Pratique, Yoga na Vida

Reflexões sobre sofrimento e felicidade

A vida de grande parte das pessoas hoje, na sociedade em que vivemos, é movida por um sentimento chamado descontentamento. Como se dá isso? Bom, para entender esse sentimento, vou começar falando pelo seu oposto, o contentamento

Escrito por Tales Nunes · 4 mins de leitura >

A vida de grande parte das pessoas hoje, na sociedade em que vivemos, é movida por um sentimento chamado descontentamento. Como se dá isso? Bom, para entender esse sentimento, vou começar falando pelo seu oposto, o contentamento.

 

A chave do contentamento está na aceitação. Aceitação de nós mesmos, das situações e das pessoas ao nosso redor da maneira como elas são. Essa aceitação chama-se, em sânscrito, kshanti. Não é sobre o simples comodismo que estou falando aqui, mas da profunda compreensão da diferença que existe entre o que eu posso e o que não posso mudar.

 

Em relação àquilo que tenho condições de mudar, devo me esforçar. No entanto, em relação ao que não tenho capacidade de mudar, somente cabe a aceitação sem resistência. Se não fizer isso, estarei gerando descontentamento e, consequentemente, sofrimento. Existe uma prece que diz:

Abençoa-me com a serenidade

Para aceitar graciosamente

Sem resistência

Tudo aquilo que eu não posso mudar.

Abençoa-me com a vontade

O esforço e a coragem

Para mudar aquilo que posso mudar

O que talvez precise mudar.

Abençoa-me com a sabedoria

Com claro discernimento

Para distinguir aquilo que não posso mudar

Daquilo que posso mudar.

 

Essa é uma prece bonita, que nos ajuda a internalizar a idéia de que há coisas que podemos e outras que não podemos mudar. No entanto, a oração não nos diz concretamente o que está dentro da nossa capacidade de transformação e o que não está.

 

 

Tudo o que sai através dos nossos karmendriyas (órgãos de ação), são ações controladas, mas nem sempre conscientes. Ou seja, temos de fato controle sobre as nossas ações. Porém, os resultados dessas ações estão totalmente fora do nosso controle, logo devemos aceitá-los, quais sejam, isso se chama Isvara pranidhana, entrega, fé.

 

Esses resultados podem ser de quatro tipos: a) pode acontecer exatamente o que esperamos, b) pode acontecer menos do que esperamos, c) pode acontecer mais do que esperamos, ou d) pode acontecer algo completamente diferente do que esperamos.

 

É comum ouvirmos (ou falarmos) frases como ‘eu nunca esperava por isso, eu fiz tudo certo!’, quando a expectativa está relacionada a coisas ou ‘eu nunca esperaria isso de você, porque fez isso comigo!?’ quando a expectativa está relacionada a pessoas.

 

É importante entendermos que, se já é difícil mudar a nós mesmos, é totalmente impossível a forma de ser ou agir dos demais. Tentar mudar outras pessoas pode trazer descontentamento, assim como não compreender ou não estar aberto às mudanças delas. Digo isso porque passo por um momento em que estou sendo chamado a colocar isto em prática, numa relação amorosa. Aliás, essa foi a motivação deste texto.

 

Porém, como explicar essa situação seria um longo parêntese, voltemos ao assunto. Aceitando as situações que não podemos mudar e as pessoas como elas são, estamos prestes a nos livrar de pequenos e grandes sofrimentos cotidianos. Mas, para termos essa compreensão é necessário um pré-requisito fundamental: estarmos em paz conosco. E estar em paz consigo significa conhecer-se, ver e aceitar as próprias limitações e entender quais são as suas reais necessidades.

 

“Quem sou eu?” “Para que estou aqui nesse mundo?” Estas são perguntas existênciais que quase todos nos fazemos em algum momento. E mesmo quem não as formula de maneira consciente, sofre igualmente as conseqüências de não ter as respostas. Se eu não souber quem sou, não conhecer minhas qualidades e limitações, como saberei para que estou aqui neste mundo?

 

Todos sentem suas limitações, uns mais claramente do que os outros. Mas a diferença entre quem sofre com elas e quem não sofre, é que o segundo as vê claramente, as aceita e aprende com elas, cultivando kshanti; enquanto que o primeiro as rejeita e inconscientemente projeta essa falta nos outros. Ou seja, projeta a responsabilidade pela própria felicidade sobre outras pessoas.

 

No entanto, o problema é que, como disse anteriormente, o outro está fora do nosso controle e quase nunca corresponde a nossa projeção. E então o resultado é o descontentamento e o sofrimento. Por outro lado, se eu estiver bem resolvido em relação a quem sou eu, a minha auto-imagem, mas não tiver claro para que estou aqui, qual é o meu dharma, provavelmente estarei infeliz com o que estou fazendo. Infeliz com o trabalho, projetando a felicidade no futuro, nos finais de semana, nas férias de final de ano, na aposentadoria ou em bens.

 

Projetar a nossa felicidade em bens materiais é conseqüência, também, do desconhecimento de nós mesmos, das nossas reais necessidades. E quais são as nossas reais necessidades? Ter esse discernimento, na sociedade de consumo em que vivemos hoje, não é algo simples. A todo momento, nossos sentidos são bombardeados por estímulos e nossa mente é convidada a creditar que meios são fins. Por exemplo: preciso de um meio de transporte para me locomover a longas distâncias em um curto período de tempo na cidade.

