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Tantra yoga: ensinamento para o crescer e não técnica para o prazer

Muito já se falou sobre Tantra Yoga mas, afora dos livros escritos por quem realmente entende do assunto e só fala o que sabe, me desculpem injustiças a parte, só li bobagens. Tentam "vender" o Tantra como se fosse o "viagra indiano"

Escrito por Carmen Kuasne · 4 mins de leitura >

Muito já se falou sobre Tantra Yoga mas, afora dos livros escritos por quem realmente entende do assunto e só fala o que sabe, me desculpem injustiças a parte, só li bobagens. Tentam “vender” o Tantra como se fosse o “viagra indiano”. Os oportunistas de plantão e os viciados em sexo são os primeiros a se animar, só que Tantra Yoga não é nada disso.

Tantra é uma das Escolas de Yoga que surgiu na Índia, por volta do século 500 a.C., e se tornou um estilo de vida na época. Não é um ritual, mas um caminho para a expansão da consciência, da união da mente humana com a Consciência Cósmica, por meio de nossas conquistas e derrotas, pois no Tantra nada se perde, tudo se aproveita.

Aí vem alguém e diz: “Mas, e o sexo tântrico, não dá para ir logo ao que interessa?”. Não existe sexo tântrico e sim uma parte do Tantra, um dos caminhos em que, depois de muita preparação, mas muita mesmo, se utiliza o sexo para alcançar a iluminação espiritual. Esse é o chamado caminho da mão esquerda. Existem dois, o caminho bom e o caminho do bem. Este último, o da mão direita, é o preferido, inclusive pela maioria dos mestres e professores de Yoga, por utilizar métodos mais puros e individuais para se alcançar o êxtase espiritual, como a meditação e uma série de condutas e práticas. O chamado caminho da mão esquerda é considerado, por esses mestres, um tipo de magia negra e mera promiscuidade mascarada de religião e que nada tem a ver com nossa cultura, mas nada mesmo.

O que podemos aproveitar dessa moderna Escola hinduísta é sua sábia proposta para o auto-conhecimento e crescimento espiritual, mesmo com ensinamentos muitas vezes incompreensíveis e misteriosos e sua simbologia rica e exótica. Tão vasta é sua simbologia que é impossível abordá-la em um único artigo. No Tantra, o elemento principal é a mulher, representada por diversas Deusas, e onde cada detalhe (objetos, vestimentas e ornamentos) tem um significado. São diversos elementos, mudrás (gestos simbólicos), que estão presentes também na dança indiana, os mantras (palavras de poder), mandalas (círculos) e yantras (figuras geométricas) utilizados na prática meditativa. É também rico em lendas e contos, onde as figuras centrais são as deidades [Shiva, Shakti e as demais Deusas (na verdade diferentes facetas de uma só), Ganesha, Vishnu, Brahmá, etc.).

Para entender o tantrismo, antes de mais nada, temos que entender os ciclos da vida ou Eras. No momento, segundo a concepção hinduísta e budista, estamos no Kali Yuga, ou Era das Trevas, do ferro. Nesse ponto, predominam os vícios, a perda de ética, de valores, e até da identidade. O mundo entra em decadência, gerando violência e corrupção. É o caos total. A energia está em colapso e precisa ser reorganizada (qualquer semelhança não é mera coincidência).

O Tantra trabalha com a polaridade de Shiva, que é a Consciência Cósmica, o princípio estático, o Espírito, o masculino, e Shakti, que é a energia criativa, o princípio dinâmico, a matéria, o feminino.

Na iconografia, essa identidade está representada sob a forma de um casal divino em abraço íntimo, onde ambos, Shiva e Shakti (Deus e Deusa), são o Uno. É aí que entra essa história do sexo no ritual tântrico, onde sádhakas (aspirantes espirituais) se propõem a imitar com seus corpos o “coito cósmico”, com o qual o casal Shiva e Shakti gera os universos. Só que esse ritual só pode ser concebido e amparado pela cultura indiana, e conduzido por um verdadeiro guru, que escolhe os parceiros, e estes, que sequer se conhecem , não são nem nunca serão um casal. No ritual final são consumidos alimentos específicos e, ao invés do orgasmo, os iniciados devem, com extremo auto-controle e técnicas especiais, fazer subir pela coluna a energia adormecida no Chakra base (na base da coluna) até o Chakra coronário (no topo da cabeça) e daí para o Cosmos, por meio de canais sutis de energia, as nádís. Fácil, né?

Devemos, portanto, absorver aquilo que está ao nosso alcance, e quem realmente está interessado em conhecer a arte da sedução oriental deveria buscar esse conhecimento no Kama Sútra (ritual ensinado às antigas cortesãs indianas).

No tantrismo aprendemos que não devemos ter medo das crises da nossa Era, e sim viver e nos aperfeiçoarmos no meio do caos, enfrentando os nossos “bichos”, a nossa Sombra (aquela nossa parte que evitamos ao máximo ter que encontrar, a que não fazemos nenhuma questão de ser apresentados). Por isso, afirma-se que no Tantra nada se perde, tudo se aproveita, até mesmo a energia negativa. É sem dúvida um desafio .A raiva, por exemplo, é uma energia muito forte, e se trabalhada pode se transformar em força. Não é fato que só crescemos com o sofrimento? Só que crescer, mudar crenças, emoções e hábitos dá trabalho, e muita gente não está com essa disposição toda (“é melhor ficar como está… quem sabe na próxima encarnação?”).

