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Vi o teu professor de Yoga na fila do churrasco!

Tornei-me vegetariana há apenas seis meses. Deixei de comer carne há dois anos mas continuei a comer peixe ocasionalmente. Não queria que a mudança fosse demasiado brusca para o meu organismo

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Tornei-me vegetariana há apenas seis meses. Deixei de comer carne há dois anos mas continuei a comer peixe ocasionalmente. Não queria que a mudança fosse demasiado brusca para o meu organismo e também na minha cabeça preferi que a nova situação fosse ganhando espaço, embora não achasse que os peixes tenham menos direito à vida do que as vacas, porcos ou galinhas. Certa ou errada, foi apenas a forma que encontrei para tomar esta decisão.

Pratico yoga há seis anos e nunca o discurso do vegetarianismo me foi imposto por nenhum professor ou colega de prática. Era um assunto que frequentemente vinha ‘à baila’, mas sempre ouvi as opiniões pró e contra com a mesma intenção desinteressada e ‘apolítica’. Inversamente, e passando do plano da opinião para o do ensinamento, fui percebendo que na tradição védica, tradição que enquadra a minha prática e visão do yoga, a questão é clara e centra-se no princípio básico de ahimsa (a não-violência), o primeiro yama de Patãnjali. A regra é básica ‘não faças aos outros aquilo que não gostarias que fizessem a ti.’

Será que nós seres humanos gostaríamos de servir de alimento a outra espécie? Será que nós, seres humanos, somos de alguma forma superiores às outras espécies para nos impormos como predadores com armas tão desiguais? Será que nós, seres humanos, dotados de livre-arbítrio e capacidade de discernimento, devemos alimentarnos do sofrimento de outros seres quando somos os primeiros a ter alternativa?

Todas estas questões e muitas mais me foram invadindo o pensamento. Foram palpitando na minha mente e sobretudo no meu coração. Nada me estava a ser imposto, repito, e fisicamente sentia-me bem, não posso dizer o contrário. Apenas o meu coração começou a comunicar com o cérebro, transmintindo-lhe esta inquietude própria de quem percebe que está a magoar. Percebi que seria uma incoerência com aquilo que andava a estudar com tanta dedicação, e que rapidamente se tornou o meu código de conduta, pelo que decidi: ‘não vou continuar a alimentar-me de animais’. Por mais que digam que pouca diferença faz porque milhões de pessoas continuarão a alimentar-se deles, eu repito aquilo que sempre disse: ‘se ao longo da minha vida com esta decisão tiver contribuído para salvar uma vaca, dois porcos e dez galinhas já terá valido a pena!’

As acusações de fundamentalista do yoga a que fui sendo sujeita, na maior parte das vezes em tom de brincadeira é certo, sempre mexeram um pouco comigo. Para mim, fundamentalistas são aqueles que se recusam a ver para além dos paradigmas que a sociedade lhes impõe, mas lá me fui defendendo dos golpes de amigos e familiares, à direita e à esquerda, da forma mais diplomática que consegui.

Agora, e quando a questão se põe no seio da própria comunidade yogika? É certo que não somos todos iguais. Nós yogis e yoginis não somos uma massa uniformizada de indivíduos com rastas (que não tenho), com aptidão para as massagens (que não tenho) ou medicinas alternativas (que não tenho) e com OM’s tatuados (que também não tenho). No entanto, se nos afirmamos como praticantes sérios, se nos apresentamos como professores de yoga temos de ser coerentes com aquilo que é o yoga. O yoga descondiciona-nos para nos permitir ver e sentir aquilo que somos, a nossa verdadeira natureza. O yoga não procura mudar aquilo que somos, apenas livrar-nos da ideias erradas que temos acerca daquilo que somos, como tal há que atravessar um processo, uma espécie de limpeza, em que as concepções erróneas vão sendo afastadas e o caminho vai ficando livre para ser trilhado. Em algumas pessoas a imagem correspondente seria a de uma retroescavadora a invadir um terreno baldio derrubando tudo o que lhe aparece à frente ? estes são os radicais que se rendem ao yoga numa semana, mas que depois se esquecem que é preciso manter o terreno para que as ervas daninhas não voltem à carga. Noutros o processo é mais comparado a uma limpeza gradual e sustentada, com utensílios mais subtis permitindo conservar aquilo que é benéfico e descartar aquilo que já não nos serve.

