Cakras e Kośas, Conheça

Existe alinhamento de cakras no Yoga?

Uma busca pessoal  Quem precisa de alinhamento dos cakras? Antes de entrar nesse tema, vou contar uma história para você: quando comecei a levar o Yoga a sério, me dediquei de corpo e alma à meditação nos cakras. Estava sentindo-me paralisado nas práticas e precisava de motivação e energia para levá-las adiante. Assim, fui na […]

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alinhamento

Uma busca pessoal 

Quem precisa de alinhamento dos cakras? Antes de entrar nesse tema, vou contar uma história para você: quando comecei a levar o Yoga a sério, me dediquei de corpo e alma à meditação nos cakras. Estava sentindo-me paralisado nas práticas e precisava de motivação e energia para levá-las adiante.

Assim, fui na década de 1990 por segunda vez para a Índia com uma passagem só de ida e a firme resolução de resolver a minha relação com a kuṇḍalinī de uma vez por todas (a minha primeira viagem tinha sido em 1987/88).

Ao chegar lá encontrei um ótimo professor, o Dr. Thomas Arya, me enfurnei no Āśram onde ele morava, perto da cidade de Indore e fiquei longos períodos fazendo prāṇāyāma, meditação para o despertar de kuṇḍalinī e muita visualização sobre o sistema dos cakras.

Porém, quando voltei para o Brasil, fiquei bastante desconfortável com um tema que surgia a toda hora: a tal da terapia dos cakras. Eu não sabia nada a respeito, não tinha sequer ouvido falar desse método na minha longa jornada na terra do Yoga.

Não obstante, cura prāṇica e alinhamento de cakras eram temas que qualquer professor de Yoga deveria supostamente dominar. Ou pelo menos essa era a impressão que eu tinha, olhando para o ambiente onde circulava na época, em Florianópolis, cidade em que a prática de Yoga estava tornando-se cada vez mais popular.

Acontece que o meu professor na época, apesar de ser um grande erudito no Tantra, não tinha mencionado nem uma única vez a necessidade de alinhar ou corrigir de alguma forma os centros de energia.

Levou-me um tempo perceber a razão pela qual não recebi nenhuma instrução específica sobre o tema: simplesmente, a cakraterapia não existe no Yoga. 

Ou, pelo menos, não existia antigamente, nem era conhecida na Índia quando estudei e pratiquei lá. Com a pulga atrás da orelha, comecei a buscar.

terapia

Não há alinhamento de cakras no Yoga da Índia

Descobri que o assunto não é mencionado no Trika Yoga da Caxemira, nem no Kaula, nem no Miśra nem no Samāya, que são as quatro maiores escolas de Yoga tântrico da Índia. 

Não há nenhuma menção ao tema em śāstras como o Kularṇava Tantra, o Gandharva Tantra ou o Viśvasāra Tantra. Tampouco achei nada em textos mais recentes, com o Ṣaṭcakra Nirūpana. Se o amigo leitor souber de alguma fonte fiável ou tiver alguma recomendação sobre o tema, gostaria muito de ouví-lo. 

Para tirar a dúvida, fiz mais uma pesquisa recentemente na internet, e não achei nenhuma evidência de vínculos entre esses tratamentos para equilibrar os cakras e a tradição antiga do Yoga indiano.

Ou seja, confirma-se algo que já intuíamos: a cakraterapia é uma contribuição do movimento Nova Era que, muito embora baseada no antigo sistema dos cakras do Yoga, elabora numa direção bastante diferente do propósito com o qual as práticas sempre foram feitas no seu contexto original.

Essa descoberta me trouxe um grande alívio pois, pessoalmente, não me sentia nada à vontade no papel de terapeuta new age.

Assim, nunca mais pensei no assunto até que, recentemente, uma colega me questionou a razão pela qual não há nada sobre alinhamento de cakras neste website.

Esse pergunta trouxe à tona novamente a lembrança daquele desconforto antigo e resolvi escrever sobre o tema agora. 

