श्रीः
माण्डूक्योपनिषत्
Māṇḍūkyopaniṣat
A Upaniṣad de Māṇḍūkya · Atharvaveda
A Māṇḍūkyopaniṣat (माण्डूक्योपनिषत्) é a mais breve das Upaniṣads principais: doze mantras em prosa, do Atharvaveda. Em tão pouco espaço, ela expõe o ensinamento inteiro do Vedānta a partir de duas coisas que todos conhecemos: a sílaba Oṁ e os três estados da experiência, vigília, sonho e sono profundo. O que está presente nos três, sem pertencer a nenhum deles, é o quarto, turīya: o Ser, que não é um estado a alcançar, mas aquilo que você já é. Por isso a Muktikopaniṣad (I:26) diz que «só a Māṇḍūkya basta para a libertação dos que buscam» (māṇḍūkyam ekam evālaṁ mumukṣūṇāṁ vimuktaye).
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Introdução
Temos, entre as principais dez Upaniṣads, a presente, chamada Māṇḍūkyopaniṣad, que pertence ao Atharvaveda. Ela segue um prakriyā, um método de investigação que inclui um modo de apresentar e resolver um problema que em verdade não existe.
Na visão da Upaniṣad, não há problema. Quando se diz que você já é aquilo que quer ser, é porque não há problema algum para ser resolvido.
A Māṇḍūkyopaniṣad é breve: tem apenas 12 estrofes. Segue o método chamado kāraṇa kārya prakriyā. Deve haver discernimento entre o que é variável e o que é invariável.
Isso nos ajuda a enxergar. Temos, em nossa tradição, apenas um comentário escrito sobre as Upaniṣads anteriores a Ādi Śaṅkarācārya.
Depois dele há uma série de obras dentro da tradição. Há um comentário escrito pelo guru do guru de Śaṅkarācārya, Gauḍapāda, chamado kārikā, Māṇḍūkyakārikā ou Gauḍapādakārikā, que é o único comentário das Upaniṣads anterior a Śaṅkara.
A Māṇḍūkyopaniṣad e a saída do saṁsāra
A Māṇḍūkyopaniṣad reconhece um ser humano autoconsciente, autojulgador. Esse ser humano faz julgamentos sobre si mesmo ou si mesma sem um meio de conhecimento válido, muitas vezes de maneira precipitada e incorreta.
A partir desse julgamento, equivocadamente, a pessoa se enxerga como insignificante e desamparada.
Daí surge a necessidade de ser diferente do que se é e começa o processo de querer se tornar o que não se é, ou aquilo que se acredita não ser.
Isso é chamado saṁsāra. “Eu quero me tornar isto ou aquilo, quero casar, quero me divorciar, quero me libertar, quero ser diferente”.
Se a visão não for corrigida, eu arrastarei esse problema e a lamúria que vem junto com ele até o fim da vida. Querer ser diferente do que se é, é o que chamamos saṁsāra.
Mesmo se eu disser que não quero mudar, mas que quero é que o mundo seja diferente para que eu possa ser feliz, isso não muda nada. É saṁsāra na mesma. A maneira em que nos relacionamos com nossos gostos e aversões determina a maneira como vivemos.
O mundo precisa mudar, tudo deveria ser diferente para que eu seja feliz, para que eu me sinta confortável.
O problema é que você é parte do mundo dos demais, assim como os demais fazem parte do seu mundo, e acontece que eles também esperam que você mude para se adequar às necessidades deles.
Identificado com esse problema fundamental, você não é aceitável do jeito que é, nem para você nem para os demais. Assim, você se cansa e vem de férias para Rishikesh porque não aguenta essa pressão.
Essa luta contínua é o saṁsāra. Na visão da Upaniṣad, o saṁsāra acontece por causa do tipo de julgamento que fazemos de nós mesmos e do mundo.
Quando faço um julgamento sobre mim mesmo sem uma inquirição prévia, evidentemente, sou um rosto na multidão.