O vegetarianismo é um dos estágios deste processo de limpeza. Ao pararmos de nos alimentar do sofrimento de outros seres (que não importa agora estar a descrever mas que é por todos mais do que conhecido, sobretudo no que respeita a criação intensiva de animais e a forma como estes são mortos), estamos a limpar o nosso próprio coração da violência que isso envolve. Pois bem, infelizmente há muitos elementos, dos mais acérrimos até, da comunidade yogika que não entenderam o básico.

Em vários momentos me tenho apercebido que muitos praticantes de algumas tradições das mais exclusivistas, eu diria até snobs, do universo do yoga, nunca ouviram falar de vegetarianismo. Estes, que se apresentam como os verdadeiros representantes do yoga, criticando e subestimando os praticantes de outras tradições, são os primeiros na fila do churrasco. São os mesmos que defendem a lealdade aos seus mestres mas que são infiéis a si próprios pois não vivem em harmonia com aquilo que ensinam, simplesmente porque não o praticam.

De que serve seguir cegamente um mestre se a cegueira nos tolda o discernimento até na hora de escolher o que colocamos no prato? De que serve viajar até à Índia para aprender directamente da fonte se esquecemos de beber a àgua? Viagem até à Índia sim mas não queiram apenas aprender a forma mais bonita de fazer o vinyasa, ou a técnica mais elaborada para utilizar o bolster, o cinto ou as cordas e chegar à postura perfeita, aprendam primeiro a cultura, o enquadramento em que o yoga nasceu e depois, se realmente quiserem fazer parte dela, esqueçam o ásana e concentrem-se na ética. Só através dela conquistarão o espaço necessário para se instalarem em harmonia com o ser pleno que somos, que é a plenitude do próprio universo e em última instância a liberdade.

O Corpo é o Templo. O Āsana é a Prece

Ana Sereno em Conheça, Tantra
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31 respostas para “Vi o teu professor de Yoga na fila do churrasco!”

  1. Cara Patrícia,

    Agradeço suas observações. Quero dizer que, de forma alguma, tenho a intenção de convencer o coelho a comer carne. Pode sair da toca e comer sua cenourinha tranquilamente.

    Também não jogo papel na rua e costumo limpar a caca do meu cachorro quando o levo para passear. Porque entendo ser ético e estar dentro de um princípio moral.

    E por falar nisso, me desculpe a petulância, aonde que está escrito que a autenticidade de um professor de Yoga está em não comer carne? Pelo que sei, a Hatha Yoga Pradipika recomenda não comer carne além de muitos outros alimentos. Não é portanto, proibido, mas RECOMENDÁVEL. Também não me lembro de ter lido no Yoga Sutra de Patanjali tal assertiva. Acaso um médico que fuma deixa de ser autêntico?
    Lembra daquele jogador de futebol do Coríntias: Sócrates? Ele bebia e fumava. Apesar de contraditórios, os exemplos que citei servem para mostrar que a autenticidade da pessoa não se baseia no cumprimento de dogmas.

    Acredito ter havido um certo exagero no episódio do inseto. Muitos outros princípios morais procuro observar antes de atingir essa maturidade moral e espiritual em que você se encontra.

    Por falar nisso, veja só que coincidência, ontem vi uma baratinha na cozinha. Alguém acha que não devo dedetizar minha casa? Certa vez, houve uma praga de carrapatos trazida por meu cachorro. Algo contra exterminar os carrapatos?

    De qualquer modo, o texto da Ana Sereno e principalmente este debate me fez crescer bastante. Fez-me pensar muito sobre quão austero e impaciente estava sendo com meus filhos, com minha esposa, com algumas pessoas no trabalho e no trânsito.

    Concluí que tenho muito ainda que melhorar minha conduta moral com as pessoas, antes de deixar de comer carne para não contribuir com a matança dos animais.

    Vejo que diversos outros artigos sobre o tema já foram escritos e debatidos neste site. Apenas quis acrescentar alguns fatos novos que me pareceram ser pertinentes e contundentes. Acho até que o tema do texto foi escolhido como gozação, a fim de mexer com a cabeça daqueles professores que comem carne. Mas, pelo jeito, parece que só mexeu com a minha.