A razão da confusão? A linguagem oculta do Yoga

Para compreender o sistema dos cakras, a maneira em que funciona e o lugar que ocupa na espiritualidade indiana, devemos, primeiramente, compreender a peculiar linguagem do Yoga. Ela é chamada sandha bhāṣyam, ou linguagem crepuscular, pois usa recursos metafóricos que a tornam propositalmente obscura.

Dentro dessa linguagem crepuscular temos, nos śāstras, afirmações de dois tipos: 

  1. as descritivas e 
  2. as prescritivas. 

1) Uma afirmação descritiva define ou descreve um fenômeno real e tangível, fazendo referência à realidade ou a alguma experiência que nela se baseia. 

As afirmações descritivas são chamadas rūḍhi, em sânscrito. Esse termo faz alusão ao sentido mais literal, conhecido ou convencional de uma palavra, ou ao emprego que se faz dela nesse sentido.

2) Já uma afirmação prescritiva faz uma sugestão ou uma recomendação, escondida muitas vezes sob uma figura de linguagem de difícil compreensão.

A palavra yaugika, no contexto dessa linguagem oculta, é usada para aludir ao sentido oculto, não óbvio, que alguma palavra ou afirmação possa ter.

Quando os textos fazem alusão aos cakras, as suas afirmações são prescritivas e não descritivas. São, portanto, yaugikas e não rūḍhikas.

Por exemplo, a Agnipurāṇa (LI:15) fala sobre o corpo humano como sendo uma bolsa de impurezas malcheirosas. Essa é uma afirmação prescritiva, embora possa parecer descritiva à primeira vista. 

O trecho diz: “O asceta (yati) concebe seu corpo, na melhor das hipóteses, como uma bolha de pele, rodeado de músculos, de tendões e de carne, cheio de urina, fezes e impurezas malcheirosas.

“Habitáculo da doença e do sofrimento, vítima certa da velhice, da tristeza e da morte, mais transitório que uma gota de orvalho numa folha de relva”.

O autor da Purāṇa parece estar a fazer uma afirmação literal pois, de fato, o corpo tem uma série de fluidos com odores fortes: sangue, linfa, urina e outros.

Porém, a verdadeira intenção da afirmação é nos mostrar o valor do desapego em relação ao corpo, ou a inutilidade de buscar a felicidade nas experiências que o corpo pode brindar.

Os cakras como espelhos da Consciência 

Os diferentes sistemas de centros de energia no corpo sutil que encontramos no Yoga são todos, invariavelmente, modelos meditativos que usam o peculiar simbolismo dessa linguagem yaugika

Assim sendo, as afirmações que se fazem nos śāstras não descrevem realidades materiais mas upādhis, ou projeções mentais feitas sobre o corpo físico. Desta forma, faz sentido olhar para o sistema dos cakras mais como um mapa do que como um território, mais como um sistema de símbolos e correspondências do que como uma realidade invisível.

Daremos aqui um exemplo extraído do Ṣaṭcakranirūpāṇa, tratado tântrico escrito em 1526 por Pūrṇānanda Svāmi e editado por John Woodroffe. Essa obra, que é uma importante referência sobre o sistema dos cakras, inicia da seguinte forma:

atha tantrānusāreṇa ṣaṭ chakradi kramodvataḥ |
ucyate paramānanda nirvāhaprathamāṅkuraḥ || 1 ||

“Agora, falarei sobre o rebento da planta do Yoga
da compreensão total do Ilimitado, que deve
ser alcançada, de acordo com os Tantras,
através dos seis cakras, na sua ordem adequada”. 

Nesta estrofe introdutória, Pūrṇānanda Svāmi, o autor, estabelece claramente que o propósito da meditação no sistema dos cakras é a compreensão de Paramānanda, a Suprema Felicidade. A palavra Paramānanda é sinônima de Brahman, e aponta para o Ser Ilimitado.