Porém, a bem da verdade, eu sou o sujeito, e o mundo à minha volta é uma miríade de objetos que aprecio. Aquilo que eu não sou é infindável, infinitamente grande.
Desde o ponto de vista do meu corpo, evidentemente, eu não sou as galáxias, os sistemas solares, os planetas, os oceanos, os continentes, os países, as cidades, as pessoas, os seres vivos, os objetos inanimados.
Então, se eu não sou nada disso, sou o que? Há uma realidade nisto. É por isso que, uniformemente, todos os seres humanos temos o mesmo tipo de autoidentidade.
Isso se chama dvaita, dualidade: eu sou diferente de tudo o mais. Há uma verdade em relação a isso, eu sou evidentemente diferente daquilo que não é eu. Nesse sentido, meu senso de limitação é válido.
O nosso planeta é invisível em relação ao tamanho da galáxia. Eu então, mesmo que me considere um homem grande, sou absolutamente insignificante na superfície da terra.
Nesse sentido, existe uma ideia válida sobre as limitações do meu corpomente. Porém, preciso resolver isso através de uma investigação válida.
Algumas pessoas procuram a saída através das religiões, o que não parece uma solução adequada, enquanto que outras tentam de fato fazer esse tipo de inquirição mas, não tendo um meio de conhecimento adequado, não encontram a solução por si mesmas.
Esses são os existencialistas. Nem as religiões nem o existencialismo resolvem a questão.
Quando alguém valida seus sentimentos, por um momento você se sente confortável. Cada um é diferente. O mundo é diferente. Fala-se sobre Deus de maneiras muito diferentes.
O único a que você aspira, após décadas de conflito, é a uma pausa. As religiões prometem que a saída está depois da vida, depois da morte no além.
A visão da Māṇḍūkyopaniṣad: você é a causa do universo
A Upaniṣad tem uma visão: este sentimento de insignificância nasce das limitações que eu vejo em relação ao que eu não sou. Isso é válido desde o ponto de vista do corpomente, mas a visão é diferente: não olhe para você desde um ponto de vista, não olhe para você desde o corpomente que você está usando.
Olhe para você desde o que você de fato é. Um ponto de vista é válido se é claro. Quando a visão é distorcida, a validade deve ser descartada. Cada indivíduo tem uma visão distorcida de si mesmo.
Um ponto de vista desde a perspectiva de quem vê as coisas como são é válido. Quando isso não acontece, só há distorção.
Assim, a Upaniṣad reconhece a realidade dessa distorção. Usa alguns métodos, o prakriyā, para corrigir a distorção e nos ajudar a enxergar a nós mesmos como somos.
Usa um modelo chamado kāraṇa kārya prakriyā: causa e efeito. Tudo o que está aqui é efeito. A causa é chamada Brahman. O efeito é a causa. O efeito não está separado da causa.
É através desse modelo que a Upaniṣad nos ajuda a olhar para nós mesmos e eliminar essa crença de sermos insignificantes. A visão me diz que eu sou a única coisa significante, a causa de tudo. Essa visão, simplesmente, não me dá escolhas.
Na Māṇḍūkyopaniṣad há uma afirmação muito especial: ayamātmā brahma. Ātma significa Ser. Ayamātmā designa o Ser. Esse Ser é Brahman, o ilimitado. O grande ensinamento, mahāvākya, diz que você é Brahman.

O texto
Segue o texto em devanāgarī e em transliteração, com o pādapāṭha, a tradução palavra por palavra, e a tradução de cada mantra.
Abertura: aqui começa a Upaniṣad
अथ माण्डूक्योपनिषत् ॥
atha māṇḍūkyopaniṣat ||
Pādapāṭha tradução palavra por palavra
atha: agora, aqui começa; palavra auspiciosa que abre os textos; māṇḍūkya: de Māṇḍūkya, nome da escola ou do sábio a quem o texto é associado; upaniṣat: Upaniṣad, o ensinamento que destrói a ignorância e conduz ao conhecimento de Brahman (upa + ni + sad).