    Te agradeço novamente pela oportunidade do debate e manifesto meu profundo respeito e admiração por sua opção e conduta moral.

    Namastê.

  2. Queridos,

    tanto se falou que nem sei mais a quem endereçar meu pequeno comentário. Sou praticante e professora. Acredito que devemos simplificar tudo e dar um descanso às palavras. Basta ser vegetariano , por amor e compaixão.

    Quando olho uma criança sinto o mesmo amor que quando olho uma vaquinha, um gato, uma pedra ou uma cenoura. Como ainda não consigo viver de luz, optei por me alimentar pelos que não fogem e se doam pacificamente. Pego as frutas que caem. As que ficam na árvore são dos passarinhos.

    Ao ler esse artigo, lembrei que quando eu morava em Curitiba encontrei um “terapeuta da paz” comendo uma linguiça crua escandalosamente.
    Problema dele. Segui meu caminho. GENTE, UM BEIJO E FELICIDADES.
    ACT NOW! GROW MORE TREES!

  3. Assim como essa discussão está polarizada, quero lembrar que há também dois pólos nas práticas de Yoga entre os Yamas e Niyamas. O discernimento deve acertar o ponto entre Ahimsa e Tapas. A não-violência é importante, seja com os animais ou com nós mesmos, assim como é essencial o esforço para se ir além.

    Não vejo maiores problemas em um professor de Yoga continuar comendo carne se ele entende que isso não prejudica seu caminho – inclusive o Buda de hoje come carne.

    Porém, se o professor de Yoga entende que o vegetarianismo é o ideal mas se conforma com a comodidade e os condicionamentos, eu o recomendaria exercitar um pouco Tapas.

    Concordo que a civilização ocidental está longe do modelo vegano. Não é por isso que devemos cruzar os braços e aceitar essa imposição. Cada um de nós pode, aos poucos, reeducar-nos no consumo.

    Rejeitar um casaco de pele já faz parte do senso comum, e todos nós podemos ir além evitando, agora, os produtos de couro, ou os que sejam testados em animais, ou que dependem da tortura de qualquer ser para que sejam degustados por nós.

  4. Paulo,
    Uma vez li uma matéria ótima sobre como cada país se livrava de seus lixos radioativos.Cada país tem leis diferentes para a maneira de dar um fim neles, leis para que o meio ambiente seja protegido.A matéria falava que por os Estados Unidos terem leis muito rígidas, eles terceirizavam este “serviço sujo” para um país na Àfrica com leis mais frouxas. Olhando limitadamente poderíamos dizer que os EUA não poluiram o meio ambiente, pois suas leis não permitem.(nesse caso específico).
    De maneira análoga, quem come carne terceiriza a matança.

    Você também joga papel na rua quando passa por uma rua imunda, e pensa que não será você se abster desse ato que fará a rua ficar mais limpa, não é?

    Pois, é. Sabe que sei que o fato de eu não comer carne não acaba com a matança indiscriminada no mundo, mas eu continuo com essa postura porque eu quero fazer minha parte, independente de não poder salvar o mundo.Optei por ser um elo na corrente da vida e ir além de toda verdade ancestral , preferindo focar no presente e futuro ontológico de indivíduos mais conscientes.Mas sei que essa transição é paulatina de acordo com cada um, e não podemos forçar a natureza.

    Vegetarianismo para outras pessoas, talvez , é só uma dieta mais saudável para o corpo, mas para nós yoguis, é praticar ahimsa.
    Obrigada por nos lembrar que tão importantes quanto o que se põe no prato, são outros derivados de animais que usamos. Gostaria até de ter um lista destes produtos .
    Falando em matança indiscriminada , sabe que um dia estava num retiro espiritual com algumas pessoas quando vejo uma delas prestes a dar uma sapatada numa espécie de inseto que resolveu nos visitar. Ao me opor pegando o inseto e simplesmente retirando-o do recinto, ouvi uma pessoa falando que eu não precisava fazer isso, que aquele inseto podia matar, pois ouvira uma vez o mestre Sai Baba dizer que aquela espécie ele matava pois transmitia doenças! Independente dessa revelação e dos pedidos da maioria, eu liberei o bichinho.
    E as baratas? Alguém já pensou no caso delas? Vão me dizer que só porque elas transmitem doenças, nos causam aversão, nos dão inveja por serem os únicos sobreviventes do holocausto, não fazemos carinho nelas nem podemos comê-las, podemos matá-las? Confesso que são bem mais difíceis de serem capturadas com meu kit inseto que os ratos, assim, ás vezes eu acabo matando-as, mesmo tentando evitar.

