Começando, Pratique

Yoga, seitas e liberdade

Uma das perguntas mais freqüentes que me fazem é 'como reconhecer uma boa escola de Yoga?'. Hoje em dia, o nível do Yoga no Brasil é muito melhor do que vinte anos atrás, quando eu comecei. Mas ainda existem umas poucas escolas que, para prender o aluno, usam alguns artifícios que vão totalmente contra os princípios do Yoga, da ética e do bom senso.

Escrito por Anderson Allegro · 6 mins de leitura >

Este artigo aborda o problema das seitas no Yoga. Uma das perguntas mais freqüentes que me fazem é ‘como reconhecer uma boa escola de Yoga?’ Hoje em dia, o nível do Yoga no Brasil é muito melhor do que 35 anos atrás, quando eu comecei.

Muitos professores hoje já viajaram à Índia, fizeram cursos e congressos nos Estados Unidos ou Europa e a quantidade de informação disponível na forma de livros e na própria internet é muito maior.

Isso tudo faz com que as pessoas se mantenham bem informadas e lhe dá opções para achar um lugar para praticar que se adapte às suas necessidades.

Mas ainda existem umas poucas escolas que, para prender o aluno, usam alguns artifícios que vão totalmente contra os princípios do Yoga, da ética e do bom senso.

seitas Yoga

O principal objetivo do Yoga é conduzir o praticante à iluminação. Nesse estado, nos tornamos senhores da nossa própria vida, responsáveis por nosso destino e pelas escolhas que fazemos.

É um estado onde todos os condicionamentos que recebemos durante nossa vida são observados à luz da consciência e então deixam de ter poder sobre nós. Nos sentimos absolutamente livres e passamos a agir deliberadamente, guiados apenas pela nossa consciência.

Sendo assim, não é possível que o Yoga aconteça se tivermos que seguir as regras impostas por outras pessoas e se sentirmos medo de pensar com a nossa própria cabeça.

Portanto, ao escolher uma escola de Yoga, atente para alguns detalhes que lhe mostrarão se esse lugar é autêntico ou se é algum tipo de seita fundamentalista disfarçada sob o nome de Yoga. Listo abaixo uma série de considerações que irão lhe ajudar a fazer essa escolha:

1. Ansiedade para vender

Observe se as pessoas que lhe atendem estão interessadas demais em que você faça (e pague) logo sua inscrição. Pessoas assim estão mais de olho no seu cheque do que nos benefícios que o Yoga possa trazer para sua vida.

Promoções relâmpago ou preços que abaixam se você fizer sua inscrição imediatamente não são bons sinais, pois tolhem a sua possibilidade de escolher livremente.

2. Impossibilidade de testar a prática e o ensinamento

Peça para fazer uma aula sem compromisso para que você possa perceber se é esse Yoga é de fato a modalidade que você está procurando. As boas escolas em geral lhe permitirão fazer a aula experimental e, se você gostar, poderá se inscrever.

Essas escolas não têm nada a esconder e preferem ter praticantes que se sintam à vontade em suas aulas ao invés de ter alguém que venha reclamar depois de que aquele método não é apropriado para ele.

3. Restrição à idade

Verifique se o lugar onde você pretende praticar cria alguma restrição em relação à idade. Uma boa maneira de ter bastante praticantes jovens e, portanto mais influenciáveis, é dar desconto para gente até uma certa idade e subir o preço para os que têm mais de quarenta.

Como os adolescentes não têm totalmente formado o espírito crítico, são mais facilmente manipuláveis e se tornam alvos fáceis de algumas seitas disfarçadas. O Yoga é para todos e para todas as idades. Claro que se você tem mais idade pode precisar de um método mais sereno.

Mas escolas que instituem preços diferentes por faixa etária estão discriminando as pessoas. Nas minhas aulas de Power Yoga existem praticantes de mais de cinqüenta anos, que acompanham muito bem o ritmo da turma.

4. Imposições ideológicas

Não aceite a obrigação de ler livros para começar a praticar. Algumas boas escolas poderão lhe sugerir alguma literatura, mas jamais lhe obrigarão a ler qualquer coisa.

Pior ainda se você tiver que responder um questionário sobre este ou aquele livro. Desconfie. Responder questionários é uma maneira de fazer lavagem cerebral, de colocar idéias na sua cabeça.

5. Marketing  do guru ou do método

Observe o que essa instituição diz a respeito de si mesma. Se seus professores apregoam que o método deles é ‘o melhor do mundo’ e que seus livros são ‘os melhores do mundo’, eles estão tentando fazer com que você fique dependente deles.

Se eles forem ‘os melhores do mundo’, você se sentirá perdido se um dia quiser sair da instituição e passará a achar que fora de lá tudo é ruim e perigoso. Assim, você começará a não questionar as falhas que percebe no método ou instituição, entre outras coisas, porque não terá para onde ir.