Aqui inicia a Māṇḍūkyopaniṣat.
Primeiro mantra: tudo é Oṁ
ॐ इत्येतदक्षरमिदं सर्वं तस्योपव्याख्यानं
भूतं भवद् भविष्यदिति सर्वमोङ्कार एव
यच्चान्यत् त्रिकालातीतं तदप्योङ्कार एव ॥ १ ॥
oṁ ityetadakṣaramidaṁ sarvaṁ tasyopavyākhyānaṁ
bhūtaṁ bhavad bhaviṣyaditi sarvamoṅkāra eva
yaccānyat trikālātītaṁ tadapyoṅkāra eva || 1 ||
Pādapāṭha tradução palavra por palavra
oṁ: Oṁ, a sílaba sagrada; iti: assim, a palavra; etat: esta; akṣaram: sílaba; também, o imperecível; idam: isto, este universo; sarvam: tudo; tasya: dele, disso [de Oṁ]; upavyākhyānam: exposição clara, explicação detalhada; bhūtam: o que foi, o passado; bhavat: o que é, o presente; bhaviṣyat: o que será, o futuro; iti: assim, isto é; oṅkāraḥ: a sílaba Oṁ (oṅkāra, por sandhi diante de eva); eva: de fato, somente; yat: aquilo que; ca: e; anyat: outro, diferente; trikāla: os três tempos: passado, presente e futuro; atītam: que está além, que transcende; trikālātītam: além dos três tempos; tat: isso; api: também.
O Oṅkāra é tudo o que está aqui. Aqui [inicia] a clara exposição: tudo o que foi, o que é e o que será, é de fato Oṁ. Tudo o que há além dos três períodos do tempo é também, de fato, Oṁ. || 1 ||
Segundo mantra: o Ser tem quatro quartos
सर्वं ह्येतद् ब्रह्मायमात्मा ब्रह्म सोऽयमात्मा चतुष्पात् ॥ २ ॥
sarvaṁ hyetad brahmāyamātmā brahma so’yamātmā catuṣpāt || 2 ||
Pādapāṭha tradução palavra por palavra
sarvam: tudo; hi: certamente, de fato; etat: isto; brahma: Brahman, o Ilimitado; ayam: este; ātmā: o Ser, o eu; brahma: é Brahman; saḥ: ele; ayam ātmā: este Ser; catuṣ: quatro; pād: pé, quarto, quarta parte; catuṣpāt: que tem quatro quartos.
Tudo é certamente Brahman. Este Ser é Brahman. O Ser, tal como é, consiste em quatro quartos. || 2 ||
Terceiro mantra: Vaiśvānara, a vigília
जागरितस्थानो बहिष्प्रज्ञः सप्ताङ्ग एकोनविंशतिमुखः
स्थूलभुग्वैश्वानरः प्रथमः पादः ॥ ३ ॥
jāgaritasthāno bahiṣprajñaḥ saptāṅga ekonaviṁśatimukhaḥ
sthūlabhugvaiśvānaraḥ prathamaḥ pādaḥ || 3 ||
Pādapāṭha tradução palavra por palavra
jāgarita: vigília, o estado de vigília; sthāna: lugar, esfera, domínio; jāgaritasthānaḥ: cuja esfera é a vigília; bahiḥ: fora, exterior; prajña: que conhece, consciente; bahiṣprajñaḥ: cuja cognição se volta para fora; sapta: sete; aṅga: membro, parte; saptāṅgaḥ: de sete membros: segundo Śaṅkara, os do Vaiśvānara cósmico descrito na Chāndogyopaniṣad (V:18), em que o céu é a cabeça, o sol é o olho, e assim por diante; ekonaviṁśati: dezenove, «vinte menos um» (eka + ūna + viṁśati); mukha: boca, rosto, porta de experiência; ekonaviṁśatimukhaḥ: de dezenove bocas: os cinco órgãos dos sentidos, os cinco órgãos de ação, os cinco alentos vitais, e mente, intelecto, ego e memória (manas, buddhi, ahaṅkāra, citta); sthūla: denso, grosseiro; bhuj: que desfruta, que come; sthūlabhuk: desfrutador do denso; vaiśvānaraḥ: Vaiśvānara, «o que pertence a todos os homens»: o eu da vigília, também chamado viśva; prathamaḥ: primeiro; pādaḥ: quarto, pé.