    Estas posturas minhas são simplesmente porque sinto que o milagre da vida é um mistério, e não tenho nenhum direito de tirar conscientemente a vida de qualquer ser, com minhas próprias mãos, ou terceirizando o serviço.(em condições ideais de temperatura e pressão)

    Agora sobre o que falou de Buda, mesmo o exemplo que dei do Sai Baba, eu acho que um erro continua sendo um erro mesmo que um mestre, ou um iluminado o faça. Os mestres te servem para te dar teu discernimento ou para que você copie seus atos?

    Supondo,Paulo,que a comida que fosse comer ,você mesmo que devesse produzir: você se sentiria melhor em seu coração retirar a cenoura da terra ou matar um boi?
    Eu sei que incomoda quando sentimos alguns colegas quererem tirar o cisco do nosso olho sem ter tirado o deles antes.Mas aqui me parece que está a questão do professor de yoga comer carne, não? Embora discorde de você em muitos aspectos, concordo quando diz que não comer carne não é garantia de bons seres humanos.

    Podemos ter ótimos amigos onívaros.Sabe que eu também levo meu filho ao Mac Donalds? Também já me recusei em levá-lo pessoalmente por um bom tempo por querer fazer minha parte em detrimento com os outros familiares que o levava e por ter me tornado professora de yoga e também por não gostar da rede.

    Mas cada um com sua demanda, não é mesmo? Se ainda há em você sofrimento ao se afastar da carne, talvez no momento, o contexto de tua vida, bem como seus karmas não te permitem deixar de comer carne.E tudo bem.Aceite.Mas acho que tua prática de yoga não é uma farsa.

    Se você diz que quer continuar por mais tantos anos é porque ela esta te modificando.Assim, você colhe com certeza alguns frutos dos diversos que ela proporciona.Alguns com certeza, menos o do “yogue completo”, porque na minha opinião para ser um , é preciso deixar de comer carne sim.Se os frutos da árvore são compatíveis com a semente que plantamos, se você não plantou sementes de ahimsa e toda a ética do yoga( yamas e nyamas), o fruto que colherá será compatível.

    Ah, claro!Quando começei a dar aulas de yoga, há seis anos atrás, não comia mais carne vermelha, mas raramente ainda comia um peixe, o McFish com meu filho, porque veja você, achava que o peixe, ainda era um “animal inferior” ao boi, vaca, porco,etc.

    Mas depois que começei a olhar além da roupagem que o Ser se revesti, não existe só animais que para comer, dar carinho, dar aversão,nos servir, etc, existe Vida Sagrada circulando com o mesmo direito de espaço aqui neste planeta que nós, seres humanos.(claro, os que conseguiram se tornar humanos).Assim, independente do que o resto das pessoas no mundo estão fazendo, eu prefiro conscientemente me abster de retirar qualquer vida.

    Agora , a polêmica é se um professor de yoga pode comer carne ou não.Claro que não.Não é uma questão de condenação não, e sim de ética.Um praticante comer carne, ok.Um professor, não.O papel do professor de yoga é diferente do papel do praticante.Fiquei pensando se visse um professor comendo carne.Ou ainda encontrar um com jaquetão de couro, ou sapato?
    Será que falaria à ele que é um disparate ele invocar por Shanti ao final da prática e almoçar na churrascaria? Melhor deixar ele descobrir por si?
    Agora, tudo o mais que esse professor da fila do churrasco faz de bom, que você diz Paulo, me parece que é como um nadador que chegou primeiro por ter nadado muito bem, mas que não ganhou a competição por não ter encostado a mão na borda.

    Claro, não ganhou a competição de suas contradições consigo ao atravessar seu próprio oceano de ignorância.Da árvore do yoga, muitos comem ásanas, mas a liberdade de ter conquistado sua própria natureza poucos desfrutam.