Vamos agora dar o exemplo da descrição do centro de força do intercílio, chamado ājña, através do qual compreenderemos a proposta do Tantra original em relação aos cakras:

ājñanāmāmbujaṁ taddhimakarasadṛśam dhyānadhāmaprakāśaṁ |
hakṣābhyāṁ vai kalābhyāṁ parilasitavapurnetrapatraṁ suśubhraṁ ||
tanmadhye hākinī sā śaśisamadhavalā vaktraşaṭkaṁ dadhānā |
vidyāṁ mudrāṁ kapālaṁ ḍamarujapavaṭīṁ bibhrtī śuddhacittā || 32 ||

O lótus chamado ājña é como a lua. Em suas duas pétalas
aparecem as letras ha e kṣa, que são igualmente brancas
e realçam a sua beleza. Ele brilha com a glória de dhyāna, a meditação.

Nele está Hakiṇī Śakti, (a deusa) cujas seis faces são como seis luas.
Ela tem seis braços: com um deles segura um manuscrito; outros dois
são elevados nos gestos de dissipar o medo e conceder bênçãos,
e com os três restantes segura uma caveira, um pequeno tambor
e uma mālā (terço de meditação). Sua mente é śuddhacitta, pura.

A cor violeta, tão popular nas representações contemporâneas dos cakras, não é mencionada. A cor do ājñacakra no contexto do Yoga é o branco, como fica claro na descrição de Pūrṇānanda. Assim, vemos que o propósito da prática sobre os cakras é a meditação, e não algum tipo de terapia. 

Na descrição dos centros de energia não se menciona o tema da cura que, aliás, está ausente da obra inteira: em nenhum lugar ao longo do texto inteiro aparecem palavras como alinhamento, equilíbrio, terapia ou sanação.

Já a palavra prāṇa, vitalidade ou força, aparece apenas uma vez, na estrofe 38, e está vinculada à presença da Consciência Ilimitada no corpo sutil, e não como uma força de restauração da saúde ou do equilíbrio vital.

Essa estrofe diz assim:

iha sthāne vişṇoratulaparamāmodamadhure |
samāropya prāṇaṁ pramuditamanāḥ prāṇanidhane ||
paraṁ nityaṁ devaṁ puruşamajamādyaṁ trijagatāṁ |
purāṇaṁ yogīndraḥ praviśati ca vedāntaviditaṁ || 38 ||

Esta é a morada incomparável e encantadora de Viṣṇu.
O excelente yogin, na hora da morte, alegremente coloca
seu alento vital (prāṇa) aqui e entra aquele Supremo, Eterno,
Não Nascido, Deva Primevo, Puruṣa, que existia antes
dos três mundos, e que é conhecido através do Vedānta.

Dizer “esta é a morada de Viṣṇu” para referir-se ao ājñacakra, o centro do intercílio, é uma maneira simbólica de nos lembrar que essa parte do corpo é sagrada, como são todas as demais.  

Essa é uma maneira de nos lembrar que o corpo é uma manifestação do Ilimitado, que deve ser bem tratado e cuidado. Dessa forma, o praticante “plasma” a Consciência no seu corpo e vive ciente de que o organismo é uma das miríades de formas em que a Consciência se manifesta no universo.

Maṇḍalas e raṅgolis

Podemos comparar a meditação nos cakras com outras práticas similares do Tantra, que vão nos ajudar a compreender o propósito e a realidade deste sistema: uma das meditações mais conhecidas do budismo tântrico é a da construção de maṇḍalas, diagramas sagrados que representam o cosmos.

O propósito da construção desses elaborados desenhos, sejam na forma de thaṅgkas pintados, sejam como esculturas metálicas, sejam como estruturas feitas de areia colorida, é a meditação.

Essas maṇḍalas de areia, uma vez laboriosamente concluídas, são destruídas pelos próprios monjes que as fizeram, para lembrar da impermanência das coisas. 

As maṇḍalas foram popularizadas no Ocidente pelo psicanalista suíço C. G. Jung, que escreveu uma vez: 

“Eu esboçava todas as manhãs em um caderno um pequeno desenho circular, […] que parecia corresponder à minha situação interior naquele momento. […] Só aos poucos fui descobrindo o que a maṇḍala realmente é: […] o Self, a totalidade da personalidade que, se tudo correr bem, é harmoniosa”. Memories, Dreams, Reflections, pp. 195–196.