O primeiro quarto é Vaiśvānara, cuja esfera [de ingerência] é a vigília, cujas cognições são externas, que é dotado de sete partes e dezenove rostos, e que aprecia o denso. || 3 ||
Quarto mantra: Taijasa, o sonho
स्वप्नस्थानोऽन्तःप्रज्ञः सप्ताङ्ग एकोनविंशतिमुखः
प्रविविक्तभुक्तैजसो द्वितीयः पादः ॥ ४ ॥
svapnasthāno’ntaḥprajñaḥ saptāṅga ekonaviṁśatimukhaḥ
praviviktabhuktaijaso dvitīyaḥ pādaḥ || 4 ||
Pādapāṭha tradução palavra por palavra
svapna: sonho; svapnasthānaḥ: cuja esfera é o sonho; antaḥ: dentro, interior; antaḥprajñaḥ: cuja cognição é interna; saptāṅgaḥ: de sete membros; ekonaviṁśatimukhaḥ: de dezenove bocas; pravivikta: sutil, separado do denso; praviviktabhuk: desfrutador do sutil; taijasaḥ: Taijasa, «o luminoso» (de tejas, luz): o eu do sonho, que vive das impressões da mente; dvitīyaḥ: segundo; pādaḥ: quarto.
Taijasa é o segundo quarto, cuja esfera [de atividade] é o sonho, cujas cognições são internas, que possui sete partes e dezenove rostos, e que aprecia o sutil. || 4 ||
Quinto mantra: Prājña, o sono profundo
यत्र सुप्तो न कञ्चन कामं कामयते न कञ्चन स्वप्नं
पश्यति तत् सुषुप्तम् । सुषुप्तस्थान एकीभूतः प्रज्ञानघन
एवानन्दमयो ह्यानन्दभुक् चेतोमुखः प्राज्ञस्तृतीयः पादः ॥ ५ ॥
yatra supto na kañcana kāmaṁ kāmayate na kañcana svapnaṁ
paśyati tat suṣuptam | suṣuptasthāna ekībhūtaḥ prajñānaghana
evānandamayo hyānandabhuk cetomukhaḥ prājñastṛtīyaḥ pādaḥ || 5 ||
Pādapāṭha tradução palavra por palavra
yatra: onde, quando; suptaḥ: o que dorme; na: não; kañcana: algum, qualquer; kāmam: desejo, objeto de desejo; kāmayate: deseja; svapnam: sonho; paśyati: vê; tat: isso; suṣuptam: o sono profundo; suṣuptasthānaḥ: cuja esfera é o sono profundo; ekībhūtaḥ: tornado uno: em quem tudo fica indiferenciado; prajñāna: conhecimento, consciência; ghana: massa compacta; prajñānaghanaḥ: massa de consciência indiferenciada; eva: apenas, de fato; ānandamayaḥ: abundante em ānanda, em plenitude; hi: certamente; ānanda: plenitude, felicidade; ānandabhuk: desfrutador de ānanda; cetas: consciência, mente; cetomukhaḥ: cuja boca é a consciência: a porta pela qual se volta à vigília e ao sonho; prājñaḥ: Prājña, «o conhecedor»: o eu do sono profundo; tṛtīyaḥ: terceiro; pādaḥ: quarto.