    Quão fundo você quer entrar na toca do coelho,Paulo?
    Om shanti!
    Com amor
    Namastê

  5. Estimada Tereza,

    Por favor, não seja tão severa assim comigo. Teu comentário está inserido em um debate e eu me senti à vontade para debater. Confesso que já esperava certa hostilidade. Apesar de tu quereres me ?enxotar? da discussão e me deixar muito magoado, eu te compreendo e peço licença para elucidar algumas questões colocadas por ti. Falo na 2º pessoa, em homenagem à autora do texto que está em Portugal. Não sei se é portuguesa, mas em todo caso … admiro a língua.

    Não gosto tanto assim de carne como tu imaginas. Na verdade, passaria muito bem sem ela, se vivesse numa cultura diferente. Minha esposa, filhos, parentes e a maioria dos amigos comem carne. Mas convivo muito bem com vegetarianos. Além de os admirar por diversas outras questões que não só a dieta, eu os acho muito mais criteriosos com o que colocam no prato. Preocupo-me com a reputação deles portanto, de modo a facilitar a vida daqueles que desejam optar por tua dieta.

    O mais que tu escreves, eu entendo ser fruto de tua cólera, provocada pelos meus comentários, os quais tu designas como armas irônicas e maliciosas. Sobre isso, se me permites, prefiro não comentar, com exceção da palavra ?contradição?, a qual mencionaste.

    Contradição é justamente o principal motivo que me fez comentar o texto. Veja você: eu pratico yoga somente há três anos e pretendo praticar por muito mais tempo. Será que enquanto não me tornar um vegetariano, nunca serei um yogui completo? Será que minha prática é, deste modo, uma farsa? Devo então parar de praticar yoga, se não optar por uma dieta vegetariana?

    Confesso que tentei, assim como muitos aqui. Por três meses sofri o que muitos aqui sofreram quando resolveram se abster de comer carne, em observância ao princípio de ahimsã. Depois percebi quão ilusória foi minha decisão. Animais sofrem em laboratórios científicos para o fabrico de medicamentos que eventualmente ingiro. Uso sapatos e casaco de couro. A ração do meu cachorro provém do abate de animais. Percebi, enfim, que minha decisão em não comer carne, por si só, além de criar um desconforto social, não resolvia a questão do ahimsã. Somente se tornando vegano, poderia observar esse princípio da forma como o via. Mas aí, teria que abandonar minha família.

    Quando virem, portanto, um professor de yoga na fila do churrasco, por favor não o condenem. Será que tudo o mais que ele faz de bom, se anula pelo fato dele não ter optado por uma dieta vegetariana? Hitler era vegetariano e Buda comia o que lhe ofereciam, inclusive carne.

    Minhas cordiais saudações a ti e a todos presentes neste debate,

    Namastê.

    1. Buda comia carne???De onde você tirou essa informação?Gostaria de saber,por favor.

  6. Caro Paulo,

    Quando você começa o seu texto com:
    “Felizmente a opção em comer ou não comer carne é uma decisão pessoal, que depende apenas do seu julgamento sobre o que é certo e o que é errado e – não menos importante – do seu gosto” , me parece contraditório com tudo o que escreve a seguir para justificar o seu gosto por carne. Se gosta e pensa que está certo, coma e disfrute. Porquê se preocupar tanto com a reputação do Bicho Vegetariano?

    Ao contrário do que você parece pensar, o mundo não gira à sua volta – você me pergunta:
    “Será que não é você que está demonstrando preconceito pelo fato de eu apreciar uma carninha?” O texto que escrevi não era para você nem para lhe activar algum tipo de má consciência. As escolhas são de cada um, mas para ser sincera com você, prefiro mil vezes os que dizem “Gostaria de não comer mas não consigo” ou “Gosto de carne e como” e não usam a ironia e a malícia como armas.

    Uma coisa é você comer carne, outra coisa é a piada que faz disso. Estamos falando de outros seres vivos que como nós querem paz e prezam o direito à vida. Porque não experimenta então agradecer sinceramente a esses seres vivos que deram a vida para o alimentar, cada vez que come você carne?