Encontramos belas maṇḍalas na cultura popular do sul da Índia: os raṅgolis. Um raṅgoli é um diagrama sagrado traçado com farinha de arroz no chão das ruas, à porta das casas e templos.

alinhamento
Raṅgoli numa rua

Esses desenhos são feitos pelas mulheres, a cada manhã, à guisa de invocação a Lakṣmī, a deusa da beleza e da abundância, para atrair harmonia e prosperidade para o lar. 

Em pouco tempo os raṅgolis são destruídos pelos veículos e pessoas que passam, a farinha é carregada pelas formigas, e no dia seguinte, após a limpeza matinal, eles são traçados novamente.

Maṇḍalas, yantras ou raṅgolis são, assim, formas de arte que nos lembram, ao mesmo tempo, a sacralidade e a impermanência da vida. 

A meditação nos cakras 

Na meditação nos cakras, o praticante constrói, da mesma forma que o monje budista ou a dona de casa do sul da Índia, um diagrama sagrado no seu próprio corpo, que serve para lembrar da presença invariável da Consciência na manifestação que é o seu organismo.

A diferença é que esses diagramas sagrados que são os cakras, são construídos mentalmente. Noutras palavras, são projetados na forma de imagens mentais, em diferentes partes do corpo, com o propósito de servir como suporte para a meditação. 

O monje coloca pacientemente a areia colorida na maṇḍala enquanto medita sobre a impermanência de tudo aquilo que não for a Consciência.

A mulher traça com a farinha de arroz o desenho que aponta para a presença da Consciência na forma da beleza e da abundância, enquanto medita sobre Lakṣmī.

A yogiṇī ou o yogin projetam no próprio organismo diferentes manifestação do Ilimitado durante a visualização dos cakras, como a deusa Hakiṇī acima citada. A prática é sempre a mesma. Só mudam o meio e o veículo.

Os cakras e a saúde física

Portanto, se os cakras são projeções mentais sobre o corpo material feitas com o propósito de meditar, eles não podem sofrer nenhum tipo de disfunção nem afetar o equilíbrio da saúde física. A menos que a pessoa acredite nisso, em cujo caso a doença será advinda da crença na existência desse tipo de desequilíbrio.

É conhecida a relação entre as crenças, o estado emocional e o funcionamento do sistema imunológico. Assim como o corpo tem a capacidade de se curar, tem também a capacidade de ficar doente. Na medida em que acreditamos numa suposta fragilidade da saúde do corpo sutil, corremos o risco de ter um desequilíbrio físico. 

O paradoxo da cura dos cakras

Apesar de o prāṇa ser mencionado nos Vedas e nas primeiras Upaniṣads, a terapia dos cakras é bastante recente, tendo sido criada nos Estados Unidos na década de 1980.

Não obstante, uma terapeuta de cakras define os seus serviços como um “tratamento terapêutico xamânico e oriental”, e destaca em seu website os múltiplos benefícios desse processo: equilíbrio de problemas financeiros, resolução de conflitos amorosos, “auto-cura” física, mental, emocional e espiritual, transmutação de magia, desobsessão e eliminação de vícios.

As vantagens obtidas dessa terapia são listadas exatamente nessa ordem, a começar pelo “equilíbrio de problemas financeiros”. Ora bem, esses supostos efeitos da terapia dos cakras nada tem a ver com o despertar de kuṇḍalinī, a força potencial, segundo o que o Tantra nos ensina.

Existem três formas de olhar para a kuṇḍalinī no Yoga: em primeiro lugar, como um apontador que revela a Consciência presente em tudo; em segundo, como um fenômeno psico-vital associado a uma profunda absorção meditativa; em terceiro lugar, como uma jornada simbólica de autodescoberta e desapego dos condicionamentos. 

Nunca, nenhum texto antigo ou medieval, menciona algum tipo de terapia ou quaisquer vínculos entre os cakras, alguma forma de cura ou terapia e/ou a resolução de problemas financeiros. 