Se esse for o caso, acorde do pesadelo! Você pode estar num lugar perigoso. Saia já pois lá fora você encontrará muita gente respeitada, honesta e amorosa.

6. Policiamento ideológico das seitas

Cuidado com o policiamento ideológico. Muitas vezes essas escolas começam a sugerir que você deve comportar-se desta ou daquela maneira, criam um clima onde parece que é proibido ler livros que não os recomendados por eles ou ainda repreendem aqueles que quiserem participar de uma apresentação de mantras ou uma aula em outro lugar.

Se você só pode participar das atividades promovidas por sua escola, então você está perdendo a sua liberdade. Pior ainda, você começará a se sentir culpado por violar as regras daquele lugar e assim, se tornará ainda mais dependente.

Na verdade, essas escolas apregoam que querem lhe proteger dos maus professores, mas o que estão querendo, na verdade, é impedir-lhe de ter contato com outras linhas e achar uma outra que lhe satisfaça mais do que a deles.

Não quero dizer que você deva ficar mudando de escola a cada dois meses, mas ninguém tem o direito de impedi-lo de experimentar qualquer coisa que você deseje.

7. Relacionamentos dentro e fora do grupo

Confira como anda seu relacionamento com as pessoas fora do círculo do Yoga. Se você começou a achar seus pais e amigos pouco ‘evoluídos’ ou desinteressantes, se você deixou de sair com as pessoas que você se relacionava e agora só fica com a turminha do Yoga, talvez você esteja sendo manipulado.

Não há nada de errado em fazer amigos dentro da escola de Yoga. Mas um dos mecanismos mais fortes que algumas seitas usam é estimular enfaticamente o convívio com pessoas de dentro da seita para que um policie o outro e para que todos permaneçam ligados aos ideais daquela instituição.

Se você continuar se relacionando com pessoas fora da instituição, essas pessoas poderão lhe abrir os olhos e eles perderão um adepto. Assim, mantenha suas relações amplas e variadas. Saia com seus amigos do Yoga, mas saia também com o pessoal da faculdade, com o grupinho da praia, vá para as baladas, almoce com sua família e cultive as pessoas que lhe querem bem. Lembre que o Yoga serve para ampliar os horizontes, ao invés de estreitá-los.

8. Afetividade e seitas

Permita-se namorar com quem você quiser ao invés de namorar com um grupo todo. Uma boa escola de Yoga jamais lhe questionará sobre com quem você namora. Sua vida pessoal é apenas da sua conta.

Não aceite nenhuma imposição sobre amor livre, sexo em grupo ou qualquer outra coisa que vá contra seus princípios. A evolução no Yoga não acontece quando ferimos ou contrariamos a nós mesmos.

9. Culto da imagem do líder

Se o grupo cultua demais a figura do chefe ou presidente ou mestre da instituição, isso também é um sinal de alerta. Muitas linhas de Yoga reverenciam seus mestres, indianos ou não, mas tudo dentro do bom senso.

Se as pessoas só se referem ao chefe da instituição como ‘mestre’ ou se começam a usar o rosto dele estampado em camisetas, quadros, agendas, cuecas, etc, isso é sinal de idolatria. Neste caso, os praticantes serão induzidos a fazer tudo por seu ‘mestre’.

Estarão prontos para pensar com a cabeça do ‘mestre’ e passar por cima de seus valores pessoais. Um bom professor de Yoga não se autodenomina mestre, não aceita nem deseja ser chamado de mestre por seus alunos.

10. Formação compulsória

Boas instituições de Yoga não lhe obrigarão a se tornar instrutor de Yoga, pois essa é uma profissão que depende de vocação. Se sua escola lhe pressiona para ser instrutor ou diz que você está inscrito automaticamente na formação de instrutores de Yoga, estão, na verdade, querendo lhe enfronhar mais nas malhas da própria instituição, para que você fique envolvido até o pescoço e nem pense em deixá-los.

E, também, é uma boa maneira de ter mão de obra disponível para estagiar em suas escolas. Você tem o direito de ser um simples praticante sem grandes envolvimentos com a escola. Se você tiver vocação para ser um instrutor, você mesmo procurará o curso de formação profissional.

Se você já estiver numa instituição dessas e quiser sair, vá pesquisar em outros lugares, procure ajuda, fale com pessoas que conseguiram sair ou converse abertamente com seus pais ou amigos fora do círculo do Yoga.

Muitas vezes, ao querer se desligar dessas seitas, você pode se sentir fraco e desestruturado, ficando com a sensação de que o mundo vai acabar se você der esse passo.

Mas, se contar com o apoio de seus familiares e amigos, será bem mais fácil e algumas semanas depois tudo estará se organizando de uma maneira melhor do que você imaginava. Dê o primeiro passo rumo à sua liberdade, pois ela é seu bem mais prezado.


Anderson Allegro é professor de Yoga em São Paulo, diretor da escola Aruna Power Yoga e cofundador da Aliança do Yoga.

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