  7. Cara Tereza,

    Felizmente a opção em comer ou não comer carne é uma decisão pessoal, que depende apenas do seu julgamento sobre o que é certo e o que é errado e – não menos importante – do seu gosto.

    Permita-me transcrever um trecho de: http://www.artigos.com/artigos/sociais/direitos-dos-animais/da-atribuicao-de-hipocrisia-aos-onivoros-contrarios-a-abusos-contra-animais-6312/artigo/

    ?Em muitas discussões entre onívoros simpatizantes da defesa animal e vegetarianos idem, as quais envolvem os mais diferentes assuntos de crueldade contra animais, costuma haver uma acusação por parte de alguns do segundo lado de que os primeiros seriam hipócritas por terem um respeito dito parcial e seletivo pelos bichos.

    Muitos acusadores costumam pensar que estão contribuindo para a melhoria da consciência dos onívoros quando promovem tais críticas não-construtivas, mas não é preciso pensar muito para se constatar que essa atitude acusatória é inadequada e compromete não só o esforço global de esclarecimento e conscientização ético-alimentar como também a própria reputação dos vegetarianos e veganos perante a sociedade.

    Em fóruns de internet tematizados na defesa dos animais não-humanos, como comunidades anti-rodeio, anti-vivissecção e de Direitos Animais, e até em algumas discussões presenciais, alguns vegetarianos se deixam levar pelo impulso emocional de ?apontar o dedo?, abrem mão da sensatez e da paciência e lançam-se a acusar de hipocrisia os debatedores que ainda ingerem alimentos de origem animal.
    Argumentam que é incoerente e não faz sentido alguém prezar pela vida e integridade de alguns animais enquanto come sem remorso a carne de outros que sofreram muito em matadouros e granjas, por isso quem comete essa contradição seria hipócrita e não teria moral para falar de amor e compaixão para com bichos.

    A atitude de criticar e taxar os iniciantes na compaixão e respeito a animais de hipócritas, além de não convencer ninguém que largar o consumo de carne e outros alimentos de origem animal é um importante passo ético, deixa uma aura de chateação e descontentamento entre os onívoros e lhes passa uma péssima impressão generalizada sobre os vegetarianos, mesmo que tenha sido uma minoria deles a demonstrar um comportamento ofensivo.

    Muitos onívoros, depois de lidarem com acusadores e saírem bastante chateados com a prepotência e arrogância demonstradas pelo outro lado na discussão, passam a ver o vegetarianismo ético como um comportamento venenoso por tornar as pessoas arrogantes e intolerantes e rompem com a perspectiva de adesão ao mesmo.

    Alguns indivíduos, dada a antipatia desenvolvida, deixam-se tomar por um reacionarismo antivegetariano e aderem a categorias sociais como os ?alfacistas?, que se empenham em criticar destrutivamente, ridicularizar e desqualificar o vegetarianismo e o veganismo. Por esses motivos, a imagem dos vegetarianos sai bastante arranhada e a conscientização torna-se bem mais complicada.?

    Sobre a histórica e ancestral decisão em comer carne, leia abaixo um pedaço do texto de Dráusio Varella, http://www.drauziovarella.com.br/artigos/carne_introducao.asp

    ?Verdade ancestral”

    A espécie humana sempre comeu carne. Nas cavernas, nossos antepassados davam preferência a ela, como concluíram os estudos de suas arcadas dentárias. É provável que o homem só se conformasse com outros alimentos quando a caça rareava. Guiado pelo instinto do paladar, corria atrás da carne por seu alto valor calórico: um grama de gordura produz 9 calorias, um grama de açúcar ou proteína, 4 calorias.

    Por milhões de anos, mesmo quando o homem buscou na agricultura as calorias necessárias para manter a família, a preferência pela carne resistiu. E assim permanece. Não é fácil subverter ordens estabelecidas em milhões de anos. A genética é mãe castradora.
    A desnutrição sempre foi endêmica. Em todas as civilizações conhecidas, comida abundante e variada era privilégio.

    Há apenas um século e meio, a batata da Irlanda foi dizimada por uma praga, e um milhão de pessoas morreram de fome. O número de mortos dá idéia da monotonia da dieta irlandesa da época. Na Europa, a fome resistiu à passagem da Segunda Guerra; era preciso ser rico para comer carne todo dia. Mesmo hoje, fartura de alimentos é privilégio de um ou outro país.