Se quiser entrar mais profundamente no tema de kuṇḍalinī recomendamos a leitura deste artigo. Para conhecer melhor o tema dos cakras, leia por favor este outro.

A experiência do conhecimento nos diz que a biologia está intrinsecamente ligada à química, que por sua vez se apoia nos princípios da física. Portanto, um processo de cura no plano biológico nunca poderia contradizer as leis da física. 

No caso da terapia dos cakras, não há como demonstrar a ligação causal entre o alinhamento dos centros de energia e a prosperidade ou a eliminação de vícios, como anunciado pela terapeuta acima citada.

A terapeuta não explica essa relação causal, mas mesmo assim não hesita em dar o grande salto para cobrir a distância entre o inegável (o prāṇa como força vital) e o inacreditável (o alinhamento dos cakras resolve problemas financeiros).

Modelos diferentes, números diferentes

Não é infrequente o estudante de Yoga ficar desorientado diante de uma aparente contradição que surge ao comparar diferentes textos que abordam o tema dos cakras. Por exemplo, o Yogamakaraṇḍa propõe um modelo com 10 cakras. Já o Ṣaṭkcakranirūpaṇa um modelo com seis. Harish Johari propõe o sistema de oito cakras. E tem mais… 

Essa divergência entre os diferentes modelos não significa que alguém esqueceu de colocar um cakra, ou tirou um cakra do sistema por distração ou vontade. Essa diferença é linda, pois nos mostra a variedade de abordagens que sempre existiu em relação às práticas de Yoga.

E igualmente aponta para o fato de que os cakras não são realidades físicas nem energéticas.

Para você ter uma ideia, pense nas diferenças que existem, e que confundem muita gente, entre os nomes das posturas. Aí você tem um parâmetro. Cada método tem a sua própria nomenclatura, e isso não empobrece o Yoga. Bem pelo contrário, o enriquece. 

Voltando ao tema: os cakras são então upādhis, superimposições deliberadas  sobre o corpo físico, que funcionam como objetos de meditação. 

Para compreender o que é um upādhi, pense no papel moeda: se faz a projeção de um valor monetário sobre um pedaço de papel impresso, que recebe depois o nome de dinheiro e ao qual se atribui um determinado poder de compra.

Recapitulando, então, os cakras são superimposições que nos ajudam a compreender a relação entre o indivíduo e o todo, entre a pessoa que somos e o universo onde vivemos.

Conclusão 

Chegados neste neste ponto, faria sentido reconhecer que os cakras não devem ser interpretados como realidades físicas ou sutis, e portanto não precisam de nenhum tipo de alinhamento ou terapia. 

As nāḍīs e o próprio prāṇa são, por sua vez, elaborações protocientíficas da compreensão de que a respiração é essencial para a vida, e de que existe um vínculo claro entre o fluxo dela e os estados emocionais. 

As terapias atuais que reinterpretam esses conceitos antigos em termos de fluxos energéticos sofrem da mesma perda de contexto daquelas teorias que veem naves espaciais em inscrições rupestres.

Não precisamos, portanto, alinhar os cakras nem equilibrá-los para termos saúde e bem-estar. Tampouco precisamos desse tipo de terapia para vivermos uma vida dedicada ao autoconhecimento e a espiritualidade. 

Apenas precisamos compreender e lembrar que esses modelos do corpo sutil apresentados nas diversas formas do Yoga, o Tantra e o Vedānta são upādhis, superimposições deliberadas de diagramas sagrados sobre o corpo material, através das quais projetamos a nossa intenção de perceber tudo o existente como manifestação da Consciência Ilimitada.

Isso vai nos trazer um grande alivio se não tivermos o anjo da cura ou se não quisermos enveredar por esse caminho, pois nos alivia do fardo de ter que entrar dentro de um sistema que, méritos à parte, não está conectado com o Yoga original.

Boas práticas! 

॥ हरिः ॐ ॥

Guru Pūrṇima, a Lua do Mestre

Pedro Kupfer em Conheça, Dharma Hindu
  ·   2 mins de leitura

6 respostas para “Existe alinhamento de cakras no Yoga?”

