era uma figura humilde e seu status social, o de um professor primário, fez-me lembrar vivamente o sapateiro de Alexandria que foi apresentado (na descrição de Anatole France) a Santo Antão, pelo anjo, como um modelo de santo muito mais perfeito do que ele. Meu pequeno Santo tinha, em relação ao grande, a vantagem de ter de alimentar numerosa prole e de cuidar, à custa de muito sacrifício, dos estudos de seu filho mais velho. (Não pretendo desviar a atenção para o problema de saber se os santos são sempre sábios e, vice-versa, se os sábios são sempre santos. Há algumas dúvidas a esse respeito). Seja como for, nessa figura humilde, amável e piedosa como uma criança, encontrei um homem que sorveu, de um lado, e com toda a dedicação, a sabedoria do Maharshi, e, de outro, superou seu próprio mestre, por ter “comido o mundo”, apesar de toda a sua circunspecção e santidade. Considero esse encontro como uma grande gratidão, pois nada de melhor poderia ter-me acontecido. O puro sábio e o puro santo me interessam tanto como um raro esqueleto de sáurio, incapaz de me comover até as lágrimas. Mas fascinou-me a estranha contradição entre o seu ser subtraído à maya (ilusão) no Si-mesmo cósmico e a fraqueza amorosa que mergulha fecundamente suas raízes na terra negra, para repetir, como eterna melodia da Índia, para sempre o trabalho de urdidura e o do rasgar-se do véu; sim, essa contradição me fascinou, pois, de outro modo, como se poderia ver a luz sem a sombra, sentir o silêncio sem o barulho, alcançar a sabedoria sem a estultícia? Não há dúvida de que a mais dolorosa experiência é a da santidade. Nosso homem – Deus seja louvado – era apenas um pequeno santo: não um cume se projetando por sobre abismos tenebrosos, nem um jogo emocionante da natureza, mas uma demonstração de que a sabedoria, a santidade e o humano podem “conviver harmoniosamente entre si”, numa relação rica de ensinamentos, amigável, pacífica, sem convulsões nem singularidades, sem espanto nem sensacionalismo de qualquer espécie, e sem necessidade de uma agência especial de correio; mas cultura a brotar de suas raízes mais antigas e primitivas, envolta na atmosfera suave e inebriante dos coqueiros que balouçam ao sopro do vento marinho, sentidos mergulhados na fantasmagoria do ser, correndo soltos e em disparadas: libertação da escravidão, vitória na derrota.

É na literatura que melhor se apresenta a pura santidade e a pura sabedoria, e aí sua fama está fora de discussão. No Tao Te King lê-se o que de melhor nos oferece Lao Tsé. Mas um Lao Tsé celebrando o entardecer de sua vida em companhia de uma dançarina na vertente ocidental da montanha já é menos edificante. É impossível, por razões facilmente compreensíveis, concordar com o desprezo do corpo do puro santo, especialmente quando se acredita que a beleza está incluída entre o que de mais nobre Deus criou.

As idéias de Sri Ramana são de agradável leitura. Nelas encontramos a Índia mais pura, com sua aura de eternidade, arrebatada e ao mesmo tempo nos arrebatando do mundo, um cântico dos milênios que reproduz, como o cantar dos grilos numa noite de verão, as vozes e os sons de milhares de seres. Essa melodia é construída sobre o único grandioso tema que, dissimulando sem esmorecimento sua monotonia em reflexos de mil cores, rejuvenesce eternamente no espírito da Índia, e cuja encarnação mais recente não é senão o próprio Sri Ramana: é o drama do ahamkara (a “formação do ego” ou da consciência do eu) em sua oposição e em sua indissolúvel união com o Atman (o Si-mesmo ou o non-ego). O Maharshi também denomina o Atman do “Eu-Eu”, muito significativamente, portanto, visto que o Si-mesmo é sentido como sujeito do sujeito, como a verdadeira fonte e o verdadeiro canal do eu cuja aspiração constante (e errônea) é apropriar-se daquela autonomia cuja percepção deve justamente ao Si-mesmo.


Extraído do capítulo 6 – O Santo Hindu (Introdução a Heinrich Zimmer, Der Weg zum Selbst. Lehre und Leben des indischen Heiligen Shri Ramana Maharshi aus Tiruvannamalei, Zurique 1944), do livro Psicologia e Religião Oriental (Zur Psychologie westlicher und östlicher Religion), traduzido por Pe. Dom Mateus Ramalho Rocha, 5a ediçao, de 1986, das Obras Completas de C. G. Jung, volume XI/5, da Editora Vozes, de Petrópolis, RJ.

Digitado por Cristiano Bezerra.

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