Quando a pessoa, dormindo, não tem desejos nem sonha, isso é chamado sono. O terceiro quarto é Prājña, que tem o sono como esfera, no qual tudo se torna indiferenciado, que é apenas conhecimento indiferenciado, abundante em ānanda, desfrutador de ānanda, cujo rosto é a consciência. || 5 ||
Sexto mantra: o Senhor de tudo
एष सर्वेश्वर एष सर्वज्ञ एषोऽन्तर्याम्येष
योनिः सर्वस्य प्रभवाप्ययौ हि भूतानाम् ॥ ६ ॥
eṣa sarveśvara eṣa sarvajña eṣo’ntaryāmyeṣa
yoniḥ sarvasya prabhavāpyayau hi bhūtānām || 6 ||
Pādapāṭha tradução palavra por palavra
eṣaḥ: este; sarva: tudo, todos; īśvara: senhor, Īśvara; sarveśvaraḥ: Senhor de tudo; sarvajñaḥ: onisciente, que conhece tudo; antaryāmī: o regente interno, a ordem que governa tudo desde dentro; yoniḥ: fonte, matriz, origem; sarvasya: de tudo; prabhava: origem, surgimento; apyaya: dissolução, reabsorção; prabhavāpyayau: a origem e a dissolução (dual); hi: certamente; bhūtānām: dos seres.
Este é o Senhor de tudo, é Todo o Conhecimento, é a ordem presente em tudo, a fonte de tudo, o ponto de origem e dissolução de todos os seres. || 6 ||
Sétimo mantra: o quarto, turīya
नान्तःप्रज्ञं न बहिष्प्रज्ञं नोभयतःप्रज्ञं न प्रज्ञानघनं
न प्रज्ञं नाप्रज्ञम् । अदृष्टमव्यवहार्यमग्राह्यमलक्षणम्
अचिन्त्यमव्यपदेश्यमेकात्मप्रत्ययसारं प्रपञ्चोपशमं
शान्तं शिवमद्वैतं चतुर्थं मन्यन्ते स आत्मा स विज्ञेयः ॥ ७ ॥
nāntaḥprajñaṁ na bahiṣprajñaṁ nobhayataḥprajñaṁ na prajñānaghanaṁ
na prajñaṁ nāprajñam | adṛṣṭamavyavahāryamagrāhyamalakṣaṇam
acintyamavyapadeśyamekātmapratyayasāraṁ prapañcopaśamaṁ
śāntaṁ śivamadvaitaṁ caturthaṁ manyante sa ātmā sa vijñeyaḥ || 7 ||
Pādapāṭha tradução palavra por palavra
na: não; antaḥprajñam: conhecedor do interno; bahiṣprajñam: conhecedor do externo; ubhayataḥ: de ambos os lados; ubhayataḥprajñam: conhecedor de ambos; prajñānaghanam: massa de consciência indiferenciada; prajñam: consciente, conhecedor; aprajñam: inconsciente; adṛṣṭam: não visto, invisível; avyavahāryam: com quem não se transaciona, que não é objeto de uso; agrāhyam: que não pode ser agarrado pelos órgãos de ação; alakṣaṇam: sem marca, que não pode ser inferido; acintyam: impensável; avyapadeśyam: indescritível, que não pode ser designado por palavras; eka: um, único; ātma: o Ser; pratyaya: cognição, convicção; sāra: essência; ekātmapratyayasāram: cuja essência é a cognição do Ser único; prapañca: o universo manifestado; upaśama: cessação, resolução; prapañcopaśamam: em quem o universo se resolve; śāntam: pacífico, sereno; śivam: benigno, auspicioso; advaitam: não-dual; caturtham: o quarto (turīya); manyante: consideram, pensam [os sábios]; saḥ: ele; ātmā: o Ser; vijñeyaḥ: deve ser conhecido.