  1. Um ótimo texto Pedro, e que bom que você colocou isso de forma tão Clara pelo prisma da tradição. Há muito tempo as pessoas fazem confusão e querem que todo professor de yoga também seja um terapeuta de chákras, rs… e muito pseudo terapeuta 171 lucrando com isso, e bagunçando a cabeça de muita gente. Já ouvimos por aqui relatos de pessoas que acabaram destruindo a sua vida por conta desse tipo de pseudo terapeuta. Ler o seu texto me lembrou da época em que conversávamos muito sobre o tema nos seus cursos e eu buscava coletar todas as informações para tentar entender esse quebra-cabeça. Vou colocar no debate um outro ponto de vista.

    Há cerca de uns15 anos atrás levantamos uma premissa dentro do Centro de Estudos , dentro de um estudo que criamos chamado “A ciência do yoga”. Primeiro nós começamos com as perguntas. 1.Se as linhas de energia as “Nadis” existem não teriam que ter alguma representação física pela visão anatômica? 2.Como explicar as sensações que as pessoas relatam ao estimular as regiões aonde os chakras estes centros energéticos estão? 3. Por que tanta gente fala sobre esse tema e vincula isso com meditação e a prática física do yoga? Essa são algumas Entre outras perguntas. Mas estas 2 últimas eram nossa perguntas principais 4.Como a prática do Hatha Yoga funciona e como ela leva o indivíduo aos estados de meditação e atenção plena? 5. O que é essencial na prática física?

    Nós fomos por um outro caminho na época. Pois entendemos que precisávamos de explicações mais palpáveis para os ocidentais, Lembrando que toda a tradição do yoga, todo o Parampara, veio de uma evolução de praticante passando o seu conhecimento para próxima geração, na relação mestre discípulo inserido na cultura indiana. E que apenas a partir do século XX começamos a ter um entendimento mais claro sobre o funcionamento do corpo humano, a medida que a ciência equipamentos de análise evoluíram . E isso não inválida a tradição, muito pelo contrário, é graças a ela que realizamos essa busca pelo autoconhecimento. E a graça professores sérios e dedicados ao tema como você e a Ângela que podemos receber isso de forma clara e responsável.

    No Rio de Janeiro , juntamos um grupo de fisioterapeutas médicos educadores físicos e professores de yoga e estávamos estudando essas perguntas acima. Quando encontramos alguns estudos sobre as fáscias pelas visões de Ida Rolf ,os trilhos anatômicos de Thomas Myers, e as teorias dos meridianos e latitude de Shulchz, e as visões da anatomia emocional Stanley Keleman as visões da somática com relação a organização tônica do corpo, e alguns estudos de psicomotricidade sobre a organização do tônus e das emoções além das Visões de meditação do Daniel goleman fez inteligências múltiplas de Howard Gardner. Até então todos movidos pela curiosidade e pela mesma indagação que você fez ao escrever esse texto. Como isso funciona?

    A partir daí levantamos as seguintes premissas:

    1. Poderiamos de algum modo correlacionar as fáscias as Nadis, descritas na tradição? As Fascias, o Interstício, É o maior órgão do corpo humano em extensão, possui o maior número de mecanorreceptores, elas interligam e encapsulam todos os sistemas e elas são as responsáveis pela manutenção e organização tônica e o bom funcionamento do corpo. Poucas pessoas estudavam esse tecido nos anatômicos na época. Pois não havia microscópio eletrônico capaz de entender o Real funcionamento do sistema e a sua função de biotensegridade. Isto chamou muito a nossa atenção pois explicaria as sensações relatados por muitos praticantes. O objetivo não é correlacionar os dois sistemas, mas entender que nós intuímos a existência deste sistema a partir de algo mais físico e palpável.