    O passado de fome crônica moldou o consumo de energia da espécie humana. A pressão seletiva favoreceu a sobrevivência dos que comiam o máximo que agüentavam, toda vez que encontravam comida. Entre eles, levaram vantagem reprodutiva os que tinham capacidade de armazenar, sob a forma de gordura, as calorias ingeridas em excesso.
    Ser dono de uma reserva adiposa ao redor do corpo era decisivo quando chegavam as vacas magras. Os magrinhos ficavam inferiorizados na hora de enfrentar jejuns prolongados. Num mundo de predadores, o caçador enfraquecido vira caça no dia seguinte.
    A seleção natural só tem olhos para o indivíduo. A ela não interessa o futuro de qualquer espécie. Haja vista quantos milhões delas acompanharam os dinossauros nas extinções em massa.

    Não existe grandiosidade nos desígnios da evolução. Ela segue curso inexorável, mero resultado da soma aritmética de pequenas conquistas individuais que conferem microvantagens na hora da reprodução.

    A evolução não moveu um dedo para impedir que o homem moderno, filho de caçadores e coletores que se matavam por comida, inventasse a poltrona e o disque-pizza. Como resultado dessa ruptura com a tradição de escassez permanente de alimentos vieram a obesidade, diabetes, hipertensão e os infartos do miocárdio.?

    Não tenho o menor preconceito por você ser vegetariana. Aprecio a sua escolha e acho que você é bem mais cuidadosa do que eu na escolha do que vai comer. Será que não é você que está demonstrando preconceito pelo fato de eu apreciar uma carninha?

    Namastê.

  8. Em tempo,

    Adoraria apreciar uma comida vegetariana contigo. Aqui onde moro, em Belo Horizonte, há um restaurante vegetariano que serve uma feijoada deliciosa. feijoada vegetariana, é claro. O nome dele é Mandala.

    Fique em paz e que seu avô se recupere logo.

  9. Prezada Ana,

    Fico contente em saber que você fez uma escolha consciente. Mais contente ainda fiquei em saber que você recebeu meus comentários de forma amistosa. Espero que assim prossiga o debate entre onívoros, vegetarianos e afins.

    A riqueza de detalhes que você descreveu, demonstra quão complicado foi para mim optar por uma dieta vegetariana. Sabemos que alguns vegetais, leguminosas, ovos e derivados de leite possuem zinco, ferro e vitamina B12, todos presentes na carne. No entanto, a quantidade desses itens é bem menor nessas fontes de alimento assim como sua absorção. Daí o fato de diversas pessoas desavisadas ficarem anêmicas e sofrerem outras enfermidades, após a supressão repentina da ingestão de carne.

    Não obstante, a decisão sobre que comida colocar no prato tem implicações econômicas, ambientais, éticas, históricas e religiosas.

    Você afirma que o problema de comer carne é moral: não teríamos o direito de matar para comer. Mas, se você acha que basta parar de comer carne para acabar com a matança, está enganada. Há muito mais produtos no mercado que incluem animais mortos do que imagina a nossa vã filosofia.

    Para começar, boa parte da indústria de vestuário depende de animais. O couro, você sabe, é a pele de bichos abatidos. Para separar o fio de seda, é preciso ferver o bicho-da-seda. Além disso, filmes fotográficos e de cinema são recobertos por uma gelatina, retirada da canela da vaca. Ou seja, um vegan radical só tira fotos digitais. Dos pés bovinos saem também substâncias usadas na espuma dos extintores de incêndio. O sangue bovino rende um fixador para tinturas e a gordura acaba em pneus, plásticos, detergentes, velas e no PVC. Cremes de barbear, xampus, cosméticos e dinamite derivam da glicerina, substância que contém gordura bovina. A quantidade de medicamentos feitos com pedaços de gado, do pâncreas ao cordão umbilical, passando pelos testículos, é imensa.