No Tantra existe outro ponto polêmico, além do sexo: é a kundaliní, a tal energia adormecida na base da nossa coluna, simbolicamente representada por uma serpente. Acontece que algumas pessoas, quando começam a praticar Yoga, pensam que em um mês já estarão se contorcendo (em posturas) ou sairão levitando, ou, pior, que poderão fazer subir a kundaliní e, sem esforço nenhum, já estarão iluminados. Isso pode ser muito perigoso, e se conduzidos por professores inescrupulosos ou levianos, correm até o risco de perder a sanidade mental.

Temos que ser criteriosos e conscientes ao lidar com uma energia tão poderosa. Nós podemos, por meio de exercícios respiratórios (pránáyámas) e contrações, acelerar esse processo, só que, se fizermos isso sem nos alicerçarmos em bases sólidas, podemos perder a noção da realidade, e essa viagem pode não ter volta. É como o efeito devastador do uso prolongado de drogas.

É importante enfatizar que muita coisa da filosofia oriental pode ser adaptada e incorporada à nossa realidade. Outras não são possíveis e, com certeza, uma delas é o ritual tântrico onde se utiliza o sexo.

Se nós conseguirmos cuidar do nosso próprio crescimento em meio a essa confusão e loucura em que vivemos, com simplicidade, e ao mesmo tempo com refinamento (de sentimentos, gestos, etc.), respeitando a nós mesmos e ao próximo, buscando o equilíbrio e a paz, elevando, assim, um pouco o nosso nível de consciência, não querendo ser diferente só por ser, mas tentando ser diferente para que possamos viver num mundo melhor… Puxa, já terá sido bacana demais!

4 respostas para “Tantra yoga: ensinamento para o crescer e não técnica para o prazer”

  1. Fui convidada para ser modelo de um novo terapeuta tântrico, assim, como se fôsse um simples curso de massagem terapêutica, me prometeu orgasmos múltiplos, fiquei estarrecida.
    Pesquisando aqui e alí, descobrí que esta massagem nem é citada nos textos, e o Kamasutra esta fora do contexto também. Infelizmente, aqui no Brasil, esta estória de massagem tântrica é uma piada.
    Estão cobrando um valor absurdo para manipular a vagina das mulheres e o pênis dos homens. Eu , claro, não vou me colocar nas mãos de um ignorante tântrico para me masturbar, e fui ofendida, tive que escutar que sou fruto de doutrina católica que faz do sexo sujeira.
    Rsrss, eu nunca fui católica, fui espírita por muitos anos, e por motivo de discordar de algumas coisas, hoje sou uma leitora espiritualista, trabalho com terapia holística e sou Shiatsuterapeuta.
    Tenho lido coisas do tipo: fiquei pelada na frente de dez pessoas e tive orgasmos múltiplos com a massagem tântrica, as mãos do terapeuta tremia tanto, ou, ejaculei tanto que precisei de duas toalhas para me secar… para mim isso parece mais uma orgia, ou estou enganada???!!!!
    Seja como for, eu dispenso a massagem tântrica, e pelo que lí aqui, ela realmente não procede. O que poderia me dizer a respeito destes terapeutas tântricos que estão surgindo como abelha no mel???
    Não encontrei uma matéria que fale sobre o assunto colocando os pingos nos ís de forma contundente, lí um texto que me afagou um pouco, Confissões de um Tântrico, bateu com o que penso, mas gostaria de ter uma explicação mais sólida a respeito, obrigada.

  2. A palavra tantra vem da raiz verbal sânscrita tantr, que significa “controlar, manter sob disciplina”. Yoga deriva da raiz verbal yuj, significando “unir, direcionar, atar”, entre outros. Tantra Yoga é um sistema que leva o indivíduo a governar e controlar a si mesmo. Além do Yoga, há outras maneiras de levar o praticante a isso. Uma delas é o estudo do Vedanta. No Dakshina Tantra, o seu símbolo maior é Ardhanaresvara, que é uma figura metade Shiva e metade Shakti. Tanto os homens como as mulheres têm características masculinas e femininas em seu caráter, que devem ser equilibradas para que o indivíduo possa transcender as suas limitações e perceber que é a felicidade que busca. O sexo, ao contrário do Vama Tantra, é apenas uma experiência prazerosa como qualquer outra. “Nem a postura perfeita de lótus nem a fixação da vista na ponta do nariz são Yoga. O que é Yoga é a identidade de jivatma (indivíduo) com Paratma (Absoluto)”. (Kulanarva Tantra, Cap. IX, verso 30).

  3. Artigo muito bom. Deveria ter destaque no site, pois tenho visto um crescimento da procura por Tantra Yoga com o intuito de melhorar o desempenho sexual e até livros sendo lançados com esse tema. Deveríamos fazer uma campanha para conscientização de que Tantra Yoga não é ginástica sexual! Om Shanti!

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