Consideram o quarto como sendo aquele que não é o conhecedor dos [objetos] internos, nem o conhecedor dos [objetos] externos, nem o conhecedor de ambos. Nem [aquele que é] conhecimento indiferenciado, nem [aquele que é] consciente ou inconsciente. [Aquele] que não é visível, de quem não se pode falar [como um objeto], que está mais além [da percepção] dos sentidos e do alcance [dos órgãos de ação], aquele que não pode ser inferido, [que é a] essência do autoconhecimento; aquele em quem o universo se resolve, que é pacífico, benigno e não-dual. Esse, dizem [os sábios], é o quarto quarto. É esse o Ser, e ele deve ser conhecido. || 7 ||
Oitavo mantra: a sílaba e seus elementos
सोऽयमात्माध्यक्षरमोङ्कारोऽधिमात्रं पादा मात्रा
मात्राश्च पादा अकार उकारो मकार इति ॥ ८ ॥
so’yamātmādhyakṣaramoṅkāro’dhimātraṁ pādā mātrā
mātrāśca pādā akāra ukāro makāra iti || 8 ||
Pādapāṭha tradução palavra por palavra
saḥ: ele; ayam: este; ātmā: o Ser; adhyakṣaram: em relação à sílaba (adhi + akṣara); oṅkāraḥ: a sílaba Oṁ; adhimātram: em relação aos seus elementos; pādāḥ: os quartos; mātrāḥ: os elementos, os fonemas (mātrā: medida); ca: e; akāraḥ: a letra a; ukāraḥ: a letra u; makāraḥ: a letra m; iti: assim, a saber.
É este o Ser, que é da natureza da sílaba Oṁ, em relação a seus elementos. Os quartos são os elementos. Os elementos são os quartos. Nomeadamente, [as letras] a, u e ṁ. || 8 ||
Nono mantra: a letra a
जागरितस्थानो वैश्वानरोऽकारः प्रथमा मात्राऽप्तेरादिमत्त्वाद्
वाऽप्नोति ह वै सर्वान् कामानादिश्च भवति य एवं वेद ॥ ९ ॥
jāgaritasthāno vaiśvānaro’kāraḥ prathamā mātrā’pterādimattvād
vā’pnoti ha vai sarvān kāmānādiśca bhavati ya evaṁ veda || 9 ||
Pādapāṭha tradução palavra por palavra
jāgaritasthānaḥ: cuja esfera é a vigília; vaiśvānaraḥ: Vaiśvānara; akāraḥ: a letra a; prathamā: primeira; mātrā: elemento; āpteḥ: por causa da āpti, a penetração, a obtenção (raiz āp, alcançar, permear); ādimattvāt: por ser o primeiro, por ter a qualidade de início (ādi: começo); vā: ou; āpnoti: obtém, alcança; ha vai: de fato, certamente; sarvān: todos; kāmān: desejos, objetos de desejo; ādiḥ: o primeiro; ca: e; bhavati: torna-se; yaḥ: quem; evam: assim; veda: sabe.
Vaiśvānara, tendo como esfera a vigília, é a primeira letra, a, o primeiro elemento, [derivado] da raiz āp, obter, ou [do fato] de ser o primeiro. Aquele que sabe disso realiza, de fato, todos os seus desejos. Também, torna-se o primeiro. || 9 ||
Décimo mantra: a letra u
स्वप्नस्थानस्तैजस उकारो द्वितीया मात्रोत्कर्षात्
उभयत्वाद्वोत्कर्षति ह वै ज्ञानसन्ततिं समानश्च भवति
नास्याब्रह्मवित्कुले भवति य एवं वेद ॥ १० ॥
svapnasthānastaijasa ukāro dvitīyā mātrotkarṣāt
ubhayatvādvotkarṣati ha vai jñānasantatiṁ samānaśca bhavati
nāsyābrahmavitkule bhavati ya evaṁ veda || 10 ||
Pādapāṭha tradução palavra por palavra
svapnasthānaḥ: cuja esfera é o sonho; taijasaḥ: Taijasa; ukāraḥ: a letra u; dvitīyā: segunda; mātrā: elemento; utkarṣāt: por causa da exaltação, da superioridade (ut + kṛṣ, elevar); ubhayatvāt: por estar entre os dois [a e m], por ser intermediário; vā: ou; utkarṣati: eleva, faz crescer; ha vai: de fato; jñāna: conhecimento; santati: continuidade, sucessão; jñānasantatim: a continuidade do conhecimento; samānaḥ: igual, equânime; ca: e; bhavati: torna-se; na: não; asya: dele; abrahmavit: quem não conhece Brahman; kule: na família; bhavati: nasce, há; yaḥ evam veda: quem assim sabe.