    2. Os meridianos de latitude e os diafragmas que compõem o gradiente de pressão do assoalho pélvico ao topo da cabeça. Se encontram ironicamente nas regiões apontadas pelos chakras, não como centros de energia pontuais como descritos na tradição, mas como amarras e organizações de tônus latitudinais que diálogam com os eixos longitudinais. Daí entendemos de forma Clara que não podemos querer mesmo correlacionar os dois sistemas apesar das Coincidências. E na época muito terapeuta de chákra comemorou essas correlações, tem muito professor de yoga criticou nossas observações imediatamente colocamos uma nota de alerta que o nosso objetivo não é pseudociência. E tentar colocar um pouco de luz sobre o tema.

    Mudamos a visão sobre a prática física do Hatha Yoga entendendo ela tem por objetivo organizar e redistribuir a carga tônica e melhorar a capacidade ventilatória do indivíduo para permitir uma boa meditação e uma etapa de relaxação. Portanto um bom professor de yoga vai estar fazendo uma prática com um objetivo claro de equilibrar esse sistema e o tônus do praticante, ao invés de tentar alinhar os seus chakras.. isto cria uma orientação mais segura na prática fisica e meditativa. E que mesmo de forma intuitiva muitos professores de yoga o fazem.

    Começamos a entender a real função do yogasana dentro da prática do Hatha Yoga, encontrando uma alternativa de explicação mas simples, clara , lógica e racional. Uma explicação que consegue unir a prática física com a autorregulação emocional e que hoje tem mais pesquisas surgindo e apontam um caminho nesta direção. Muitas novidades irão surgir ainda, e o tema continua sendo explorado com descobertas maravilhosas.

    Mais uma vez parabéns pelo texto Esse site é um dos melhores na construção da relação entre a prática do yoga contemporâneo e a tradição. Vocês colocaram as referências as upanishads e puranas da tradição e suas colocações. Respondendo e esclarecendo essas dúvidas. Colocando em questionamento as grandes certezas apresentadas pelos “terapeutas do chakras”, que muitas vezes parecem ser
    mais participantes do festival de Woodstock de 69 que esqueceram que o festival acabou. Parabéns pelo texto sério comprometido objetivo e claro, Não poderia esperar nada diferente disso vindo de vocês… Saudades de voces e Om grande abraço … Maurício

  2. Não é comum encontrar reflexões tão lúcidas como as desse texto. Obrigada por ele. Venho há alguns anos desconstruindo alguns dogmas aprendidos no mundo do yoga e encontrar um pensamento consoante, e ainda por cima embasado nos textos clássicos, é um alento.

  3. Certo. Acho que estou começando a entender como funciona, mas ainda assim tenho muitas duvidas. Como funciona o processo de captação, armazenamento e distribuição do prana pelos cakras ?

    Obrigado pelas respostas! _/\_

    1. Olá.

      नमस्ते Namaste. Desculpe a demora em responder.

      Nada muda em relação ao fluxo da energia vital, Caio. Vale o dito.

      A visão do sistema dos cakras como um todo é um upādhi.

      Relembrando, upādhis são superimposições ou projeções.

      Neste caso, o upādhi é projetado sobre o corpo material.

      Esse upādhi inclui os vṛttis, as cores, os mantras e o prāṇa.

      Tudo de bom! Boas práticas.

      ॥ हरिः ॐ ॥

  4. Muito bom o texto.
    Fiquei na duvida quanto aos vritts relacionados a cada cakra. No caso então não haveria vritti relacionado ao cakra pq eles não existem ?

    1. Não é que os cakras não existam, Caio: eles são upādhis, ou projeções sobre o corpo. Nesse sentido, os vṛttis de cada cakra têm a mesma validade subjetiva para efeitos de meditação que têm as cores, os bījamantras e as deidades que correspondem a cada um deles.

      Salvando das distâncias, pense no Papai Noel: ninguém diria que ele existe, mas é uma realidade arquetípica que evoca coisas no subconsciente dos povos nórdicos desde antes do cristianismo: calor, conforto e abundância em tempos de escassez (lembre que ele “chega” no inverno do hemisfério norte).

      Assim, o Papai Noel não tem existência objetiva, mas cumpre uma função. O mesmo vale para os cakras.

      Boas práticas! Abraço.

      ॥ हरिः ॐ ॥

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