    Há um pouco das vacas também em vários produtos da indústria alimentícia – e não estamos falando só de bife à parmegiana. A gelatina deve a consistência ao colágeno arrancado da pele e dos ossos. Aliás, quase toda comida elástica contém colágeno – da maria-mole ao chiclete. Os queijos curados são feitos com uma enzima do estômago do bezerro. Além dos bovinos, vários outros animais são usados pela indústria de comida. Vegans devem ficar de olho nos rótulos e evitar dois corantes: coxonilha e carmin. O primeiro, usado para tingir de azul, é feito de besouros moídos. O segundo, que pinta de vermelho, é feito de lesmas amassadas.

    Assim como você, também já me indaguei por diversas vezes se não estaria observando o princípio do ahimsã ao ingerir carne. Se renomados professores de yoga afirmam que a prática de yoga exige uma dieta vegetariana, como levar a prática adiante sendo onívoro e apreciar um chopinho?

    Então em pensei: se procuro não magoar as pessoas, tenho compaixão pelos bichos e me oponho a certas atividades cruéis, como posso estar desprovido de moral pelo fato de consumir alimentos de origem animal?

    Entendo que ainda não cheguei na sua evolução ética levando uma vida realmente harmonizada com os animais. Talvez chegue lá um dia. Só que hoje, meu filho de 6 anos quer que eu o leve no Mac Donald.

    Namastê.

  10. Minha querida Ana,
    Obrigada por este texto, cheio de sabedoria e bondade. O que este tema suscita em alguns seres humanos faz-me pensar numa frase do Einstein: “É MAIS FÁCIL DESTRUIR UM ÁTOMO QUE UM PRECONCEITO” Se realmente precisamos da carne para viver eu já estaria morta há muito tempo, mas infelizmente temos sido doutrinados ao longo de décadas para acreditar nisso, os mitos vão sendo criados para proveito de uma gigantesca Industria de produtores de carne e de leite (que tem nos EUA um dos maiores lobbys politicos juntamente com a industria farmacêutica) e alimentada por quem consume estes “produtos”.

    Houve o mito da proteina e do ferro, o mito do calcio e da vitamina B12, o da força fisica e por aí em diante. Muitos atletas de competição não são apenas Vegetarianos mas Veganos – não consomem qualquer produto de origem animal. Como exemplo temos o Carl Lewis que ganhou 9 medalhas de ouro (Olimpicas) e é vegan desde 1990, considera que as suas melhoes performances como atleta foram a partir daí.

    Eder Jofre bi campeão mundial de boxe, considerado o maior pugilista brasileiro é vegetariano há 50 anos, e tantos outros. Existem cada vez mais estudos sobre como o consumo de carne e leite está relacionado com as “doenças modernas” como o cancro, diabetes, arterioesclerose. etc. Muitos destes estudos foram feitos com a comunidade americana de Adventistas do sétimo dia” , na sua maioria vegetarianos, e com povos orientais cujo consumo de carne e leite é nulo ou muito reduzido.

    Isto no que toca parte fisica. Para mim o mais importante quando tentamos tentarmos ser melhores terráqueos ou desenvolver a nossa espiritualidade, são os principios pelos quais nos regemos, e não falo em mente associada ao Ego nem repressão, mas em coração que é visto como uma fraqueza pela nossa sociedade ocidental. Parece que hoje em dia temos os nossos principios básicos, os do amor, compaixão e ética trocados.

    Quantas vezes ouvimos a palavra radical associada a quem é vegetariano? Vegetariano é ser radical e comer carne razoável. Na verdade somos doutrinados desde que nascemos para aceitar o que a sociedade nos impõe, mesmo que seja dor e injustiça infligidas nos nossos irmãos humanos e não humanos. Até há pouco tempo a escravatura era aceite, discutia-se se os negros tinham alma ou o seu grau de inteligência como se isso fosse vital para ter direitos.

    Porque devemos comer então animais e não humanos? Ou comer uma vaca e não um cão? Um cão é superior a uma vaca? Os humanos são superiores aos animais? Quem decidiu isso? O Homem. E qual o padrão? A inteligência? A riqueza? A posição social? Penso que enquanto tivermos uma visão antropocêntrica e egoista, a nossa conecção com os outros seres vivos que partilham a terra conosco, será sempre limitada. Surpreende-me ouvir tanta desculpa para comer carne, desde a família, ao não ser radical. Quem quer comer não precisa de se desculpar ou chamar os outros de radical ou fundamentalista para aliviar a sua consciência.
    Teresa Ramos.

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