Taijasa, cuja esfera [de atividade] é o sonho, é a letra u, o segundo elemento, [e indica] exaltação ou equanimidade. Aquele que sabe disto exalta, de fato, a continuidade do conhecimento e se torna equânime; em sua família, ninguém nasce que não conheça Brahman. || 10 ||
Décimo primeiro mantra: a letra m
सुषुप्तस्थानः प्राज्ञो मकारस्तृतीया मात्रा मितेरपीतेर्वा
मिनोति ह वा इदं सर्वमपीतिश्च भवति य एवं वेद ॥ ११ ॥
suṣuptasthānaḥ prājño makārastṛtīyā mātrā miterapītervā
minoti ha vā idaṁ sarvamapītiśca bhavati ya evaṁ veda || 11 ||
Pādapāṭha tradução palavra por palavra
suṣuptasthānaḥ: cuja esfera é o sono profundo; prājñaḥ: Prājña; makāraḥ: a letra m; tṛtīyā: terceira; mātrā: elemento; miteḥ: por causa da medida (miti, de mi, medir); apīteḥ: por causa da absorção, da fusão (apīti); vā: ou; minoti: mede, isto é, conhece; ha vā: de fato; idam: isto; sarvam: tudo; apītiḥ: absorção: aquele em quem tudo se funde; ca: e; bhavati: torna-se; yaḥ evam veda: quem assim sabe.
Prājña, cuja esfera é o sono, é a letra ṁ, o terceiro elemento, derivado da raiz mi, medir, ou por conta da absorção. Aquele que sabe disso conhece tudo e dissolve [seu egoísmo no Ser]. || 11 ||
Décimo segundo mantra: o silêncio além de Oṁ
अमात्रश्चतुर्थोऽव्यवहार्यः प्रपञ्चोपशमः शिवोऽद्वैत
एवमोङ्कार आत्मैव संविशत्यात्मनाऽऽत्मानं य एवं वेद ॥ १२ ॥
amātraścaturtho’vyavahāryaḥ prapañcopaśamaḥ śivo’dvaita
evamoṅkāra ātmaiva saṁviśatyātmanā’’tmānaṁ ya evaṁ veda || 12 ||
Pādapāṭha tradução palavra por palavra
amātraḥ: sem elementos, sem medida; caturthaḥ: o quarto; avyavahāryaḥ: com quem não se transaciona; prapañcopaśamaḥ: em quem o universo se resolve; śivaḥ: benigno, auspicioso; advaitaḥ: não-dual; evam: assim; oṅkāraḥ: a sílaba Oṁ; ātmā: o Ser; eva: o próprio; saṁviśati: entra, repousa, funde-se; ātmanā: por si mesmo, com o Ser (instrumental); ātmānam: no Ser (acusativo); yaḥ evam veda: quem assim sabe.
