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Resenha do livro Uma visão ayurvêdica da mente

Na busca por compreensão dos conceitos desenvolvidos há milhares de anos na Índia, muitas vezes nos perdemos. No Ayurveda não é diferente, e Frawley parece ser uma exceção

Escrito por Rodrigo Gomes Ferreira · 4 mins de leitura >

Na busca por compreensão dos conceitos desenvolvidos há milhares de anos na Índia, muitas vezes, nos perdemos ora na linguagem hermética dos textos antigos em sânscrito, ora pela falta de boas ‘traduções’ que contextualizem estes ensinamentos em nossos dias. No ayurveda não é diferente, e Frawley parece ser uma exceção. Talvez seja um dos poucos não-indianos a compreender profundamente os vários campos de conhecimento ligados pela tradição védica em que o ayurveda está incluído, e ser capaz de oferecer uma lúcida apresentação mostrando suas inter-ligações.

O ayurveda é a medicina da mente e do corpo da Índia, e um dos sistemas de cura mais antigos do mundo. Este livro analisa principalmente o aspecto psicológico do ayurveda, com ensinamentos derivados dos textos clássico, porém numa tentativa de tornar os ensinamentos relevantes ao mundo moderno. É uma parte dos estudos de Frawley, que pode ser complementada com outros livros seus: Ayurvedic Healing: a comprehensive guide, Beyond the Mind, Tantric Yoga and the Wisdom Goddesses: Spiritual Secrets of Ayurveda ? todos ainda sem tradução para o português.

Como o próprio autor coloca, é um livro mais técnico e profundo sobre ayurveda se comparado às obras populadoras que ele tem conhecimento. Talvez um dos poucos mais acessíveis na apresentação da questão psicológica desta medicina indiana. Porém, mesmo sendo uma proposta dirigida aos que querem informações mais profundas, Frawley alega que não é necessário conhecimento prévio sobre o assunto. De fato, há uma introdução aos conceitos básicos do ayurveda, mas acho interessante uma pequena noção do assunto para que se aproveite melhor a riqueza do conteúdo; até por não ser comum encontrar muita profundidade sobre a visão ayurvédica da mente.

O livro se organiza em quatro grandes partes, com mais dois apêndices. A primeira parte é uma introdução aos conceitos básicos do ayurveda, como os doshas (vata, pitta, kapha), a contra-partida sutil dos doshas (prana, tejas, ojas), os gunas (sattva, rajas, tamas), e os elementos (éter, ar, fogo, água, terra). As explicações são bastante generosas e trazem exercícios para uma observação prática dos conceitos pelo leitor para incorporar melhor os ensinamentos. Já nesta parte há um direcionamento para as questões psicológicas com explicações das relações entre os cinco elementos e a mente, e também uma prática para a identificação de sua natureza mental.

Com esta introdução, a segunda parte continua usando os conceitos básicos para uma explicação da energética da consciência. Busca-se clarear questões como: o que é a consciência? Por meio de quê nós pensamos, sentimos e percebemos? São apresentados os conceitos, a composição, e as funções, de cada aspecto do complexo mental – citta (a consciência condicionada), buddhi (a inteligência), manas (a mente exterior), e ahankara (o ego). Na exposição há sempre riqueza das inter-relações entre os conceitos, bem como um ponto de vista prático; colocando, por exemplo, o que seria o desenvolvimento apropriado de cada um destes aspectos, e um exercício para se compreender os diversos níveis da mente.

A terceira parte aborda as terapias ayurvédicas para a mente. O autor coloca que estas são sempre multi-facetadas, visando melhorar o desenvolvimento espiritual e promover o bem-estar da mente. Há explicações sobre o aconselhamento ayurvédico e a mudança comportamental dentro de seus fatores físicos, psicológicos, sociais, e espirituais. Seguindo o foco nas questões psicológicas, é apresentado o ciclo de nutrição para a mente, dando ênfase ao papel das impressões numa ‘dieta mental’. Frawley também aborda modalidades exteriores de terapia como importantes, explicando sobre o regime alimentar, ervas, massagem e pañca karma (principal método ayurvédico de purificação física). As terapias sutis, segundo autor, são os tratamentos sensoriais mais importantes do ayurveda, podendo mudar nossa consciência mental e emocional. Trata-se da terapia das cores, das pedras preciosas, e dos aromas. Para finalizar o capítulo, há uma abordagem sobre o poder de cura dos mantras como uma terapia para o nível espiritual, o mais sutil na cura.

Frawley começa a última parte do livro dizendo que ‘o bem-estar mental e emocional não é um fim em si mesmo. É o começo da vida espiritual’ (p.185). E ‘por essa razão o ayurveda sempre nos leva ao Yoga’ (p.187). É o ponto de vista que demonstra uma clara função do ayurveda, e acho que também permite uma fluída conexão na exposição da relação desta ciência com o Yoga. Outro exemplo, que o autor coloca desta inter-relação, é que a própria visão da consciência e muitas das modalidades de tratar a mente no ayurveda derivam do Yoga. Escrevendo sobre o aspecto espiritual, o autor discorre bastante sobre a importância da devoção e do auto-conhecimento. Logo em seguida apresenta o ‘método óctuplo da Yoga’, que é o ashtanga yoga de Patañjali. Todos os ‘anga’ (partes) são explicados fazendo uma relação entre os conceitos ayurvédicos. Também há técnicas aplicadas; como de pratyahara e dharana. Esta quarta parte termina com conceitos de samadhi, distinções entre diferentes tipos ? com ou sem forma, espirituais ou não espirituais, diferentes níveis etc.

Os apêndices complementam fornecendo tabelas explicativas ? os três corpos, os cinco invólucros, os sete níveis do universo, os sete chakras, os cinco pranas, e uma tabela de funções da mente e um diagrama da evolução cósmica ? bem como notas sobre conceitos e idéias usados no decorrer do livro, glossário sânscrito (sem devanagari, nem transliteração), glossário de ervas, bibliografia, e fontes de estudo.

O livro demonstra bem a habilidade de Frawley em tecer ligações entre conceitos de diferentes campos de conhecimentos indianos. Neste caso, principalmente entre o ayurveda e o Yoga. Também é interessante por fornecer uma visão pouco abordada do ayurveda, e de grande relevância para yogis que queiram sincronizar diferentes saberes aplicados ao sadhana. Mesmo com um discurso fluído, é também denso; o que pode pedir mais do que uma leitura trivial. Porém é uma boa fonte para o estudo, e que pode ajudar no pensamento integrado entre diferentes tradições védicas, aplicados na prática.

A indicação fica, como sugere o próprio autor, para psicólogos e terapeutas. Yogis que também se interessam por ayurveda também pode apreciar, principalmente para se trazer boas aplicações terapêuticas à prática de Yoga.


Rodrigo Gomes Ferreira trabalha com os Cadernos de Yoga.

Essa sua resenha foi originalmente publicada nas páginas 83 a 86 da edição no 01, do Verão de 2004, dos Cadernos de Yoga.

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