 

Esse meio transforma-se num fim à medida que sou convencido de que preciso do carro X, capaz de correr na velocidade Y, a qual nunca poderei alcançar porque as leis de tránsito não permitem. Além disso, a publicidade promete que, com aquele veículo, terei a mulher dos meus sonhos e, finalmente, a minha felicidade. Essa confusão entre meios e fins acontece com tantos objetos que podemos acabar por acreditar que nossa felicidade depende de conseguirmos esse tipo de objeto.

 

Em resumo, buscamos contentamento em outras pessoas, em bens materiais, em viagens. Às vezes até mudamos de cidade e de vida, achando que a felicidade finalmente virá. Mas, após uma dessas mudanças, alguns meses se passam e a miséria existencial, volta às vezes até mais forte do que antes.

 

A busca pela felicidade fora de nós mesmos nunca tem fim nem traz contentamento. Pelo contrário, nos deixa mais longe da paz, dando voltas incessantemente na roda do samsara. É apenas quando percoremos o caminho de volta, de retorno a nós mesmos, que começamos a nos aproximar da paz e do contentamento que todos procuramos.

 

 

Tales é professor de Yoga e mestrando em Antropologia na UFSC. O email dele é [email protected].

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12 respostas para “Reflexões sobre sofrimento e felicidade”

  1. Oi, Daniela! Obrigado pelo seu comentário, e fico feliz em saber que as palavras te ajudaram. Harih Om! E o Yoga continua…

  2. Oi, Tales! Adorei esse seu artigo! O Yoga tem me ajudado muito a saber separar a aceitação e a ação, me dando coragem para mudar antigos padrões no meu relacionamento. Coisas que sempre me incomodaram, mas que eu aceitava por comodismo ou mesmo carência e medo, principalmente. Quando se tem muito tempo de relacionamento, há um desgaste natural, e você vai deixando passar muita coisa. Como você disse: não adianta querer mudar o outro, principalmente se ele não quer mudar, mas também não temos que aceitar tudo, mesmo que as coisas já não te incomodem tanto. E o Yoga tem me mostrado cada dia mais o que realmente importa!

    Obrigada por compartilhar sua sabedoria e visão tão clara. Você me deu uma força num momento importante!

    Muita Luz.

    Namastê!

  3. Às vezes penso em mudar de cidade pensando que assim vou poder me mudar de mim… mas estou me contentando com as coisas, mais ou menos do jeito que vc falou!

    Guarda um cantinho aí na sua varanda que eu já já chego aí, viu?

    Beijão! :*****

  4. Tales, é realmente muito inspirador esse seu artigo! Nos remete à reflexão de vários aspectos de nossa vida e relacionamentos… Definitivamente o contentamento se mostra como o caminho para a auto-realização! Agradeço por me ajudar a enxergar isso…
    Hari Om.

  5. Obrigado pelo comentário, Roberto. Fico feliz que tenha gostado do artigo. Paz e luz pra você!

  6. Cara Maria Cristina, obrigado pela sua pergunta. Espero conseguir respondê-la. O Yoga diz que, na realidade, nós já somos a felicidade que procuramos. Ela está no nosso coração, só que encontra-se coberta por alguns véus (raiva, rancor, medo…). Através da minha experiência pessoal, digo que, com as práticas do Yoga: yamas e niyamas, ásanas, pranayamas, meditação… nós nos purificamos, interiorizamos a nossa consciência e, aos poucos, retiramos alguns desses véus. Outros continuam lá, mas nós aprendemos a lidar com eles e a nos aceitar como somos, com todas as nossas limitações. E é só a partir daí que nós conseguimos aceitar o mundo como ele é, e relaxar mais. Nesse processo, percebemos, também, que o mundo é como eu o vejo. A depressão do mundo, na verdade, é a minha depressão. Espero ter esclarecido um pouco a sua pergunta. Qualquer outra dúvida, estou a disposição. Harih Om! Paz e luz pra você!

  7. Referente a esse artigo, gostei muito, pois chama nossa atenção para reflexão sobre o sofrimento que temos que passar e a felicidade de, se tivermos força de vencer o sofrimento, lá do outro lado teremos a felicidade e a paz que sempre alvejamos. Parabéns para o autor e o site. Meus agradecimentos. Paz e Amor eternos.

  8. A partir de quais práticas é possível buscar ? e encontrar ? a felicidade dentro de si mesmo? Sobretudo numa sociedade de deprimidos?

  9. Achei lindo esse artigo “Reflexões sobre sofrimento e felicidade”. Nos faz pensar e meditar sobre tanto incômodo que sentimos com amigos, parentes e pessoas que conhecemos. Realmente me tocou e despertou uma nova mentalidade.

  10. Tales, esse seu artigo fala de algo muito simples e singelo – o contentamento, mas tão difícil para se alcançar, principalmente no mundo atual, onde o consumismo é exacerbado e os meios de comunicação nos levam a consumir e consumir… Quem consome é valorizado, e o “ter ” é alimentado em detrimento do ser. A aparência é considerada mais importante do que a essência. Mas acredito que mesmo assim essa busca da essência é muito importante para quem quer ser feliz. Parabéns pelo artigo. Da coruja Denise.

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