O quarto é aquele que é livre de elementos, de quem não pode se falar, em quem o mundo se resolve, que é benigno e não-dual. Assim, a sílaba Oṁ é o próprio Ser. Aquele que conhece Ātma repousa, assim, em Ātma. || 12 ||
Invocação da paz: bhadraṁ karṇebhiḥ
ॐ भद्रं कर्णेभिः शृणुयाम देवाः । भद्रं पश्येमाक्षभिर्यजत्राः ।
स्थिरैरङ्गैस्तुष्टुवाग्ँसस्तनूभिः । व्यशेम देवहितं यदायुः ।
स्वस्ति न इन्द्रो वृद्धश्रवाः । स्वस्ति नः पूषा विश्ववेदाः ।
स्वस्ति नस्तार्क्ष्यो अरिष्टनेमिः । स्वस्ति नो बृहस्पतिर्दधातु ॥
ॐ शान्तिः शान्तिः शान्तिः ॥
oṁ bhadraṁ karṇebhiḥ śṛṇuyāma devāḥ | bhadraṁ paśyemākṣabhiryajatrāḥ |
sthirairaṅgaistuṣṭuvāgṁsastanūbhiḥ | vyaśema devahitaṁ yadāyuḥ |
svasti na indro vṛddhaśravāḥ | svasti naḥ pūṣā viśvavedāḥ |
svasti nastārkṣyo ariṣṭanemiḥ | svasti no bṛhaspatirdadhātu ||
oṁ śāntiḥ śāntiḥ śāntiḥ ||
Pādapāṭha tradução palavra por palavra
bhadraṁ: o que é significativo, auspicioso; karṇebhiḥ: com os ouvidos; śṛṇuyāma: que possamos escutar; devāḥ: ó devas!; bhadraṁ: auspicioso; paśyema: que possamos enxergar; akṣabhiḥ: com os olhos; yajatrāḥ: ó devas!; sthirairaṅgaiḥ: com os membros firmes; tuṣṭuvāṁsaḥ: glorificar; tanūbhiḥ: através das palavras dos Vedas; vyaśema: que possamos desfrutar; devahitaṁ: abençoados pelos devas; yad: esse; āyuḥ: uma vida completa; svasti: aquilo que é auspicioso; naḥ: para nós; indraḥ: a Consciência manifestada na atmosfera, na forma do resplendor do raio; vṛddhaśravāḥ: que possui grande fama; pūṣā: a Consciência manifestada no céu, na forma do brilho do sol; viśvavedāḥ: aquele que tudo conhece, que é todo o conhecimento; tārkṣyaḥ: um nome de Garuḍa, o deus-águia, que simboliza a eloquência; ariṣṭanemiḥ: que não tem obstáculos para voar; bṛhaspatiḥ: o guru; dadhātu: que nos abençoe com sua grande inteligência; oṁ: símbolo sonoro que aponta para o Ser; śāntiḥ śāntiḥ śāntiḥ: paz, paz, paz.
Ó devas! Que possamos ouvir com nossos ouvidos aquilo que é significativo. Que possamos ver com nossos olhos o que é livre de limitação. Ó devas! Que saibamos reverenciar o Ser com as palavras de sabedoria dos Vedas (tanūbhiḥ). Que possamos viver uma vida plena (āyuḥ), com firmeza em todas as partes do corpo (sthirairaṅgaiḥ). Que Indra, de grande fama, nos abençoe com aquilo que é auspicioso. Que o Sol, que é Todo-o-Conhecimento (Pūṣā Viśvavedāḥ), nos abençoe com aquilo que é auspicioso. Que Garuḍa (Ariṣṭanemi), que voa livremente no espaço, nos abençoe com aquilo que é auspicioso. Que Bṛhaspati (o guru), de grande inteligência, nos abençoe com aquilo que é auspicioso. Oṁ. Paz, paz, paz.
Colofão: assim se conclui a Upaniṣad
माण्डूक्योपनिषत्संपूर्णा इति ॥
māṇḍūkyopaniṣatsaṁpūrṇā iti ||
Pādapāṭha tradução palavra por palavra
māṇḍūkyopaniṣat: a Māṇḍūkyopaniṣad; saṁpūrṇā: completa, concluída; iti: assim.
Aqui conclui-se a Māṇḍūkyopaniṣat.
॥ हरिः ॐ ॥
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