Tantra é prazer? Muito já se falou sobre Tantra Yoga mas, afora dos livros escritos por quem realmente entende do assunto e fala do que sabe, me desculpem injustiças a parte, só li bobagens.
Tantra e prazer
Muitos autores e “professores”tentam “vender” o Tantra como se fosse o “viagra indiano”, a pílula do prazer. Os oportunistas de plantão e os viciados em sexo são os primeiros a se animar, só que Tantra Yoga não é nada disso.
Tantra é uma das Escolas de Yoga que surgiu na Índia, por volta do século 500 a.C., e se tornou um estilo de vida na época.
Não é um ritual, mas um caminho para a expansão da consciência, da união da mente humana com a Consciência Cósmica, por meio de nossas conquistas e derrotas, pois no Tantra nada se perde, tudo se aproveita.
Aí vem alguém e diz: “Mas, e o sexo tântrico, não dá para ir logo ao prazer, ao que realmente interessa?”

Não existe sexo tântrico e sim uma parte do Tantra, um dos caminhos em que, depois de muita preparação, mas muita mesmo, se utiliza o sexo para alcançar a iluminação espiritual.
Os dois caminhos no Tantra
Esse é o chamado caminho da mão esquerda. Existem dois, o caminho da mão esquerda e o da mão direita. Respectivamente, Vāmacāra e Dakṣiṇacāratantra.
Este último, o da mão direita, é o preferido, inclusive pela maioria dos mestres e professores de Yoga, por utilizar os métodos chamados “compensatórios” para se alcançar o êxtase espiritual, como a meditação e uma série de condutas e práticas.
O chamado caminho da mão esquerda é considerado, por esses mestres, um tipo de magia negra e mera promiscuidade mascarada de religião e que nada tem a ver com nossa cultura. Nada mesmo.
O Tantra é uma escola de vida
O que podemos aproveitar dessa moderna escola de vida hindu é sua sábia proposta para o auto-conhecimento e crescimento espiritual, mesmo com ensinamentos muitas vezes incompreensíveis e misteriosos e sua simbologia rica e exótica.
Tão vasta é sua simbologia que é impossível abordá-la em um único artigo. No Tantra, o elemento principal é a mulher, representada por diversas Deusas.
Na iconografia das Deusas, cada detalhe (objetos, vestimentas e ornamentos) tem um significado.
São diversos elementos, mudrās (gestos simbólicos), que estão presentes também na dança indiana, os mantras (palavras de poder), mandalas (círculos) e yantras (figuras geométricas) utilizados na prática meditativa.
É também rico em lendas e contos, onde as figuras centrais são as deidades [Śiva, Śakti e as demais Deusas (na verdade diferentes facetas de uma só), Gaṇeśa, Viṣṇu, Brahmā, etc.).
O Tantra e as Eras Cósmicas
Para entender o tantrismo, antes de mais nada, temos que entender os ciclos da vida ou Eras Cósmicas.
No momento, segundo a concepção hinduísta e budista, estamos no Kali Yuga, ou Era das Trevas, do ferro. Nesse ponto, predominam os vícios, a perda de ética, de valores, e até da identidade.
O mundo entra em decadência, gerando violência e corrupção. É o caos total. A energia está em colapso e precisa ser reorganizada (qualquer semelhança não é mera coincidência).
O Tantra trabalha com a polaridade de Śiva, que é a Consciência Cósmica, o princípio estático, o Espírito, o masculino, e Shakti, que é a energia criativa, o princípio dinâmico, a matéria, o feminino.
Na iconografia, essa identidade está representada sob a forma de um casal divino em abraço íntimo, onde ambos, Śiva e Śakti (Deus e Deusa), são o Uno.
Tantra, sexualidade e prazer
É aí que entra essa história do sexo no ritual tântrico, onde sádhakas (aspirantes espirituais) se propõem a imitar com seus corpos o “coito cósmico”, com o qual o casal Śiva e Śakti gera os universos.
Só que esse ritual só pode ser concebido e amparado pela cultura indiana, e conduzido por um verdadeiro guru, que escolhe os parceiros, e estes, que sequer se conhecem , não são nem nunca serão um casal.
No ritual final são consumidos alimentos específicos e, ao invés do orgasmo, os iniciados devem, com extremo auto-controle e técnicas especiais, fazer subir pela coluna a energia adormecida no cakra base (na base da coluna) até o cakra coronário (no topo da cabeça) e daí para o Cosmos, por meio de canais sutis de energia, as nádís. Fácil, né?
Devemos, portanto, absorver aquilo que está ao nosso alcance, e quem realmente está interessado em conhecer a arte da sedução oriental deveria buscar esse conhecimento no Kāmasūtra (ritual ensinado às antigas cortesãs indianas).
Prazer, emoções e crescimento
No tantrismo aprendemos que não devemos ter medo das crises da nossa Era, e sim viver e nos aperfeiçoarmos no meio do caos, enfrentando os nossos “bichos”, a nossa Sombra (aquela nossa parte que evitamos ao máximo ter que encontrar, a que não fazemos nenhuma questão de ser apresentados).
Por isso, afirma-se que no Tantra nada se perde, tudo se aproveita. Este é, sem dúvida, um grande desafio.
A raiva, por exemplo, é uma energia muito forte, e se trabalhada pode se transformar em força. Não é fato que só crescemos com o sofrimento?
Só que crescer, mudar crenças, emoções e hábitos dá trabalho, e muita gente não está com essa disposição toda (“é melhor ficar como está… quem sabe na próxima encarnação?”).
Kuṇḍalinī e o Tantra
No Tantra existe outro ponto polêmico, além do tema da sexualidade: é a kuṇḍalinī, a energia adormecida na base da nossa coluna, simbolicamente representada por uma serpente.
Acontece que algumas pessoas, quando começam a praticar Yoga, erroneamente pensam que em um mês já estarão se contorcendo (em posturas) ou sairão levitando, ou, pior, que poderão fazer ascender a kuṇḍalinī e, sem esforço nenhum, já estarão iluminados.
Isso pode ser muito perigoso, e se conduzidos por professores inescrupulosos ou levianos, correm até o risco de perder a sanidade mental.
Temos que ser criteriosos e conscientes ao lidar com uma energia tão poderosa.
Nós podemos, por meio de exercícios respiratórios (prāṇāyāmas) e contrações (bandhas), acelerar esse processo, só que, se fizermos isso sem nos alicerçarmos em bases sólidas, podemos perder a noção da realidade, e essa viagem pode não ter volta.
É como o efeito devastador do uso prolongado de drogas.
Conclusões
É importante enfatizar que muita coisa da filosofia oriental pode ser adaptada e incorporada à nossa realidade. Outras não são possíveis e, com certeza, uma delas é o ritual tântrico onde se utiliza o sexo.
Se nós conseguirmos cuidar do nosso próprio crescimento em meio a essa confusão e loucura em que vivemos, com simplicidade, e ao mesmo tempo com refinamento (de sentimentos, gestos, etc.)…
Se nós conseguirmos respeitar a nós mesmos e ao próximo, buscando o equilíbrio e a paz, elevando, assim, um pouco o nosso nível de consciência, tentando crescer para que possamos viver num mundo melhor…
Puxa, já terá sido bacana demais!
॥ हरिः ॐ ॥
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